• Nenhum resultado encontrado

O guigó-de-Coimbra-Filho, Callicebus coimbrai (Figura I.2), é o táxon de primata

mais recentemente descrito para a Mata Atlântica brasileira, tendo sido descoberto há pouco

mais de 10 anos. Os indivíduos desta espécie são típicos do grupo Personatus, com peso

médio de 1.200 g e comprimento em torno de 82 cm (47 cm de cauda e 35 cm de cabeça e corpo) (Kobayashi & Langguth, 1999). Para dois indivíduos desta espécie manejados em cativeiro durante o presente estudo, uma fêmea adulta e outra jovem, obteve-se os seguintes valores, respectivamente: 1.400 g e 740 g de massa corporal; 81 cm e 79 cm de comprimento total (ICMBio/CPB, dados não publicados).

Quanto à pelagem, são facilmente identificados como membros do grupo Personatus

pela cabeça escura e cauda laranja ou acastanhada. Apresentam cara, parte superior da cabeça (coroa) e orelhas pretas; listra vertical branca na lateral da face; nuca branca; padrão “zebrado” na parte anterior das costas; patas pretas; pele da face, das orelhas, e da planta das patas preta; cauda laranja; resto do corpo com pêlos pretos, brancos e avermelhados mesclados, gerando um aspecto geral acinzentado ou amarronzado (Kobayashi & Langguth, 1999).

13

Figura I.2. O guigó, Callicebus coimbrai Kobayashi & Langguth, 1999: A) indivíduo em vida livre (fotografia de A. Gambarini); B) fêmea jovem em cativeiro; C) ilustração da espécie por Stephen Nash

(adaptado de van Roosmalen et al., 2002); D) espécimes da série tipo usada para descrição da espécie,

tombados na Coleção de Mamíferos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

A B

C

14

Figura I.3. O guigó-da-Caatinga, Callicebus barbarabrownae Hershkovitz, 1990: A)

ilustração da espécie por Stephen Nash (adaptado de van Roosmalen et al., 2002); B)

indivíduos em vida livre (fotografia de A. Estrela); C) indivíduo em cativeiro (fotografia Zoo de Salvador); D) indivíduo em cativeiro (fotografia A. Pissinatti/CPRJ).

Distingue-se das demais formas do grupo Personatus pela testa, coroa e orelhas negras

que contrastam fortemente com as costeletas, bochechas, porção posterior da cabeça, nuca e

tronco claros (Kobayashi & Langguth, 1999; van Roosmalen et al., 2002). Especificamente

com relação a C. barbarabrownae (Figura I.3), Kobayashi & Langguth (1999) afirmam que

C. coimbrai é claramente diferenciado por sua cabeça e coroa negras com uma nítida linha demarcando a parte traseira da coroa e nuca esbranquiçadas, bem como pela faixa

preauricular clara e a cauda acastanhada, enquanto van Roosmalen et al. (2002) destacam que

esta espécie não tem testa e coroa claras como a primeira. Entretanto, as observações do

presente e de outros estudos (Printes, 2007; Sousa et al., 2008) têm indicado variações no

padrão de coloração da pelagem destas espécies, que, associadas às respostas comportamentais dos guigós não habituados a observadores (frequentemente fuga), dificultam a identificação taxonômica em campo a partir destas características (ver Figuras I.2 e I.3).

15

I.3.2. Distribuição geográfica: conhecimento atual e problemática

A distribuição geográfica conhecida de C. coimbrai cobre pouco menos de 30.000

km², compreendendo a zona da mata de Sergipe e litoral norte da Bahia (Jerusalinsky, 2008; Figura I.1). Os limites oriental (Oceano Atlântico) e setentrional (rio São Francisco) de distribuição da espécie são bem definidos, por serem grandes e estáveis barreiras físicas à

dispersão. Não existe qualquer registro de Callicebus na margem esquerda do rio São

Francisco nos Estados de Bahia, Alagoas e Pernambuco, determinando os limites norte e

noroeste do gênero na Mata Atlântica e Caatinga (Oliver & Santos, 1991; Printes et al., 2013).

Em concordância com Hershkovitz (1990), que propôs como limite setentrional para

C. barbarabrownae o rio Itapicuru, no extremo norte do litoral baiano, Kobayashi &

Langguth (1999) sugeriram esse rio como limite meridional para a distribuição de C.

coimbrai, o que foi seguido por van Roosmalen et al. (2002). Entretanto, recentes registros de Printes (2005, 2007) próximos ao Recôncavo Baiano, apontaram o rio Paraguaçu como

presumível limite sul da distribuição de C. coimbrai, supostamente atuando como barreira ao

contato com C. melanochir (Figura I.1).

Já o limite ocidental da distribuição de C. coimbrai permanece mal definido, embora

tenha sido proposto e pareça provável que coincida aproximadamente com os limites da Mata

Atlântica e, portanto, com a borda oriental da distribuição de C. barbarabrownae, espécie que

ocupa ambientes associados ao bioma Caatinga (Jerusalinsky et al., 2006; Printes, 2007;

Jerusalinsky, 2008; Printes et al. 2011, 2013). Recentes estudos de Beltrão-Mendes (2010) e

Santos Jr. (2010) no baixo São Francisco sergipano evidenciou um hiato de cerca de 45 km entre as populações situadas a até 45 km da costa oceânica, portanto na Mata Atlântica, e aquelas a mais de 90 km do litoral, portanto na Caatinga. Esse hiato corresponde às formações conhecidas como agreste, na transição entre os dois biomas, conferindo suporte adicional a essa potencial barreira ecológica entre estas espécies.

Relacionado a isto, emergem duas questões fundamentais. A primeira diz respeito aos limites originais de distribuição geográfica entre essas duas espécies vizinhas e seus fatores condicionantes e, principalmente, à possível existência de uma zona de contato, sobreposição ou mesmo de hibridização. A segunda se refere aos efeitos da ocupação humana na região sobre esses limites originais, considerando que o processo de desmatamento associado a essa ocupação pode ter gerado alterações na estrutura e composição da vegetação. Nesse sentido, Coimbra-Filho & Câmara (1996) avaliam que teria ocorrido um avanço das matas mais secas e formações características da Caatinga sobre áreas antigamente cobertas por matas mais úmidas associadas à Mata Atlântica.

16

Assim, investigações adicionais sobre a extensão ocidental de C. coimbrai e suas

relações biogeográficas com as formas mais próximas geográfica e filogeneticamente tornam-se imprescindíveis para auxiliar na definição dos limites destas distribuições. Sob uma ótica conservacionista, tal definição é fundamental para estimar a extensão de ocorrência (um dos itens fundamentais para avaliar o estado de conservação das espécies) e para incrementar as estratégias de manejo dessas espécies ameaçadas de extinção. Nesse contexto, os levantamentos e mapeamentos de populações em campo são claramente necessários para refinar o conhecimento sobre essas distribuições.

Complementarmente, a avaliação de distribuições potenciais pode auxiliar na compreensão desses limites, potenciais zonas de contato e fatores envolvidos. Modelagens para tal podem ser particularmente úteis para abordar a problemática em questão já que: não há barreiras geográficas evidentes, como rios ou relevos acentuados, delimitando a distribuição dessas espécies; há dificuldades para identificação taxonômica destas espécies em vida livre; se trata de táxons ameaçados de extinção, o que limita ou impede a coleta de espécimes sem afetar a viabilidade das populações; e há dificuldades na captura ou coleta não-invasiva visando a obtenção de amostras de material biológico para realizar análises genéticas. Dentre as numerosas técnicas matemáticas desenvolvidas para estimar a distribuição potencial de espécies, baseadas no conceito de nicho ecológico fundamental, a

modelagem utilizando o algoritmo de máxima entropia com o software MAXENT (Phillips et

al., 2006) tem sido das mais utilizadas, inclusive em abordagens conservacionistas para

primatas neotropicais (Mercado & Wallace, 2010; Peck et al., 2011; Vidal-García &

Serio-Silva, 2011).

I.3.3. Estado de Conservação

A região ocupada pelas populações de C. coimbrai sofreu sucessivos ciclos de

exploração econômica com severa devastação ambiental desde o século XVI, a partir do início da colonização europeia (Coimbra-Filho & Câmara, 1996), e ainda hoje vem sofrendo um contínuo processo de desmatamento e fragmentação de hábitats (Jerusalinsky, 2008;

Printes et al., 2013). Em Sergipe, avalia-se que a Mata Atlântica tinha sido reduzida a

aproximadamente 40% de sua cobertura original ao começo do século XX e estima-se que este percentual tenha declinado para menos de 1% ao longo dos 100 anos subsequentes (Siqueira & Ribeiro, 2001). Segundo dados oficiais recentes, originalmente a Mata Atlântica cobriria pouco mais de 54% do território desse estado, restando, em 2006, apenas 5,5% de remanescentes, incluindo os vários estágios de regeneração em todas as fisionomias, e

17

somente 1,39% desta área estaria protegida em unidades de conservação federais e estaduais (Campanili & Schaffer, 2010).

Habitando esta paisagem altamente fragmentada, C. coimbrai foi inicialmente

observado em fragmentos florestais relativamente extensos para o contexto regional, com 40 ha a 900 ha de extensão (Kobayashi & Langguth, 1999; Sousa, 2000, 2003). Até o início do presente estudo, a ocorrência do guigó tinha sido registrada em apenas 15 localidades de Sergipe e uma da Bahia (Kobayashi & Langguth, 1999; Sousa, 2000, 2003) e não ocorria em

áreas protegidas oficialmente (Silva et al., 2005). Apesar de, em paralelo ao desenvolvimento

do presente estudo, terem sido publicados resultados preliminares do mesmo (Jerusalinsky,

2008; Jerusalinsky et al., 2006), ter ocorrido a ampliação do conhecimento sobre áreas de

ocorrência de C. coimbrai a partir de outros estudos (Printes, 2005, 2007; Sousa et al., 2008;

Beltrão-Mendes, 2010; Santos Jr., 2010; Rocha, 2011; R. Hilário, com. pess.) e terem sido

criados o Refúgio de Vida Silvestre da Mata do Junco (Santos Jr. et al., 2007) e duas Reservas

Particulares do Patrimônio Natural (RPPN – Brasil/IBAMA, 2006, 2007) em fragmentos com sua presença, o panorama situacional da espécie não se alterou substancialmente em termos de seu estado de conservação.

Com isso, C. coimbrai, que foi considerado em risco de extinção imediatamente após

sua descoberta, atualmente permanece entre os primatas neotropicais mais ameaçados de

extinção (Brasil/MMA, 2003; Veiga et al., 2008b; Jerusalinsky, 2008). Não existem,

entretanto, estimativas detalhadas, fundamentadas em dados sistemáticos, sobre o total de populações remanescentes e a extensão da área efetivamente ocupada pela espécie. Estas informações são essenciais para avaliar mais precisamente seu estado de conservação, assim como para iniciar o entendimento sobre alguns requisitos ecológicos básicos, tal como tamanho mínimo de área para comportar grupos da espécie e garantir sua viabilidade em longo prazo.