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2 PLANTIO E USOS DO BAMBU

2.3 A CADEIA PRODUTIVA DO BAMBU NO BRASIL

A cadeia produtiva é uma forma de representar as relações existentes entre atores que tem por objetivo a produção de um produto final. Este conceito foi inicialmente desenvolvido para a área florestal e agropecuária, entretanto é aplicável para vários processos produtivos. Assim, o estudo da cadeia produtiva permite a análise e organização do processo produtivo, a identificação das carências, dificuldades e ―gargalos‖ que limitam o desenvolvimento de um setor, e também das oportunidades não exploradas (CASTRO, 2001).

De acordo com Williams (2003) a cadeia produtiva é formada por redes de processos de transformação industrial desde a extração da matéria-prima à manufatura do produto acabado, que são frequentemente analisadas para obter produtividade e baixos impactos no meio ambiente.

A cadeia produtiva também pode ser compreendida como ―conjunto de etapas consecutivas pelas quais passam e vão sendo transformados e transferidos os diversos insumos‖, ou seja, da interdependência entre atores, em que cada um é representado por uma etapa devido à especialização no processo produtivo (PROCHNIK, 2002, p. 1). O propósito da relação entre os atores de uma cadeia produtiva é melhorar as condições dos seus empreendimentos e estratégicas do setor, tornando-o mais competitivo por meio de estratégias e vantagens que a integração e comunicação entre eles propicia.

Outra composição muito próxima das Cadeias Produtivas, que também vem sendo estudada são pela integração por Redes, que favorecem o acesso às oportunidades, devido ao número de relações possíveis entre organizações por meio da tecnologia da informação, impactando diretamente no desenvolvimento econômico com a abertura de novos mercados (CASTELLS, 1999).

Castells (1999) aborda a questão das redes globais, entre países, porém esta relação pode ocorrer não somente neste nível, mas internamente em um mesmo país para o fortalecimento de um setor, não estando restritos a uma localidade. Isso é possível principalmente devido às tecnologias da informação e comunicação que permitem facilitar a integração em rede, desconstruindo a ideia de que os atores estão isolados. Podendo inclusive existir uma separação física, entretanto a conectividade aproxima esses atores que se identificam e podem compartilhar informações. Porém nesta pesquisa será utilizado o conceito de Cadeias Produtivas, devido ao conhecimento adquirido durante a Dissertação de Mestrado da autora sobre a cadeia produtiva do bambu no Brasil e pela especificidade dos empreendimentos da Economia Solidária que trabalham com Agricultura Familiar não terem efetividade quanto ao acesso as tecnologias da informação e comunicação.

Os conceitos de cadeia produtiva do bambu têm sido aplicados em países, como a Colômbia, que apresentam regiões especializadas no trabalho com o material, principalmente no Eje Cafetero6 nos âmbitos da pesquisa, empresas, artesanato, entre outros. Isso está gerando uma dinâmica tanto regional, como nacional entre os atores, promovendo o desenvolvimento empresarial do setor (GALLON, 2004).

Os estudos sobre a cadeia produtiva do bambu no Brasil ainda são recentes quando comparado aos países asiáticos e à Colômbia, não havendo assim, uma formalização dos atores e suas inter-relações. Tedeschi (2011) realizou uma pesquisa sobre a cadeia produtiva do bambu e observou que no cenário internacional, principalmente nos países asiáticos que a cultura do bambu está relacionada ao conhecimento e utilização milenar, não há resistência quanto à sua aplicação.

O conhecimento sobre a eficácia das propriedades físicas, químicas e mecânicas estimula o uso, e consequentemente as pesquisas e registros de patentes com o bambu,

6 O Eje Cafetero, Eixo Cafeeiro ou Triângulo do café é a região da Colômbia com maior produção de café colombiano reconhecido por sua qualidade. Esta região compreende os municípios de Quindio, Risaralda e Caldas (COLOMBIA, 2015).

liderado pelos chineses determina esta não oposição aos usos do material. Também é importante ressaltar que a maior parte das espécies de bambu é oriunda da Ásia, o que sinaliza um dos motivos da amplitude do conhecimento, das aplicações e comercialização do material.

No estudo sobre a cadeia produtiva de bambu no Brasil, Tedeschi (2011) identificou como atores, os fornecedores de insumos (produtores de mudas para o plantio, colmos, equipamentos para beneficiamento); empresas produtoras de bens de consumo de bambu, tanto no trabalho artesanal com colmos, como as de BLC; e por fim, os estabelecimentos comerciais, que comercializam os produtos, e os consumidores finais. Estes atores se relacionam entre si, tanto comercialmente, como com troca de informações e consequentemente sofrem as influências do Ambiente Organizacional, que abarca os Órgãos Governamentais, Centros de pesquisa e de Propriedade Intelectual. É este Ambiente que fomenta e incentiva a cadeia produtiva com informações. O Ambiente Institucional regulamenta a cadeia produtiva por meio de leis, certificações e normatizações em busca de uma padronização para orientar o desenvolvimento, como ilustra a Figura 10.

Figura 10 - Modelo de cadeia produtiva do bambu

Fonte: Tedeschi (2011)

Os produtores de bambu não se autointitulam com tal, pois geralmente possuem fontes de rendas paralelas, o fazem há menos de dez anos e também porque ainda enfrentam dificuldades no acesso às linhas de crédito devido ao fato do bambu não ser classificado como madeira de reflorestamento.

Há poucas empresas que comercializam produtos em bambu, entretanto para a confecção dos produtos elas fazem uso de equipamentos adaptados e ferramentas utilizadas no beneficiamento de madeira. Isso também ocorre por não haver empresas

que produzam máquinas específicas para beneficiamento de bambu, diferente do que ocorre na China. Assim, se a empresa brasileira tiver interesse em produzir em escala industrial, deve adaptar seus equipamentos ou importar máquinas chinesas.

Nas Américas a exploração comercial não é forte como a asiática, mas em países, como Colômbia e Equador há uma padronização nas espécies pesquisadas, o que faz com que se avance mais no conhecimento das propriedades do material e na consolidação da cadeia produtiva.

No Brasil o material ainda é visto, na maioria das vezes, com preconceito, como material vulnerável, devido às equivocadas aplicações, por tradição ou por falta de conhecimento de tratamentos para sua melhor aplicabilidade. Geralmente é usado para confecção de cercas para propriedades ou espaços, estacas para plantio de tomates, barreiras de vento, varais de roupas e artesanato.

Por fim os consumidores finais encerram a sequência de atores da cadeia produtiva, onde alguns estão dispostos a adquirir produtos de alto valor agregado como os laminados para revestimentos de pisos, paredes e mobiliários. E outros adquirem produtos que mantém a sua forma natural com características mais artesanais, não menos importante, porém os mais conhecidos, como as cadeiras (TEDESCHI, 2011, p. 101).

O Quadro 2 apresenta sinteticamente os Ambientes Organizacional e Institucional, e os atores envolvidos na Cadeia Produtiva do Bambu no Brasil, bem como seus pontos fortes e fracos, que explicita que os maiores entraves para o aprimoramento desta cadeia estão pautados na resistência cultural e nas dificuldades do bambu não se enquadrar como madeira de reflorestamento.

Quadro 2-Síntese sobre os atores e ambientes da cadeia produtiva do bambu no Brasil

Ambiente Organizações Pontos fortes Pontos Fracos

Ambiente

Organizacional ONGs Promovem cursos de artesanato, divulgando o uso

do bambu e estimulam a inclusão social.

Pequeno número de ONGs distribuídas no Brasil.

Órgãos

Governamentais Estimulam o empreendedorismo e a cultura

da madeira de reflorestamento.

Não há políticas que estimulem especificamente o plantio e uso do bambu.

Associações Pesquisa, desenvolvimento e

consultorias para o agronegócio

Necessidade do apoio governamental para viabilizar parcerias internacionais e nacionais.

Centros de Pesquisa

Crescimento do número de pesquisa e de pesquisadores sobre as propriedades do material e suas aplicações.

Necessidade de padronização das espécies a serem pesquisadas.

Propriedade

Intelectual Registros existentes visam a aplicação do bambu como

substituto da madeira

Baixo número de registros de patentes sobre o material.

Continuação do Quadro 2...

Ambiente Organizações Pontos fortes Pontos Fracos

Atores da Cadeia produtiva do bambu

Produtores rurais Aumento do número de

produtores rurais de bambu; Facilidade para vendas; Confeccionam produtos em bambu.

Plantadores não se declaram oficialmente como produtores; Dificuldade em acessar linhas de crédito;

Ausência de padronização nos preços de vendas.

Empresas de bens

de consumo Parte significativa planta bambu;

Facilidade para uso de equipamentos utilizados para madeira convencional.

Dificuldade em encontrar

maquinário específico para bambu; Poucas empresas estabelecem contato com centros de pesquisa e universidades.

Fornecedores de

equipamentos Não há venda específica no Brasil, havendo assim a

adaptação de equipamentos.

Ausência de empresas nacionais que produzam equipamento específico para bambu; Necessidade de importação.

Estabelecimentos

comerciais Vendas de produtos artesanais (forma roliça) e beneficiados

(laminados)

Pequeno número de estabelecimentos que têm a oportunidade de comercializar produtos em madeira convencional e em bambu.

Consumidor final Demanda por produtos

sustentáveis;

Demanda para todas as classes sociais.

Resistência cultural.

Ambiente

Institucional Leis e Normas A partir de 2006 surgiram Projetos de Leis que

estimulam o plantio e uso do bambu.

Lei No 12.484 aprovada em 2011 (cenário nacional).

Dificuldade da viabilização dos Projetos de Lei;

Ausência de padronização de normas para ensaios;

Ausência de um sindicato para os bambuzeiros.

Certificações Crescimento do número de

produtos que contenham o ―selo verde‖.

Dificuldade em inserir o bambu nas duas modalidades de certificação (manejo e cadeia de custódia).

Linhas de crédito

e financiamentos Expectativa na Lei N

o 12.484 para a abertura de linhas específicas para o plantio do bambu.

Dificuldade em enquadrar o bambu em linhas de crédito e

financiamento que estimulam o plantio de madeira de

reflorestamento e demais culturas.

Fonte: Tedeschi (2011)

As pesquisas sobre bambu no Brasil têm crescido, entretanto é necessário padronizar os estudos quanto às espécies mais comuns no país e normas para padronizar os ensaios, além do incentivo ao patenteamento de produtos em busca da quebra de paradigmas sobre os usos do bambu, permitindo a divulgação sobre as potencialidades do material.