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CAPÍTULO III – A consolidação do Pinus no planalto catarinense

Mapa 02 Caminho das rotas tropeiras

Diferentes grupos sociais habitaram o Planalto

Catarinense. Neusa Bloemer

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afirma que foi estabelecida entre

eles uma hierarquia tácita. No topo desta pirâmide se

encontravam os grandes pecuaristas, proprietários de grande

40 BLOEMER, Neusa Maria Sens. Brava gente brasileira: migrantes italianos e

extensão de terra. Abaixo destes se encontrava o pequeno

proprietário com dois ou três peões. Raramente é mencionada a

presença dos caboclos ou brasileiros

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e do indígena, que foram

marginalizados nas literaturas sobre o planalto.

Os Campos de Lages, no início do século XIX, se

destacavam, economicamente, pela pecuária e extração da erva-

mate. O costume de beber o mate fora passado dos indígenas

para os caboclos. Os primeiros extratores de erva-mate eram

peões e agregados recrutados nas fazendas, tornando-se, tal

atividade, um “escape para indivíduos que não tinham

condições de se iniciar na criação de gado ou que não tinham

vocação ou oportunidade”. Os ervateiros “acabavam por se

especializar no ramo e assim criaram toda uma rede de

interesses, expectativas e normas de conduta”

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.

O gado que existia em abundância servia para

alimentação e garantia o sustento. Quando os primeiros

tropeiros estabeleceram pouso definitivo em Lages, sua única

41 Arlene Renk faz uma longa discussão sobre identidade no oeste catarinense em seu

livro A luta da erva: um ofício étnico no Oeste Catarinense. Chapecó: Grifos, 1997. p. 138. Na obra, afirma que descobrir, reconhecer e assumir as diferenças é um momento decisivo na construção da identidade. No Estado de Santa Catarina, com a vinda dos imigrantes, houve um reconhecimento de diferenças entre os imigrantes que se denominavam os de origem e os que já estavam no Brasil e foram chamados de caboclos ou brasileiros. O estudo feito por Renk mostra como os termos caboclo ou brasileiro eram pejorativos e estigmatizados. Eunice Sueli Nodari em NODARI, Eunice Sueli. Etnicidades renegociadas: práticas socioculturais no oeste de Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 2009, afirma que o preconceito ao caboclo era típico daqueles que não compreendiam a maneira de viver dos ditos brasileiros.

42 FLORIANI, Guilherme dos Santos. História Florestal e Sócio-Logica do uso do

solo na Região dos Campos de Lages no século XX. Dissertação de mestrado - Centro de Ciências Agroveterinárias – UDSC, 2007. p. 60.

preocupação agrícola era a subsistência. Havia pequenas roças

de milho, mandioca, feijão e trigo. Muitos produtos necessários

eram trazidos de São Paulo, como sal, açúcar e temperos

43

.

O século XX trouxe consigo muitas mudanças no

Planalto. Por volta de 1905, inicia-se o assentamento de colonos

ítalos em Lages. Estes colonos foram deslocados de suas

colônias mães, principalmente do Rio Grande do Sul, atraído

por várias razões. Os colonos que chegaram a Lages

encontraram uma extensa área de campos dominada pelos

pecuaristas, pequenos lotes de terras habitadas pelos caboclos e

uma imensa área de floresta densa. No entender dos novos

habitantes, para dar início às atividades agrícolas, a floresta

tinha de ser derrubada.

Pode-se dizer que a Floresta Ombrófila Mista (FOM)

foi muito importante para o desenvolvimento do planalto.

Houve em Lages, grande mudança no modo de vida das pessoas

em função das transformações ambientais, especificamente na

derrubada da FOM, já que com o corte da floresta originou-se

um novo grupo ascendência, formado pelos donos de

madeireiras.

Com a valorização da floresta, a exploração dos

recursos florestais alterou, também, a percepção do uso do solo,

havendo mudanças técnico-sociais que permitiram o uso amplo

43 COSTA, Licurgo, 1982. Vol. 3, Op. Cit. p. 745.

da floresta. Floriani, afirma que a exploração das florestas

nativas foi viabilizada pela mobilização de novos atores em uma

rede socioeconômica movida pelo comércio da madeira; novas

formas de transporte e industrialização da madeira mudaram o

valor de florestas:

A percepção sobre o valor dos campos e floresta mudou, mas não rompeu com a sociológica de uso da terra que incorporou a venda da madeira, condicionando a forma de exploração de diferentes espécies florestais à manutenção ou supressão da cobertura florestal. Consequentemente possibilitou o fortalecimento da ampliação da pecuária pelo acréscimo de renda que proprietários rurais obtinham com a venda da madeira, e ampliação

ainda mais das áreas de campo pelo desmatamento44.

Outra mudança significativa para Lages foi a

redefinição dos seus limites territoriais, já que o município se

destacava pela sua extensão e abrangia um vasto território. No

início do século XX suas fronteiras municipais foram

estreitadas, Lages perdeu extensão territorial principalmente

após a emancipação dos municípios de Campos Novos e

Curitibanos. Mesmo assim, Lages atualmente é o maior

município de Santa Catarina. Segundo dados do IBGE, Santa

Catarina está dividida em 20 microrregiões, entre as quais a

Microrregião Campos de Lages é integrada por 18 municípios.

Lages ainda mantém uma grande influência nos demais

pequenos municípios vizinhos, antes distritos lageanos que

foram se desmembrando. Por isso, quando citados os Campos

de Lages, não se pode fazer uma denominação arbitraria dos

municípios que o compõe, já que a definição está ligada a uma

questão mais política do que física. Em um período de 50 anos,

o município lageano foi redimensionado, como pode ser

observado no mapa 03:

Mapa 03 – Limites do Município de Lages. Fonte: Secretaria do