A pesquisa realizada foi com alunos do terceiro ano, e que estão no início do processo de letramento, embora fora da faixa etária da maioria, maioria esta que teve participação na sequência da pesquisa, dado o imprevisto com o espaço físico. A professora-pesquisadora estava presente em todas as etapas da pesquisa e foi realizada da seguinte forma: desta turma foi selecionado um grupo focal, que caracterizassem crianças que apresentassem dificuldade com a leitura e a escrita. A realização da pesquisa foi relevante e utilizamos um guia, um questionário semiestruturado, e a professora-pesquisadora anotava as questões que as crianças levantavam e desenvolviam. Além disso, a professora-pesquisadora filmou alguns encontros e tirou fotos de algumas atividades realizadas com o grupo focal, embora desejasse tê-lo feito com mais frequência, mas o tempo e as demandas de participação junto aos alunos não permitiram mais registros. Nessa etapa foi relevante que todos os componentes do grupo
tivessem a mesma oportunidade de se expressar e de fazer os questionamentos que se demonstrassem necessários.
A primeira indagação realizada pela professora-pesquisadora visou saber se todos os alunos conheciam o jogo amarelinha. O resultado demonstra que a totalidade de alunos conhecia o jogo previamente e já havia tido experiência com o jogo em outras oportunidades.
Gráfico 01: Você conhece amarelinha? Fonte: Dados da Pesquisa (2020)
Conforme percebido na pesquisa constatou-se que o jogo de amarelinha é muito conhecido do universo infantil, faz parte do cotidiano das crianças, pois as crianças responderam unanimemente que conhecem ou já ouviram falar do jogo de amarelinha.
A segunda pergunta foi: como se brinca amarelinha?
Gráfico 02: Como se brinca amarelinha? Fonte: Dados da Pesquisa (2020)
Essa pergunta foi bastante importante, porque foi possível observar que o conhecimento da maior parte do grupo focal era superficial. Isso porque apesar de a brincadeira de amarelinha ser bastante tradicional foi possível observar nas respostas que algumas crianças tinham ouvido falar, mas que não conheciam essa brincadeira de fato e 67% do grupo apontaram alguma informação.
O papel da escola passou a ser fundamental, a exemplo dos quintais das casas antigamente, um espaço de abertura para o resgate cultural das brincadeiras que foram trocadas por outras vivências, por brinquedos e outras brincadeiras que fazem uso de instrumentos tecnológicos e sem muita interação social com presença. Assim, foi fundamental um trabalho de intervenção por parte da professora-pesquisadora no acompanhamento das rodadas propondo desafios, pedindo análises e por fim promovendo e instigando reflexões.
Gráfico 03: O que tem que ter para jogar amarelinha? Fonte: Dados da Pesquisa (2020)
Nessa questão a professora-pesquisadora buscou observar se os alunos possuíam lógica acerca da funcionabilidade do jogo. Assim, foi visto que 60% dos sujeitos responderam dentro da lógica do jogo, algumas respostas foram em razão da ação, do ato de pular e não acerca dos materiais necessários para se jogar.
Pular amarelinha não é fácil. As crianças precisam coordenar muitas ações ao mesmo tempo jogar a pedra, pular com determinados movimentos e posicionamentos dos pés, ir e voltar, lembrar de pegar a pedrinha, não pisar na linha, seguir a sequência numérica, tudo isso demanda tempo. Assim, não é de um momento para outro que a criança ganhará fluidez para pular com facilidade, e durante os encontros realizados seguimos a orientação de Smole; Diniz; Cândido (2000), que em suas investigações teóricas chama a atenção para a necessidade de um
trabalho sistematizado e que demande um tempo para que as crianças se apropriem dos jogos, e assim percebeu-se na pesquisa.
Gráfico 04: Quantos números e quantas casas tem o jogo? Fonte: Dados da Pesquisa (2020)
A percepção dos números corresponde à uma síntese das relações que as crianças mantêm com os objetos. A primeira delas corresponde à ordem, e a segunda à inclusão hierárquica. Crianças muito pequenas não conseguem perceber uma construção percentual o que justifica que grande parte das crianças precisassem contar as casas no diagrama desenhado no chão. A noção de número é uma construção lógico-matemática social que precisa ser solicitada pelo meio. Durante os processos de brincadeiras os jogos podem requisitar a cognição das crianças tanto no que se referem aos números quanto às palavras e ao exercício de pensar. Além do desafio que inclui contar as casinhas ainda havia o desafio de cantar as sílabas das palavras. De tal forma que as respostas demonstraram que as crianças às vezes sabiam cantar uma sequência, mas nem sempre fizeram o exercício com a mesma eficácia, pois isso é um processo de construção.
Gráfico 05: O que é céu e terra? Fonte: Dados da Pesquisa (2020)
A pesquisa denotou, apesar da diversidade, que há manifestações de egocentrismo nas crianças pesquisadas. Essas características são próprias do período pré-operacional, em que estão as crianças pesquisadas. Houve um desprendimento do jogo no qual a função deste e de seus espaços (delimitação do céu e terra) passaram a se ligar a conceitos do centralismo e dos conhecimentos que eles possuem daquilo que conhecem como céu e terra.
Gráfico 06: O que não pode fazer no jogo da amarelinha para não perder a vez? Fonte: Dados da Pesquisa (2020)
As crianças são indivíduos que tendem a obedecer às regras impostas por pessoas mais velhas, esta é uma característica denominada como heteronomia, presente na obra de Freire (1996), Pedagogia da Autonomia. O julgamento de uma criança não é composto de coerência, e sim, de acordo com o julgamento de um realismo moral. E, assim, as regras são obedecidas, mas de acordo com os critérios utilizados para a formação das normas e da sua função social que seguem uma lógica presa no egocentrismo, conforme citado na questão anterior.
Sistematizar o estudo e entender os jogos conforme uma regra é parte significativa para o processo do ensino aprendizado proposto, o que Piaget (1978) chamava de fabulação, onde uma criança era capaz de inventar uma história que não acredita ou não crer, mas onde ela está simplesmente exercitando a sua oralidade.