4 CADASTROS DE INADIMPLENTES
4.4 OS CADASTROS DE INADIMPLENTES
Conforme já asseverado, no mesmo contexto da LRF, os cadastros de inadimplentes para entes federados ganham relevância. Por um lado, com o valoroso propósito de sanear as contas públicas e dar-lhes transparência e, por outro lado, vale atentar para que não chegue ao ponto de, para atingir seu objetivo, violar outras tantas normas constitucionais.
Necessário não deixar de lado que o conceito de insolvente é inapropriado para os entes públicos, pois têm regime próprio para os seus bens e obedecem a regras específicas para o pagamento de seus débitos, os precatórios, e têm rito executivo especial.
Assim como as certidões de regularidade fiscal, os cadastros, por não serem meramente instrumento de consulta e, sim, de tomada de decisão, consistem em técnica de cobrança, pois não estando em situação regular, o ente devedor não poderá receber transferências constitucionais e voluntárias ou celebrar operações de crédito.
4.4.1 Cadin
O Cadastro Informativo dos Créditos Não Quitados de Órgãos e Entidades Federais – mais conhecido como Cadastro de Inadimplentes (Cadin), inicialmente foi instituído pelo Decreto Federal n° 1.006, de 09/12/93339, hoje é regulado pela Lei Federal n° 10.522, de 19 de julho de 2002340.
O registro no Cadin ocorre quando a pessoa física ou jurídica, incluindo o ente federado, figurar como responsável por obrigações vencidas e não pagas para com órgão e entidades da Administração Pública Federal ou quando esteja com o seu Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ - declarado inapto341.
A consulta a este cadastro é obrigatória para os órgãos e entidades da Administração Pública Federal, direta e indireta, sempre que os Estados-membros ou Municípios forem beneficiários de operações de crédito que envolvam a utilização de recursos públicos; da concessão de incentivos fiscais e financeiros, celebração de convênios, acordos, ajustes ou contratos que envolvam desembolso, a qualquer título, de recursos públicos, e respectivos aditamentos342.
A obrigatoriedade da consulta será relaxada quando se tratar de calamidade pública, referir-se a verbas para ações sociais ou na faixa de fronteira, bem como para a regularização de débitos inscritos no respectivo cadastro desde que não haja desembolso de recursos pelo credor343.
Importante destacar que na atual Lei que regula o Cadin não há dispositivo que impeça a celebração dos atos indicados, convênios dentre outros, ao contrário da legislação anterior, fato que não passou despercebido pelo STF:
Como que num passe de mágica desapareceu a sanção contida na redação anterior e declarada inconstitucional por essa A. Corte. Em nenhum outro dispositivo da referida lei se repete a sanção contida na antiga redação do
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Já foi regulado pelas Medidas Provisórias n°s 1110/1995, 1142/1995, 1175/1995, 1209/1995, 1244/1995, 1281/1996, 1320/1996, 1360/1996, 1402/1996, 1442/1996, 1490/96, 1542/1997, 1621/1998, 1699/1998, 1770/1999, 1863/1999, 1973/2000, 2095/2001, 2176/200.
340
Com as alterações da Lei Federal n° 10637/02, inicialmente introduzidas pela Medida Provisória n° 75/2002. 341
Artigo 2°, incisos I e II, da Lei Federal n° 10.522/2002 e Instrução Normativa SRF n° 200, de 13/09/2002. 342
Artigo 6°, incisos I a III, da Lei Federal n° 10.522/2002. 343
artigo 7◦, tornando-a, assim, imune ao ataque por meio de controle concentrado de constitucionalidade344.
Esta mesma dificuldade para o controle da constitucionalidade decorreu da exclusão da expressão “pessoas jurídicas de direito público” englobando, expressamente, os entes federados como passíveis de inscrição no Cadin, que continha no Decreto Federal n° 1.006, de 09/12/93, caput do art. 2°.
4.4.2 Siafi
Em 10 de março de 1986, o Governo Federal, diante de dificuldades na gestão dos recursos públicos e na preparação de orçamento, criou, integrando a estrutura do Ministério da Fazenda, a Secretaria do Tesouro Nacional – STN – e esta, em conjunto com o Serviço Federal de Processamento de Dados – Serpro345 – criou e implantou a partir de janeiro de 1987 o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal – Siafi – solucionando os problemas que a Administração vinha enfrentando, em especial através da constituição da Conta Única do Tesouro para gerir toda a movimentação financeira da União, ficando registrado o servidor público que efetuou cada transação.
Dentre as atribuições do Siafi, destaca-se o registro de informações relacionadas às três tarefas básicas da gestão pública: Execução Orçamentária, Execução Financeira e Elaboração das Demonstrações Contábeis, consolidadas no Balanço Geral da União. Neste mister, são controladas as transferências voluntárias da União para os demais entes da Federação que se procedem através de convênios, nos termos da Instrução Normativa IN STN n◦ 01, de 15 de janeiro de 1997, que “Disciplina a celebração de convênios de natureza financeira que tenham por objeto a execução de projetos ou realização de eventos e dá outras providências”.
Para a celebração de convênios, o convenente deve comprovar situação de regularidade com o Fisco Federal, o INSS, o FGTS, o PIS/PASEP, o Cadin e comprovar não estar inscrito como inadimplente no Siafi, bem como apresentar declaração de que não se encontra em situação de
344
STF, ACO n◦ 266-4/SP, Tribunal Pleno, DJ 28.10.04, Relator Ministro Celso de Mello. 345
mora ou de inadimplência junto a qualquer órgão ou entidade da Administração Pública Federal Direta ou Indireta346.
Inobstante não estar constituído formalmente sob a forma de cadastro, é comumente denominado de “Cadastro Siafi” e funciona como banco de dados contendo todas as informações financeiras dos entes federados. Caso o ente federado não esteja em situação de regularidade, havendo mora ou inadimplência com convênios anteriores, fica vedada a celebração de novos ajustes, obstando as transferências financeiras voluntárias.
4.4.2 Cauc
O Cadastro Único de Exigências para Transferências Voluntárias para Estados e Municípios (Cauc) foi criado pela Instrução Normativa da Secretaria do Tesouro Nacional (IN STN) n° 01, de 04 de maio de 2001347, como um subsistema do Sistema Integrado da Administração Financeira do Governo Federal (Siafi), hoje é regulado pela IN STN n° 01, de 17 de outubro de 2005.
A celebração de convênio e a entrega dos valores envolvidos ficam condicionados à regularidade do beneficiário da transferência voluntária perante o Cauc que, portanto, deverá ser consultado nestas situações348349.
O Cauc é destinado a registrar o cumprimento ou não, pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, das exigências da LRF, assim organizadas350:
a) instituição, previsão e arrecadação dos impostos de competência, nos termos do artigo 11 da LRF;
346
Artigo 3◦ da IN STN n◦ 01/97. 347
Criado com fundamento na IN STN n◦ 01/97, artigo 3◦, “§6◦. A situação de regularidade do convenente, para os efeitos desta Instrução Normativa, poderá ser comprovada mediante consulta a cadastro específico, que vier a ser instituído pelo Governo Federal para este fim.”
348
Artigos 2◦, 5◦ e 6◦ da IN STN n° 01/05.
349 Antes da criação do Cauc, os requisitos para celebração de convênios e repasse de verbas voluntárias eram verificados através do comumente denominado Cadastro Siafi, nos termos da IN STN n◦ 01/97, e que atualmente vem sendo utilizado em razão de decisão proferida na AC 1.033-1 que em medida liminar suspendeu os efeitos do Cauc. STF, AC n◦ 1.033-1/DF – AgR-QO, Tribunal Pleno, DJ 16.06.06, Relator Ministro Celso Mello.
b) certidões de regularidade fiscal de tributos federais, de contribuições para o Instituto Nacional da Seguridade Social e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, regularidade com relação aos convênios anteriores através de consulta ao conhecido cadastro de convênios do Siafi, incluindo neste tópico a regularidade com o Cadin;
c) regularidade quanto à aplicação mínima de recursos para a educação e saúde;
d) apresentação do Relatório de Gestão Fiscal (RGF), conforme e na periodicidade dos artigos 54 e 55 da LRF;
e) apresentação do balanço geral do exercício perante a Caixa Econômica Federal;
f) apresentação de Relatório Resumido de Execução Orçamentária, nos termos dos artigos 52 e 53 da LRF.
Acrescente-se que, com a publicação da IN STN n° 01/05, o escopo do Cauc foi dilargado, ampliando o campo de pesquisa, ou seja, antes era pesquisado apenas o CNPJ do ente beneficiário e, após a edição desta norma, apura-se a regularidade, além do CNPJ do ente beneficiário, dos CNPJs dos demais Poderes, dos órgãos da administração direta e indireta, fundações, autarquias e empresas públicas e sociedades de economia mista. Para tanto foram utilizados os conceitos adotados pela LRF, assim estabelecidos:
“Art. 1° (...)
§3°. Nas referências:
I – à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, estão compreendidos:
a) o Poder Executivo, o Poder Legislativo, neste abrangidos os Tribunais de Contas, o Poder Judiciário e o Ministério Público;
b) as respectivas administrações diretas, fundos, autarquias, fundações e empresas estatais dependentes;
(...)
Art. 2°. Para efeitos desta Lei Complementar, entende-se como: (...)
III – empresa estatal dependente: empresa controlada que receba do ente controlador recursos financeiros para pagamento de despesas com pessoal ou de custeio em geral ou de capital, excluídos, no último caso, aqueles provenientes de aumento de participação acionária;”
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A título ilustrativo, atestando a irradiação dos efeitos deste dispositivo, os CNPJs vinculados ao Estado da Bahia são no montante de 75 conforme site da Secretaria do Tesouro Nacional351. Registre-se que este “novo Cauc” encontra-se com seus efeitos suspensos por força de liminar em Ação Cautelar352.
Neste mister, para que o Poder Executivo possa celebrar convênio e ser beneficiário de transferência voluntária da União tem que comprovar a sua regularidade que, além de conter grande lista de exigências, inclui obrigações de outros Poderes e de outras pessoas jurídicas, ensejando a violação à independência daqueles353 e ao princípio da intranscendência das medidas restritivas de direitos354, respectivamente, ofendendo também ao devido processo legal por debilitar a defesa de quem é cobrado por ato de outrem e não conhece os fatos, não dispõe de provas.
É certo, também, que esta técnica de cobrança e pressão, ao passo que demonstra poder de auto-satisfação dos interesses da União, tende a ofender normas constitucionais aventadas no parágrafo anterior, incluindo o princípio do federalismo, também e principalmente fere direitos dos cidadãos, reais beneficiários dos recursos público a serem recebidos355.