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4. CENTRO CULTURAL VILA ITORORÓ

4.1 CAMADAS TEMPORAIS DA "VILA SURREALISTA"

Pesquisar sobre a Vila Itororó é se deparar com a história de São Paulo, suas memórias afetivas em diferentes momentos do século XX e as imagens construídas a respeito deste lugar que está em constante construção. Muitas características foram atribuídas a Vila Itororó ao longo dos anos: o escritor Mário de Andrade teria se referido à Vila como “Vila Surrealista”, devido suas particularidades arquitetônicas; a arquiteta Lina Bo Bardi teria reconhecido a importância do complexo; Adoniran Barbosa levou Elis Regina para conhecer o Bixiga em 1978 e caminharam juntos pela Vila, como mostram registros audiovisuais da época. A esses episódios com intelectuais e artistas somam-se os imaginários populares construídos ao longo do tempo: vila assombrada, cortiço caindo aos pedaços, lugar abandonado, “uma velha vila que vai acabar”, pitoresca, sui generis, entre tantas outras imagens produzidas. Podemos retomar o pensamento proposto por Silva no que diz respeito as formas de percepção da realidade, como visto anteriormente. O que é imaginado sobre a Vila Itororó se confunde com a realidade empírica, porém ambas constroem juntas uma realidade social sobre a Vila.

Nesse sentido, Silva discorre sobre os espaços possíveis presentes na cidade, que somados formam uma organização cultural. Dentre eles, há o espaço do imaginário, como o autor apresenta:

129 A cidade, assim, corresponde a uma organização cultural de um espaço físico e social. Enquanto tal, uma cidade tem a ver com a construção dos seus sentidos. Haveria, conforme disse, vários espaços que pontuo deste modo em uma divisão fundamental: um espaço histórico, que se relaciona com a capacidade para entendê-la em seu desenvolvimento e em cada momento; um espaço tópico em que se manifesta fisicamente o espaço e sua transformação; um espaço tímico que se relaciona com a percepção do corpo humano, com o corpo da cidade e com outros objetos que o circundam, e outro não menos importante, o espaço utópico, onde observamos os seus imaginários, os seus desejos, as suas fantasias, que se realizam com a vida diária. (SILVA, 2001, p. 77).

Os quatro tipos de espaços da cidade propostos por Silva são correlacionados e, embora o foco desta pesquisa não seja o espaço tópico, é necessário contextualizar o leitor sobre a construção da Vila Itororó. Há diversos estudos científicos sobre a Vila, de arquitetos e urbanistas que tratam do tema com propriedade, vamos nos apoiar nessas pesquisas para compreendermos as camadas simbólicas. É preciso resgatar o espaço histórico da Vila, pois seu passado continua vivo e reflete diretamente no centro cultural existente desde 2015.

A seguir, vamos apresentar um breve histórico da Vila e seus significados ao longo do tempo.

Há muitas informações dispersas sobre o início da Vila Itororó, datas equivocadas e lendas transformadas em dados factuais. Para assegurar o rigor acadêmico, utilizamos como base o estudo realizado pelas pesquisadoras Sarah Feldman e Ana Castro, materializado na publicação de 2017 “Vila Itororó: uma história em três atos”. Realizamos também entrevista com Norton Ficarelli, diretor adjunto do Instituto Pedra, responsável pela gestão da Vila a partir de 2015, como veremos mais adiante. Ficarelli nos conta sobre a difusão de informações incorretas sobre a Vila no que diz respeito ao início de sua construção:

A gente começou a entender melhor o porquê ela foi construída.

130 estava escrito na fachada "1917". Aí tem outra, que tá lá até hoje,

"1922". E o palacete também está "1922" na fachada. Só que o predinho, que é a casa 11, ele foi construído depois da morte do Francisco de Castro. E claro, os puxadinhos que vieram depois, pelo menos três casas que foram demolidas. Então a gente costuma dizer que a Vila Itororó foi principalmente construída entre as décadas de 1910 e 1920, depois foi só o predinho. (FICARELLI, 2019).

O primeiro proprietário e construtor da Vila foi Francisco de Castro, nascido em Guaratinguetá, São Paulo, e filho de portugueses. Entre idas e vindas de Portugal, Castro se estabelece em São Paulo em 1892, “momento em que a riqueza gerada pela expansão cafeeira estabelece as bases de uma economia urbano-industrial” (FELDMAN, 2017, p.20). Nessa época, São Paulo se firmava como centro da economia nacional e de modernização da vida urbana, crescendo em ritmo acelerado, entre 1900 e 1920, o número de prédios passa de 21.656 para 60 mil e a população chega a quase 600 mil, de acordo com Feldman. “A compra de lotes com o objetivo de construir prédios para venda ou aluguel parece ter sido a forma pela qual Francisco de Castro se inseriu em atividades do ramo imobiliário”

(FELDMAN, 2017, p.27). A partir de 1908 Castro começa a comprar lotes do atual terreno da Vila e aparece como construtor em documentos da prefeitura, numa época em que as profissões de engenheiro e arquiteto ainda não eram regulamentadas. Ele almejava conquistar um status social por meio da renda proveniente do aluguel de moradias que viria a construir nos próximos anos.

Castro constrói no mesmo terreno das casas de aluguel a sua moradia, um palacete imponente, construído com materiais de demolição do antigo Teatro São José, que se destoava das outras construções, e representava que ali viveria alguém de mais posses, enquanto o resto das pessoas moraria de aluguel em casas mais simples. O palacete não seguia nenhum estilo arquitetônico definido, composto por grandes colunas de estilo grego, estátuas de leões, carrancas do Teatro São José, vitrais com brasões, e outros elementos de origem não identificada, colaboraram para que o palacete se tornasse um símbolo de ascensão social que Castro almejava. Na década de 1920, recebeu a elite paulistana da época, artistas e membros da alta sociedade em festas e celebrações. Ele também construiu a primeira piscina privada de uso público de São Paulo, abastecida pelas

131 águas do Rio Itororó, cuja nascente se encontra dentro do terreno e deu nome à Vila. Itororó, em tupi-guarani, significa “água barulhenta”, e essas águas alimentavam todo o complexo de casas, além da piscina. Foi a partir delas, que Francisco de Castro pensou no que seria o primeiro centro cultural da Vila, denominado Instituto Helio Hydrotherapico, que teria a piscina para aulas de natação, banhos a vapor, aparelhos de ginástica e esgrima, salão de dança e jardins para crianças. O projeto não foi implementado, pois Castro faleceu em dezembro de 1932, em dívidas e hipotecas com garantia de seus imóveis.

Figura 99 – O palacete que era símbolo da ascensão social almejada por Francisco de Castro.

Fonte: Acervo Milu Leite (sem data).

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Figura 100 – Cartão postal da fonte da Vila Itororó. Fonte: Acervo do site São Paulo Antiga (1922).

Figura 101 – Piscina da Vila Itororó, provavelmente durante prova de natação. Fonte: Acervo Milu Leite (1929).

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Figura 102 – Notícia do jornal Folha da Manhã, de 5 de maio de 1929, noticiando um churrasco para comemorar a primeira prova de natação do Instituto Helio Hydrotherapico. Fonte: Acervo

Folha (1929).

Os primeiros anos da Vila, durante a década de 1920, acompanharam o crescimento de São Paulo e simbolizaram o uso público daquele espaço comum de moradia e lazer pela elite da época. Com a morte de Castro, a Vila é transferida ao proprietário Augusto Oliveira Camargo, que dá continuidade ao negócio de habitação de aluguel das casas e passa a sublocar a piscina, o salão de jogos e de ginástica ao Éden Liberdade Futebol Clube, organização desportiva do bairro que permanece na Vila até os anos 1990, “sua utilização se restringia aos sócios e, embora muitos ex-moradores destaquem o luxo de ter uma piscina ao lado de casa, nem todos tiveram condições de pagar as mensalidades para poder frequentá-lo”

(FELDMAN, 2017, p.91). O proprietário divide o palacete em quatro residências, que passam a ser alugadas independentemente, como explica Feldman, o palacete abrigava famílias com maior condição econômica e as segregações foram tornando-se cada vez mais acentuadas. A renda das locações era destinada ao hospital que Camargo estava construindo em Indaiatuba. Como explica Feldman:

134 A renda dessas locações era destinada ao hospital que Camargo e sua esposa Leonor de Oliveira Camargo estavam construindo em Indaiatuba, no interior de São Paulo, que entrou em atividade em 1933. [...] Em 1945, oito anos após o falecimento de Oliveira Camargo, a viúva transfere o conjunto da Vila à instituição beneficente ligada à Santa Casa de Indaiatuba que levava o nome de seu marido, beneficiária a partir de então dos aluguéis arrecadados. (FELDMAN, 2017, p.90).

As famílias que viveram na Vila até a década de 1970 foram um reflexo das transformações sociais, econômicas e culturais de São Paulo, que abrigava pessoas vindas de várias regiões do país e também imigrantes de outros países, enquanto firmava sua identidade como metrópole. Os ex-moradores encontravam na Vila uma forma de acesso à moradia na região central da cidade, próxima a oportunidades de trabalho, escolas, parques, bibliotecas, hospitais e outros serviços e espaços públicos disponíveis nas proximidades. Nesse período, a Vila comportou, segundo Feldman, moradores de classe média baixa que aspiravam a ascender, num momento de crescimento da cidade. Era comum gerações da mesma família nascerem e crescerem na Vila, entre avós, mães, pais, tios, filhos, netos e primos, construíam laços de pertencimento no espaço. As relações de parentesco se misturavam às de amizade e “desde sempre houve uma sociabilidade intensa entre os moradores, facilitada, é certo, pelo próprio arranjo arquitetônico” (FELDMAN, 2017, p.100). Crianças brincavam nos espaços abertos entre as casas, entre roupas penduradas nos varais e os mais velhos promoviam festas e sessões de cinema, como contam ex-moradores entrevistados na pesquisa de Feldman e Castro.

Nesse sentido, a Vila continha redes de sociabilidades, laços afetivos construídos entre os moradores, que juntos criaram experiências de morar em coletivo. Mais do que um espaço de moradia, a Vila foi um espaço de resistência das mudanças de uma São Paulo que se verticalizava cada vez mais. A vida em comunidade, a comunicação horizontal e aberta entre os moradores, criou uma cultura de pertencimento e de apoio coletivo. Originou-se ali uma imagem de cidade solidária e afetiva, diferente da imagem da São Paulo como imponente metrópole verticalizada, do individual em detrimento do coletivo. Como visto anteriormente, o Centro possui várias imagens diferentes produzidas simultaneamente, que não se excluem, mas que somadas desenvolvem uma multiplicidade de cidades, que

135 alteram o modo de ver e viver a cidade. Nesse sentido, a cidade interativa é feita de sensibilidades comunicacionais, como discorre Ferrara:

A cidade é política e comum, mas complementada por estímulos interativos que agem como uma comunicabilidade sensível, feita de rugosidades e possíveis descompassos ou discordâncias pautadas por imagens, olfato, volumes e tatilidades dos corpos em contato físico e subjetivo, na medida em que se misturam e contagiam afetos, alegrias, tristezas, desejos, ações, reações, adesões e resistências. (FERRARA, 2018, p.187).

A respeito dessa multiplicidade de cidades, Richard Sennett categoriza dois tipos principais de cidade. Uma cidade fechada, que seria determinada e linear, e uma cidade aberta, que acolhe as imprevisibilidades e está em constante construção, não almeja um resultado completo. Podemos compreender a experiência da Vila como um exercício de cidade aberta. Como analisa Sennett:

Nesta conversa, resumi um grande contraste, o existente entre a cidade fechada e a cidade aberta. Fechada significa excessivamente determinada, equilibrada, integrada, linear. Aberta significa incompleta, errante, conflitante, não linear. A cidade fechada é cheia de fronteiras e paredes. A cidade aberta apresenta mais divisas e membranas. A cidade fechada pode ser projetada e operada de cima para baixo. É uma cidade que pertence aos senhores. A cidade aberta é um local de baixo para cima. Ela pertence às pessoas. É claro que esses contrastes não são absolutos em preto e branco. A vida real é pintada em tons de cinza.

No entanto, para projetar bem a cidade moderna, acredito que precisamos desafiar suposições impensadas feitas hoje sobre a vida urbana, suposições que favorecem o fechamento. Acredito que temos de adotar ideias menos tranquilizadoras e mais febris sobre viver juntos, aqueles estímulos de diferenças, tanto visuais quanto sociais, que geram abertura. (SENNETT, 2015, p.38).

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Figura 103 – Moradores da Vila Itororó na década de 1960. Fonte: Vila Itororó: uma história em três atos/Acervo particular Célia.

Figura 104 – Crianças jogando bola no pátio entre as casas da Vila na década de 1970. Fonte:

Antônio Lucio/Estadão.

137 A partir da década de 1970, São Paulo vive um momento de precarização das condições de moradia e um processo de acirramento da crise habitacional que impacta na Vila Itororó. Os novos moradores são migrantes intraurbanos, que vêm de bairros distantes, na busca de melhor qualidade de vida, perto do emprego, transporte e serviços públicos. Essa nova geração de moradores permaneceu na Vila por cerca de trinta anos, dando continuidade às festas que eram parte do cotidiano, promovendo ainda mais vínculos de afeto no conjunto de moradias. A Vila sofre as consequências da crise habitacional e financeira a partir dos anos 70 e, como pontua Feldman, os espaços das casas são subdivididos em cômodos para aluguéis independentes:

É quando a estratégia de aluguel de quartos se generaliza, passando a ser utilizada, inclusive, nos andares altos do palacete.

Corália, locatária do terceiro pavimento, velha pianista que morava apenas com uma dama de companhia, passa a sublocar quartos para estudantes, para complementar a sua renda. No segundo pavimento, a mineira Maria também subdivide o seu andar em quatro unidades. Nesse movimento, algumas casas e sobrados também vão se expandindo com “puxadinhos” e extensões para abrigar parentes, amigos ou novos inquilinos, que garantiriam uma renda extra. (FELDMAN, 2017, p.113).

A partir dessa época, começam rumores de que a Vila iria acabar e em uma matéria publicada no jornal Estadão, em 12 de março de 1975, intitulada “Itororó, uma velha vila que vai acabar”, os boatos se concretizaram. A matéria discorre sobre a primeira proposta de intervenção sobre a Vila que visava transformar o conjunto de moradias em um centro cultural. Um grupo formado pelos arquitetos Benedito Lima de Toledo, Claudio Tozzi e Décio Tozzi, junto à curadora Aracy Amaral e ao paisagista Burle Marx, apresentaram uma proposta de uso que pretendia transformar a Vila num polo artístico, gastronômico e turístico. Alguns anos depois, em 1978, uma segunda proposta é apresentada, pelo Sesc São Paulo, que tinha interesse em comprar o complexo da Vila e transformá-la num centro de convivência cultural, com praça, restaurante, teatro, cinema, galeria de arte e biblioteca.

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Figura 105 – Notícias dos jornais O Estado de S. Paulo, em 1975, anunciando a proposta do grupo de arquitetos, e da Folha de S.Paulo, em 1978, sobre o interesse do Sesc na Vila. Fonte: Fonte:

Vila Itororó: uma história em três atos.

Figura 106 – Desenho do grupo de arquitetos que esboça o centro cultural proposto por eles.

Fonte: Revista Módulo (1976).

139 As duas propostas não levaram em conta a moradia, função que estava presente desde a origem do projeto de Castro, nem as dinâmicas comunicacionais já estabelecidas pelos moradores. Ainda mais preocupante, é o fato de não terem pensado no destino das pessoas que moravam na Vila. Como mostra a figura acima, o centro cultural proposto pelo grupo de arquitetos previa um restaurante com garçons servindo os visitantes, o que nos faz refletir para quem era destinado esse centro cultural? Como fica a relação afetiva dos moradores com o espaço? O que acontece com todas as manifestações de cultura originadas dos moradores?

Trechos da proposta do grupo de arquitetos incluía que a Vila “seria devolvida à população” e que deveria ser preservada com a demolição dos “acréscimos espúrios que violentaram tanto o caráter plástico como a organização espacial e a escala do conjunto”. Ora, mas a Vila já não fazia parte da vida da população? E como classificar algo como inautêntico em um espaço que é justamente formado por uma colagem de diferentes características?

É possível pensarmos no debate visto anteriormente entre revitalização e gentrificação. A Vila na década de 1920, quando foi ponto de encontro da elite paulista, não era criticada, mas quando é ocupada por classes mais baixas, sofre ameaças e passa a ser representada como um problema. Nesse sentido, Sennett comenta sobre o apagamento da memória nos centros das cidades, em que a revitalização não leva em conta os modos de cultura existentes e retira as pessoas que sempre viveram na região. De acordo com o autor:

Na Grã-Bretanha e no Continente, assim como nos EUA,

“revitalizar” o centro da cidade mais frequentemente significa deslocar as pessoas que viviam lá antes. Mas essa fragilidade nos diz algo em contraste sobre o crescimento de um tipo mais aberto.

É mais complicado do que simplesmente substituir o que existia antes. Isso exige um diálogo entre os modos passado e presente, um diálogo amorfo e que frequentemente justapõe presente e passado sem qualquer modulação. Dessa forma bastante dissonante, o crescimento em uma cidade aberta é mais uma questão de evolução do que de apagamento. (SENNETT, 2015, p.23).

140 A esse respeito, Ferrara aponta que propostas pensadas apenas por um grupo de planejadores, sem levar em conta todo o ambiente de relações comunicacionais, visam a espetacularização da cidade e a produção de uma imagem midiativa. De acordo com a autora:

Tal idealização não se atém apenas às pranchetas dos planejadores, mas conquistou terreno nos meios de comunicação de massa que, além de promoverem e divulgarem as propostas milagrosas dos urbanistas, também produzem representações de uma cidade imaginada. Em diferentes mensagens e suportes, a moderna ideia de cidade se espetacularizou em réplicas de cenários perfeitos de convivência e promoção social, selecionou e exibiu locais que foram “iluminados” midiaticamente para compor e destacar a “melhor amostra” do que deve ser a imagem midiativa de uma cidade. (FERRARA, 2015, p.202).

De um lado, a imagem da Vila como um cortiço, um mero agrupamento de casinhas pobres, do outro, a imagem das relações de afeto dos moradores, a criação de uma experiência do morar coletivo e da resistência numa São Paulo voraz. É certo que a partir da década de 1970 ocorre um processo de

“encortiçamento” da Vila, porém isso se deu devido ao abandono da região central pelo poder público e a segregação da cidade. Perceber o complexo de moradias como um lugar desprovido de importância e tecidos simbólicos, é ignorar seu ambiente de vitalidade, memórias e vínculos de afeto.

Em 1982, o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) encaminha um pedido de tombamento da Vila com a justificativa de “considerar o conjunto uma construção singular, um testemunho da ocupação histórica e espontânea da cidade” e “pelo seu caráter sui generis” (FELDMAN, 2017, p.123). Diferente das propostas que não levaram em consideração o destino dos moradores, nas discussões sobre o seu tombamento essa questão foi suscitada. Na reunião do Conselho do Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico - em dezembro de 1982, o artista e arquiteto Flávio Império questiona a proposta de Toledo e dos irmãos Tozzi, pois compreendia que cultura e moradia não são valores antagônicos:

141 Desocupar essa área para espaço de lazer, para a pequena burguesia ir tomar cerveja e comer pizza no fim de semana, eu acho uma péssima interpretação do fenômeno dessa região. Uma outra destinação que eles previram foi a destinação das casas para ateliê de artistas, outra coisa que está completamente alienada, quer dizer, entender cultura por aí é um absurdo. (IMPÉRIO, 1982).

As discussões sobre o tombamento da Vila estendem-se até 2002, quando é efetivamente tombada pelo Conpresp – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio e, em 2005, pelo Condephaat. Em 2006, foi decretada área de utilidade pública e um processo de desapropriação é iniciado pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de São Paulo para fins culturais. Neste momento os moradores se organizam e um longo processo de luta e resistência é coordenado, uma vez que não tinham sido convocados a uma audiência pública e não houve abertura de diálogo pelo poder público, nem qualquer garantia de moradia. Numa primeira tentativa, com o apoio do Saju – Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da Faculdade de Direito da USP, os moradores entraram com ação de usucapião, pois desde 1996 a instituição proprietária abandona os imóveis ao parar de receber os aluguéis dos moradores, porém a ação não foi acatada.

A desapropriação ignorou o patrimônio cultural da Vila, a interação dos moradores com o espaço, os usos cotidianos, as relações de afeto estabelecidas, as lembranças de momentos vividos pelas famílias, enfim, o valor simbólico que a Vila carrega e as representações construídas sobre o espaço. Nesse sentido, Rolnik

A desapropriação ignorou o patrimônio cultural da Vila, a interação dos moradores com o espaço, os usos cotidianos, as relações de afeto estabelecidas, as lembranças de momentos vividos pelas famílias, enfim, o valor simbólico que a Vila carrega e as representações construídas sobre o espaço. Nesse sentido, Rolnik