36.
INT. CAÇAMBA DO CAMINHÃO - DIA
Rosálio, agora adulto, se acomoda da melhor forma possível na caçamba do caminhão, embaixo da pesada lona preta e em meio aos outros homens, que estão tão encolhidos e
desconfortáveis quanto ele.
O caminhão sacoleja pela estrada de terra. Rosálio, a princípio desperto e atento, não demora a cair no sono.
EXT. ESTRADA DE TERRA EM MEIO À MATA - DIA
O caminhão avança, sacolejando pela estrada. Ao lado do
motorista vai o Bode, homem mau encarado e chefe dos vigias.
Ele se acomoda na cadeira, recostando a cabeça para trás e tapando os olhos com um boné velho.
INT. CAÇAMBA DO CAMINHÃO - DIA
Rosálio acorda com o som da voz de um trabalhador ao seu lado.
TRABALHADOR 1
Água! Água pelo amor de Deus!
Rosálio se move, massageando um ombro dolorido. Sua boca se abre, seca. Ele engole saliva, olhando para o trabalhador que continua pedindo água, batendo na lataria do caminhão, na parte que divide a cabine da caçamba e fazendo um
barutlho alto de metal. O caminhão pára.
EXT. ESTRADA DE TERRA EM MEIO À MATA - DIA
Os vigias do caminhão descem do veículo, entre eles o Bode.
Os vigias carregam armas de fogo, espingardas e pistolas. Um deles ergue a lona com violência. Rosálio leva as mãos aos olhos para protegê-los da súbita claridade.
TRABALHADOR 1
...CONTINUANDO: 37.
BODE
Alguém mais tá precisando de alguma coisa?
Ninguém tem coragem de responder.
BODE Ótimo.
Os vigias retomam seus postos, espalhados pelo caminhão. A lona volta a cobrir os homens. O Bode manda seguir viagem.
INT. CAÇAMBA DO CAMINHÃO - FINAL DE TARDE
Rosálio aperta a bexiga. Seu rosto se contorce com a dor.
Rosálio morde o lábio, agoniado. Fecha os olhos e dorme novamente.
EXT. MATA - NOITE
O caminhão pára em frente a um galpão. A lona que cobre os trabalhadores é novamente removida. Muitos acordam
asustados, alguns continuam deitados, muito cansados e zonzos.
Rosálio se levanta com dificuldade e percebe que tem as calças molhadas de urina.
Os vigias começam a puxar os trabalhadores para fora do caminhão. Rosálio repara nas armas que eles carregam.
De uma casa ao lado do galpão saem mais alguns vigias
carregando uma panela enorme. Os vigias apóiam a panela no chão e abrem espaço.
BODE Hora da bóia!
O Bode ri enquanto os trabalhadores avançam sobre a panela.
Rosálio apanha a comida com as mãos, assim como os outros. A comida não passa de um arroz pastoso de péssimo aspecto. Um dos vigias entrega uma cabaça com água aos trabalhadores, que bebem com avidez.
BODE
Tá bem, já comeram bastante! Que banquete, hein? Agora todo mundo pra dentro!
O Bode então repara na caixa de madeira que Rosálio tem nas mãos.
(CONTINUA...)
...CONTINUANDO: 38.
BODE
Espera aí! Deixa eu ver essa caixa aí!
Sem opção, Rosálio entrega a caixa ao homem, que inspeciona o objeto, girando-o nas mãos.
BODE
Bacana. Agora podem ir lá pra dentro.
O Bode segura a caixa de Rosálio nas mãos. Os vigias começam a guiar os trabalhadores para dentro do galpão, mas Rosálio fica no mesmo lugar.
ROSÁLIO
Moço, eu posso ter as minhas coisas de volta, por favor?
BODE Moço?
O Bode ri com desdém. Rosálio se aproxima com as mãos estendidas, mas é empurrado pelo Bode e cai no chão.
BODE
Sai, peste! É senhor Bode, pra sua informação, tá ouvindo? E isso daqui agora é meu. Ainda vô
desconta da sua dívida da viagem, pra cê ver como eu sô generoso.
Alguns vigias riem. Rosálio se levanta, amuado. O Bode fala enquanto apanha um cigarro do bolso da camisa.
BODE
Agora andem logo, pra dentro!
Os vigias recolhem a panela, enquanto alguns trabalhadores ainda tentam comer mais. Os vigias os afastam e começam a empurrá-los para dentro do galpão com violência.
INT. GALPÃO - NOITE
O grupo de trabalhadores entra no galpão, intimidado pelas armas dos vigias. O interior do galpão é escuro e sujo.
Dezenas de redes velhas e puídas estão penduradas nas vigas.
Algumas redes já estão ocupadas por trabalhadores de aspecto magro e cansado. Alguns deles se levantam para ver a chegada dos novatos, mas a maioria apenas dorme, indiferente ao
movimento.
(CONTINUA...)
...CONTINUANDO: 39.
Os vigias saem. Ouve-se o barulho de correntes e de um cadeado se fechando.
Rosálio tenta se deitar em uma das redes, mas outro homem o impede, tomando-a para si. Rosálio ainda tenta outra rede, de aspecto mais limpo, mas é novamente impedido por um homem mais velho e mais forte. Resta a ele uma rede menor, no
canto do galpão, ao lado da parede feita de tábuas de madeira.
Rosálio se deita e fecha os olhos.
EXT. GALPÃO - DIA
Os trabalhadores formam uma fila em frente ao galpão. Os vigias, novamente armados, distribuem ferramentas ao grupo.
EXT. FLORESTA - DIA
Os trabalhadores cortam àrvores com motosserras e machados.
Rosálio trabalha no grupo que carrega os troncos caídos até o caminhão.
Uma árvore tomba e Rosálio se aproxima de sua copa, agora recostada ao chão. Ele apanha algumas sementes e as coloca no bolso. Logo em seguida retomando seu trabalho de cortar os galhos e carregar o tronco.
EXT. FLORESTA - FINAL DE TARDE
Ao final do dia de trabalho, os vigias armados guiam novamente o caminhão com os trabalhadores até o galpão.
EXT. GALPÃO - NOITE
Rosálio roda nas mãos as sementes que catara durante o dia.
Ele tem também uma pedra, que usa para fazer um risco na parede ao lado de sua rede.
Rosálio se levanta e caminha em direção à porta. Ele dá três batidas e a voz de um vigia, vindo abafada do lado de fora, pergunta.
VIGIA 1