2.3 Agentes do Mercado Fotovoltaico
2.3.1 Cadeia de Suprimentos e Cadeia de Valor Fotovoltaica
Segundo Beamon (1998), a cadeia de suprimentos (supply chain) é “um processo de manufatura integrado onde matérias-primas são convertidas em produtos finais, e depois são entregues aos clientes”. Ao longo desse processo integrado, encontram-se várias empresas que trabalham para adquirir a matéria-prima, convertê-la em um produto específico e, por fim, entregá-lo para os varejistas18. A cadeia de suprimentos é tradicionalmente representada por um fluxograma.
Frantzis et al. (2008) aponta que a cadeia de suprimentos FV é composta pelos processos básicos indicados na Figura 11. A matéria-prima mais utilizada atualmente é o silício, que será posteriormente aplicado para a fabricação das células FV. Com um conjunto de células e outros componentes monta-se o módulo FV, que será comercializado até atingir o consumidor final.
18 Varejista: aquele que revende o produto diretamente para o consumidor final. Ao contrário da venda por atacado,
Fonte: Adaptado pela autora com dados extraídos de FRANTZIS et al. (2008)
Além dos componentes básicos, vários participantes e serviços adicionais complementam e agregam valor à cadeia. Quando a análise foca o valor criado e não mais a produção e a distribuição do produto, tem-se uma cadeia de valor (value chain). Segundo Ramos et al. (2018), a cadeia de valor solar FV engloba a cadeia produtiva e todos os serviços oferecidos no segmento.
Ambas as cadeias costumam ser divididas, geralmente, em duas partes: upstream e
downstream. Jia, Sun e Koh (2016) categoriza essas cadeias de forma mais específica e
acrescenta o segmento midstream. A parte upstream engloba a manipulação do silício, desde a sua purificação à produção de materiais e de wafers. A parte midstream abrange a produção das células e dos módulos FV. E a parte downstream inclui a instalação dos sistemas (com inversores, cabos e outras estruturas) e a prestação de serviços de O&M (Operação e Manutenção). A diferença da segmentação de Jia, Sun e Koh (2016) está apenas na separação da produção das células e módulos FV da parcela upstream da cadeia, inserindo-a em uma intermediária (midstream).
Para esse trabalho, não há a necessidade de se aprofundar na segmentação da cadeia, sendo satisfatória a divisão em duas partes. Desse modo, adota-se a representação simplificada em dois segmentos: bens (que é o patamar upstream) e serviços (que é o patamar downstream). A cadeia upstream se caracteriza pela produção dos bens, ou seja, dos equipamentos, componentes e materiais que compõem um sistema FV. Já a cadeia downstream é representada pelos serviços associados à implantação dos projetos FV e aos serviços relacionados ao segmento, tais como: financiamento, ensino e pesquisa, consultoria, distribuição de
Silício (matéria-prima) Fabricação da célula Montagem do módulo Distribuidor /Integrador Instalador de Sistemas /EPCista Proprietário do sistema Consumidor Final Upstream Downstream Propriedade e Operação
equipamentos, serviços prestados por associações, entre outros (RAMOS et al., 2018). O fluxograma da cadeia de valor da solar FV é apresentado na Figura 12.
Matéria-prima Silício Metalúrgico Materiais Silício Grau Solar Substrato de Filmes Finos Gases de Processamento Composto de Filmes Finos Alumínio/Aço Vidro/Acrílico/ Policarbonato Componentes Lingote e Lâmina de Silício Célula FV de Silício Cristalino Filmes Finos Moldura Backsheet Silicone de Vedação Caixa de Junção Filme Encapsulante Equipamentos Módulo Estrutura Metálica/Seguidor Solar String Box Inversor Medidor Sistema de Monitoramento Sistema de Armazenamento Controlador de Carga e Descarga Distribuidor de Equipamentos Desenvolvedor de Projeto/Integrador EPC Produtor de Energia Operação & Manutenção
Associações, Instituições de Ensino e Pesquisa, Organizações não Governamentais, Editoração
Agentes Financiadores, Agências de Seguro, Empresas de Consultoria e Assessoria
Bens Serviços Equipamentos do Sistema FV
Componentes do Módulo: células e suas tecnologias Materiais e componentes do
sistema
Fonte: Adaptado de RAMOS et al. (2018)
Downstream Upstream
Destaca-se que, atualmente, a produção do silício cristalino (também chamado de “Grau Solar”) é dominada por poucos países, tais como Alemanha, Estados Unidos, China e Coreia do Sul. As atividades posteriores, como a produção de lingotes, wafers e a confecção dos módulos são mais pulverizadas. Nos últimos anos, por exemplo, fábricas que realizam a montagem de módulos FV se instalaram no Brasil impulsionadas por condições de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que exige um grau de nacionalização dos equipamentos para determinados investimentos (TOLMASQUIM, 2016).
Além disso, segundo Ramos et al. (2018), estão presentes no Brasil todas as atividades do segmento de serviços, mas há também a dependência de materiais e componentes importados, como elencado na Tabela 3.
Tabela 3 - Atividades de valor presentes ou não no Brasil
Segmento da Cadeia de valor Presença no Brasil Somente Importado
Matéria-prima Silício metalúrgico
Materiais Alumínio, aço, acrílico e
policarbonato
Silício grau solar, gases de processamento, substrato de filmes
finos, composto de filmes finos, vidro19
Componentes Filmes finos, moldura, silicone de
vedação
Lingote e lâmina de silício, célula FV de silício cristalino,
backsheet20, caixa de junção, filme
encapsulante
Equipamentos
Módulo, estrutura metálica e seguidor solar, String Box21, inversor, medidor, sistema de monitoramento, sistema de armazenamento, controlador de
carga e descarga
Fonte: Adaptado pela autora com dados extraídos de RAMOS et al. (2018)
19 O vidro citado não é um vidro comum, mas um vidro especial para módulos FV com elevado grau de pureza e
de absorção de luz (RAMOS et al., 2018).
20 Backsheet é uma espécie de filme feito de materiais poliméricos, colocado na parte traseira dos módulos FV.
Sua função é isolar eletricamente e proteger os componentes internos dos módulos FV, principalmente as células FV (RAMOS et al., 2018).
21 String Box: antes de definir string box, é necessário definir string. Segundo Villalva e Gazoli (2012), strings ou
fileiras são os módulos ligados em série, e essas fileiras de um conjunto FV “podem ser ligadas entre si através de uma caixa de conexões” (VILLALVA; GAZOLI, 2012, p. 194). A essa caixa se dá o nome de string box. A caixa pode ser montada com componentes avulsos ou pode ser adquirida pré-fabricada e pronta no mercado. Além disso, a string box “concentra os cabos elétricos das diversas fileiras em dois barramentos, positivo e negativo, e ainda possui fusíveis de proteção”, para proteger os cabos e os módulos (VILLALVA; GAZOLI, 2012, p. 195).
Como o trabalho almeja analisar o negócio FV a partir da comercialização do módulo montado, tem-se como foco a parte downstream da cadeia de valor. Os players da cadeia
upstream não serão analisados individualmente e esse segmento será sintetizado como fabricante de módulo FV. Dado o recorte, é possível identificar e pormenorizar os agentes que
representam o segmento de serviços e que executam a ação de compra e venda do módulo FV no Brasil.