Atriz e empresária teatral.
Nasceu em Piraçununga (SP) em 6 de abril de 1921, lha de Alzira Becker e Edmundo Yáconis, e atuou durante 29 anos no teatro e no cinema.
Estreou em 1940, vivendo a personagem Gertrude na peça Hamlet, de Shakespeare. A partir daí, envolveu-se completamente com o palco. Sua vida confunde-se com a história do teatro brasileiro, pois Cacilda participou das mais importantes montagens realizadas no Brasil nessa época.
Cacilda protagonizou o surgimento de um rico período do teatro nacional, sendo a primeira gura do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) no período que se seguiu a sua fundação. Teve atuações memoráveis nas peças Maria Stuart, de Schiller, com tradução de Manuel Bandeira, Seis personagens à procura de um autor, de Pirandello, Anjo de pedra, de Tennessee Williams, Antígona, de Anouilh, Pega-fogo, de Jules Renard, e A visita da velha senhora, de Dürrenmatt, entre outras. Os anos do TBC consolidaram seu talento e, a cada montagem, Cacilda imprimia vigorosamente seu dom e sua arte. Foi uma atriz cuja intensidade da emoção se fundia com a técnica, fazendo com que superasse quaisquer limitações físicas e estabelecesse um verdadeiro pacto com a plateia.
Em 1958, formou uma companhia própria, o Teatro Cacilda Becker (TCB), ao lado do marido Walmor Chagas, da irmã Cleide Yaconis e do diretor Ziembinski. Inaugurou a companhia com a montagem do texto O santo e a porca, de Ariano Suassuna. No TCB, se consagrou com a personagem da Mãe na peça A longa jornada de um dia para dentro da noite, de Eugene O’Neill. Em 1960, apresentou-se com Pega-fogo no Festival das Nações, em Paris. Em 1965, protagonizou Quem tem medo de Virgínia Wolf?, de Edward Albee.
No cinema, atuou nos lmes A luz dos meus olhos, (1947) e Floradas na serra (1954). Também participou de montagens de peças para a televisão.
Durante a primeira fase do regime militar implantado em 1964, a atriz talentosa deu lugar à líder da classe teatral, que assumiu a defesa da liberdade de expressão. Em 1969, foi eleita a personalidade Teatral do Ano, pela Associação Paulista de Críticos Teatrais, por seu desempenho como atriz e sua atuação política como presidente da Comissão Estadual de Teatro.
No dia 6 de maio de 1969, Cacilda e Walmor Chagas encenavam a peça Esperando Godot, de Beckett, quando ela sentiu-se mal. Ainda vestida como a personagem, levaram-na para o hospital, onde foi diagnosticado um aneurisma cerebral. Faleceu 38 dias depois, no dia 14 de junho de 1969, e sua morte comoveu o Brasil. O poeta Carlos Drummond de Andrade assim a comentou: “A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Eram tantas.”
Fontes: Carolina Ribeiro de Oliveira, Biogra as de personalidades célebres; IstoÉ & The Times, 1000 que fizeram o século 20; Jornal do Brasil, 14.6.1999.
Caetana Martini (séc. XX)
Operária e ativista do movimento social.
Nasceu na Itália, descendente de família operária que emigrou para São Paulo. Depois de terminar o curso primário, dedicou-se à profissão de costureira.
Caetana era sensível às causas populares e viveu a agitação política de 1930, envolvendo- se no movimento cívico paulista por nova Carta Constitucional, e na articulação dos trabalhadores por seus direitos, com a criação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935.
A ANL era uma frente única dos partidos de esquerda, que agregava também sindicatos, uma ala tenentista e pessoas apartidárias. Esta fusão de uma parcela da classe média com o operariado sacudiu o Brasil naquele ano. Era uma nova forma de fazer política e, em poucos meses, havia mais de 1.600 núcleos espalhados pelo país. O programa político da ANL representava as aspirações de todas as classes sociais, dos partidos democráticos e dos nacionalistas. No tocante à condição feminina, formaram-se núcleos de mulheres intitulados “uniões” para lutarem por estas reivindicações. Com o crescimento e a organização da Aliança, recrudesceram os choques com o movimento integralista, e a ANL acabou sendo fechada pelo Estado, acusada de ser comunista e nanciada por estrangeiros. Vivendo este ambiente efervescente até o golpe de 1937, que acabou com o estado de direito no Brasil, Caetana foi uma verdadeira liderança na defesa dos direitos das trabalhadoras e da volta à democracia. Foi membro ativo da Comissão de Organização da União das Mulheres Democráticas de Sorocaba.
Fontes: Maria Lígia Madureira Pina, A mulher na história; Momento Feminino, nº 15. Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE)
Movimento político que, na década de 1960, mobilizou milhares de mulheres em várias cidades brasileiras. O lema principal desse movimento era “Deus é a Verdade. Democracia é Liberdade”. A primeira reunião do grupo que criou a CAMDE deu-se na casa de Amélia Molina Bastos*, neta, sobrinha e irmã de generais do Exército.
Em depoimento posterior, Amélia contou:
A CAMDE foi fundada aqui nesta sala. Meu irmão, Antônio Mendonça Molina, vinha há muito trabalhando no Serviço Secreto do Exército contra os comunistas. Nesse dia 12 de junho de 1962, eu tinha reunido aqui (…) 22 famílias ao todo (…) parte de um trabalho meu para a Paróquia de Nossa Senhora da Paz. Nesse dia o vigário disse assim: “Mas a coisa está muito preta. Isso tudo não adianta nada, porque a coisa está muito ruim e eu acho que se as mulheres não se meterem nós estamos perdidos…” Eu, como sou muito católica, pensei logo: comunismo é igual a ateísmo. Então eu tenho que defender a Igreja.
As reuniões evoluíram para uma intensa mobilização de mulheres, que foram para as ruas fazer campanha contra o comunismo. Surgiram, assim, as “marchadeiras”, mulheres de elite, conservadoras, que promoveram manifestações contra o governo de João Goulart durante os dois anos que antecederam ao golpe militar de março de 1964.
A força da mobilização conservadora feminina fez surgir diversas organizações nos moldes d a CAMDE, como o Movimento de Arregimentação Feminina (MAF) e a União Cívica Feminina (UCF). O ápice desse movimento foram as Marchas com Deus pela Família e pela
Liberdade, que arrastaram multidões para as ruas, em várias capitais, ao longo do ano de 1964. Essas marchas deram suporte ao golpe militar que derrubou o presidente João Goulart.
A repercussão da participação feminina nos acontecimentos que culminaram com a vitória do golpe incentivou a mobilização política de muitas mulheres da classe média, sob o manto da Igreja católica. Fortalecidas pela vitória, essas mulheres ensaiaram um novo comportamento político e social, mostrando interesse por cursos de política e liderança. De uma posição passiva diante dos acontecimentos políticos passaram a uma postura ativa na defesa de suas opiniões sobre os problemas socioeconômicos do país.
Para que a nova posição feminina se consolidasse, era preciso organizar entidades pelo interior do país e, também, criar laços com organizações congêneres no continente sul- americano. A organização foi reconhecida o cialmente como de utilidade pública, pelo Decreto nº 58.763 de 28.6.1966. Nesse mesmo ano, as dirigentes da CAMDE começaram a organizar um congresso internacional de mulheres para debater os problemas que atingiam o movimento e ainda promover um maior intercâmbio entre as entidades cívicas femininas do Brasil e de outros países da América do Sul. A comissão executiva para a preparação do congresso foi constituída por: Clélia Aché de Araújo, Ester de Proença Lago, Eudóxia Ribeiro Dantas, Gilda de Paiva Côrtes, Lúcia Peixoto Jobim, Maria Helena da Gama Câmara, Mavy d’Aché Assumpção Harmon, Odete Bouças Siqueira e Wilma Poock Kanitz. Tal congresso realizou-se de 16 a 22 de abril de 1967, no centro de convenções do Hotel Glória, Rio de Janeiro. Foi solenemente aberto num domingo, com a presença de representantes da presidência da República, além de ministros de Estado e autoridades estaduais.
Vieram ao congresso representantes de entidades femininas da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai, Venezuela e República Dominicana, esta última como observadora. Do Brasil participaram as seguintes associações: Movimento Cívico da Mulher Cearense, Liga da Mulher Democrata (LIMDE), de Minas Gerais, União Cívica Feminina, do Paraná, Cruzada Democrática Feminina, de Pernambuco, Ação Democrática Feminina Gaúcha e Cruzada da Mulher Democrática, do Rio Grande do Sul, e o MAF, a UCF e a Liga Feminina Israelita, os três de São Paulo. Do então estado da Guanabara compareceram ao evento: a Associação Brasileira de Educação, a Associação Cristã Feminina, o Conselho Nacional de Educação, a Federação dos Círculos de Operários Católicos e o Departamento de Opinião Pública Leste Um – Fase.
A CAMDE participou do congresso com seções regionais da Guanabara, de Minas Gerais e de Santa Catarina. Uma das principais contribuições do congresso foi, segundo suas organizadoras, demonstrar a necessidade da criação de uma entidade cívico-feminina nacional que proporcionasse um maior entrosamento entre as diversas associações, evitando a dispersão de esforços e favorecendo uma ação conjunta mais eficaz.
Algumas conclusões do congresso foram:
1. (…) A constatação da guerra fria, sob as diferentes formas em que se apresenta, resultou na proposta de constituição de duas entidades: uma de âmbito nacional e outra continental. (…) [o] símbolo do Congresso, ou seja, as mulheres de mãos dadas, à volta da América do Sul, defendendo-a contra os perigos que ameaçam os países deste hemisfério (…).
2. a) Urge o diálogo entre pais e lhos, a m de contrabalançar (…) pressões exter nas que visam o enfraquecimento da estrutura familiar.
b) Que o sindicato se mantenha como uma sociedade humana, livre de injunções políticas, (…) relações operário-patronais em que a dignidade humana anteponha- se à infraestrutura econômica.
c) O capital e o trabalho são fatores interdependentes no processo econômico da produção.
d) Cabe, pois, ao empresário assumir a plena responsabilidade social inerente a sua posição.
e) (…) cabe ao operário digni car seu trabalho, cumprindo as tarefas de sua responsabilidade e contribuindo para o progresso da nação.
3. (…) o problema prioritário, exigindo da mulher o melhor de sua capacidade é, sem dúvida, a educação, em todos os seus aspectos.
As delegadas e observadoras brasileiras presentes foram: Violeta Brasil Aguiar (Ceará); Aíla de Oliveira Gomes, Cordélia de Sá Lessa, Iolanda da Costa Teixeira, Lupércia de Andrade Carvalho, Maria de Lourdes Levy, Marília Mariani, Maria Luiza Larqué, Nerides Bon m de Santana, Walkíria Beeg, Zuleika Teixeira Alves (Guanabara); Graziela de Carvalho Moura, Antonieta Horta Ludolf de Melo, Joan Margaret Mcguigan, Lydia Magon Villar e Virgínia Lima Santos (Minas Gerais); Luísa Bueno Gomm e Hellê Vellozo Fernandes (Paraná); Cristina Azevedo, Haélia Patrício de Carvalho, Maria José Barreto Campelo de Melo, Maria Luísa C. Campelo (Pernambuco); Íris Potthoff Corrêa Lopes, Giselda Escosteguy Castro, Lúcia de A.C. Alles, Juraci de Bragança Leonardo e Marina Sirangelo Castelo (Rio Grande do Sul); Yllah Corrêa Pinto da Luz (Santa Catarina); Grace de Ulhoa Cintra, Ivani de Almeida Bouças, Maria Paula Caetano da Silva, Maria Violeta Maciel de Castro, Judith Pereira (São Paulo).
O regime militar, após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), passou a prescindir de organizações de massa, fazendo com que a mobilização feminina fosse paulatinamente perdendo força e levando as mulheres da classe média de volta ao seu papel tradicional no mundo doméstico, longe do espaço público.
Fontes: CAMDE, Anais do I Congresso Sul-Americano da Mulher em Defesa da Democracia; Maria Amélia A. Teles, Breve história do feminismo no Brasil; Movimento Feminino pela Anistia – Núcleo do Rio de Janeiro, Participação político-social da mulher no Brasil (a experiência de 1964). • Elaborado por Hildete Pereira de Melo e Teresa Cristina Novaes Marques.
Carlota Joaquina de Bourbon (1775-1830) Princesa do Brasil, rainha de Portugal.
Nasceu no palácio de Aranjuez, nos arredores de Madri, Espanha, a 22 de abril de 1775, primogênita do futuro rei Carlos IV de Espanha.
Para consolidar a aliança política dos reinos ibéricos, foi oferecida em casamento, com 10 anos de idade, ao então príncipe português D. João VI. Devido à pouca idade da princesa, a união matrimonial só se consumou em 1790, quando Carlota completou 15 anos, e apesar de viverem em casas separadas tiveram nove lhos: Maria Teresa, Antônio, Maria Isabel Francisca, Pedro de Alcântara, futuro imperador do Brasil, Maria Francisca de Assis, Isabel Maria, Miguel (rei de Portugal como Miguel I), Maria de Assunção e Ana de Jesus Maria. Estes tinham biotipos muito diferentes, levando o povo a comentar as diversas paternidades
possíveis.
Carlota nunca se adaptou à vida em Portugal e, com a demência da rainha D. Maria I, passou a viver em Queluz, enquanto D. João residia no palácio de Mafra.
Em 1807 Napoleão ameaçou invadir Portugal, fazendo com que a família real preparasse sua fuga para o Brasil. Carlota dirigiu desesperados apelos a seu pai em Madri, tentando evitar por todos os meios a vinda da corte para a colônia. Acabou tendo que acompanhar a família real, chegando à colônia em 1808. No Rio de Janeiro, morou em residências distantes do marido: Andaraí, Mata-Porcos, Laranjeiras e Botafogo, para usufruir dos banhos de mar.
Conta-se que teve uma vida amorosa atribulada no Brasil, sendo responsabilizada por um episódio trágico. Carlota Joaquina foi acusada de mandante do assassinato de Gertrudes Angélica Pedra Carneiro Leão, mulher do juiz dos contratos reais do dízimo, Fernando Carneiro Leão, pertencente a uma das mais ricas famílias brasileiras. Gertrudes foi morta com um tiro na porta de sua casa, no bairro do Catete, na noite do dia 8 de outubro de 1820. Apurado o crime, a Justiça chegou à embaraçosa certeza de que teria sido a própria rainha Carlota Joaquina quem teria mandado matar Gertrudes por ciúmes. Apesar dos testemunhos das duas filhas do casal, o crime foi abafado e Fernando Carneiro Leão recebeu o título de barão e, posteriormente, o de conde de Vila Nova de São João.
Com o almirante Sydney Smith, Carlota tentou manobras políticas junto aos governos das colônias espanholas, levando D. João VI a impedir sua partida para o Prata, frustrando-lhe os planos de promover uma sublevação no Uruguai. Nesse período, Carlota Joaquina alimentava esperanças de vir a reinar nas colônias espanholas, já que Napoleão I, imperador da França, havia forçado seu pai e seu irmão primogênito a abdicarem. Não conseguiu realizar seus desejos, mesmo tendo se empenhado intensamente em conspirações e tramas com as autoridades espanholas.
Já de volta a Portugal, Carlota recusou-se a jurar a Constituição de 1821, tendo, por isso, a sua cidadania portuguesa cassada. Em 1824, D. Miguel, aliado a ela, tentou depor o pai no movimento conhecido como Abrilada, cujo objetivo era substituir o rei pela rainha Carlota. D. João VI teve que se refugiar em um navio inglês até destituir o príncipe do comando das armas. Fracassado o golpe, Carlota voltou a Queluz, onde continuou a conspirar até a morte de D. João, atribuída a um envenenamento. Esse fato deixou uma permanente suspeita sobre a memória de Carlota Joaquina.
Com a morte do marido em 1826, tomou o partido de D. Miguel, incitando-o a tomar o poder. Mas não viveu o bastante para ver a derrota e o exílio de nitivo de seu lho. Faleceu no Palácio de Queluz, em Lisboa, a 7 de janeiro de 1830 e foi enterrada em São Vicente de Fora.
Fontes: Ângelo Pereira, Carlota Joaquina – a rainha intrigante; Augusto Tavares de Lira, O centenário de criação do Supremo Tribunal de Justiça; Carolina Ribeiro de Oliveira, Biogra as de personalidades célebres; J. Serrão, Dicionário de história de Portugal.
Carlota Lúcia de Brito (c.1810-c.1895) Fazendeira, condenada pela Justiça.
Sertaneja de Pajeú das Flores, chegou a Brejo de Areia (PB) na seca de 1845 e aparentava menos de 30 anos.
Relatos de época referem-se a ela como uma mulher bonita e que, ao chegar à Paraíba, já dispunha de algumas posses herdadas de seu marido, um fazendeiro de nome Jovino. Em Areia adquiriu uma pequena propriedade, em Cantinhos, nos limites do agreste com o Curimataú.
Suas terras eram passagem obrigatória para uma fazenda, a Jandaíra, pertencente a Joaquim José dos Santos Leal, tenente-coronel da Guarda Nacional. Assim, os dois acabaram se conhecendo e iniciaram um romance que abalou a pequena localidade. Nesta época, o coronel Joaquim José, que atendia pela alcunha de major Quinca, tinha cerca de 35 anos, era solteiro, rico e gozava de grande prestígio político nas hostes liberais, além de ser comandante da Guarda Nacional e deputado na Assembleia da Província da Paraíba.
Após casar a lha adolescente, chamada Jovina, Carlota doou-lhe as terras em Cantinhos como dote e foi morar com o major Quinca na cidade de Areia. Em pouco tempo tornou-se uma gura in uente na comunidade, a ponto de os presidiários de Areia, ao saírem da cadeia para fazer faxina, isto é, para despejar fora da cidade o barril de excrementos do presídio, suplicarem no caminho: “Rua abaixo, rua acima./ Com meu chapéu de bolota, / Me solte seu major Quinca, / Me valha dona Carlota.”
No entanto, algumas famílias de Areia, sobretudo as que faziam oposição política ao major Quinca, consideravam uma afronta a presença da amante do major na cidade. Fizeram circular rumores de que ela havia matado o primeiro marido. Contudo existia ainda alguma tolerância entre as partes.
A situação se agravou quando eclodiu o movimento armado da Rebelião Praieira, sufocado em fevereiro de 1849. Comprometido com o levante, o major Quinca teve que sair de Areia, refugiando-se na fazenda Jandaíra e Carlota permaneceu na cidade cuidando dos negócios do major.
Certo dia, recebeu uma grave desfeita por parte do chefe do partido conservador local, Trajano Chacon. O líder conservador era vizinho de Carlota na cidade. Por esta razão, levara a família para o sítio Jaqueira, distante da casa de Carlota, alegando que não admitia a vizinhança com uma prostituta. O episódio, de trágicas consequências, ocorreu quando Trajano foi à cidade visitar seu irmão, o vigário Chacon, e ao chegar encontrou Carlota conversando com o vigário. Irritado, avançou sobre a mulher e, de rebenque em punho, expulsou-a da casa aos gritos. Já na porta, aplicou-lhe um pontapé e ela procurou defender- se, a rmando que lá estava apenas para tratar de um batizado; mas Trajano não lhe deu crédito. A ofensa calou fundo em Carlota, que jurou vingar-se.
No dia 5 de setembro de 1849, estava prevista a realização de eleição secundária para deputado-geral na comarca de Areia. Concorriam ao pleito, pelo lado dos conservadores, Trajano Chacon e, pelo lado dos liberais, o foragido major Quinca. Este, sentindo-se inseguro em sua fazenda, refugiou-se em São João do Cariri, onde tinha parentes. Enquanto isso, em Areia, Carlota tomara providências para sua desforra, preparando uma emboscada a seu inimigo. Ajudaram-na o irmão do amante, Manuel José dos Santos Leal, e um parente seu. No dia previsto, a eleição transcorreu em ordem, com a vitória de Trajano. Porém, quando este retornava à casa, tarde da noite, depois das comemorações, foi tocaiado e morto, a mando de Carlota. Esse fato deu início a uma grave crise política.
O sentimento de vingança tomou conta das duas famílias. Os partidários do major Quinca, que, ocultos pelo interior do município desde os episódios da Rebelião Praieira, fugiam à perseguição da polícia aliada aos conservadores e passaram a sofrer um cerco ainda
mais severo. Manuel Joaquim, irmão do major Quinca, foi assassinado pouco tempo depois. Em 6 de fevereiro de 1851, a polícia indiciou Carlota e mais cinco pessoas pela morte de Trajano Chacon. Levados a júri, foram todos condenados. A família Santos Leal conseguiu a realização de um outro julgamento, mas, como predominassem os conservadores no poder, os jurados mantiveram o primeiro veredito. Joaquim José, acusado de cumplicidade, foi condenado a 20 anos de galés; seu irmão pegou a pena de 23 anos e quatro meses de prisão. Carlota foi condenada à prisão perpétua e o executante do crime, um empregado seu, foi condenado à morte na forca.
Carlota e Joaquim José empreenderam uma fuga bem-sucedida, mas acabaram sendo presos no Piauí em maio de 1851. Inconformados com a decisão do júri, os Santos Leal apelaram às instâncias superiores da Justiça. Conseguiram que os réus cumprissem pena no presídio de Fernando de Noronha.
Em 1860, o imperador D. Pedro II con rmou a sentença de morte do assassino, que foi