5. Classificação e análise das variantes
5.1 Camilo Tradutor
Existem dois estudos sobre traduções camilianas, um feito por Paul Teyssier47 e outro por Maria Helena Joachin48. As conclusões a que chegam os dois estudiosos são basicamente as mesmas. P. Teyssier afirma que Camilo não era um tradutor fiel ao texto (uma tradução de Les Martyrs, autoria de Chateaubriand). Aponta muitos erros de tradução, omissões ou repetições de palavras que, segundo Teyssier, são motivados pela leitura rápida do texto. Cita também outras particularidades, das quais veremos algumas adiante, que julga distanciarem o texto traduzido do original.
Na tradução de Le Roman d’un Jeune Homme Pauvre, M. Joachin considera que
“Constituindo toda a tradução uma equivalência estabelecida entre dois idioletos, e resultando o texto vertido da efectivação de duas operações, a de compreensão e a de expressão, importa antes de mais nada indagar se a primeira é eficientemente realizada.” e conclui:
O cotejo entre os textos impõe-nos uma resposta afirmativa, que deve todavia incluir algumas restrições.” (JOACHIN, 1971, p. II)
47 TEYSSIER, Paul – Camilo tradutor de Chateaubriand in ……., p. 679 – 695. 48
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Tanto P. Teyssier quanto M. Joachin encontraram em suas análises os seguintes aspectos nos quais concordam:
1. Evita os galicismos – Os estudiosos camilianos são unânimes no que diz respeito à vernaculidade do autor. Para T. Verdelho, Camilo “aceitou e usufruiu deste estatuto de “mestre da língua”, de autorizador da boa linguagem, emparceirando assim com os grandes árbritos da vernaculidade, que são os autores clássicos”49. Sendo assim, evitar os galicismos é tarefa primordial, tanto na escrita original, quanto em suas traduções; 2. Omissão de determinantes – No francês, o uso dos artigos e dos possessivos é muito
comum. Camilo os evita, conferindo distanciamento à narrativa e maior literariedade; 3. Intensificações – mesmo diante de palavras que poderiam ser traduzidas próximas à
língua original, recebem, em muitos casos, tratamento de intensificação por parte do tradutor. M. Joachin, como um dos exemplos de sua análise, destaca o uso da tradução cadáver para o original corps50;
4. Concisões – O movimento contrário do anterior citado é francamente utilizado nas traduções camilianas conferindo efeito incisivo ao texto, como no exemplo destacado por P. Teyssier: je me revêstis de mes armes51 traduzido por armei-me52;
5. Ordem diferente dos elementos na frase –é notório que Camilo foge à sintaxe fechada do francês, mudando a ordem dos elementos em português, para obeter efeito estético. 6. Arcaicismo – Camilo tinha tendência arcaizante, o que, segundo P. Teyssier, revela a
originalidade do autor em sua tradução: “Quando tem que escolher o equivalente português de um termo francês, Camilo procura muitas vezes uma palavra que, pela forma ou pelo sentido, tem um sabor ligeiramente antiquado” (TEYSSIER, 1994, p.692).
P. Teyssier e M. Joachin destacaram em suas discussões alguns aspectos camilianos presentes nos dois textos estudados, mas discordam em algum ponto de suas análises:
1. Gralhas e erros de leitura rápida – P. Teyssier aponta erros que não constituem apenas gralhas tipográficas mas julga que muitos deles são falta de atenção na leitura do original, o que o crítico aponta como descuidos lamentáveis. Já M. Joachin não discorda que há erros, entretanto diz que “são efetivamente raros os casos de distanciamento vizinho do erro ou de desasjuste imputável a uma deficiente captação do sentido[…]”(JOACHIN, 1971 p. 2).
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VERDELHO, Telmo – Camilo e a tradição vernacular in Actas…, p.320.
50 Ambos na página 14 de suas edições: A francesa de 1858 e a tradução com a nota preliminar de M.
Joachin em 1971 em Lisboa.
51 Página 252 do original francês, publicado em 1810. 52
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2. Omissões – Enquanto M. Joachin aponta as omissões como incidentes apenas sobre o óbvio ou banal, ou ainda com efeito atenuativo, P. Teyssier acredita que são “desfigurações do texto e deveriam ser corrigidas”(TEYSSIER, 1992, p.682).
3. Equivalências – P. Teyssier aponta Camilo como um tradutor bastante infiel na equivalência das duas línguas, enquanto M. Joachin tenta explicar que o francês que Camilo usava em sua época é bastante diferente do francês atual, o que explica muitas equivalências que podemos considerar como discutíveis.
Os dois estudiosos também apontam, individualmente, particularidades encontradas em seus objetos de estudo. No campo lexical P. Teyssier aponta três características da tradução camiliana:
1. Tradução de sinônimos – Palavras sinônimas, quando transladadas para o português, são traduzidas da mesma forma. Um dos exemplos apontados por ele é sons e accents53são traduzidas ambas como sons54.
2. Dificuldades para certos campos lexicais – nomeadamente, fauna e flora exclusivas de França, assim como tradições folclóricas que o estudioso considera serem novidades para Camilo.
3. Substantivos abstratos traduzidos como adjetivos ou advérbios – Camilo tende sempre a transformar a linguagem racional e abstrata em concreta e realística.55
As particularidades apontadas por M. Joachin são:
1. Neologismos – Sempre que uma tradução não encontra correspondente lexical em português, a tendência camiliana é a do neologismo assim como associações correntes em francês que traduzidas são forçadas, recebem diferente tradução: jeune coeur56 é traduzido por coração viçoso.57
2. Maior conotação – Camilo prefere, quando há duas opções, uma denotativa e outra mais literária, escolher a que tenha maior valor conotativo. Por isso, a tradução de Camilo costuma ser mais expressiva do que os originais, fato reforçado pelo uso de vocabulário familiar nos discursos diretos.
Tanto P.Teyssier, quanto M. Joachin, concluem que há muito do Camilo escritor em suas traduções, uma vez que ele “[…] assume, não uma posição de respeito pelo texto a verter e de subordinação a ele, mas de afirmação perante ele.” (JOACHIN, 1971, p.44)
Assim, “[…] Camilo, à medida que se vai afastando do original francês, afirma a sua liberdade de criador. Esta autonomia do tradutor, longe de ser um defeito, permite-lhe afirmar a sua personalidade de escritor original.” (TEYSIER, 1994, p.692)
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Página 252 do original francês, publicado em 1810.
54 Página 254 da tradução camiliana, publicada em 1865.
55 TEYSSIER, Paul – Camilo tradutor de Chateaubriand in…p. 690. 56 Página 5 da edição francesa de 1858.
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Algumas das observações de P. Teyssier e M. Joachin são também encontradas em História de Gabriel Malagrida, comprovadas, em alguns casos, por possuírem emendas inseridas. Estas serão apresentadas no próximo ponto, por se tratar de estudo de gênese.
Quanto à tendência arcaizante, Camilo é conhecido pelo bom uso da língua e sendo este um texto que não é de sua autoria, incide sobre ele sua individualidade quando, diante de palavras onde possui um termo corrente, dá preferência a um sinônimo mais clássico. Na página 20 do francês, P. Mury faz uma descrição das cobras encontradas no “Novo-Mundo” utilizando grosseur démesurée. Camilo opta por “corpulência descompassada” para o tamanho excessivo destes animais. Ainda, na página 6, enquanto Mury descreve um fato que envolve uma morte assistida pela personagem Malagrida, salta aos olhos a escolha de “paroxismos”, quando poderia apenas ter optado por “últimos momentos” para o original derniers moments. Tal escolha intensifica o sentido da frase, passando o momento final da vida da personagem a ser visto como algo agoniante, o que no texto francês não está implicado.
Dois processos encontrados por P. Teysier e M. Joachin também aparecem em História de Gabriel Malagrida: intensificações e omissões.
Vejamos alguns exemplos de intensificação. O uso do superlativo absoluto sintético é bastante característico de Camilo. Onde em francês há conduite exemplaire58 o superlativo “exemplaríssimo” é utilizado ao invés de conduta exemplar. Há aqui um quase imperceptível desvio semântico pois, ao dizer a palavra no superlativo, dá maior ênfase à exemplaridade do indivíduo em questão. A predileção pela escolha deste grau de adjetivos não é de se passar despercebida pois o mesmo acontece em outros pontos do texto.
Um dos exemplos mais interessantes de intervenção lexical foi a tradução da palavra démon59, por “ignorância”. Olhemos a frase integralmente e a tradução de Camilo.
P.M. : Son coeur d'apôtre gémissait de voir tant d'âmes sous l'esclavage du démon. C.C.B. : Gemia-lhe o coração ao ver tantas alma escravas da ignorância.
Primeiramente vemos que o “coração de apóstolo” é omitido na versão portuguesa e torna-se um simples coração. A clareza da religiosidade da frase já começa a ser podada nesta primeira omissão. Transformar depois os “escravos do demônio” em “escravos da ignorância” só veio a reafirmar a intenção do tradutor em modificar a literalidade. Contudo, é interessante notar o efeito provocado por Camilo. Enquanto no francês vemos uma clara explicação de que os colonos (citados anteriormente no texto) estão distantes da religião, cometendo pecados por obra do demônio, Camilo implicitamente diz o mesmo, mas sem precisar usar nenhuma figura religiosa e substituindo uma explicação tradicional e mais tipicamente hagiográfica para
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MURY, 1895, p.5.
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a origem do pecado (fruto da tentação do demónio, segundo uma interpretação literal do Génesis) pela explicação mais exegética, que explica o mal como ausência de bem, fruto da ignorância.
No que diz respeito às omissões, Camilo o faz sem prejudicar o produto final, eliminando palavras que poderiam ser redundantes no contexto ou, como observa M. Joachin, incidindo sobre “adjetivos, advérbios e expressões temporais” (JOACHIN, 1971, p. 22): de dresser de petits autels – “fazer altares” , de s’attirer les applaudisements des spectateurs – “ganhar aplausos”, ne devait plus perdre jusqu'à sa mort – “que nunca devia perder”.
As observações levantadas por P. Teyssier e M. Joaquin concluem que Camilo se distancia bastante da literalidade, mas que,
“Perante o texto a traduzir, a atitude de Camilo não é a de quem, levado por uma preocupação dominante de rigor, parte da captação escrupulosa da mensagem e luta pela equivalência de conteúdo tão perfeita quanto possível. […] assume, não uma posição de respeito pelo texto a verter e de subordinação a ele, mas de afirmação perante ele. […] é dotado de uma surpreendente aptidão para descobrir a correspondente expressão genuína[…]”. (JOACHIN, p. 44)
A dificuldade apontada por P. Teyssier com relação a nomes específicos, erros de tradução da “cor local”, veremos no próximo ponto que não será um problema de Camilo nesta tradução. O único ponto encontrado é a má tradução do nome de uma cidade brasileira. Na página 29 do livro em francês, é citada a cidade de “Caété”, e, segundo a descrição contida no texto, corresponde a uma localidade encontrada em documentos da época.60 Na tradução o nome fica “Caiaté”, nome este que não se encontra em nenhum documento e nem possui alguma correspondência atualmente.
É importante lembrar que nem P. Teyssier nem M. Joachin tiveram acesso a manuscritos, apenas primeiras edições, acesso este que, se disponível, poderia por vezes modificar algumas conclusões sobre a fidelidade ou não do tradutor em relação ao texto original. Vejamos um exemplo encontrado na 1ª edição de História de Gabriel Malagrida:
Criminam-me por ousar combater, neste folheto, a preciosa doutrina que por aqui propalam activamente na corte e cidade[…]”(153)
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Diário das cortes reais e extraordinárias da nação portuguesa, Lisboa : Impressão Nacional, 1821-
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No francês, a palavra que aparece traduzida como “preciosa” na verdade é pernicieuse.
Terá Camilo cometido um erro tão grave em sua tradução? Vejamos o manuscrito (figura 7):
Figura 7
É evidente que o erro aqui não é de tradução. Camilo esqueceu-se da sílaba “ni” ao meio da palavra, o que o editor pensou ter sido uma alternância das sílabas per/pre na palavra “preciosa”, uma vez que Camilo alterna outra vezes estas sílabas (neste texto há dezoito ocorrências). Neste caso, não podemos afirmar com certeza que o tradutor se distancia do original, ou que cometeu um erro inaceitável.