1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.3 Cadeias produtivas no contexto do agronegócio
Este trabalho já teceu considerações acerca de realidades e cenários de cunho socioeconômico que emergiram nos últimos anos no contexto brasileiro e mundial e seus
respectivos desdobramentos. Considerando essas realidades e respectivos desdobramentos como idiossincrasias ambientais, muitas organizações têm repensado e até redefinido seu gerenciamento intra e entre firmas enquanto alternativa estratégica, no sentido de que o escopo de análise passou a extrapolar as fronteiras da unidade organizacional. Ou seja, tais análises galgam a amplitude daquilo que se convencionou rotular de cadeia produtiva, cadeia agroindustrial, sistema agroindustrial, complexo agroindustrial, ou estruturas nominadas com outras terminologias vinculadas a encadeamentos produtivos e sistêmicos que se configuram, sobretudo, a partir de relacionamentos inter organizacionais, ambientais e institucionais.
No contexto dessa discussão, é oportuno retomar que essas estruturas já foram conceituadas e delimitadas enquanto abrangência e mecanismos de encadeamento, tais como cadeia produtiva, cadeia de produção agroindustrial, cadeia produtiva agroindustrial (CPA), sistema agroindustrial (SAI) e CAI (complexo agroindustrial). Essas estruturas podem ser sintetizadas a partir de um fluxo que vai desde a produção de insumos até o consumidor final. Nele (fluxo) estão presentes todos os participantes envolvidos na produção, processamento e
marketing de um produto, o suprimento das fazendas, as próprias fazendas, as operações de
estocagem, processamento, atacado, varejo e o consumidor. Estão incluídas as organizações que afetam e coordenam os estágios sucessivos do fluxo do produto, como instituições governamentais, associações, bancos, bolsas de mercadorias e outros similares.
Essa visão sistêmica permite uma melhor compreensão do funcionamento da atividade agropecuária, auxiliando os tomadores de decisões na formulação de políticas com precisão, justiça e maior probabilidade de acerto. Cadeia produtiva, outro rótulo concebido para adjetivar configurações de natureza semelhante, é conceituada por Pires (2001) como um conjunto articulado de atividades econômicas integradas por efeito da relação, em termos de mercados, entre tecnologia, organização e capitais. A sua visualização se dá como uma sucessão de operações de transformação dissociável, capazes de serem separadas e ligadas entre si por um encadeamento técnico. Também é entendida como um conjunto de relações comerciais e financeiras que se estabelecem entre todos os segmentos,um fluxo de troca entre fornecedores e clientes.
Nessa perspectiva, e considerando especificamente o contexto brasileiro, o setor agroindustrial passa por um processo de reorganização, seja no âmbito interno das empresas, seja nas formas de organização da cadeia produtiva no intento de torná-la mais ágil, inovadora e eficiente, de maneira a lograr maiores patamares competitivos no mercado global. Em outras palavras, pode-se afirmar que, nas últimas décadas, em decorrência de processos de modernização da agropecuária, o agronegócio incorporou mecanismos de dependência, no
85
sentido de que a própria produção agropecuária passou a se conectar, e até a se subordinar, a atores (stakeholders) que até então não ocupavam lugar de destaque nesse âmbito operacional.
Essa lógica, em termos de configuração operacional no contexto do agronegócio, forjou a necessidade de uma abordagem mais analítica, na medida em que se tornam mais complexas, freqüentes e amplas as relações da agropecuária com os segmentos situados fora da propriedade rural. Farina e Zylbersztajn (1998) corroboram essas assertivas argumentando que o agronegócio, em especial, vem passando por uma reestruturação nos últimos anos, e uma das primeiras e mais sensíveis mudanças nas regras do jogo do agribusiness brasileiro foi a desestruturação dos sistemas de crédito disponíveis para a agricultura e para a agroindústria.
No seu trabalho seminal denominado A concept of agribusiness, Davis e Goldberg (1957) protagonizaram o conceito de agribusiness como sendo a composição do conjunto das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas, das operações de produção nas fazendas, armazenamento, processamento e distribuição dos produtos e itens produzidos a partir deles. Essa abordagem se constitui como um marco conceitual no estudo das questões relacionadas à produção e distribuição de alimentos, fibras e matérias-primas de origem agropecuária. A principal contribuição desse referencial teórico foi a detecção das principais tendências ocorridas em âmbito agroindustrial americano e dos países que se inseriram na economia global posteriormente. Uma primeira constatação refere-se às mudanças ocorridas no pós-guerra e a significativa mudança nos padrões tecnológicos, em especial, a elevada taxa de utilização de insumos. Uma segunda tendência analisada foi o crescente inter- relacionamento entre o setor produtivo e os segmentos de transformação, armazenagem e distribuição de alimentos, fibras e derivados das matérias-primas de origem agropecuária.
O trabalho de Davis e Goldberg (1957) permitiu a verificação da evolução da agricultura da auto-suficiência para a interdependência dos setores envolvidos na produção agropecuária, terminando na abordagem metodológica de Commodity System Approach (CSA), corroborada no trabalho de Goldberg (1968) e utilizada nas questões relacionadas ao setor produtivo. Em 1968, Goldberg utilizou-se da metodologia para estudar os sistemas de produção de trigo, soja e laranja nos Estados Unidos, ressaltando a importância das diferentes formas de coordenação que os sistemas agroindustriais podem permitir e o papel dos agentes públicos e privados no processo. O CSA privilegia, como ponto de partida, a análise de uma matéria prima específica e verifica o encadeamento desta nas atividades e organizações diretas ou indiretas a essa matéria-prima.
Como síntese desta discussão, pode-se supor que o encadeamento produtivo em pauta refere-se à soma das operações de todos os agentes que se relacionam direta ou indiretamente ao setor primário, sendo considerados como integrantes do universo compreendido pelo contexto de análise.
O agribusiness apresenta enfoques metodológicos diferentes. Além da noção do Commodity System Approach (CSA), Batalha (1997) também faz referência à Escola Francesa de Organização Industrial como protagonista, nos anos 60, do conceito de analyse de filières, que visa analisar parcialmente o agribusiness. Este modelo foi traduzido para o português como cadeia de produção ou cadeia de produção agroindustrial (CPA). Nesse caso, a análise parte do produto final em direção à matéria-prima que lhe deu origem, diferente do modelo (CSA), proposto anteriormente por Goldberg. O autor estabelece um comparativo entre o CSA e a abordagem francesa. Apesar de terem surgido em locais e épocas diferentes, e de diferenças já anunciadas, as metodologias de análise da cadeia proposta por Goldberg e pela escola francesa possuem uma série de semelhanças. Ambas utilizam cortes verticais no sistema econômico de um determinado produto/serviço final (mais comum na escola francesa) ou a partir de uma matéria-prima de base para, posteriormente, estudar sua lógica de funcionamento. Nenhuma das duas divide o sistema em três setores distintos: agricultura, indústria e serviços.
Embora os dois conceitos (CSA e analyse de filières) apresentem inúmeras semelhanças e se mostrem quase redundantes, ao examiná-los meticulosamente Batalha (1997) apontou distinções. A diferença principal, na visão do autor, está na importância atribuída ao consumidor final como agente dinamizador da cadeia. A analyse de filières privilegia o mercado final (produto acabado/serviço) em direção à matéria-prima básica para a sua produção. Os dois principais aspectos destacados pelas duas metodologias são o caráter mesoanalítico e sistêmico dos estudos de cadeias produtivas agroindustriais. Os economistas da escola francesa são os principais defensores e utilizadores da mesoanálise. Ela foi proposta para ocupar o espaço existente entre a microeconomia, que estuda as unidades de base da economia (empresa, consumidor, entre outros) e que se vale das “partes para explicar o todo”, e a macroeconomia, que “parte do todo (Estado, grandes agregados, entre outros) para explicar o funcionamento das partes” (BATALHA, 1997, p. 37).
O enfoque mesoanalítico possibilita responder a questões relacionadas à concorrência e a opções estratégicas das firmas, bem como ao processo distributivo entre os agentes econômicos. Este se alia ao enfoque clássico da economia industrial, que “não é a firma nem a economia global, mas a indústria (ou setor industrial)” (BATALHA, 1997, p. 37). Ele
87
representa o lugar de encontro entre as preocupações dos economistas, através da validação empírica de suas teorias, e dos administradores, por intermédio de um status científico de suas recomendações (BATALHA, 1997).
Kliemann (1997) apregoa que a análise das cadeias produtivas pode ser baseada em três fatores diferentes: a tecnologia, os mercados e os produtos. A visão estática de uma cadeia produtiva é definida pela superposição desses três fatores. Já a visão dinâmica é obtida pela consideração simultânea desses três elementos ao longo do tempo. Logo, qualquer modificação em um deles pode afetar diretamente os demais. Batalha (1997) e Kliemann (1997), em suas abordagens, entendem que o conceito de cadeia produtiva agroindustrial contribui para a explicação e o entendimento das estruturas geradoras de produtos e serviços e possibilita a criação de um espaço de análise mesoanalítico, constituindo-se em uma excelente ferramenta, tanto pela relatividade da análise oferecida, quanto pela flexibilidade permitida. A combinação desses elementos com os enfoques estratégicos e mercadológicos facilita o entendimento da dinâmica de segmentos econômicos.
Souza et al. (2005) inferem que para se proceder a análise de uma cadeia produtiva deve-se considerar também a existência dos ambientes institucional, organizacional e empresarial. O ambiente institucional é constituído pelas leis federais, estaduais e municipais, além dos costumes, cultura, etnia e tradições, fatores esses que diferenciam a sociedade, sendo que esta é capaz de envolver e influenciar o ambiente organizacional. Além disso, envolve as políticas setoriais refletindo na modernização do setor, nas inovações tecnológicas e no comportamento das empresas e dos negócios. Os autores definem que o ambiente organizacional compõe-se de estruturas criadas para dar suporte ao funcionamento das cadeias produtivas, compreendidas pelas universidades, órgãos de pesquisa, normalização e fiscalização, associações, cooperativas, sindicatos e as próprias empresas.
Essas organizações são constituídas por indivíduos que acreditam que as ações grupais são mais eficientes que as individuais, e, assim, podem atuar de forma coordenada e coletiva, visando os seus interesses e agirem em um ambiente institucional que estabelece regras formais e informais que podem limitar ou desenvolver as ações das organizações (PONDÉ, 1994; NORTH, 1994; CUNHA, 1999). Nesta mesma linha de pensamento, mas focando o agronegócio, Ménard (2000) destaca que em todos os países existe uma forte interação entre as instituições e a organização do setor agrícola, em particular, pelo viés da intervenção do Estado, que toma formas múltiplas que vão desde a elaboração das obrigações até o desenvolvimento de infraestrutura (por exemplo, irrigação), passando pela subvenção. Pode-
se aduzir, portanto, que as regras são determinadas pelo ambiente institucional, que define as normas, os incentivos e as punições por atos e omissões, cabendo às organizações estabelecer estratégias que possam direcionar as suas ações. Dessa forma, as instituições definem as regras do jogo e as organizações as utilizam, ou seja, jogam, e todo jogo requer estratégias e táticas para obter sucesso. Nesses ambientes, encontram-se as oportunidades e ameaças a serem aproveitadas ou neutralizadas pelos agentes da cadeia produtiva.
Autores como Santana e Amin (2002) e Souza et al. (2005) destacam que o ambiente empresarial se constitui pelos subsistemas internos das empresas, representados pelos recursos humanos, materiais, financeiros, tecnológicos e pela gestão empregada no dia a dia das empresas e, ainda, pelos procedimentos operacionais utilizados nos processos produtivos, o que reflete no sistema de qualidade dos produtos. A análise desse ambiente possibilita aos agentes da cadeia produtiva identificarem seus pontos fortes e fracos que podem orientar a formulação das estratégias.
Em síntese, a análise de uma cadeia produtiva aborda os diferentes segmentos do ambiente institucional e organizacional que possuem vínculo, direto e/ou indireto, com a cadeia estudada. Pires (2001) explica que esta análise, de acordo com o escopo desejado, pode levar a uma relação entre todo o tecido institucional e organizacional e a cadeia produtiva em estudo.
2.4 A cadeia produtiva brasileira do leite – considerações gerais e diferentes