O recorte da pesquisa ocorre a partir da medida socioeducativa de semiliberdade com foco em duas Casas de Semiliberdade (CASEM) na região metropolitana do Recife. A semiliberdade enquanto medida socioeducativa de restrição da liberdade está prevista no artigo 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Na Lei do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo – SINASE no artigo 158 consta sobre a semiliberdade, que é
III - a apresentação das atividades de natureza coletiva;
IV - a definição das estratégias para a gestão de conflitos, vedada a previsão de isolamento cautelar, exceto nos casos previstos no § 2º do art. 49 desta Lei; e
V - a previsão de regime disciplinar nos termos do art. 72 desta Lei (Nº 12.594, de 18 de Janeiro de 2012.).
O artigo 42 do ECA dispõe sobre o tempo de avaliação da medida que
as medidas socioeducativas de liberdade assistida, de semiliberdade e de internação deverão ser reavaliadas no máximo a cada 6 (seis) meses, podendo a autoridade judiciária, se necessário, designar audiência, no prazo máximo de 10 (dez) dias, cientificando o defensor, o Ministério Público, a direção do programa de atendimento, o adolescente e seus pais ou responsável.
Deste modo, o regime de semiliberdade, tem permanência máxima de 3 anos e avaliações periódicas, conforme sentença judicial a partir da análise do relatório individual. Conforme Boletim estatístico da FUNASE/PE de agosto, setembro e outubro de 201864 apontam que a “estatística revela as seguintes prevalências: população
masculina, faixa etária de 17 e 18 anos, ato infracional roubo e consumo de maconha. Também extraímos que a maioria tem a escolaridade entre o 6º e 9º ano e renda familiar de um a três salários mínimos” (FUNASE/PE, 2018, p.7). Esses dados são pertinentes as Unidades de Atendimento Inicial (UNIAI), Centros de Internação Provisória (CENIPs), Centros de Atendimento Socioeducativos (CASEs) e Casas de Semiliberdade (CASEMs) e ressaltam a importância não só de revelar o cotidiano dessa adolescência que está em cumprimento de medidas, bem como, caracterizar os meninos e meninas.
As instituições da referida pesquisa (CASEM), conforme Boletins Estatísticos do mesmo período (entre agosto e outubro) atenderam adolescentes de ambos os sexo
64 Os dados evidenciados deste período são justificados por serem o período de campo dessa pesquisa, a ausência do mês de novembro se dá porque ainda não foi disponibilizado pela instituição no tempo de consulta em 28/04/2019.
de idade entre 13 e 19 anos de idade da RMR com destaque para os territórios de Recife, Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes, Ipojuca, Olinda; Mata Norte (Tracunhaém); Agreste Central (Belo jardim e Brejo da Madre de Deus) e Agreste Setentrional (Passira). Os atos infracionais destacados neste mesmo período foram roubo qualificado e tráfico de entorpecentes ou associação.
No ano de 2017 foram atendidos 1.362 atendidos em cumprimento de Medida Socioeducativa de Semiliberdade, nas Casas de Semiliberdade (CASEMs), localizadas nos municípios do Recife, Caruaru, Petrolina, Garanhuns e Jaboatão dos Guararapes. Enquanto que, 59 adolescentes do sexo feminino foram atendidas em cumprimento de Medida Socioeducativa de Semiliberdade, na Casa de Semiliberdade (CASEM) Santa Luzia (FUNASE, 2017, p.5).
Quanto à caracterização dos/as adolescentes atendidos/as conforme o Relatório anual (FUNASE/PE, 2017) é possível apontar que quanto à idade: 35% de 17 anos, 23% de 16 anos e 16% de 18 anos. Quanto à cor ou raça: Parda 76%, 13% branca e 11% negra. Renda familiar: 22% menos de 01 Salário Mínimo (SM), 50% DE 01 A 03 SM. Região de incidência - 55% RMR, 13% Agreste central e 8% Mata norte. Infração: 48% roubo; 16% tráfico ou associação de entorpecentes e 9% homicídio; e escolaridade 45% ensino fundamental (6º ao 9º ano); 14% Ensino fundamental (2º ao 5º ano) e 13% EJA Fase III (6º ao 7º ano).
Portanto, compreende-se um contexto em que o abandono escolar é uma realidade, onde a desigualdade socioeconômica é evidente e a exposição às drogas, quer seja para o consumo ou para a venda é destaque para a prática de atos infracionais. Assim como, o roubo que muitas vezes ocorre em consonância com as drogas. Além dessas questões, a juventude negra ainda é a que mais sofre os resultados de uma política higienista de drogas e encarceramento. Conforme Atlas da violência (2018, p.40)
uma das principais facetas da desigualdade racial no Brasil é a forte concentração de homicídios na população negra. Quando calculadas dentro de grupos populacionais de negros (pretos e pardos) e não negros (brancos, amarelos e indígenas), as taxas de homicídio revelam a magnitude da desigualdade. É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos. Em 2016, por exemplo, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior à de não negros (16,0% contra 40,2%). Em um período de uma década, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%. No mesmo período, a taxa entre os não negros teve uma redução de 6,8%. Cabe também comentar que a taxa
de homicídios de mulheres negras foi 71% superior à de mulheres não negras.
Diante de tal processo, a isonomia, conceito tão caro o direito moderno para a garantia de direitos, sofre interferências, pois
é sabido que esta igualdade, meramente formal, serviu como forma de escamoteamento das desigualdades materiais que foram absorvidas e aprofundadas pelo modo de produção capitalista, que, dentre outras coisas, produziu também seu próprio sistema jurídico (MIAILLE, 1989, p. 111 e ss. apud CUNHA, 2000, p. 53).
Por exemplo, na concepção de “direitos humanos para humanos direitos”. Pois, de acordo com Cunha (2000, p.54) “num Estado entrecortado por interesses de classe, segmento e grupos sociais, a legislação e a prática judiciária produzidas também são entrecortadas por estes mesmos interesses”.
Vale registrar como o senso comum ainda se perfaz em posicionamentos, não raro agressivos e favoráveis a uma brutal seletividade do sistema, não tanto por sua proposta correcional – já com credibilidade abalada – mas por sua proposta repressiva, na medida em que consegue identificar na maior parte dos destinatários da lei penal, inclusive adolescentes autores de ato infracionais, os “párias” sociais que incomodam a estabilidade do status quo (CUNHA, 2000, p. 55).
Diante desse contexto é importante situar como a instituição responsável pelo cumprimento da medida socioeducativa de semiliberdade trabalha. Conforme o regimento interno da FUNASE/PE (2013) em seu Art. 1 é seu objetivo
através de seus Centros de Atendimento Socioeducativos de Internação, Casas de Semiliberdade e Internação Provisória, Unidade de Atendimento Inicial, têm como propósito a “execução da política de atendimento aos adolescentes envolvidos ou autores de ato infracional, com privação ou restrição de liberdade.” (Lei 132/2008), promovendo um atendimento de qualidade, com eficácia, eficiência e efetividade, levando em consideração a natureza legalista das Medidas, Normas e Recomendações, de âmbito Nacional e Internacional, sobretudo, considerando-se como parâmetro, a Lei 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA e a Lei 12.594/12 que, institui o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo - SINASE.
A previsão do atendimento aos adolescentes ganha tangencia no Art. 2 que aponta que “o atendimento deverá garantir a proteção integral e os direitos dos adolescentes, por meio de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, Estado e dos Municípios”. Quanto à responsabilização sobre a execução das medidas socioeducativas pela FUNASE/PE o Art. 4 salienta que
as Medidas Socioeducativas de Internação, enquanto privação de liberdade, e Semiliberdade, enquanto restrição de liberdade, são de natureza legalista e conteúdo prevalentemente pedagógico, sujeitas aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar do adolescente, como pessoa em desenvolvimento (FUNASE/PE, 2013).
Sobre os direitos dos/as adolescentes o regimento interno da FUNASE/PE (2013) dispõe do Art. 14 que “ao/a adolescente são assegurados todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei, sem distinção de natureza racial, social, religiosa ou política”. No Art. 15 apresenta como direitos do adolescente
I – Entrevistar-se pessoalmente com o representante do Ministério Público; II- Peticionar diretamente a qualquer autoridade;
III- Entrevistar-se reservadamente com o seu defensor; IV - Obter informação sobre sua situação processual;
V- Receber tratamento com respeito e dignidade, assegurando-se o chamamento pelo nome, à proteção contra qualquer forma de sensacionalismo e o sigilo das informações;
VI- Ter acesso às Políticas Sociais, prestadas por meio de assistências básicas e especializadas, promovidas, direta ou indiretamente, pela unidade, conforme determinações do capítulo IV deste Regimento;
VII- Receber visitas semanalmente;
VIII- Corresponder-se com seus familiares e amigos, devidamente autorizados por assistente social, psicólogos ou coordenações;
IX- Ter acesso aos meios de comunicação social, conforme política interna da FUNASE;
X- Manter a posse de objetos pessoais, desde que compatíveis e permitidos pelas normas da Unidade;
XI- Receber, quando de seu desligamento, os documentos pessoais indispensáveis à vida em sociedade, bem como, seus pertences;
XII- Solicitar Medida de Convivência Protetora, assegurando-se espaço físico apropriado, quando estiver em situação de risco;
VIII- Receber orientação das regras de funcionamento da Unidade e das normas deste Regimento Interno, mormente, quanto ao Regulamento Disciplinar;
XIV- Receber, periodicamente, informações sobre a evolução do seu Plano Individual de Atendimento - PIA.
Sobre os deveres dos/as adolescentes o regimento interno da FUNASE/PE (2013) dispõe do Art. 16 que ressalta que cabe ao/a adolescente, além das obrigações legais inerentes ao seu estado, submeter-se às normas de execução da Medida Socioeducativa, à proposta pedagógica e escolar da FUNASE e às ações previstas no seu plano Individual de Atendimento - PIA. No Art. 17 incisos de I a XV do regimento interno da FUNASE/PE (2013) apresenta os deveres:
I – Cumprir fielmente a Medida Socioeducativa de Internação, Semiliberdade bem como a Internação Provisória e comportar-se conforme as normas deste Regimento;
II - Tratar com educação, cordialidade e respeito as autoridades, servidores, visitantes e os demais adolescentes;
III - Ter conduta oposta aos movimentos individuais ou coletivos de fugas ou de subversão da ordem ou disciplina;
IV- Atender às normas da Unidade e deste Regimento Interno; V - Obedecer ao servidor, no desempenho de suas atribuições;
VI- Participar das atividades pedagógicas, previstas no Plano Individual de Atendimento - PIA;
VII- Cumprir, quando imposto, a sanção disciplinar;
VIII- Zelar pelos bens patrimoniais e materiais que lhe forem destinados, direta ou indiretamente;
IX- manter a higiene pessoal e conservar seu alojamento;
X- Submeter-se à revista pessoal, de seu alojamento e pertences, sempre que necessário e a critério da Unidade;
XI- Encaminhar ao setor competente os objetos ou valores, cuja entrada não seja permitida na Unidade;
XII- Devolver ao setor competente, os objetos fornecidos pela Unidade e destinados ao uso próprio, quando de seu desligamento;
XIII- Atender à ordem de contagem e conferência nominal dos adolescentes, respondendo ao sinal da autoridade competente, para o controle da segurança e disciplina;
XIV - Permitir a revista e controle, pela área competente, de seus bens, pertences e valores, quando da entrada na Unidade;
XV - Submeter-se a avaliação inicial e continuada pela equipe multidisciplinar.
Portanto, pensar a semiliberdade implica não apenas refletir sobre a seara dos direitos, haja vista que a medida socioeducativa deve ter caráter educativo, mas envolve também os deveres na medida que prevê a responsabilização do/a adolescente em acordo com a perspectiva de desenvolvimento integral pleno.