O GANHA-PÃO DE JUAN DIAZ
A CAMINHO DO ABISMO DE CHICAGO
SOB um pálido sol de Abril, com um ventinho fresco que apagava a recordação do Inverno, o velho meteu-se para dentro do parque quase vazio àquela hora do meio dia. Os seus pés vagarosos estavam envoltos em ligaduras manchadas de nicotina, o cabelo emaranhado, comprido e grisalho assemelhava-se à barba que lhe escondia a boca, sempre a tremer como quem vai revelar um segredo.
Olhava para trás, como se tivesse perdido muitas coisas e só agora se apercebesse disso, no meio das ruínas esparsas, desdentadas, da cidade. Como não encontrasse nada, foi-se arrastando até descobrir um banco onde se achava sentada uma mulher sozinha. O homem examinou-a, fez um cumprimento de cabeça e sentou-se na outra extremidade, sem voltar a olha-la.
51 Ficou para ali, de olhos fechados, a mover os lábios durante uns três minutos, e a mover também a cabeça, como se o seu nariz estivesse a imprimir qualquer coisa no ar. Uma vez a palavra escrita, abria a boca par a pronunciar, numa voz clara e bela:
- Café.
A mulher teve um sobressalto e enteiriçou-se.
Os dedos nodosos do velho gesticulavam uma pantomina sobre o seu regaço invisível.
- Dá a volta à manivela! A lata encarnada com as letras amarela! Ar comprimido.
Ssssssss! Despeja! Parece uma cobra!
A mulher atirou a cabeça para trás, como se lhe tivessem dado uma bofetada, e ficou a contemplar, com expressão fascinada, a língua do homenzinho.
- O cheirinho, o perfume, o odo! Forte, escuro! Aqueles maravilhosos grãos do Brasil, acabados de moer!
A mulher ergueu-se, cambaleante, como se tivesse apanhado um tiro e afastou-se aos tropeções.
O velho arregalou os olhos:
- Escute! Eu...
Mas ela fora-se embora a correr.
O homem, suspirando, continuou a caminhar no parque até chegar a um banco ocupado por um jovem muito absorvido na tarefa de enrolar uma porção de erva seca num quadrado de papel higiênico. Os seus dedos magros ajeitavam a erva com ternura, como se se tratasse de um ritual sagrado, e tremia enquanto enrolava o canudo, o punha na boca e o acendia, com gestos de hipnotizado. Reclinou-se para trás, piscando os olhos, deleitado, a absorver aquele estranho ar rançoso que lhe enchia a boca e os pulmões.
O velho contemplava o fumo que subia no ar e disse:
- Chesterfields.
O jovem apertou os joelhos com força.
- Raleighs – prosseguiu o velhote. – Lucky Strikes.
O rapaz atreveu-se a olha-lo.
- Kent, Kool, Marlboro – prosseguiu o homem sem o fitar. – Tudo isto eram marcas. Embalagens vermelhas, brancas, cor de âmbar, verde vivo, azul celeste, dourado, com aquela fitinha vermelha que corria em volta do topo e se puxava com um fecho éclair e fazia estalar o celofane e o selo azul do governo...
- Compravam-se nos quiosques, nas máquinas automáticas, nos metropolitanos...
- Cale-se!
- Não se exalte – retorquiu o velho. – O caso é que esse seu cigarro fez-me lembrar...
- Pois é melhor não se lembrar! – e o jovem sacudiu com tanta violência o seu cigarro feito à mão que este lhe tombou no colo, desfeito em palha. – Veja só o que o senhor me obrigou a fazer!
- Desculpe. Estava hoje um dia tão simpático...
- Pois eu não simpatizo com ninguém!
- Devemos simpatizar todos uns com os outros. De contrário par que serve viver?
- Simpatizar? – respondeu o outro, remexendo distraidamente na erva ressequida e no papel. – Talvez ainda houvesse gente simpática aí por volta de 1970, mas agora...
- 1970? O meu amigo devia ser ainda um bebê. Então ainda havia Butterfinges, embrulhados em papel aparelho vivo. E Baby Ruth. Clark Bars em papel cor de
52 laranja... Wilk Ways, que era como quem engolia um universo de estrelas, cometas, meteoros... Que bom!
- Isso nunca foi bom. – O rapaz pôs-se subitamente de pé.
- Mas que mania a sua!
- Lembro-me ainda das limas, dos limões, é a minha mania. Você lembra-se das laranjas?
- Lembro-me até bem demais! Diabos levem as laranjas! Acha que sou mentiroso? Quer dar comigo em doido? Não sabe qual é a lei? Desconhece que eu podia manda-lo prender?
- Bem sei, bem sei – respondeu o velho, encolhendo os ombros. Foi o tempo que me deu volto ao miolo. Levou-me a comparar...
- A comparar boatos, é o que eles lá lhe diriam, os da Polícia, da brigada especial.
Isso é que eles lhe diriam, seu desordeiro, seu patife...
Agarrou nas bandas do casaco do velhote, que imediatamente se rasgaram, obrigando-o a pegar-lhe por outro lado, enquanto lhe gritava mesmo cara a cara:
- Não sei o que me contém que não dê já cabo de si! Não fazia falta a ninguém.
Eu...
E empurrava o homenzinho. Isto despertou-lhe a vontade de o espancar, por isso encheu-o de murros depois, cada vez com mais força; as pancadas choviam sobre o desgraçado que lembrava alguém apanhado por uma tempestade, e se servia apenas dos dedos para atenuar os golpes que lhe atingiam as faces, os ombros, a testa, o queixo. Entretanto o jovem ia gritando marcas de cigarros, gemendo nomes de rebuçados de tabacos de cachimbo, de doces até ele cair por terra e ser rolado a pontapés pelo chão fora, a tremer. Então o rapaz parou e desatou a chorar. Ao ouvi-lo, o velho, todo encolhido, encerrado na sua dor, retirou os dedos da boca magoada e abriu os olhos para fitar com assombro o seu atacante. O rapaz chorava copiosamente.
- Então... – começou o velho.
O rapaz chorou mais alto ainda, com as lágrimas a caírem-lhe dos olhos.
- Não chores – disse o ancião. – Não havemos de ficar para sempre esfomeados, voltaremos a construir as cidades. Escuta, eu não desejava que tu chorasses, mas antes que refletisses: Para onde vamos? O que estamos a fazer? O que temos nós feito? Não era em mim que tu querias bater, mas sim noutra coisa qualquer. Calhou eu estar a jeito... Olha, já me sentei. Estou fino!
O rapaz parou de chorar e fitou o velho com os olhos semicerrados. Este fez um corajoso esforço para sorrir com a boca ensanguentada.
- O senhor... o senhor não pode andar por aí a fazer com que as pessoas se sintam infelizes. Vou procurar alguém que o meta na ordem!
- Espere lá! – e o velho tentava pôr-se de joelhos. – Não!
Mas o rapaz saíra já do parque, a correr como um doido, a gritar.
Caído por terra, sozinho, o velho apalpou os ossos, encontrou um dente todo ensanguentado no meio do cascalho solto e pegou-lhe tristemente.
- Que tolo! – disse uma voz.
Um homem magro, dos seus quarenta anos, encontrava-se ali perto, encostado a uma árvore, com um vago ar de cansaço e curiosidade estampado no rosto comprido.
- Que tolo! – repetiu.
O velho engoliu em seco:
- Então o senhor esteve aí, durante todo este tempo, e não fez nada?
53 - Que havia eu de fazer? Lutar com um tolo para defender outro? Não! – o desconhecido ajudou-o a pôr-se de pé e sacudiu-lhe a roupa. – Só luto quando vale a pena. Venha daí, vou leva-lo para casa.
O velho engoliu de novo em seco.
- Para quê?
- Porque esse tipo daqui a nada está de volta acompanhado pela Polícia. E eu não quero vê-lo engavetado. O senhor é um objeto precioso. Já tinha ouvido falar de si e há dias que ando a procura-lo. Pouca sorte! Logo o fui encontrar envolvido numa das suas conhecidas complicações. Que disse você ao rapaz para lhe dar tamanha fúria?
- Falei-lhe de laranjas e limões, de rebuçados e cigarros. Preparava-me precisamente para recordar em pormenor brinquedos de corda, cachimbos de sarça, coçadeiras de costas, quando ele se atirou em mim.
- Quase lhe dou razão. Até eu estou com uma certa vontade de lhe bater. Venha daí, despache-se. Lá está a sirene! Depressa!
E saíram furtivamente do parque, tomando outro caminho.
O homem bebeu o vinho caseiro porque era mais fácil de ingerir do que o resto.
Os outros alimentos tinham de esperar até que acalmasse a dor da sua boca pisada.
Ia sorvendo o vinho e abanava a cabeça:
- Isto é bom. Muito obrigada. Excelente!
O estrangeiro que o trouxera do parque às escondidas estava sentado na frente dele, naquela sala de jantar vulgaríssima, enquanto a mulher colocava os pratos rachados e consertados sobre a toalha puída.
- Essa tareia – disse por fim o marido – como começou?
Ao ouvir isto, a mulher ia deixando cair um prato:
- Sossega – tranquilizou-o o marido. – Ninguém nos seguiu. Vamos, velhote, diga lá porque motivo anda por aí como um santo à procura do martírio? O senhor tornou-se célebre, sabia? Todos o conhecem de nome. Eu, em primeiro lugar, desejaria saber a causa dessa atitude. Diga lá?
O velhote, porém, só prestava atenção aos legumes que tinha à sua frente, no prato esbeiçado. Vinte e seis... não, vinte e oito ervilhas! Voltou a contar aquele número impossível! Curvou-se sobre aqueles incríveis legumes, como alguém se poderia curvar, rezando, sobre as contas. Vinte e oito ervilhas verdes e maravilhosas, além de um molho de espagueti meio duro, a mostrar que o dia de hoje era de fartura. Porém, abaixo da linha da massa, a linha estalada da travessa revelava que havia muitos anos a esta parte o caso era sério. O pobre velho abanava a cabeça, a observar os alimentos como um grande e inexplicável milhafre que tivesse caído estupidamente e se encontrasse empoleirado neste apartamento frio, guardado pelos seus bons samaritanos. Por fim disse:
- Estas vinte e oito ervilhas recordam-me um filme que vi em criança: um comediante... – vocês conhecem esta palavra? Certo homem encontra-se com um doido num clube noturno e...
O marido e a mulher riam em silêncio.
- Não por enquanto ainda não é para rir, desculpem – observou o velho. – O louco fez sentar o comediante a uma mesa vazia, sem garfos, nem facas, nem comida, e declarou: “O jantar está servido!” Receando que ele o matasse, o comediante entrou na farsa: “Ótimo!” exclamou, fingindo em seguida que mastigava os bifes, os legumes, a sobremesa: “Delicioso!” e engolia ar. “Uma maravilha!” Eh, agora já podem rir.
54 O marido e a mulher, porém, guardaram silêncio, olhando apenas para os pratos espalhados.
O velho abanou a cabeça e prosseguiu:
- O comediante, julgando que impressionava o louco, exclamou: Estes pêssegos com calda de aguardente estão uma delícia! São magníficos!” “Pêssegos?” – gritou o doido, puxando duma pistola. – “Eu não lhe servi nenhuns pêssegos! Deve estar louco!” E deu um tiro nas costas do comediante!
No meio do silêncio que se seguiu, o velho pegou na primeira ervilha e sopesou a sua forma arredondada no garfo curvo de lata. Ia leva-la à boca quando...
Ouviu-se um rápido bater à porta.
- Polícia especial! – gritou uma voz.
Calada, mas toda a tremer, a mulher foi ocultar algures o prato que pusera a mais.
O marido ergueu-se com toda a calma e conduziu o velho até junto de uma parede onde um painel se ergueu. O velho entrou para dentro e o painel fechou-se, deixando-o escondido e às escuras, enquanto, sem que ele a pudesse ver, alguém abria a porta do apartamento. Ouviram-se vozes a murmurar, excitadas. O velho imaginava a polícia especial, com a sua farda azul escura, de pistola aperrada, a entrar na sala, deparando apenas com a mobília ordinária, as paredes nuas, o chão sonoro coberto de oleado, as janelas sem vidros tapadas com cartão e unicamente esta sombra de civilização que fica numa praia deserta quando se dissipa a tempestade da guerra.
- ando à procura de um velho – declarou a voz cansada da autoridade do lado de lá da parede. – Esquisito – pensou o homem. – Agora até a lei parece fatigada. – Traz um fato remendado... – Mas – refletiu o velhote – hoje toda a gente traz fatos remendados! – Sujo, dos seus oitenta anos. – mas então não anda toda a gente suja, não são todos velhos? – exclamou o homenzinho de si para si. – Se alguém o denunciar recebe em recompensa a ração de uma semana – prosseguiu a voz da polícia. – Além de dez latas de legumes e cinco de sopa, como prêmio.
Latas de conserva, a sério, pensou o velho. As latas corriam como meteoros, na escuridão, sob as suas pálpebras. Que bela recompensa! Não se tratava de dez mil nem de vinte mil dólares, mas de cinco incríveis latas de sopa verdadeira, e não a fingir. E dez, contem bem: dez! latas de legumes com coloridos de circo, legumes exóticos, tais como feijões verdes e trigo loiro! Calculem! Calculem!
Seguiu-se um longo silêncio durante o qual o velho imaginou ouvir ruídos surdos de estômagos vazios, às voltas, adormecidos, mas a sonhar com jantares muito melhores do que balões de antigas quimeras e ideias políticas que se haviam deteriorado naquele longo crepúsculo a seguir ao D. A., Dia da Aniquilação.
- Sopa! Legumes! – declarava pela última vez a voz do polícia. – Quinze latas de sólida embalagem!
A porta bateu.
O ruído das botas sumiu-se na casa a desfazer-se, indo bater a outras portas, quais tampas de caixão onde habitavam outros Lázaros a quem ele ia prometer belas latas de conserva. As pancadas sumiam-se ouviu-se um último ruído de uma porta a fechar-se.
Até que por fim o painel oculto foi de novo erguido. O marido e a mulher não olharam para o velho que de lá saía. Este sabia a razão disto e quis tocar-lhes nos braços:
- Até eu próprio – declarou ele amavelmente – me senti tentado a entregar-me, para reclamar a recompensa e comer a sopa!
Eles nem assim o olharam.
55 - Porque foi? – inquiriu ele. – Porque não me entregaram? Porque?
O marido, como se de repente se lembrasse de qualquer coisa, acenou para a mulher. Esta dirigiu-se à porta, hesitou, o homem fez-lhe novo sinal, impaciente, e ela saiu para fora, silenciosa como uma bola de teia de aranha. Ouviram-na atravessar o átrio, bater às outras portas devagarinho, estas abriram-se em face da exclamações abafadas e murmúrios.
- Que foi ela fazer? Que está o senhor a fazer? – inquiriu o velho.
- Vai já saber. Sente-se. Acabe o seu jantar – disse o marido. – Diga-me porque razão é assim tão louco que enlouquece os outros a ponto de o procurarmos e o trazermos para aqui.
- Porque sou assim louco? – o velho sentou-se e começou a comer devagar, tirando uma ervilha de cada vez do prato que lhe tinha sido de novo colocado na frente. – Sim, eu sou louco. Como começou esta minha loucura? Aqui há muitos anos pus-me a observar as ruínas do mundo, as ditaduras, os estados e as nações despedaçadas, e disse comigo: “Que posso eu fazer? Eu, um homem velho e fraco?
Reconstruir toda esta devastação? Isso sim! Mas uma noite em que me encontrava meio a dormir, senti tocar dentro da minha cabeça um velho disco de gramofone.
Duas irmãs chamadas Duncan costumavam cantar, quando eu era pequeno, uma canção chamada “Recordar”. “Nada mais posso fazer do que recordar, querido. Por isso recorda tu também!” Cantei essa canção e deixou de ser uma canção para se transformar numa norma de vida. Que tinha eu para oferecer a um mundo que estava esquecendo tudo? A minha memória! De que podia isto servir-lhe? Fornecendo-lhe um termo de comparação, mostrando aos jovens como tudo era dantes, fazendo-os considerar tudo aquilo que tínhamos perdido. Descobri que quanto mais recordava, mais conseguia recordar! Segundo as pessoas junto de quem me encontrava, lembrava-me de flores artificiais, telefones de marcador automático, frigoríficos, pífaros (oi senhor já alguma vez tocou pífaro?), dedais, molas de bicicleta, não me refiro a bicicletas, mas sim a molas para prender as calças dos ciclistas. Não é estranho tudo isto? Coberturas de sofás... Sabe o que é? Um dia um homem perguntou-me se eu me lembrava de como era o tablier de um cadilac. Eu lembrava-me e descrevi lhe com todos os porlembrava-menores. Ele ouviu-lembrava-me e colembrava-meçaram a correr-lhe grossas lágrimas pela cara abaixo. Lágrimas de tristeza ou de alegria? Não sei dizer.
Só sei recordar. Não conheço a literatura. Não, nunca tive cabeça para peças de teatro ou poemas; passam-me de ideia, morrem. O que eu sou é um monte de restos de uma civilização que desapareceu num abismo. Por isso, tudo quanto posso oferecer aos outros não passa de uma sucata brilhante, os tão apregoados cronômeros, os maquinismos absurdos de uma infindável avalanche de robots e apreciadores de robots. E assim de uma maneira ou de outra, a civilização tem de regressar. Que as pessoas incapazes de compor delicadas poesias se recordem apenas e ofereçam as suas recordações. Aqueles que sabem tecer, construir ninhos de borboletas, que teçam e construam. O meu dom é inferior a esses e talvez se possa considerar desprezível no meio deste impulso imenso, desta subida, desta ascenção para tais atitudes deliciosamente loucas e frias. Mas eu tenho de me julgar útil. Porque aquilo de que as pessoas se recordam, quer se trate de coisas estúpidas quer não, procuram-nas de novo fatalmente. E eu então avivo os seus desejos semi mortos com o apanha moscas da recordação. Talvez voltem a montar o Grande Relógio que é a cidade, o Estado, e depois o mundo. Então um homem há de desejar vinho, um outro cadeiras de descanso, um terceiro umas asas de morcego para poder pairar no vento ou então construir grandes eletropeterodactilos que aguentem a mais forte ventania e possam ser utilizados por homens maiores do que nós. Alguns hão
56 de querer idiotas arvorezinhas de Natal e outros com mais juízo hão de ir cortar lhes.
Junte tudo isto, encaixe bem os rodízios uns nos outros, e eu cá estou para lhe olear as juntas, mas hei de olhar lhes bem! Oh, noutros tempos eu apregoava: “Só vale o que é ótimo. A qualidade é a única coisa que conta!” Mas as rosas crescem sobre o esterço. Tem de haver medíocres para que possa sobressair o que é extraordinário.
Por isso eu serei o maior de todos os medíocres e combaterei todos aqueles que dizem: “Para baixo, afunda-te, enterra-te, deixa que as ativas cubram a cova em que te sepultas vivo.” Protestarei contra as tribos devastadoras dos macacos humanos, contra os homens carneiros que pastam nos prados distantes e são devorados pelos senhores lobos que se isolam cada vez mais no alto dos seus arranha céus e acumulam alimentos de que já nos esquecemos. E sou capaz de matar esses patifes com um abre latas ou um saca rolhas. Sou capaz de abatê-lo com fantasmas de Buicks, Kissel kars e Moons, chicoteá-los com azorragues de bebidas doces até que peçam incondicionalmente misericórdia. Poderei eu fazer tudo isto? É uma questão de experimentar.
O velho engoliu a última ervilha juntamente com as derradeiras palavras, enquanto o bom Samaritano se limitava a observa-lo com um olhar atônito e, por toda a casa, as pessoas se agitavam, as portas se abriam e fechavam, e se formava um ajuntamento do lado de fora do apartamento onde neste instante o dono da casa exclamava:
- E o senhor ainda pergunta por que motivo o não entregamos? Está a ouvi-los, lá fora?
- Parece que se juntou toda a gente do prédio...
- Juntaram-se todos! Lembra-se ainda, meu velho louco... dos cinemas, ou melhor, dos parques automóveis onde se ia assistir ao cinema?
O velhote sorriu...
- E você?
- Mais ou menos. Olhe, escute: hoje, agora mesmo, se está disposto a passar por louco, a correr riscos, faça-o por muita gente, duma assentada. Porque há de gastar o fôlego só com uma pessoa, ou mesmo duas ou três, quando afinal...
O homem foi abrir a porta e acenou com a cabeça lá para fora. Em silêncio, um por cada vez ou aos pares, os habitantes do prédio foram entrando. Penetravam no quarto como quem entra numa sinagoga ou numa igreja. Ou na espécie de igreja a que se chamava cinema; ou na espécie de cinema que era um parque automóvel, com o sol a esconder-se, não tardando a cair a noite; depois, a sala ficaria envolta em trevas e junto da única luz a voz do velho começaria a falar; e toda aquela gente escutaria de mãos dadas, e então seria como nos velhos tempos, com os camarotes às escuras, ou os carros às escuras e nada mais do que a recordação; as palavras que designavam pipocas, as palavras que designavam goma elástica, refrescos e rebuçados, apenas as palavras, mas, enfim, as palavras...
E enquanto as pessoas iam chegando e tomando lugar no chão e o velho as
E enquanto as pessoas iam chegando e tomando lugar no chão e o velho as