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Calderón de la Barca, e até mesmo pelo Macbeth, de Shakespeare, em cujo

último ato podemos ler a célebre consideração do personagem que dá nome à peça: “O amanhã, o amanhã, o amanhã, avança em pequenos passos, de dia para dia, até a última sílaba da recordação e todos os nossos ontens iluminaram para os loucos o caminho da poeira da morte. Apaga-te, apaga- te, fugaz tocha! A vida não é mais do que uma sombra que passa, um pobre histrião que se pavoneia e se agita uma hora em cena e, depois, nada mais se ouve dele. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando” (Shakespeare, 1993, p. 186, tradução modificada).

Jean-Luc Nancy observava que a peculiaridade da estratégia cartesiana estava precisamente no ato de desviar o foco da compreensão para a necessidade de tornar cognoscível, enfim, a fábula que fosse capaz de apresentar e ensinar, dirigindo os passos seguintes, a “moralidade” do sujeito enquanto ser pensante (cf. Nancy, 2008, p. 107). Em outras palavras, se, por um lado, se percebia que a ilusão não podia ser tão somente dispen- sada da atividade pensante, por outro, isso não chegava a consti- tuir qualquer motivo para um ensimesmamento melancólico. Para além disso, a operação intentada pela filosofia cartesiana se dedicava a evidenciar o modo como as coisas poderiam ser conhecidas, redundando em um modo de agir disposto ao desvelamento da verdade e da certeza. Nesse sentido, a dúvida fundamental cartesiana – cogito, ergo sum – não exatamente tenderia a responder aquilo que o mundo é em si, senão a uma peculiar construção da fabulação e da moralidade da razão, do

logos. Isso significa que a doutrina das idéias nas Meditações

cartesianas considera, antes, a semelhança das idéias, que são como “quadros” em relação aos seus originais (cf. Nancy, 2008, p. 103). O fluxo do pensamento, dessa forma, surge para balizar e fundamentar as condições de possibilidade que afirmam e autorizam a superioridade do homem como ser dotado de razão. Com isso, embora ele não possa se apropriar totalmente da verdade e da perfeição, ele se faz senhor do meio – o logos – que torna possível o conhecimento. Segundo Nancy, o que emerge da estratégia cartesiana é especialmente a pretensão de uma inven- ção verdadeira do mundo. Ou seja, a fabulação do mundo não seria o instrumento de uma exposição, senão o órgão de um equivalente da criação e de uma criação equivalente à Criação (divina). Inventando essa fábula, o homem cria – em uma sorte de fazer, fingir e formar –, um mundo que, mesmo não sendo o mundo efetivo, não contradiz as leis da criação (ex nihilo). Daí que o homem, através dessa fabulação (inovadora) do mundo, pode- ria representar a verdade científica (cf. Nancy, 2008, p. 106). Mas, além disso, quando essa invenção adquire o caráter de criação

autorizada – porque moralmente verdadeira –, é o próprio sujeito que se inventa em uma condição excêntrica em relação ao mundo sensível. Antes de corporal, o sujeito se inventa como ser racional, cerebralesco – o sujeito do saber verdadeiro deve ser o inventor de sua própria fábula (cf. Nancy, 2008, p. 106) que é sempre “equivalenda” (frag. 44).

A percepção da teatralidade do ver e do cogitar, tornados próprios do ser humano, conforme assinalada nas leituras de Agamben e de Nancy, desvela não só o aspecto ficcional e autorizador da invenção racional como também o interesse em aplacar a cisão entre homem e mundo. Os “quadros” criados pelo

logos, nesse caso, além de “presenças” apreensíveis pela mente,

formam um espaço fabular – ao qual é preciso dar fé e crédito, ou seja, conferir uma unidade capaz de compreender – e prender – a variedade. Porém, deslizando por entre as tramas e telas da ficção, o texto galáctico já se formulava, desde o prospecto “dois dedos de prosa sobre uma nova prosa”, contando com um virtual passo além do autonomismo ao se dispor à consideração da “va- riedade na unidade” e das “coisas como se passam [...] no ouvi- do” (Campos, 1964, p. 112). Há algo, então, que, através do uso da palavra potencializada pelo jogo de paronomásias, parece exceder à busca pela variedade reunida, ordenada, controlada logocentricamente. Em outros termos, caberia aventar a possibi- lidade de que, na dobra e desdobra dos significantes, algo escape à estratégia de identificação e qualificação projetada para capt(ur)ar a materialidade significante como linguagem pura. O epos se frustra: “principiava a encadear-se um epos mas onde onde onde” (frag. 35), e, assim, perdendo-se no mar (da lingua- gem), “a fala coalha a mão treme a nave encalha” (frag. 50). Mesmo que a disseminação dos significantes venha pautada ambivalentemente pela noção de “livro” e de “viagem”, em uma circularidade que é, ao mesmo tempo, centrípeta (“unidade na variedade”) e centrífuga (“variedade na unidade”), o texto ensaia uma elipse, cujos centros se mostram em “vértice vórtice” (frag. 12). Nesse movimento um tanto quanto excedente, no momento

em que o epos naufraga, a deriva faz emergir os vestígios de uma

epifania: precisamente, um aparecer (phainein) de significantes, de

pedaços ou cacos de linguagem, sobre (epi) a página branca – onde o branco é tanto hesitação quanto resto de um signo calcinado ou, de outro modo, o pó “holocáustico” da linguagem pura –, dando margem a um dictum diferencial: “a viagem faz-se / nesse nó do livro onde a viagem falha e falindo se fala onde a viagem / é poalha de fábula sobre o nada é poeira levantada é ímã na limalha” (frag. 31), “e no entanto via / ainda i punti ou se esforçava para a matéria do paradiso de dante / formas non per color ma per lume parvente plasma luminoso fuor di / color” (frag. 33). Com isso, na falência – no naufrágio – da épica é a própria topologia que se dispõe à falha, expondo e farfalhando na “página do liber figurarum” (frag. 38) a tropologia monadológica e metamórfica da palavra que veicula séries de imagens possíveis, i.e., imaginações: “não se trata / aqui de uma equivalenda mas de uma delenda esquiva” (frag. 44). A folha de papel, nesse sentido, se abre à disseminação espermática do palavrório que, conforme lembrava Aristóteles (apud Heller- Roazen, 2003, p. 12), é sempre portador da verdade e da mentira: a palavra se metamorfoseia em semente que contém em si mesma a virtualidade da folha que virá ou não (cf. Goethe, 1997, pp. 12- 13, 34-35). Em outros termos, a emergência da tropologia da invenção galáctica, dessa maneira, poderia ser vista como a ação de aventar a urgência da significação em outro aspecto que não o da ordem e da propriedade. Quando o “escrito” vem junto com o “excrito” (frag. 35) ou até mesmo com o “excretado”, se pensa- mos no décimo segundo fragmento galáctico70, o livro, antes de

70 Escrito entre 04 e 06 de setembro de 1964, Haroldo de Campos rememora

sua passagem pelo País Basco: “a relva suavemacia feito um púbis verde dourando ao sol curvas mansas / ovelhadas de branco em san sebastián depois o mar mugindo mar cor de / cola de peixe águas quase esperma espermacete batendo o molhe peixes / sangrados no piso de pedra olhos vidros tripas na graxa fateixas / famintas e o óleo o cheiro rícino do óleo oleando mas itziar virgen / basca patrona de los pescadores e guipúzcoa é

ser o fundamento da verdade criadora (como o era na lógica visionária da religião, secularizada ou não), se presta a um uso “obnubilado”, no qual ele pode ser tanto leque (éventail) quanto evento (événement).

O texto se tranforma, ou melhor, se metamorfoseia. Não apenas porque a quadrícula explode na miríade de convulsões galácticas, mas especialmente porque a relação entre significante e significado parece se dispor a uma abertura ainda mais ousada. Em um dos poemas publicados na seção “excrituras” de Xadrez de

estrelas, desdobrando o conceito de texto utilizado, por exemplo,

na leitura da poética da radicalidade de Oswald de Andrade71, Haroldo de Campos (1976, p. 185) apresentava um ponto de infle- xão que, a despeito do furor inventivo, se fazia acompanhar de um desgaste, nesse momento, pouco “espermático”: “um / texto // pó-diamante / sobre / sambaquis / hífen / entre / esqueletos / figuras / de / linguagem / calci- // ilegível // -nada”. O sambaqui, depositório branco dos restos que sobram da mandibula gulosa, aqui, indica a página como substrato para uma palavra morta – calcinada – da qual nada parece surgir, a não ser um canto ilegí- vel, sem pensamento por vir, à beira do mutismo. O pó cristalino e o branco da página, por outro lado, ressurgirão especialmente no trigésimo terceiro fragmento das Galáxias – escrito entre 17 e 27 de janeiro de 1968, onde o poeta paulista (co)memora o encontro com Ezra Pound, na Itália: