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Cadeiras de rodas

No documento Ebook Interdisciplinaridade (páginas 42-51)

De acordo com o relatório da Organização Mundial de Saúde, apro- ximadamente 10% da população de pessoas com deficiência utilizam uma cadeira de rodas para se locomover. Porém, apesar do amplo uso desse dispositivo, possivelmente o mais representativo quando se trata de mobilidade, seu uso diário por tempo prolongado pode levar a lesões (KIRBY et al., 2011; WHO 2008).

O uso de cadeira de rodas tem sido relatado em uma ampla variedade de tópicos que abrangem diversas áreas do conhecimento tais como biomecânica, esportes, mobilidade e postos de trabalho (SLOWIK et al., 2016; AYTAR et al., 2014; TOMSONE et al., 2015; DAS & BLACK, 2000).

Várias condições físicas podem limitar os movimentos do corpo humano de tal forma que para o desempenho da locomoção se torna necessário o uso de uma cadeira de rodas, no intuito de trazer ao indivíduo a capacidade de participação social e comunitária. No entanto, esse dispositivo tem sido relatado por seus usuários como fator limitador da participação social (CHAVES et al., 2004). Sob a ótica do Design, os fatores limitadores da interação social de usuários de cadeira de rodas podem ser, entre outros, ligados a aspectos estéticos e simbólicos do dispositivo e com a interação usuário/dispositivo em níveis psicológicos e emocionais (LANUTTI et al., 2015).

Promover a mobilidade pode ser consideradava como principal função da cadeira de rodas, porém o uso deste dispositivo está rela- cionado a dificuldades no uso diário, do ponto de vista dos usuários. A propulsão manual, principal meio de atuação do usuário na mobilidade em cadeira de rodas, expõe os membros superiores a uma situação

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resulta em elevada prevalência de dores, especialmente nos ombros e punhos (ALM et al., 2008, RICE et al., 2014). A alta prevalência de dor é relatada como fator de baixa qualidade de vida, sendo considerada como umas principais razões que contribuem para o declínio funcional do indivíduo (GERHART et al., 1993).

Do ponto de vista do design, alterações nas características físicas da cadeira de rodas podem beneficiar a mobilidade geral e a satisfação dos usuários com o dispositivo, influenciando nos aspectos ergonô- micos e sucesso de uso do equipamento. Pequenas mudanças em relação a posição relativa do usuário às rodas traseiras afetam dire- tamente a interação biomecânica na propulsão manual, influenciando em variáveis como as forças de propulsão, padrões de movimento dos membros superiores, estabilidade do sistema e resistência ao rolamento (BERTOLACCINI et al., 2017; BERTOLACCINI et a., 2018; RAMMER et al., 2015). Estes são importantes aspectos que podem determinar a eficiência e segurança no desempenho de atividades básicas na mobilidade diária em cadeira de rodas.

Órteses

Segundo o Manual de Boas Práticas de Gestão das Órteses, Pró- teses e Materiais Especiais (OPME), as órteses são definidas como

“peça ou aparelho de correção ou complementação de membros ou órgãos do corpo” ou ainda qualquer “material permanente ou transi- tório que auxilie as funções de um membro, órgão ou tecido, sendo não ligados ao ato cirúrgico...”. (BRASIL, 2016).

Com base nessa definição, observa-se que órteses são disposi- tivos com ampla aplicação e, por conseguinte, diferem muito em sua estética e características. Tais dispositivos têm como principais obje- tivos aumentar a função do membro, prevenir ou corrigir deformidades, proteger tecidos em cicatrização, restringir movimentos e permitir o crescimento e a remodelagem dos tecidos (FESS, 2002).

Devido ao seu amplo campo de utilização, é difícil calcular o número de usuários (ou potenciais usuários) desses dispositivos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que pelo menos 100 milhões de pessoas, ou seja, 1,5% da população mundial necessitem de órteses ou próteses (KHASNABIS, 2015).

Em termos gerais, as órteses podem ser classificadas com relação às partes do corpo que assistem, sendo assim definidas como órteses para membros inferiores, órteses torácicas e cervicais e órteses para membros superiores (EDELSTEIN, BRUCKNER, 2006). Podem ainda ser divididas em três categorias: estáticas, estáticas seriadas,

estáticas progressivas e dinâmicas. As órteses estáticas têm como objetivo manter o alinhamento dos tecidos e prevenir deformidades, enquanto as órteses estáticas seriadas são utilizadas para ganho de movimento, mantendo o tecido em seu comprimento máximo para estimular seu alongamento, sendo substituídas de forma gradativa conforme a eficiência no processo de alongamento. Por sua vez, as órteses estáticas progressivas contam com elementos como articula- ções, Velcro ou parafusos que exercem aplicação de força que, ainda que não permita que se realize um movimento na direção contrária, permite que o mesmo seja levemente reposicionado. As órteses dinâmicas são normalmente feitas em termoplásticos e compostas de partes móveis que através de molas, fios ou elásticos aplicam força em uma direção, mas permitem movimento na direção oposta (DESHAIES, 2005; ASSUMPÇÃO, 2006).

Os materiais utilizados na produção desses dispositivos variam conforme sua função e, consequentemente, com o tipo de órtese. Termoplásticos de alta e baixa temperatura são os principais materiais quando se trata de órteses fabricadas sob medida, além de gesso, neoprene, lonas e espumas (ASSUMPÇÃO, 2006). Atualmente, com o avanço das técnicas de impressão 3D, novos materiais têm sido uti- lizados na produção de órteses, principalmente plásticos como o ABS, o biocompatível PLA e o Nylon. Além disso, através dessa técnica de produção é possível obter alta precisão anatômica a partir de técnicas de escaneamento do segmento do corpo. Dessa forma, são produ- zidas órteses com melhor ajuste e adequação ao usuário (DODZIUK, 2016; BARONIO, HARRAN, SIGNORONI 2016).

DISCUSSÃO

As TAs fazem parte do cotidiano de seus usuários, tornando pos- sível a execução de atividades básicas de vida diária. Devido ao contato direto entre as TAs e os usuários, como as órteses e as cadeiras de rodas que ficam em contato direto com o corpo, os aspectos relacio- nados ao conforto e agradabilidade do produto são importantes para que estes dispositivos sejam eficientes. Uma órtese ou cadeira de rodas desconfortável ou mal ajustada pode levar ao abandono do dis- positivo. Desconforto, dificuldade de uso, dor, formação de feridas e estética desagradável são as causas de abandono de órteses mais frequentes (SAFAZ, et al. 2016). No caso da bengala, embora não se analise o conforto propriamente, são necessários estudos de desem- penho para avaliar a eficiência destes dispositivos.

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Além dos aspectos físicos, a satisfação do usuário com o dispo- sitivo também influencia o abandono de diversos dispositivos de TA, sendo necessária, assim, a avaliação da percepção do usuário. Manu- tenção dos dispositivos, redução de dor, conforto e desconforto e usa- bilidade percebida são alguns dos aspectos avaliados (Figura 1).

Figura 1: Avaliações de Dispositivos de Tecnologia Assistiva

As avaliações podem ser feitas com uso de questionários, que podem ser específicos para determinadas TAs, ou que se utilizam de critérios não diretamente relacionados aos dispositivos, como a satisfação do usuário em seu desempenho e qualidade de vida. Segundo Bettoni et al (2016), uma abordagem utilizada é a aplicação de questionários validados específicos para o tipo de problema para o qual a órtese foi indicada (Carpal Tunnel Questionnaire, Shoulder

and Hand questionnaire, Foot Health Status Questionnaire e Foot Function Index, são alguns exemplos), entretanto, por não se referir

diretamente ao dispositivo avaliado, esse tipo de questionário deixa de lado questões importantes como percepção de eficiência das órteses, apelo estético, conforto e desconforto.

O QUEST 2.0 (Quebec User Evaluation of Satisfaction with Assis-

tive Technology 2.0) é um questionário para avaliação de satisfação

de tecnologias assistivas em geral, validado e adaptado para o portu- guês. O questionário aborda atributos físicos do produto, como peso, tamanho, estética, durabilidade, além de eficácia geral e conforto. Apesar de não ser específico para órteses, também pode ser aplicado para a avaliação das mesmas (BETTONI, 2016).

Uma outra alternativa observada na literatura é a aplicação de questionários específicos, elaborados pelos próprios pesquisadores ou terapeutas, como o utilizado por Safaz et al. (2015) que aborda também causas de abandono do dispositivo, ou o questionário utili- zado por Requier et al. (2018) para avaliar a eficiência e a satisfação dos usuários com órteses de joelho e tornozelo.

Outra linha de estudos a ser desenvolvida é a avaliação de aspectos simbólicos ligados às órteses. A utilização de protocolos de diferencial semântico é uma alternativa para avaliar aspectos subjetivos desses dispositivos, como apresenta Rosenmann et al (2017), que se utilizou desse tipo de questionário para avaliar uma órtese de punho e mão desenvolvida através de impressão 3D.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A avaliação de usabilidade e adequação ergonômica dos produtos são alguns dos aspectos essenciais do design. Quando se trata de dis- positivos de Tecnologia Assistiva, tais aspectos são ainda mais impor- tantes, uma vez que a eficiência e eficácia na execução de tarefas utilizando esse tipo de produto está, muitas vezes, intimamente rela- cionada com a independência do usuário, auxiliando e possibilitando a execução de atividades básicas da vida diária, como a locomoção. Des- taca-se que os dispositivos de TA também devem atender às necessi- dades psicológicas dos usuários. Um produto livre de estigmas pode ser mais eficiente, se, através de sua estética, o usuário se sente esti- mulado a utilizá-lo. Dessa forma, as técnicas de avaliação em design encontram campo também em áreas correlatas à saúde, demons- trando assim, a interdisciplinaridade do design e seu potencial como área projetual nos mais diversos segmentos.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à CAPES pelo apoio financeiro.

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Márcio James Soares GUIMARÃES 1

Mariana Dias ALMEIDA 2

Otniel ALTAMIRANO 3

Valdirene Vieira NUNES 4

Marlon MERCALDI 5

Rafaela Nunes MENDONÇA 6

Iana PEREZ 7

Bruna Ramires BRITO 8

Mariane Torrezan MARCHESI 9

Jorge ZUGLIANI 10

Mônica MOURA 11

Design Contemporâneo na ação política e social:

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