• Nenhum resultado encontrado

Vive-se no Brasil um tempo em que a busca por celeridade nos processos se tornou primordial. A cada dia surgem novas estratégias e metas que visam desafogar o Poder Judiciário o mais rápido possível por meio de prazos e metas, que muitas vezes ocasionam audiências que ganham rapidez e perdem eficácia. Em pesquisa realizada em

2016, identificou-se que apenas 29% dos brasileiros confiavam no Poder Judiciário (FGV/SP, 2016), em termos de eficiência, imparcialidade e honestidade. Além disso, de maneira geral, o serviço prestado pelo Judiciário é considerado lento (por 88% dos entrevistados), caro (por 77%) e difícil de utilizar (por 67%) (FGV/SP, 2014). Assim, esse sistema se mostra contraproducente, pois embora lute por audiências e processos rápidos a fim de garantir o direito a celeridade processual, a cada dia se torna mais lento e promove mais injustiças, uma vez que o número de novos processos aumenta exponencialmente.

Diante das dificuldades enfrentadas, especialmente no que diz respeito a apresentar soluções mais rápidas e eficazes para os conflitos, o Poder Judiciário tem incentivado a utilização de mecanismos alternativos para administrá-los. Como exemplos, destacam-se Conciliação, Mediação, Audiência de Custódia6, Constelação Familiar7 e também a Justiça Restaurativa (que será discutida na próxima seção).

Interessante ressaltar que a população brasileira se mostra aberta a utilização desses métodos, conforme se vê no relatório do Índice de Confiança na Justiça (ICJBrasil), realizado pela FGV/SP em 2014 8. Nessa pesquisa foi avaliada a percepção da população quanto à busca por soluções alternativas de resolução de conflitos e os resultados são muito positivos pois 42% dos entrevistados disseram que com certeza aceitariam procurar meios alternativos de solução de conflitos e 25% afirmaram que possivelmente o fariam. Isto significa que 67% dos entrevistados mostraram-se favoráveis a utilização de mecanismos alternativos 9.

6 Prevista em pactos e tratados internacionais assinados pelo Brasil, como o Pacto Internacional de

Direitos Civis e Políticos e a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, consiste na garantia da rápida apresentação do preso a um juiz, nos casos de prisões em flagrante, para que ele possa analisar a prisão sob o aspecto da legalidade, da necessidade e da adequação da continuidade da prisão ou da eventual concessão de liberdade, com ou sem a imposição de outras medidas cautelares, além de analisar eventuais ocorrências de tortura ou de maus-tratos. Mais informações no link: <http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/audiencia-de-custodia>. Acesso em 14 out. 2016.

7 Método psicoterapêutico que possui uma abordagem sistêmica, desenvolvido pelo psicoterapeuta

alemão Bert Hellinger.

8 Foram entrevistadas 6.623 pessoas no total.

9 O ICJBrasil é um levantamento estatístico trimestral de natureza qualitativa, realizado nas regiões

metropolitanas e no interior de sete Estados do país e do Distrito Federal com base em amostra representativa da população. Ele utiliza as sondagens de tendência, que são levantamentos estatísticos que geram informações utilizadas no monitoramento da situação corrente e na antecipação de eventos futuros. Baseando-se nas estimativas da pesquisa de 2011, a amostra foi dimensionada de modo a ter um erro amostral absoluto de aproximadamente 2,5% com um coeficiente de confiança de 95% para a variável de confiança no Judiciário brasileiro.

A busca pela paz e a construção de uma cultura de paz não pode se dar senão como um caminho a ser percorrido, por meio de mecanismos diversos e amplos, por meio da pesquisa e da ação, começando pela educação; pelo cultivo de valores como tolerância e respeito a diversidade; passando pela discussão e combate às violações dos Direitos Humanos; pela construção de uma comunicação não violenta entre os povos e nações; e chegando na utilização de meios pacíficos para transformar os conflitos. Enfim, a paz precisa ser fomentada em todas as esferas.

Na busca por atuar nesse movimento pela paz, esta pesquisa abordará principalmente a Justiça Restaurativa, um mecanismo para transformar conflitos muito eficaz, que, embora não seja uma panaceia, traz uma verdadeira revolução social em prol da cultura de paz, uma vez que promove a mudança dos paradigmas em todas as dimensões da convivência (relacional, institucional e social). Ao buscar a construção de um poder em conjunto com outro, onde todos participam ativamente da transformação, ela fomenta a busca por uma sociedade mais justa e humana (SALMASO, 2016).

Jares faz uma consideração muito pertinente sobre os métodos de resolução de conflitos:

Pois bem, afirmamos que a resolução de conflitos – contrariando as publicações que a abordam como uma técnica ou uma fórmula mágica, pela qual é possível resolver todas as situações conflituosas – de modo algum é um processo que pode ser aplicado de forma mimética a todas as situações, pois cada uma delas tem suas peculiaridades. Além disso, a resolução positiva de um conflito não depende unicamente do conhecimento de determinadas técnicas e circunstâncias que o permeiam e que, em contrapartida, podem nos ajudar a entendê-lo e intervir de maneira mais eficaz ou, na pior das hipóteses, com maior probabilidade de fazê-lo (JARES, 2007, p. 97). Cada situação conflituosa tem suas próprias características e por isso a busca por sua transformação em algo positivo nem sempre se dá por um único caminho. Antes de tudo, o conflito está ligado ao relacionamento entre pessoas e por isso em alguns casos será preciso intervir utilizando mecanismos diversos ou até mesmo mesclá-los para alcançar eficácia diante da diversidade humana.

Apesar de se considerar que a abordagem transformativa é muito positiva, o próprio Lederach afirma que ela é mais apropriada em algumas situações do que em outras. Em certos conflitos, onde se necessita de uma solução rápida e definitiva e os oponentes têm pouco ou nenhum relacionamento anterior, faz mais sentido utilizar a resolução de problemas ou a negociação (que possui um tratamento de simples

resolução), pois a exploração de padrões relacionais e estruturais teria um valor limitado nesses casos (LEDERACH, 2012).

Percebe-se, assim, que ―o processo de resolução de conflitos não é algo linear, fácil, nem de aplicação mecânica‖ (JARES, 2007, p. 103). Todavia, por serem inevitáveis dentro do relacionamento humano, é imprescindível que se busquem estratégias para administrar os interesses antagônicos a fim de possibilitar um desfecho satisfatório para as partes.

Em um trecho de seu livro A Paz é o Caminho, transcrito abaixo, Chopra fala sobre como buscar soluções pacíficas para os conflitos, negociando por meio da paz.

Mostre respeito pelo seu adversário. Reconheça a injustiça percebida. Acredite no perdão.

Forme um vínculo no nível emocional. Desista das ações beligerantes.

Reconheça valores opostos aos seus.

Não faça um julgamento que condene seu adversário. Não fale em função da ideologia.

Enfrente o fator subjacente do medo (CHOPRA, 2005, p. 238).

Em suma, a escolha do método a ser utilizado deve ser avaliada porque nem sempre é necessário aprofundar nas possibilidades de mudança e transformação de uma situação. Todavia, se a decisão for por explorá-la, é essencial que se utilizem processos que primem pelo respeito aos direitos humanos e à construção da paz.

Nessa primeira seção foram discutidas a paz e violência, o conflito, o contexto atual de crise do sistema penal e a banalização dessa crise. Como forma de abordar caminhos para mudar essa realidade, foi apresentada a perspectiva de transformação de conflitos, defendida por Lederah.

O mecanismo de transformação de conflitos escolhido para ser trabalhado na presente pesquisa e a Justiça Restaurativa, por se tratar de um tema complexo e para que se possa compreender as razões pelas quais esse método tem se mostrado eficaz, a próxima seção se dedicará a apresentar propriamente do que trata esse modelo. Em razão de sua importância para o presente trabalho, será dedicado um espaço maior de análise e descrição do contexto histórico em que surgiu, sua terminologia, os fundamentos e metodologias que utiliza, sua visão sistêmica e como essas experiências tem sido implementadas no Brasil. Além disso, serão apresentadas com mais detalhes duas técnicas que são utilizadas em suas práticas: os Círculos de Construção de Paz e a

3 JUSTIÇA RESTAURATIVA E SEU MODELO HUMANIZADO