7 ESTAÇÃO DOS CAMINHOS PERCORRIDOS PELAS
7.4 CAMINHO 4: PERCORRENDO AS ROTAS DAS SUBJETIVIDADES
A viagem no Metrô Diferença nos proporcionou experiências únicas. Cada desenho produzido, cada narrativa, as expressões faciais, os discursos. Enfim, cada detalhe dos encontros entre Clara e os participantes suscitaram emoções e aprendizados. Ela foi percebendo que os participantes, mesmo estando imersos na
liquidez do mundo moderno, se mantém presos às raízes da solidez da escola em que estudam. Também observou que, para a maioria dos participantes, há um considerável distanciamento entre a possibilidade de estudar matemática através das redes sociais como um recurso didático, pois, para eles, este recurso tem como objetivo único o entretenimento. Assim, ela vai percebendo que a escola em que realizou a pesquisa se encontra ilhada em meio à liquidez que a cerca. No entanto, Clara deseja continuar pelos caminhos das subjetividades dos participantes. Ela quer ir mais longe. Sendo assim, apresentaremos os dados produzidos por Joana, a qual foi indicada por Davi para ser a próxima a participar do desafio de responder os itens do questionário proposto durante os mapas narrativos.
O primeiro item que foi sorteado para Joana responder foi o item 11 do questionário27, o qual perguntava o que Joana achava da escola e, se ela pudesse mudar algo em seu ambiente escolar, o que mudaria. A estudante respondeu que acha a escola um lugar muito bom, no qual se aprende a viver. No entanto, ela mudaria, se pudesse, o comportamento dos alunos rebeldes. Em momento outro, Joana nos comove. Ao ser perguntada quais eram os seus sonhos, com os olhos brilhando, ela responde:
Meu maior sonho é ver a minha irmã especial andar por conta própria, sem a ajuda de aparelhos (JOANA, aluna do 3º ano “B”).
Após responder, Joana suspira e fala “não custa nada sonhar”. Fizemos uma pausa breve e, em seguida, continuamos. Laura pega o papel da mochila em que estavam os itens do questionário e, lendo o que estava escrito, perguntou a Joana como ela se imaginava e como imaginava que os outros lhe viam. Joana respondeu:
Ahhh, essa é mais fácil. Eu me imagino como uma pessoa alta, com cabelos curtos, e, que gosta de ajudar o próximo. Principalmente, aqueles que mais necessitam. Também me acho inteligente e legal. E, meio doidinha [risos]. Deve ser porque não tenho vergonha de falar, não sou de guardar as coisas que quero falar. Bom, eu acho que as pessoas me veem como uma pessoa legal e divertida (JOANA, aluna do 3º ano “B”).
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Notamos que Joana inicia sua resposta se descrevendo fisicamente e, só depois, ela descreve algumas de suas subjetividades. Joana parece ser um sujeito da experiência, como Larrosa menciona em suas obras. Ela nos diz que não tem muito medo das coisas, que prefere viver, pois nunca se sabe o dia de amanhã. Enfatiza que ficou mais corajosa após o acidente que sua irmã sofreu em que ficou impossibilitada de andar. Para Joana, atualmente, o mais importante é viver sem se aprisionar às consequências que sofrerá. A estudante diz que aproveita cada dia. Após sua fala, começa a cantar o refrão da música Pais e Filhos, da banda Legião Urbana (1989):
“É preciso amar as pessoas Como se não houvesse amanhã Porque se você parar pra pensar Na verdade não há”.
É assim que é a vida minha gente [Joana ressalta]. Por isso, que tento viver ao máximo.
Após esse momento, foi sorteado o desafio de criar um desenho que a representasse em casa e na escola. Segue, na figura 19, o desenho de Joana.
Figura 20 - Desenho de Joana em casa e na escola
Fonte: A autora (2018).
Joana fala do seu desenho, descrevendo que quando está em casa gosta de jogar on-line, e ressalta que seus jogos prediletos são jogos de estratégias. Além de jogar, nos informa que ajuda sua mãe a cuidar de sua irmã e fica bastante tempo usando as redes sociais (WhatsApp e Facebook). Com relação à escola, menciona que só preferia desenhar os seus materiais escolares: caderno com seus escritos,
canetas, lápis, borracha e tesoura. Percebemos que Joana não teve o desejo de colocar em seu desenho a menina que desenhou ao lado (em casa). A mensagem que ela nos passou foi a de que não se sente pertencente ao ambiente escolar.
Um fato importante para se discutir foi que, em outro momento, quando foi perguntado o que ela mudaria na escola, caso pudesse, a menina responde que mudaria a acessibilidade de sua escola, pois, não há nenhuma acessibilidade para estudantes cadeirantes. Por exemplo, para ter acesso aos banheiros e a biblioteca da escola, é necessário subir vários degraus. Em sua resposta, percebemos a insatisfação de Joana com a estrutura física da sua escola. Apesar disso, Joana gosta de estudar. Assim, se diz apaixonada por matemática, inclusive, pretende dar continuidade aos seus estudos, realizando a graduação em Engenharia Civil. De todos os conteúdos estudados durante este ano, Joana menciona Equações do Segundo Grau como o conteúdo que mais se identificou, justificando sua resposta:
Eu gostei das equações do 2º grau porque usamos essa equação para fazer parábolas as quais servem para construir pontes. Então me identifiquei bastante. Mas, gosto de tudo da Matemática (JOANA, aluna do 3º ano “B”). Ao criar o desenho da sala de aula de matemática, Joana ilustra (figura 20) o professor escrevendo no quadro, o conteúdo que está sendo escrito é um exemplo de equação do segundo grau. Percebemos o quanto a menina foi perpassada por este conteúdo. Além disso, novamente, ela não desenha alunos nesta sala de aula, nem ela mesma.
Figura 21 - Desenho da sala de aula de Matemática de Joana
Durante sua fala, Joana deixou explícito o seu desejo em realizar o curso superior em Engenharia Civil. Ela mencionou que quando estivesse formada, iria construir duas rampas de acesso em sua escola, uma que dará acesso aos banheiros dos estudantes e a biblioteca, e outra que dará acesso à sala dos professores e à secretaria da escola. Tal discurso nos mostra que os alunos e alunas desejam se sentir pertencentes ao ambiente escolar, e que ao adentrar a escola, a sua realidade não é deixada fora da mesma. Em se tratando de realidade fora do ambiente escolar, Joana menciona que não fica tanto tempo on-line, complementando que lhe falta tempo. Apesar disso, nos informa que gostaria de aprender matemática usando as redes sociais e vídeo aulas. Nesse contexto, sugere que fosse criado um grupo no WhatsApp com alguns professores de matemática e os seus alunos, para que pudessem tirar dúvidas e compartilhar em conjunto os conhecimentos.
Em outro momento, Joana responde, ao ser questionada sobre como seria uma boa aula de Matemática, afirmando que seria aquela em que se resolvesse as questões com brincadeiras e jogos.
Movimentos observados que atravessaram Joana: curso de Engenharia Civil; escola inclusiva; ludicidade para aprender.
A viagem no Metrô Diferença nos possibilitou percorrer caminhos pessoais, caminhos singulares e múltiplos, ao mesmo tempo. Percorremos, assim, as subjetividades dos participantes, fomos marcadas pelos seus discursos, transpassadas pelas suas respostas, foi uma mescla de subjetivações. Apresentaremos, a seguir, os caminhos percorridos pelas subjetividades de Hugo.
7.5 CAMINHO 5: PERCORRENDO AS ROTAS DAS SUBJETIVIDADES DE HUGO