ELETROENCEFALOGRAFIA DA MEDITAÇÃO
O CAMPO AUTO-INTERATIVO DA CONSCIÊNCIA
Rendo-me à crença de que meu conhecimento é uma pe- quena parte de um conheci- mento integrado mais amplo que mantém unida toda a bios- fera ou a criação.
Gregory Bateson
Segundo a física moderna, o que dá origem e significação à matéria é o campo quântico subjacente a ela. Nas regiões do espaço, em que o campo é extremamente intenso, a matéria como que se "condensaria". O campo é visto como um conti-
nuum, presente em todo o espaço, e uma partícula subatômica
como uma descontinuidade na estrutura do campo. São descri- tas quatro forças fundamentais no universo, a força fraca, a força eletromagnética, a força forte e a força de gravidade, todas entendidas como campos de força. Nos últimos anos foram elaborados modelos matemáticos que permitiram uma unifica- ção da força eletromagnética com a força fraca a níveis funda- mentais de funcionamento da natureza, na escala de 10-16 cm, cem vezes menores que as dimensões nucleares. A este nível as forças fraca e eletromagnética se tornam indistinguíveis e sur- gem propriedades de auto-referência (auto-interação) do campo com ele mesmo. Posteriormente a força forte foi incluída em uma teoria denominada Grande Unificação, sendo as três forças unificadas a uma escala de 10-29cm. Finalmente, em 1974, a introdução do conceito de supersimetria permitiu a unificação dos campos ao nível da escala da constante de Planck (10-33cm). É a Teoria do Campo Unificado com Supersimetria e Supergra- vidade. A propriedade de auto-interação desencadeia a este nível uma transição de fase na estrutura do espaço-tempo, em
que o espaço e o tempo desaparecem dando lugar a um oceano infinitamente dinâmico de energia denominada "espuma" quân- tica, constituído por microburacos negros e brancos interconec- tando todo o universo.
Na tradição védica hindu o estado de pura consciência (veda) é descrito como completamente auto-suficiente, auto- referente e infinitamente dinâmico. Maharishi Maheshi Yogi, durante o Congresso sobre Ciência Védica realizado em 1991 em Maastricht, na Holanda, descreveu este estado como o esta- do unificado do conhecedor, do conhecido e do processo de conhecimento. Segundo o físico John Hagelin, um dos expoen- tes em física do campo unificado, esse estado de três-em-um
(samhita, na tradição védica), é similar ao que se observa em
física na estrutura do campo unificado. Nesta concepção, o es- tado de pura consciência seria o próprio campo unificado que conteria potencialmente todas as leis da natureza. O acesso a este nível, por meio da meditação profunda, permitiria ao medi- tante o controle das leis da natureza e de todos os fenômenos descritos por nossa ciência ocidental como místicos ou para- normais (os sidhis, da tradição hindu).
Auto-referência, coerência e evolução
As propriedades auto-referenciais e auto-interacionais, observadas no campo unificado, estão também presentes ao nível fisiológico, na estrutura molecular do ADN, cujo parea- mento complementar de bases nitrogenadas é auto-referencial. É um mecanismo altamente conservador na preservação da integridade da informação genética, e altamente estável (coeren- te) em termos de estrutura atômico-molecular. Em sistemas fisiológicos mais complexos, como por exemplo o sistema imu- nológico, o sistema endócrino e o sistema nervoso, estes mes- mos mecanismos auto-referenciais estão presentes, na forma de sistemas homeostáticos auto-reguladores e auto-organizadores (neuroimunomodulação), os quais permitem ao organismo fun- cionar mantendo-se livre da desordem.
sico e fisiológico, nos mostra que as qualidades de auto-inte- ração (auto-referência) e de coerência constituem uma carac- terística fundamental da dinâmica da evolução cósmica que surge em diversos patamares de organização.
Consciência e inteligência
Os atributos do campo unificado e dos sistemas fisiológi- cos, de auto-suficiência e auto-interatividade refletem uma compactação imensa, em níveis diferentes, das leis da natureza que estruturam o universo. Sistemas auto-referenciais, com a capacidade de agir sobre si mesmo, e conhecer a si mesmo de modo espontâneo, são sistemas que apresentam qualidades de consciência e inteligência. É uma concepção de consciência, que permite atribuirmos níveis de consciência a sistemas físicos ou sistemas biológicos simples. Descrições de consciência mi- neral, vegetal e animal, são relatadas durante terapias em esta- dos transpessoais de consciência (cf. por exemplo os relatos dos pacientes de Grof durante as terapias com LSD, e outros estados alterados de consciência). Este argumento, baseado na analogia entre as qualidades do campo unificado, e do estado subjetivo de "pura" consciência, ou "pura" inteligência, é o que Hagelin apresenta em sua teoria do campo unificado da consciência. De um estado inicial de completa auto-referência e pura inteligên- cia, o universo teria evoluído por meio de estruturas auto- referenciais e altamente coerentes, como os sistemas biológicos, até o nível de interatividade e autoconsciência representado pelo sistema nervoso central do homem. É possível entendermos que a partir de um certo ponto de desenvolvimento estes sistemas conscientes (auto-referenciais e altamente coerentes) comecem a assumir vida própria, autoprogramando-se por meio de seus sistemas parciais.
Bentov, em seu livro Stalking the wild pendulum – on the
mechanics of consciousness, descreve a relação entre o número
de respostas de um sistema a um estímulo, que denomina "quantidade de consciência", e o nível de consciência, ou "qua- lidade da consciência", que exprime em termos de resposta-
freqüência. Quanto mais elevada a qual idade da consciência, maior o leque de respostas - freqüências possíveis e o seu refi- namento. Neste modelo, o absoluto seria a soma total, e a fonte, de todas as consciências do universo, e todas as realidades seri- am níveis de consciência caracterizados por limiares específicos de trocas energéticas com o meio ambiente, que se situariam abaixo do absoluto. Deste modo é possível compreendermos o espectro de realidades da natureza como um espectro de níveis de consciência, de tal forma que um mineral ou vegetal podem ser vistos como portadores de consciência. Nos níveis mais elevados, a interação com o meio ambiente é maior, sendo pos- sível alcançar-se o controle das leis da natureza.
Podemos imaginar o absoluto como um infinito e profun- do oceano em que a freqüência das ondas é tão elevada e seu tamanho tão infinitamente pequeno, que sua superfície nos pa- receria calma e invisível. No entanto, conteria uma tremenda energia, plena de inteligência, potencial criativo e capacidade auto-organizadora. Quando na superfície deste oceano de "pura" consciência surgem movimentos e vibrações (ondas) maiores e com freqüências mais baixas, a realidade física se torna mani- festa. Assim, um quantum de eletricidade – o elétron -nada mais é do que um pacote de ondas na superfície do campo de energia – consciência que permeia todo o universo. "O elétron, afirma Bentov, é uma unidade de pura consciência que vibra". A maté- ria, sendo constituída por quanta de energia, seria o componen- te vibratório, visível e manifesto, da pura consciência. Matéria e consciência seriam simplesmente aspectos diferentes de uma mesma realidade energética universal.
A consciência implica na capacidade de manifestar inteli- gência. Wiener afirmou que "informação é informação, não matéria ou energia," e que ela estaria relacionada à entropia negativa. Como o notou Brillouin, este ponto de vista estende o conceito de entropia a todas as formas de inteligência. Castañe- da também refere-se a níveis de consciência, como "realidades separadas", às quais seria possível ter acesso por meio do co- nhecimento, tal como os brujos Don Juan e D. Genaro, descri- tos por ele, que possuíam o conhecimento de realidades mais
elevadas. O homem de conhecimento "encontra-se disponível por inteiro, pronto a alcançar todo o seu ser no abismo de cada acontecimento, aceitando completamente o incompreensível fluxo da vida", vivenciando outros padrões de percepção e per- correndo outros patamares da existência, até atingir o pleno entendimento.