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4. UMA OUTRA AFILIAÇÃO: trajetórias formativas de estudantes LGBTs na

4.2 Impressões, adaptação e primeiras dificuldades: conhecendo as interlocutoras e

4.2.6 O CAHL é muito paradoxal

Udinaldo é estudante de Jornalismo da UFRB, no Centro de Artes, Humanidades e Letras. É natural de Itaberaba - BA, tem 21 anos, é solteiro/a, sem filhos, oriundo de escola pública e autoidentifica-se como amarelo, bissexual e cisgênero. Udinaldo foi bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica - PIBIC, morou com amigos na cidade de Cachoeira enquanto fazia a graduação, e já está morando com os pais, pois quando realizamos a entrevista ele estava em fase de colação de grau. Durante a graduação sua renda financeira vinha exclusivamente de seus pais, que possuem renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos, e da bolsa do PIBIC. Udinaldo ingressou na UFRB em 2012, e já entrou na universidade bissexual. Para ele, a universidade, e mais especificamente o CAHL desenvolvem uma relação de muita incoerência no que tange às questões de gênero e sexualidade, pois a instituição não tem refletido na sua prática, aquilo que é latente na vivência estudantil.

A UFRB, acho que especialmente o CAHL, ele é muito paradoxal em relação a sexualidade. A gente tem um espaço de sociabilidade LGBT muito ativo, e atípico com relação a outras cidades do interior, e com relação a outros centros, mas tem uma dificuldade institucional muito grande de se trabalhar essas questões. Dentro da instituição nós sofremos várias violências cotidianas de professores, funcionários, e da própria instituição UFRB, que não considera identidade de gênero e várias questões assim, problemáticas. Eu acho que é essa a questão paradoxal, você tem uma liberdade de vivenciar sua sexualidade na cidade, que em uma cidade do interior você não tem tanta liberdade assim, mas a gente tem muita dificuldade em trabalhar essas questões. O pessoal do CAHL mesmo é muito distante no debate de gênero e sexualidade, apesar das pessoas serem pessoas mais abertas e tal.

105 Udinaldo relata que sentiu essa dificuldade da instituição trabalhar com essas questões, desde o seu primeiro semestre na universidade. Atraído pelo que colegas de sua cidade falavam sobre o centro, escolheu a UFRB para fazer Jornalismo, porém, assim que entrou na universidade foi recebido com ataques homofóbicos, através de mensagens pichadas no banheiro da instituição que pediam “morte aos gays”. Segundo ele isso foi um baque, e o fato de não ter nenhum tipo de resposta institucional, ou mesmo atuação de algum coletivo de diversidade sexual, que encabeçasse qualquer tipo de manifestação contra isso, intensificou a sensação de aquele não era um espaço seguro para LGBTs.

Meu primeiro semestre foi problemático assim, logo quando eu cheguei em 2012 foi quando teve aquele começo de ter mensagens escritas no banheiro de “morte aos gays”, e aí você se sente meio receoso, e quando eu cheguei não tinha nenhum grupo coletivo ativo, o Aquenda ainda estava inativo na época, então eu fiquei muito perdido assim para trabalhar essas questões de sexualidade. Já tinha me assumido para os meus pais e tal, só que eu via que o pessoal da minha sala era muito conservador, então meu primeiro semestre foi um baque. A partir do segundo, foi quando que eu comecei a conhecer o AQUENDA foi quando as coisas foram melhorando.

Entretanto, exceto essa situação de violência homofóbica simbólica, ele relata que sua adaptação ao cotidiano da universidade foi bastante tranquila, principalmente, porque quando foi para Cachoeira, já tinha diversos amigos que estudavam lá, o que facilitou, tanto a sua inserção nas redes de sociabilidade LGBT, quando o aprendizado das normas universitárias, já que haviam estudantes veteranos que lhe auxiliavam.

Udinaldo tem uma forte atuação na militância LGBT universitária. Participou durante toda a sua graduação do coletivo de diversidade sexual Aquenda, além de ter participado de grupos de estudos e pesquisas voltados às discussões sobre gênero e sexualidade. A leitura que Udinaldo faz da universidade frente às demandas de pessoas LGBTs é bastante crítica. Para ele, há uma intencionalidade por parte da instituição em dificultar o debate, e especialmente, há uma resistência por parte de alguns professores que os estudantes caminhem por essa área, como ele relata, a seguir:

Eu tive muita dificuldade com os professores daqui eu já tive caso de professor que não deixava eu fazer trabalho sobre gênero no jornalismo, porque gênero é uma palavra muito forte para se usar em um trabalho acadêmico. Eu já tive professores chamando sexualidade e BDSM6 de doença, de patologia e tal. Foi problemática a

minha relação com os professores, com o tema da sexualidade. No segundo semestre, não, terceiro semestre eu fui fazer uma entrevista sobre gênero e sexualidade, o professor não quis deixar, aí eu tive que recorrer ao conselho editorial do Reverso7

para ser aprovada a entrevista e eu conseguir fazer. Esse professor, ele não... porque

6 É uma expressão anacrônica para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo, um

grupo de padrões do comportamento sexual humano.

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assim, tem um prêmio aqui, o Prêmio Montezuma8, você conhece, e ele não enviou

os meus trabalhos para mim, para serem analisados, porque ele discordava da temática. Então você tem muita resistência, tem vários professores conservadores. Aí eu tive muitos problemas, muito professores machistas, homofóbicos, bizarros em sala de aula assim.

Para Udinaldo, a principal dificuldade que ele encontrou na sua formação, foi justamente essa resistência dos professores em discutir gênero e sexualidade na sala de aula, ou mesmo permitir que os estudantes realizem esses estudos em seus trabalhos e pesquisas pessoais. Segundo ele, não há em seu curso nenhuma disciplina que discuta essas questões, o que acabou atrapalhando a construção do seu Trabalho de Conclusão de Curso.

Como o meu objeto de pesquisa era a sexualidade, eu tive muita dificuldade de acesso a temática aqui na universidade, pois o nosso curso não tem disciplina que trate de gênero e sexualidade, então eu tive que fazer uma disciplina de outro curso com uma professora que não estava no meu colegiado, e a minha orientadora não tinha proximidade com os estudos de gênero, então para mim foi muito difícil lidar com esse desenvolvimento na universidade, do meu debate e tal.

É latente nos relatos de Udinaldo, que a principal resistência que ele encontra para a sua permanência na universidade, vem de uma resistência institucional em visibilizar as identidades de gênero e sexualidade não-normativas, e possibilitar o estudo e o debate dessas questões em seus cursos de graduação. Tal como relata Jesus, as questões de gênero e sexualidade apareceram para Udinaldo fora da sala de aula, em espaços construídos pelos próprios estudantes, quase sempre sem apoio institucional. Tais questões, ficam ainda mais latentes no decorrer das entrevistas, por isso, só mais a frente aprofundaremos nesse debate.

4.3 Transformações, vivências e violências: a experiência LGBT na passagem pela