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Sob a dinastia do açúcar (...) reuniu-se a

população, fixou-se a monocultura

latifundiária, localizou-se geograficamente o território.

Manuel Diégues Júnior

No século XVI, a partir da terceira década, o Rei de Portugal procurou efetivar a ocupação do espaço brasileiro para garantir os seus direitos sobre a colônia, ameaçada pelos espanhóis, franceses e holandeses. Para atingir seus objetivos, o soberano português criou um atrativo para ambiciosos aventureiros: o sistema de Capitanias Hereditárias. Tratava-se do repartimento da soberania portuguesa através da divisão e uso das terras descobertas além-mar. Esse sistema já havia sido utilizado com relativo sucesso na África e consistia na divisão do território em 15 partes, a fim de viabilizar a exploração das riquezas. As terras tinham como limites o Oceano Atlântico, a Leste, e o Tratado de Tordesilhas, a Oeste.

Contam Manuel Correia de Andrade (1998) e Diégues Júnior (2002) que foi a instalação dos engenhos de açúcar e a entrada de africanos como mão de obra escrava para trabalho nas plantações de cana de açúcar, que aconteceu por volta do segundo quartel do século XVI, que permitiram o projeto de ocupação e a exploração das terras proposto pelo sistema de Capitanias Hereditárias. Foi a atividade nos engenhos que promoveu a “dilatação territorial” e a formação dos primeiros núcleos de povoamento ao longo da costa litorânea (DIÉGUES JÚNIOR, 2002, p.41).

As Capitanias de São Vicente e de Pernambuco foram as mais promissoras no comércio do açúcar. Esta última conseguiu o apogeu na realização da atividade logo entre 1570 e 1650, poucos anos depois de ter sido implantado o sistema de Capitanias Hereditárias e de ter sido criado o primeiro engenho de açúcar, em 1542, às margens do rio Mundaú, (ENNES, 1938).

O rio Mundaú foi um dos principais centros geográficos que impulsionaram o crescimento do território pernambucano, emergindo na história como sede das primeiras propriedades econômicas e da produção de açúcar de várias formas: umidificando os solos,

movimentando as moendas, permitindo o asseio pessoal e familiar, permitindo a limpeza dos animais, transportando pessoas, funcionando como modo de escoamento da produção, “fazendo o comércio do açúcar”, fazendo deslizar de ponto a ponto de suas águas toda a sorte de gêneros essenciais e complementares à manutenção da vida (DIÉGUES JÚNIOR, 2002, p. 43).

O vale do Mundaú foi o primeiro foco de povoamento do sul da Capitania de Pernambuco55. Os demais focos estão nas regiões Norte (onde está situado hoje o estado de Pernambuco) e na região interiorana da mata (região central da capitania, compreendendo a região fronteiriça entre os estados de Pernambuco e de Alagoas), explorada no século XVII pelos integrantes das expedições contra o Quilombo dos Palmares56 (DIÉGUES JÚNIOR, 2002, p. 41). As “entradas57 interioranas” promovidas para caçar os palmarinos58 permitiram a descoberta das melhores terras para a expansão da monocultura da cana-de-açúcar. Elas estavam incrustadas numa região de altitudes elevadas, de “interflúvios planos” com “associações vegetais semelhantes” e de “solos oriundos da decomposição de rochas cristalinas”, sendo exatamente por isso uma paisagem de “mato exuberante” que passou, desde então, a ser conhecida como Zona da Mata59 (ANDRADE, 1998, p 27-30).

Foi nessa faixa de terra que o primeiro e principal modelo de colonização do Brasilse desenvolveu eficazmente, baseado na grande propriedade, fundamentada primariamente na monocultura canavieira e na produção do açúcar, se tornando, por isso, a faixa de terra mais populosa e próspera.

O sistema desenvolvia-se na colônia através do barateamento das atividades ocasionado pela intensa exploração da força de trabalho dos africanos e do uso da força de trabalho de homens (relativamente) livres que prestavam vários tipos de serviços ao dono da terra, o senhor de engenho, desde o cuidado da casa até o cultivo de hortaliças.

55 O Sul da Capitania de Pernambuco compreende hoje o estado de Alagoas.

56 Afirmam Ernesto Ennes (1938), Diégues Júnior (2002) e João Reis e Flávio Gomes (1996) ser este o maior

e primeiro assentamento construído por escravos sublevados do Brasil, tendo sido erigido ainda por volta de 1597 e 1600.

57Grupos de homens, patrocinados pelos senhores de terras da região, que se embrenhavam pelas matas e

sertões a dentro para fazer o reconhecimento do território e para caçar bandidos e escravos fugidos.

58 Como chamavam os habitantes do Quilombo dos Palmares, que não eram apenas negros, mas também

índios e homens brancos livres.

59A Zona da Mata compreende a área que vai do Rio Grande do Norte até a Bahia. O mato exuberante é

característica da Mata Atlântica, o bioma principal desse trecho de terras brasileiras. O cultivo de cana de açúcar, cacau, café e fumo são até hoje as principais fontes de receitas para os estados que a integram aliados ao turismo recente.

O sucesso da produção de açúcar no Brasil deveu-se, especialmente, à aliança entre o aproveitamento integral da mão-de-obra africana, do trabalho livre local e da expansão do domínio da monocultura da cana de açúcar sobre as culturas de subsistência. Esses fatores combinados permitiam à Coroa Portuguesa conquistar novas e maiores parcelas do mercado europeu.

O engenho era um mundo tecido em complexa rede de relações econômicas, sociais, culturais, e políticas que se baseava na figura do senhor de terras e que tinha como núcleo a família patriarcal. A hierarquia social, bastante rígida, obedecia à seguinte ordem: em primeiro lugar, a tecer todos os escaninhos da vida, estavam os senhores, donos de enormes porções de terra e das vidas dispostas sobre elas, e sua família; em segundo lugar, os homens livres, que ofereciam seus serviços ao senhor de engenho como capatazes, capitães do mato, feitores entre outras funções assalariadas de confiança; em terceiro lugar, os roceiros ou moradores, homens livres que botavam lavoura dentro das terras do senhor em troca de moradia e de sua subsistência60; em quarto lugar, os empregados, homens livres assalariados que dirigiam os negros no fabrico de açúcar; e em quinto lugar, os negros, escravizados e desumanizados pela subserviência integral ao senhor61 (GORENDER, 1998, p. 209).

Os engenhos abrigavam de 200 a 600 trabalhadores, entre homens livres e escravos, dependendo do poder aquisitivo do seu dono ou do tamanho da propriedade. O engenho era a esfera de influência do senhor de terras e, nesse sentido, era bem maior que a sua área total, seu espaço físico, compreendido pela casa, senzala, plantation e cultivos menores, se estendendo até as povoações situadas em seu entorno. Tudo isso era domínio do senhor de engenho, um território sob a sua autoridade.

60 Esse tipo de relação e situação configura o que se intitula de campesinato (WANDERLEY,2009).

61A hierarquia das funções no engenho também era de cor: a família do senhor e os empregados de confiança eram brancos, os roceiros ou moradores e os que dirigiam os escravos eram mestiços, e os escravos eram negros. O fato de algumas funções de homens livres serem assalariadas, como os cargos de confiança e de direção do fabrico do açúcar, e eventualmente remuneradas, como as de produção de gêneros alimentícios essenciais para o engenho, não implica dizer que eles estavam no mesmo patamar ou que tinham o mesmo tipo de relação com o patrão, apenas que o dinheiro também era utilizado como elemento (maior ou menor) de coerção, mas sempre como amálgama do sistema de produção. Receber mais ou menos dinheiro do patrão isso, sim, era indicativo de melhores condições sociais e de certa liberdade. Portanto, a expressão “homens livres” não é porque gozavam realmente de liberdade, mas, sim, porque não eram totalmente servis e nem escravos de fato, ou seja, estavam numa região social fronteiriça onde nem estavam nem em uma ponta (senhores de terra) e nem em outra do sistema (escravos). A relação que mantinham com o dono das terras onde trabalhavam/moravam era uma forma social branda ou menos implacável que a estabelecida com os escravos. Porém, em todo caso, o patrão seria sempre o senhor de suas vidas, a quem estavam ligados por um código moral, de base material e simbólica (VERÇOSA, 2012; WOORTMANN, 1990).

O poder e os interesses econômicos gerados pela cana dilatavam os costumes e valores da vida no engenho por toda região. Dessa forma, a família do senhor e seu engenho representavam, concomitantemente, “unidade produtiva”, uma “unidade social”, um “grupo político”, uma “unidade étnica”62 e um “núcleo cultural”. “A penetração da força produtiva do engenho na vida dos povoados, das vilas, mais tarde do Município (...) [é de tal forma] que a povoação nasce em função do engenho, ou talvez como uma necessidade dele” (DIÉGUES JÚNIOR, 2002, p. 85).

Assim, “Em cada um dos núcleos de povoamento [engenho] fixou-se um bloco social, cuja base assentou na formação e desenvolvimento da família [do senhor de engenho]”. “Sob a dinastia do açúcar (...) reuniu-se a população, fixou-se a monocultura latifundiária, localizou-se geograficamente o território” (DIÉGUES JÚNIOR, 2002, p. 85), criou-se a aristocracia e os valores morais que organizaram a sociedade, dando forma às relações sociais clientelísticas e paternalistas que configuram até hoje a vida na região da Zona da Mata nordestina (ANDRADE, 1995).

A economia deste período era pré-capitalista, portanto, a manutenção da vida não permitia que a economia fosse estritamente mercantilista, isto é, voltada unicamente para a produção para exportação. Era necessário que o sistema se sustentasse. Devia, assim, ter como suporte e integrante orgânica da unidade produtora comercializável uma unidade produtora de autoabastecimento, a qual realizava-se com a destinação de alguns lotes de terra para a produção do consumo doméstico.

Os modos de produção pré-capitalistas (escravismo antigos, feudalismo, escravismo moderno) se caracterizavam pelo baixo nível de desenvolvimento e de socialização das forças produtivas, pela subordinação pessoal do produtor direto ao proprietário dos meios de produção e pelo impedimento expresso de participação dos produtores diretos no Estado, cujos cargos eram estritamente ocupados pelos indivíduos pertencentes à classe dominante (BOITO JÚNIOR, 2015, p. 80- 81).

Assim, o trabalhador escravo, tanto no escravismo antigo quanto no moderno, é definido como propriedade (instrumento de produção) do seu senhor. O trabalhador

62 Diégues Júnior refere-se ao engenho como unidade étnica no sentido de que nele não havia divergências de natureza étnica, menos ainda política, posto que ele era um território sob a autoridade do senhor de engenho. O engenho representava a colonização bem-sucedida, um produto do trabalho português, numa clara suposição de superioridade racial e de desqualificação de negros, mestiços e indígenas. A pátria era uma colônia (território ocupado e administrado por um grupo de indivíduos que representavam a nação a qual esse território pertencia), mas a etnia era português-europeia (SEYFERTH, 1988).

camponês, por outro lado, era o homem livre que estava disponível para oferecer seu trabalho. Ele se distinguia em dois grupos: o camponês servo de gleba e o camponês servil. O primeiro era um trabalhador que era limitado e totalmente dependente da produção do lote (gleba) que o senhor da terra lhe destinava. Ele servia diretamente à terra e indiretamente ao proprietário dela, por isso a autoridade do senhor sobre sua pessoa era moderada. Já o camponês servil detinha a posse de parte dos meios de produção e, por isso, podia praticar uma economia relativamente independente. No entanto, tanto em um caso como em outro, havia a sujeição pessoal ao proprietário dos meios de produção, de forma que o sobre-trabalho camponês era transferido ao senhor de terras sob a forma de renda- produto (tributos), renda-trabalho (corveia63) e, vez ou outra, renda-dinheiro (BOITO JÚNIOR, 2015).

Os trabalhadores escravos viviam sob o comando unificado de um mesmo senhor e num mesmo local de trabalho, já os camponeses viviam distribuídos em pequenas unidades produtivas isoladas (glebas), assumindo cada família camponesa o controle da produção agrícola na gleba à qual estava vinculada. Essa dispersão física e produtiva obstaculizava, embora não inviabilizava, a ação coletiva organizada de resistência trabalhadora (BOITO JÚNIOR, 2015, p.81).

A condição de instrumento de produção vivenciada pelos trabalhadores escravos, considera Boito Júnior (2015), era o maior obstáculo à ação coletiva, salvo nos casos de “brecha camponesa”, quando os escravos podiam produzir para si mesmos, como os camponeses (CARDOSO, 2009), e experimentavam um pouco de liberdade, o suficiente para a desejarem vigorosamente e, assim, organizarem revoltas, fugas e territórios de resistência64, locais onde os escravos passariam à condição de quilombola e desta a de camponês (GORENDER, 1998; MOURA, 2001; MANOLO e FLORENTINO, 2012). Essa situação engendra uma complexidade ao campesinato, que não pode mais ser tratado unicamente como atividade apenas de trabalhadores livres e homens brancos pobres ou mestiços.

63 Serviço gratuito prestado ao senhor da terra.

64 O escravo, doméstico e artesão, obtinha um tratamento diferente daquele dispensado ao escravo do campo,

trabalhador das plantations. Os primeiros eram favorecidos pelo fato de prestarem serviços pessoais e de conhecimento técnico ao senhor e sua família, estes geralmente eram homens de confiança e, por isso, tendiam a não participar das fugas e revoltas, majoritariamente organizadas pelos escravos do campo, considerados insubordinados e degredados (BOITO JÚNIOR, 2015, p.84).

1.1 A formação do campesinato no Nordeste açucareiro

A produção para o consumo doméstico do engenho, também chamada de autoabastecimento ou de autoconsumo, era uma atividade complementar e necessária à produção mercantil e se constituía como uma unidade produtora de subsistência. Gorender (1988, p. 238) afirma que “toda plantagem produzia gêneros alimentícios básicos para seu consumo – cereais, tubérculos, legumes e frutas, tecido, carpintaria, mobiliário, edificações, selas, arreios”, comprando apenas o que não era possível produzir na própria terra, como a carne-seca ou o peixe-seco.

Esse tipo de produção destinava-se principalmente à casa do senhor, mas também era destinado ao consumo dos outros habitantes do engenho, podendo o excedente ser negociado no incipiente mercado regional. O autoabastecimento era uma atividade de responsabilidade dos trabalhadores livres, camponeses servis e camponeses de gleba, e, em menor escala, dos escravos. Para os primeiros destinava-se uma posse de terra, uma morada, a fim de que habitassem e pudessem estabelecer as lavouras de subsistência. Esta posse poderia ser paga em valor monetário ou, ainda, trocada pela força-de-trabalho, que ficaria emprestada por dois ou três dias nas plantações do senhor, sistema conhecido como foro65. Já os escravos recebiam um pequeno lote para trabalhar para sua subsistência e a do seu senhor nos dias que não estivessem na plantagem da cana, geralmente em dias santos66. Algumas lavouras estavam situadas em faixas de terra no meio das plantagens de cana-de- açúcar67, no local onde os escravos passavam todo o dia, de forma que não precisavam se deslocar para comer, podendo colher e cozinhar o alimento necessário à sua recomposição física (GORENDER, 1998, p. 243).

A concessão e até obrigatoriedade de cultivar lavouras de subsistência ou de autoabastecimento pelos escravos e homens livres roceiros eram atividades secundárias em relação ao sistema vigente. No entanto, eram bem funcionais e indiscutivelmente indispensáveis: eram nos pequenos lotes de terra que se produziam os móveis de madeira, o azeite, o tabaco, as bebidas, os potes de barro, as cordas, os chapéus de palha, as redes de

65 São denominados foreiros os camponeses que arrendam parcelas de terras pertencentes a engenhos ou

fazendas, dentro dos quais vivem, pagando por elas uma renda anual conhecida como foro (Heredia, 2013).

66 Explica Gorender (1998) e Manolo Florentino e Marcia Amantino (2012) que dias santos correspondem aos

domingos e outros dias de comemoração católica.

pesca, onde se curtia o couro, e era onde estava a força de trabalho que trazia o peixe e a carne, artigos de difícil acesso, para a mesa (GORENDER, 1998; CARDOSO, 1979).

Esses pequenos lotes de terra concedidos para usufruto dos escravos não domésticos e homens livres, criou uma espécie de “mosaico camponês-escravo” (CARDOSO, 2009), não apenas porque havia a combinação destes dois elementos na produção de subsistência das fazendas, mas porque ambos se reconheciam na mesma necessidade: a de ter que plantar para sua sobrevivência e para manter seu senhor. Esse mosaico era fundamentado no “binômio plantation/conuco”68

, que, além de garantir a manutenção do sistema, garantia a minimização do custo de reprodução da sua força de trabalho (CARDOSO, 2009, p. 97- 107).

Gorender (1998, p. 250-277) indica que, na verdade, haviam razões significativamente produtivas para o senhor de engenho realizar concessões de terras aos escravos e aos trabalhadores livres das lavouras: a) diminuir os custos com a manutenção de sua família e de seus empregados, através do cultivo do que era a base da alimentação diária de ambos os grupos; b) diminuir ainda mais os intervalos de tempo que os escravos das plantagens ficavam sem produzir, evitando que se deslocassem para realizar a refeição; c) suscitar o afeto à terra, para que as atividades fossem desenvolvidas com mais zelo; e d) incitar nos escravos o desejo à liberdade, criando a ilusão de poder um dia adquirir a alforria, o que aplainava os seus corações e ânimos e destituía-lhes, acreditava-se, o espírito da revolta, e nos trabalhadores livres incitar à ideia de possuir uma terra realmente sua, onde pudessem morar e dispor, da forma que desejassem, dos frutos de seu trabalho, contanto que fosse sempre entregue o percentual de gêneros da casa do senhor e pago o fôro. Em ambos os casos poder-se-ia até receber a permissão de vender os gêneros produzidos fora do engenho, o que dava realmente a impressão de ser o dono do próprio trabalho e da terra.

Segundo documentos do século XVII do Conselho Ultramarino Português, organizados por Décio Freitas (2004, p. 162), em momentos de alta do açúcar no mercado europeu, considerava-se anti-econômico empregar terras, trabalhadores livres e escravos na produção de mandioca e farinha, bem como de outros gêneros alimentícios indispensáveis à subsistência da colônia, o que acarretava períodos de imensa “penúria alimentar”. Porém, nas épocas que ocorriam conflitos, como as lutas contra invasores estrangeiros ou contra

68 “Conuco” é o nome dado ao lote de subsistência essencial para o funcionamento da fazenda (CARDOSO,

saqueadores, a escassez de farinha de mandioca69 o Governo-Geral obrigava a todos os donos de terras a diminuírem a produção de açúcar para cultivarem mais alimentos para a manutenção das tropas militares e para a sobrevivência das vilas e cidades. Essa é uma demonstração clara de que o sustentáculo da “dinastia do açúcar”, em particular, e da produção agrícola, em geral, estava nessa combinação entre o escravismo e o campesinato.

Ciro Flamarion Cardoso (1979) afirma que o campesinato nas Américas, desenvolvido pelos escravos e homens livres pobres, envolve uma ideia de autonomia, representada pela possibilidade de dispor de uma economia própria, uma “estratégia econômica e psicológica” destinada a ligar o escravo e o roceiro à fazenda, evitando a fuga dos primeiros e a independência dos segundos, ou melhor, funcionava como mecanismo de manutenção da ordem escravista, já que ambos os elementos sem a posse da terra, de fato, teriam que servir ao (trabalhar para) dono da fazenda pelo tempo que precisassem subsistir (2009, p.101-102).

Gorender (1998) e Cardoso (1979; 2009) afirmam que os escravos e os homens livres pobres não estavam tão à margem da incipiente sociedade brasileira, visto que o excedente da produção geralmente era comercializado no mercado local. Em todas as colônias americanas havia, em maior ou menor grau, a inserção de produtos camponeses nos circuitos mercantis, especialmente as bebidas (com destaque para a cachaça), de forma que escravos e homens livres camponeses “participavam diretamente da economia de mercado e eram capazes de acumular capital” (SCHWARTZ, 1977, p.73 apud CARDOSO, 2009, p.112).

Estava inscrito nesse fato a possibilidade da compra da alforria e de um pedaço de terra para a manutenção de si e da família, o que funcionava como motivação diária para o trabalho na terra do senhor. Isso era tão verdade que quando os escravos fugiam e fundavam os quilombos70, eles continuavam a se dedicar ao trabalho, até porque as lavouras serviam tanto para sua sobrevivência como para negociarem o excedente com o mercado local e até internacional, como foi o caso do Quilombo dos Palmares71,

69 Que era o elemento mais importante da alimentação nos engenhos.

70 Assentamentos onde escravos fugidos e homens foragidos das malhas do sistema vigente se organizavam

para resistirem e para enfrentarem as tropas coloniais, gozando de uma significativa liberdade, já que, em princípio, o quilombo se constituía como uma sociedade alternativa à colonial (MUNANGA, 2001).

71 O fato de os escravos e quilombolas manterem atividades agropecuárias para garantir a própria subsistência

e para suprir o mercado interno e externo é chamado por Ciro Flamarion Cardoso de “brecha camponesa” (2009).

estruturando, inclusive, uma concorrência mercantil contra os latifúndios regionais (PALACIOS, 2009, p. 155).

Durante o desenvolvimento da produção açucareira no Nordeste brasileiro a Coroa Portuguesa restringiu muitas vezes a atividade camponesa, especialmente as de pequenos proprietários, com três finalidades: a primeira de aumentar a produtividade, sujeitando o maior número de lavouras e de terras no cultivo da cana de açúcar; a segunda de concentrar

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