No registro histórico do judô, comumente são citados nomes de discípulos de Jigoro Kano que tiveram participação na disseminação e popularização da modalidade, seja no seu ensino, seja como exímios competidores. Todos homens.
Um exemplo traduzido em bibliografia é a obra de Stanlei Virgílio “Personagens e histórias do judô brasileiro” (2002), que apresenta o perfil de 64 judocas que contribuíram para o desenvolvimento da modalidade no país. Nenhuma mulher.
Silvana Vilodre Goellner (2013) destaca a incipiência dos registros que detalham a participação feminina nos esportes e sua escassez estão relacionadas a determinadas representações culturais que restringiram a vivência esportiva às mulheres:
A mais significativa delas recais sobre a preservação de uma dada representação de feminilidade segundo a qual a graciosidade, a suavidade, a beleza, o recato, a maternidade eram dignificadas como atributos essenciais e constituintes de uma “verdadeira mulher” (GOELLNER, (2013, p.77).
Não é, portanto, de estranhar ou condenar a carência de registros: esse
“silêncio” não indica a ausência de praticantes, afirma a autora, mas, especialmente um momento histórico. Nesse sentido, a história oral oportuniza ampliar a diversidade no que se sabe sobre o esporte, ao prestigiar indivíduos que tiveram papel na história, mas com sua importância relegada a planos inferiores. Meihy (2011) destaca que
A história oral é campo aberto à produção de conhecimento sobre diferenças. O trabalho com o diverso, não reconhecido, com os excluídos por motivos plurais ou com os interditados, é um dos mais importantes exercícios presentes em projetos com entrevistas. Isso se coloca na perspectiva da valorização da diversidade social e reforça o caráter democrático, de luta pela inclusão, provocado segundo a agenda social ligada ao conhecimento humanístico (MEIHY, 2011, p.28).
Esse pensamento é endossado pelo italiano Alessandro Portelli (2010), que afirma que, em história oral, a história é representada pela experiência pessoal de indivíduos específicos que, diferentemente da biografia, está sustentada pela ênfase na participação individual em eventos históricos. Os narradores articulam memória, avaliação e relatos em diálogos com entrevistadores que estão tentando reconstruir uma estrutura mais ampla.
Assim, convidam-lhe a focalizar o encontro entre a história suas vidas, entre mundos privados e eventos de interesse geral. A história oral também é a oportunidade para narradores relativamente obscuros serem canonizados no discurso público: um relato público realizado por pessoas que raramente tem a oportunidade de falar publicamente (PORTELLI, 2010, p. 186).
Neste estudo, as narradoras têm um perfil plural e, como já foi dito, é precipitado afirmar que estão “obscuras” em seu grupo social, ou seja, o do judô:
todas têm um caráter de protagonismo na modalidade. Contudo, o que as pode enquadrar como pessoas que raramente chamadas a falar publicamente é o fato de o judô ser um espaço que se desenvolveu principalmente como um lugar de dominação masculina54 (BOURDIEU, 2007), sendo esta
uma violência simbólica, suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólica da comunicação, do conhecimento, ou, mais precisamente, do descobrimento, do reconhecimento, ou, em última instância, do sentimento. Essa relação social extraordinariamente ordinária oferece também uma ocasião única de apreender a lógica da dominação, exercida em nome de um princípio simbólico conhecido e reconhecido tanto pelos dominantes quanto pelo dominado (BOURDIEU, 2007, p. 8).
Entre as memórias que as judocas participantes deste estudo narraram, estão vivências de violências simbólicas sofridas por serem do gênero feminino no esporte. Também apontaram, a partir de dados de suas vidas pessoais, fatos importantes para a compreensão sobre o desenvolvimento do judô praticado por
54 A dominação masculina seria uma forma particular de violência, em que a biologia e os corpos seriam espaços onde a desigualdade dos sexos seriam naturalizadas: “Os princípios fundamentais da visão androcêntrica do mundo são naturalizados sob a forma de posições e disposições elementares do corpo que são percebidas como expressões naturais de tendências naturais” (BOURDIEU, 2007, p. 156).
mulheres no Brasil. Tais narrativas podem compreender informações que constituem a memória coletiva do judô brasileiro. Para Halbwachs,
[...] A memória coletiva tira sua força e duração por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão com maior intensidade a cada um deles. De bom grado, diríamos que cada memória individual é um ponto de vista sobra a memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantenho com outros ambientes (HALBWACHS, 1990, p. 69).
Para maior clareza na exposição dos fatos contados pelas entrevistadas e sua relação com a história do judô brasileiro, propõe-se, a seguir, uma periodização do Judô Feminino no Brasil, dividida em três fases e que podem ser comparadas a outros marcos históricos55 da modalidade:
1ª fase – de 1950 a 1979 – Mulheres Judocas “Fora da Lei” – Primeiras judocas praticantes que iniciaram o judô sob o Decreto-Lei 3.199/41, que proibia a prática modalidades “incompatíveis” à natureza da mulher;
2ª fase – de 1980 a 2001 – “Era Mamede”– A participação feminina é oficialmente liberada nos tatames nacional. Começam a se organizar as competições locais e as viagens para competir internacionalmente. Mas as judocas sentem, especialmente na seleção nacional, as restrições de regras e finanças impostas pela gestão do então presidente da CBJ, Joaquim Mamede.
3ª fase – A partir de 2001 – Ascensão do judô feminino brasileiro – Pelo país, crescem os projetos sociais de inclusão, aumentando a participação feminina e, na CBJ, as políticas voltadas ao judô feminino deixam de ser tratadas como “apêndice” do masculino.
55 Tal periodização foi proposta com fins didáticos para a exposição a seguir, não se pretende permanente e está sujeita a revisões. É possível notar a disposição temporal da história do judô a partir das narrativas das participantes em relação ao outros momentos da História no Figura 3 – Linha do Tempo, na página 81.
Antes de apresentar as narrativas das judocas sobre essas três fases, o Capítulo 2 apresenta brevemente um histórico do desenvolvimento do judô, a partir de sua sistematização, em 1882, no Japão, e sua chegada e desenvolvimento no Brasil. Nesse processo, foi levada em conta a versão que se estabeleceu como oficial, instituída e mantida por uma unidade do recorte realizado, mas que não é a única. Pollak (1992) destaca que as memórias coletivas estabelecem, por meio de um trabalho de enquadramento, o que pressupõe que outras versões foram deixadas em segundo plano. Por isso, neste segundo capítulo, tentou-se agregar informações que acrescentem dados sobre o desenvolvimento do judô, especialmente em relação à presença feminina no esporte. Nesta seção, também será discutida a inserção no judô das 16 judocas participantes deste estudo.
O Capítulo 3 fala sobre a primeira fase do judô feminino no Brasil, no período em que praticar modalidades de luta não era legalmente permitido. Proibição que, contudo, não foi capaz de impedir a inserção das mulheres nos tatames, ainda que de forma discreta. São analisados temas destacados pelas entrevistadas, como os preconceitos por elas percebido, as formas de inserção no judô e como financiavam seus treinamentos, além de como estes eram realizados até o final da década de 1970.
O Capítulo 4 versa sobre a 2ª fase do judô feminino, a partir da liberação legal no Brasil para a prática de modalidades de luta por mulheres, em dezembro de 1979, e as primeiras competições para elas, como o primeiro campeonato brasileiro, no Rio de Janeiro, e primeiro Mundial, em Nova York. Esse período coincide com a ascensão e permanência de Joaquim Mamede56 à frente da CBJ. Nesses 21 anos, as judocas apontam seu desenvolvimento como atletas e questões relacionadas ao
56 Joaquim Mamede de Carvalho e Silva foi praticante de levantamento de peso e que teve os primeiros contatos com o judô em meados dos anos 1950. Teve cinco filhas e um filho: Beatriz Maria de Carvalho e Silva, Cristina Maria de Carvalho e Silva, Margarida Maria de Carvalho e Silva, Ana Maria de Carvalho e Silva, Patrícia Maria de Carvalho e Silva, e, Joaquim Mamede de Carvalho e Silva Junior e inseriu todos na prática do judô. Tornou-se presidente da Federação Guanabarina de Judô (FGJ) a partir de 1974, chegou à CBJ no final da gestão de Augusto de Oliveira Cordeiro sem ocupar um cargo de fato. Em 1981, na gestão Miguel Martins Fernando, cargo que segue ocupando, até 1984, Segundo o Mamede, o então presidente da entidade, era ele quem gerenciava e Miguel Martinez, "só assinava". Segue no cargo durante a na gestão de Sérgio Adib Bahi (1982-1984) e é eleito presidente da entidade em 1985, cumprindo duas gestões, até 1991. Como não podia concorrer a um terceiro mandato, inscreveu seu filho, Joaquim Mamede Júnior como candidato a presidência e ele, no cargo de superintendente, permanecendo no posto até 2001, quando perde o pleito para Paulo Wanderley. Mamede faleceu em 1º de outubro de 2015. (NOTA DE FALECIMENTO..., 2015;
MAMEDE SAI PARA ATUAR..., 2015)
financiamento e percepções de preconceito sentidos por ela – optou-se por registrar nas três fases as falas das judocas sobre esses temas, visto que foram assuntos recorrentes em suas narrativas.
O capítulo seguinte, que abarca o período a partir de 2001 – quando Mamede deixa o comando da principal entidade do judô brasileiro – até os dias atuais. Nesse Capitulo 5, além das suas memórias pessoais sobre a modalidade, narram quais foram as principais dificuldades em suas trajetórias e quais as contribuições consideram ter dado ao esporte.