3.2 Análise QUALITATIVA
3.2.1 Categorias de Análise QUALITATIVA
3.2.1.1 Campo de apropriação: Formação de Professores
3.2.1 Categorias de Análise QUALITATIVA
A análise feita no viés qualitativo interpreta e compreende os trabalhos de pesquisa dos últimos 5 (cinco) anos, divulgados em dissertações de mestrado ou teses de doutorado, ou publicados em periódicos científicos brasileiros, baseados em perspectivas teóricas desenvolvidas por Reuven Feuerstein. Para melhor entendimento e compreensão da apropriação de sua teoria e dos conceitos a ela pertinentes, os estudos analisados foram classificados conforme as categorias de pesquisa educacional acima descritas. Ao longo da análise qualitativa, algumas explicações dos conceitos de Feuerstein utilizados nos estudos são fornecidas, como meio para melhor entendimento da maneira como foram recebidos e apropriados.
Por meio dessa análise mais detalhada, foi possível adentrar a leitura dos diversos estudos observando como apropriam os conceitos relativos à Experiência da Aprendizagem Mediada, à teoria da Modificabilidade Cognitiva e o próprio Programa PEI em seus percursos em cada realidade adentrada. Foi também revelador perceber a apropriação da teoria de Feuerstein em diversos ambientes sociais. Fezse necessário muitas vezes, não somente apresentar o estudo selecionado como explanar os seus referenciais teóricos para que assim fossem melhor situadas as contribuições de Feuerstein nos setores de atividade específicos trabalhados nesses estudos.
A seguir são apresentadas as publicações brasileiras dos últimos 5 anos que citam obras e conceitos de Feuerstein, por campo de apropriação, como análise qualitativa no âmbito descritivo dessa pesquisa.
3.2.1.1 Campo de apropriação: Formação de Professores
A primeira temática, com significativo número de publicações, trata da formação de professores, permeados pela Experiência da Aprendizagem Mediada, possibilitando ao professor ser o mediador do conhecimento. Os estudos sobre esses aspectos variam em demasia, em relação ao grande número de situações para sua aplicação, sob o olhar de conhecer como os
docentes praticam em sala de aula o perfil de mediador, de maneira a promover melhoras na aprendizagem.
Ambientes como ensino de Artes, Geografia, Teatro, Capacitação Profissional, Direito, matemática, foram segmentos de apropriação desse saber, como foram apresentados para atender à demanda de faixa etária diversa, possibilitando assim uma abrangência maior de aplicação.
O ofício do docente perpassa por ambientes variados, em vista da dinâmica do trabalho, da variedade das turmas, métodos implantados, recursos, condições físicas e dos agentes que influenciam diretamente o ensino na escola e sua população, fazendo da educação um exercício em constante aprimoramento em todos os sentidos do ato de lecionar, que sempre traz algum conhecimento. Como diz Helena Antipoff:
Caras alunas, ... Não aprendemos apenas nas bibliotecas, nas aulas, nos laboratórios, nem nas próprias escolas, mas no mais íntimo de nós, nas meditações profundas, no aperfeiçoamento espiritual. ... Aprender coisas novas, aprender técnicas mais aperfeiçoadas é fácil, mas serão nulos os seus efeitos se não forem realizados com o espírito renovado. ... cada vez que o cérebro inventa uma coisa nova e, como um dom precioso, levao para o mundo, este deve recebêla com o mesmo cuidado e, com máximo critério, lançála no turbilhão da vida. [...] Muita ciência nova, muitos instrumentos novos de trabalho pouco serão para a verdadeira reforma do ensino e da educação do povo, se não forem os educadores, eles próprios, crescendo, à medida que aumentam todos esses recursos profissionais. Também eles podem ser elementos de desarmonia se não forem meditados e compreendidos no seu conjunto visceral com a obra educativa (ANTIPOFF, apud CAMPOS, 2012, p. 390391).
A maioria dos artigos em torno da temática “Formação de Professores” utiliza o conceito de mediação, na interpretação educativa, como forma a ressaltar a importância da interação professoraluno. A diferença entre as diversas formas de ensinar é ainda maior, ao se evidenciarem alguns parâmetros, também chamados de critérios, que se tornam relevantes quando se descreve a mudança gerada no aprendiz, pela qualidade da relação professoraluno, passando a uma qualificada interação entre mediadormediado. Os critérios da EAM compõem uma dimensão que reflete na mudança da interação entre o professor transformador da mediação e o aluno transformado em mediado (FEUERSTEIN, 2014, p. 11).
As habilidades de ser professor exigem uma formação perene, e Feuerstein acrescenta a crença na possível modificabilidade cognitiva do aprendiz. A possibilidade da aplicação de métodos eficazes não invalida ambientes resistentes à mudança de crenças. Porém, Feuerstein parte, como prérequisito, do acreditar que a intervenção do professor como mediador fará diferença, por meio do seu ensino, agregando modificações em tais ambientes e, consequentemente, modificações no aprendiz. Suas teorias foram desenvolvidas sob a
percepção de o ser humano ser modificável em sua inteligência, o que torna também necessário criar condições para que a modificabilidade aconteça, o que antes era considerado inexistente.
A escola hoje, ainda próxima dos moldes tradicionais, com práticas e currículos intocáveis, continua preferindo seguir velhas concepções pedagógicas. A intervenção bem orientada, segundo os critérios de mediação apresentados por Feuerstein, congrega situações mais receptíveis ao processo de mudança pela aprendizagem, e receptivas às mudanças temporais dos aprendizes.
Alguns teóricos têm chamado de “novo paradigma” a criação de ambientes de aprendizagem que facilitam e encorajam o desenvolvimento do aluno, agilizando as condições de modificabilidade. O que é realmente novo é o reconhecimento de que a mudança de paradigmas é possível, e que o ambiente escolar pode dar suporte paral trazer essas novas condições à realidade, introduzindoas em suas normas, currículos, treinamentos, consultoria, suporte de recursos, que gerem modificabilidade na mente humana. Tais ações variam em uma diversidade de populações e aplicações (FEUERSTEIN, 2014, p. 213).
TABELA 6 Publicações que relacionam Feuerstein, por categoria de pesquisa educacional e título de publicação (20162021) – Formação de professor.
Nº ANO NOMES TÍTULO
ACADÊMICO 1 a 2016
FRANCISCONI, L. A. Ensino da arte na educação infantil na perspectiva da matriz históricocultural (Dissertação de mestrado).
UNOPAR, Londrina, 2016.
MESTRADO
1b 2016
CARAMORI, Patricia Moralis. Formação em serviço de professores comuns e especializados e suas implicações na prática: uma experiência de consultoria colaborativa. Revista IberoAmericana de Estudos em Educação, v. 11, n. 2, p. 10341047, 2016.
ARTIGO
1c 2016
OLIVEIRA, P. A. O ódio à educação e a democratização radical da educação jurídica através da aprendizagem mediada significativa.
2016.280f.Tese (Doutorado em Direito) Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de PósGraduação em Direito, Belo
Horizonte, MG, 2016b.Disponível em:
http://www.biblioteca.pucminas.br/teses/Direito_OliveiraPA_1.pdf.
Acesso 17 set. 2022.
DOUTORADO
1d 2016
ROSA, Lilian Aparecida. Uma professora mediadora reflexões sobre uma prática como docente de teatro. 2016. 76 f. Dissertação (Mestrado em Artes) Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2016.Disponível em: https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/18417.
Acesso em: 17 set 2022.
MESTRADO
1e 2018
CORTELINI, V. G. Formação docente e os cursos de graduação em pedagogia na modalidade EAD: processos formativos e a autonomia do sujeito.2018.178f. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade de Caxias do Sul, RS, 2018. Disponível em:
https://repositorio.ucs.br/xmlui/handle/11338/3609. Acesso em 16 set 2022.
MESTRADO
1f 2017
FREITAS, J. A. Matemática significativa nas escolas: uma proposta de experiência da aula mediada no ensino fundamental. 2017. 47f.
Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso Interdisciplinar em Educação do Campo) Universidade Federal da Fronteira Sul, Laranjeiras
CONCLUSÃO DE CURSO
do Sul, 2017. Disponível em: https://rd.uffs.edu.br/handle/prefix/2957.
Acesso em 16 set 2022.
1g 2017
JERONYMO, G. F. D. O aprender a aprender de professores de licenciaturas de uma instituição pública do norte no paraná.
2017.178f. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2017.Disponível em : https://www.ppedu.uel.br/es/mas/tesisdemaestriadoctoral/tesisde
maestria/category/82017?download=96:jeronymogiselefermino.
Acesso em 16 set 2022.
MESTRADO
1h 2017
RODRIGUES, H.M.; CARDON, S.B. Possíveis efeitos do brincar em espaços não formais: uma perspectiva do olhar psicopedagógico. In:
SEMINÁRIO INTERNACIONAL PESSOA ADULTA, SAÚDE &
EDUCAÇÃO, IV. Anais.. PUC, RS, 2020. Disponível em:
https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/anais/sipase/assets/edicoes/
2018/arquivos/28.pdf. Acesso em 17 set 2022.
RESUMO
1i 2018
BUENO, Alcione José Alves; BERTONI, Danislei. A prática pedagógica de um professor de ciências sob o olhar de reuven feuerstein. Revista Ciências & Ideias, v. 9, n. 3, p. 4660, 2019.
ARTIGO
1j 2018
FLORES, J. F.; et al. Exercícios de autoridade do professor em sala de aula. HOLOS, [S. l.], v. 6, p. 216–228, 2018. DOI:
10.15628/holos.2018.4554. Disponível em:
https://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/view/4554.
Acesso em: 16 set. 2022
ENSAIO
1k 2018
TEDESCO, S.; CORTELINI, V. G.; ROSA, G. A Formação Docente:
Do percurso teórico à transposição didática. Porto Alegre: Editora
PUCRS, Porto Alegre, 2018.Disponível em:
https://ebooks.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/anais/cidu/assets/edicoes/20 18/arquivos/136.pdf. Acesso em: 17 set. 2022.
ARTIGO
1l 2019
OLIVEIRA, Maria Elisabete Figueiredo De. O professor do atendimento educacional especializado: mediador da aprendizagem de alunos com deficiência intelectual no primeiro segmento do ensino fundamental. In:
COLOQUIO INTERNACIONAL, EDUCAÇÃO, CIDADANIA E EXCLUSÃO, V, 2018. Anais V CEDUCE... Campina Grande: Realize
Editora, 2018. Disponível em:
https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/42650. Acesso em:
17/09/2022 14:26.
ANAIS
1m 2019
LIMA, M. B. R. M.; GUERREIRO, E. M. B. R. Perfil do professor mediador: proposta de identificação. Educação, [S. l.], v. 44, p. e22/ 1–
27, 2019. DOI: 10.5902/1984644434189. Disponível em:
https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/34189. Acesso em:
17 set. 2022.
ARTIGO
1n 2019
LIMA, M. B. R. M. Perfil do professor mediador: estudo de caso nas licenciaturas no IFAMCMC.2016.122f. Dissertação (Mestrado em Ensino Tecnológico) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), Manaus, 2016. Disponível em:
http://repositorio.ifam.edu.br/jspui/handle/4321/51. Acesso em 17 set 2022.
MESTRADO
1º 2019
BAPTISTA, Érica Cindra de Lima. Proposta de construção e aplicação de um programa de Formação docente em Experiência de Aprendizagem Mediada para crianças com Paralisia Cerebral: um estudo preliminar. 2019. 25 f. Tese (Doutorado em Psicologia) Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/15038. Acesso em 17 set 2022.
DOUTORADO
1p 2021
COSTA, C. O.; SILVA, G. F. O paradigma da indústria 4.0 e a formação de docentes na educação profissional. In: SEFIC: SEMANA CIENTÍFICA DA UNILASALLE, 2020, Canoas, Rio Grande do Sul.
Anais… Canoas, Rio Grande do Sul: Unilasalle, 2020. p. 11251126.
Disponível em:
ANAIS
https://anais.unilasalle.edu.br/index.php/sefic2020/article/view/2064/21 25. Acesso em: 14 maio 2022.
1q 2021
ZANESCO, M. L.; MARIHAMA, D. K. A. O professor mediador e as metodologias ativas. In: ZANESCO, M. L.; MARIHAMA, D. K. A.
(Org). Metodologias ativas: Diferentes abordagens e suas aplicações.
São Paulo: Raiz, 2021. Cap.3, p.3654.
CAP. DE LIVRO
1r 2021
GALDINO, Fernanda; GOLDMEYER, Marguit Carmen. Processo de mudança de aulas expositivas para aulas mediadas, em curso de ensino apostilado, no Ensino Fundamental II, através da aprendizagem baseada em problemas (ABP) na disciplina de geografia. Revista Acadêmica Licencia&acturas, v. 9, n. 1, p. 5162, 2021.
ARTIGO
1s 2021
CORTELINI, V. G. A educação permanente e continuada com professores no movimento das relações de poder: entre o controle biopolítico e a autonomia. 2021.454f. Tese (Doutorado em Educação) Programa de PósGraduação em Educação Curso de Doutorado, Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, 2021.Disponível em:
https://repositorio.ucs.br/xmlui/handle/11338/9288. Acesso em 17 set 2022.
DOUTORADO
Fonte: Elaborada a partir do Catálogo de Estudos levantado por Google Acadêmico e CAPES.
1. a) Ensino da arte na educação infantil na perspectiva da matriz históricocultural
Na área de formação de professores, o estudo Ensino da arte, na educação infantil, na perspectiva da matriz históricocultural, Lourides Aparecida Francisconi, em sua dissertação de mestrado pela Universidade do Norte do Paraná, em 2016, utilizou como fonte de investigação o memorial descritivo, o acervo da pesquisadora em seus recortes nos aspectos de:
imagens, projetos de trabalho, planos de aula, recursos, projeto político pedagógico e plano de formação continuada em Arte. Estabeleceu um recorte de três centros municipais de Educação Infantil, visando compreender o movimento dos processos de aprendizagem e a produção de semioses da criança, por meio de experiências estésicas e estéticas. A metodologia desse estudo, amparado em uma abordagem qualitativa exploratória, buscou investigar seus desdobramentos na formação e ação do docente em Arte e sua continuidade na historicidade da produção dos fenômenos sociais que, segundo a autora, não são neutros, nem simples ações pacíficas. Seu corpo teóricometodológico constituise de três unidades que subsidiam as análises: o escopo do professor mediador; ambientação; experiências estésicas e estéticas, além de estar entrelaçado, para o entendimento das interações sociais e as consequências dessas ações para a aprendizagem, às teorias da Matriz HistóricoCultural em Lev Vygotsky e Reuven Feuerstein, em conjunto com a Teoria da Relação Dialógica de Paulo Freire.
Inspirandose em Feuerstein, a autora preconiza a mediação como essencial na construção humana. Francisconi (2016) enfatiza a cultura e a afetividade como fatores de estruturação da modificabilidade cognitiva em aprender e ensinar, com subsídios para transposição didática, privilegiando a autonomia no ensino da Arte na Educação Infantil.
A autora relaciona os apontamentos de Luria quanto às relações dos processos mentais e a realidade na capacidade funcional do cérebro, como órgão em ações inteligíveis e emocionais, dependentes das práticas sociais complexas. Coloca, então, a educação no presente, pautada em instrumentos culturais de manipulação do ambiente, quanto a formar a organização mental, em novas formas de agir, destacando duas dimensões de ação no mundo: a natural e a cultural. Referese também a Vygotsky quando aponta que nenhum ser humano existe fora do seu contexto histórico, entendendo a constituição psíquica como pertencente à ontogênese: a natural e a cultural. Esses conceitos irão se entrelaçar e serão destacados nos estudos de Vygotsky, enfatizando que o cultural se sobrepõe ao natural, a partir de instrumentos mediadores, favorecendo o desenvolvimento tanto em nível sociocultural, quanto nos processos interpsicológicos. Para Vygotsky e colaboradores, cérebro é o substrato material da atividade psíquica e configurase em um sistema aberto de grande plasticidade, sendo também o local onde se conecta a perspectiva da Mediação de Feuerstein, na qual a transmissão cultural está associada à mediação que o outro provoca de maneira intencional.
O ser humano nasce com suas estruturas e funções que podem ser modeladas pela interação sociocultural. Para Feuerstein, a falta desse 'nascimento cultural' provoca a síndrome da privação cultural, causando sérios prejuízos para a aprendizagem. Ele também preconiza a capacidade humana de aprender sempre e sob diversas condições, pois o sistema cerebral e suas funções são dotados da capacidade de modificabilidade. Tais conceitos constituem a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (FRANCISCONI, 2016).
Segundo a autora, Feuerstein também sinaliza que a interação, a transmissão cultural e o papel do mediador são imprescindíveis para o processo mediacional. Ao mesmo tempo, ele esclarece que nem toda interação ou transmissão cultural é considerada uma mediação. Sua proposta se diferencia de outros teóricos, ao propor detalhamento dos passos em que esta mediação deve acontecer para que seja, então, uma intervenção na área de interesse da Experiência da Aprendizagem Mediada, e, para que essa aprendizagem ocorra, é fundamental a interação entre o ser humano e seu ambiente, sustentada pelos 12 critérios mediadores.
Francisconi (2016) enfatiza então os três critérios que se consolidam, enquanto função estruturante e determinante na eficácia de uma ação mediada: mediação da intencionalidade e reciprocidade; mediação do significado; e a completude com a mediação da transcendência, como já descrito em fases anteriores. A ressalva para esses três critérios, frente aos demais, é que, para o novo aprendizado ser efetivo e internalizado, tornase necessário expor, na mediação, a intenção do que será ensinado, compreender os interesses dos envolvidos, o significado selecionado para esse meio e transformar essa aplicação em realidade.
A autora extrai do seu trabalho que as modificações na aprendizagem abordam tanto no aluno, quanto na pesquisadora, constatando, com isso, essa dinâmica cultural que Feuerstein preconiza em sua amplitude.
As concepções de Vygotsky e Feuerstein são complementadas com a referência a Paulo Freire no que tange ao ensino como fator mediador que impulsiona o desenvolvimento para a autonomia. Vale dizer, há meios e formas de os seres humanos modificarem a si mesmos, modificando o mundo. Assim, em seu estudo e na formação do docente, a autora representa a Arte, no processo da educação dos sentidos, beneficiada pela razão e emoção. Nesse percurso, buscou detalhar as formas de construção de saberes através da mediação, conforme proposto por Feuerstein.
1. b) Formação em serviço de professores comuns e especializados e suas implicações na prática: uma experiência de consultoria colaborativa
Patrícia M. Caramori (2016), em artigo publicado na Revista IberoAmericana de Estudos em Educação, em 2016, intitulado “Formação em serviço de professores comuns e especializados e suas implicações na prática: uma experiência de consultoria colaborativa”
atribui maior importância à aplicação do critério da mediação do significado (Feuerstein) como resultado de sua pesquisa qualitativa, para o estudo da formação continuada de professores do ensino regular e da educação especial. Esse processo, junto às estratégias discutidas nas práticas empregadas, leva a um enriquecimento na formação e no conhecimento sobre planejamento das atividades, incorporado a processos de feedback para a formação de professores e alunos. Tal intervenção ocorre no formato de consultoria colaborativa (um grupo de especialistas) no suporte à educação inclusiva, em parceria com profissionais da escola, no atendimento a alunos com deficiências e também com altas habilidades/superdotação, ou com transtorno global do desenvolvimento. Dessa maneira, o objetivo da pesquisa foi intervir na formação continuada, sob o enfoque de consultoria colaborativa, tendo como base teórica os critérios de Experiência de Aprendizagem Mediada, de Reuven Feuerstein.
A inclusão implica identificar e eliminar as barreiras, pois, na grande maioria das vezes, são elas que impedem o acesso, a permanência e o progresso do aluno. E, além de eliminar os obstáculos físicos, a autora avança para o transpor da mudança nas estruturas do ensino. Toma, com isso, a teoria da Aprendizagem Mediada, como aporte teórico no apoio a novos meios, para romper com modelos educacionais tradicionais, com ações dentro da escola que incorporem atendimento especializado e formação específica. Tais ações requerem do professor capacitação
para entendêlas e, assim, absorverem, em sua prática diária, a inclusão efetiva de todos os indivíduos, em sua sala de aula, viabilizando a inclusão de novas práticas educacionais que contemplem a diversidade dos alunos.
O processo de formação do professor, seja ele inicial ou continuado, está intrinsecamente ligado a essas rupturas e mudanças de postura e de prática, que a inclusão exige, pois elas são um dos pilares do seu desenvolvimento profissional, refletindo diretamente no trabalho em sala de aula e nos resultados com os alunos (CARAMORI, 2016).
Em um dinamismo próprio da função do professor, a autora destaca que esse desenvolvimento seja preenchido pelos desdobramentos de sua prática docente, e não só pelas inovações extramuros da escola. De modo particular, trouxe para sua experiência o suporte no campo da Psicologia, a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE) e, a fim de impulsionar essa modificabilidade, a aplicação da Experiência da Aprendizagem Mediada (EAM), buscando melhores caminhos nesse desenvolver constante que a função exige. A MCE estabelece a capacidade dos seres humanos de mudarem, aprimorarem e modificarem sua estrutura de funcionamento cognitivo, no sentido de acompanhar o ritmo de mudanças da vida, sejam eles deficientes, ou não. Tratase da criação de novos mecanismos cognitivos que alteram a estrutura mental existente e que também se auto alteram. Segundo Caramori, só é possível se chegar a uma MCE, a partir da EAM.
Esse estudo, que visa identificar mudanças nas práticas dos professores sobre os problemas do cotidiano escolar, inseridos no trabalho com alunos da Educação Especial, aconteceu em uma escola de ensino fundamental, em área rural, envolvendo uma professora do 1º ano, outra do 4º ano e a professora de Ensino Especial, responsável pela sala de recursos multifuncionais da escola, a fim de comprovarem a importância da aplicação da mediação pelo significado e pelo feedback. Esses critérios, para Feuerstein, favorecem o envolvimento do aluno no aprendizado, e o aluno vê razão em seu aprendizado e seu progresso, ou até mesmo encontra motivação para aprender, quando vê sentido no que está sendo ensinado. A cozinha da escola serviu de espaço para a realização de receitas, que foram lidas, escritas e vivenciadas pelos alunos, através da experiência de se confeccionar algum tipo de comida. Com a prática, a aprendizagem do aluno foi bem assimilada e isso o fez deslanchar no processo. Certificarse da não interrupção do processo de aprendizagem, ao longo da dinâmica da atividade, assegura a compreensão do significado da atividade pelos alunos, mantendo o sentido do que se esteja fazendo. A pesquisadora traz uma das apropriações dos passos da mediação em Feuerstein, sobre o uso do significado. Para a autora, atribuir significado não é desrespeitar a
individualidade dos outros, nem privar da objetividade, em detrimento da subjetividade.
Conforme afirmam Feuerstein e LewinBenham:
Os mediadores são, de certo modo, meramente distribuidores do significado intrínseco a objetos, enunciados ou situações. Mas, como mediador, eu determino qual significado quero enfatizar. Selecionar um significado específico valoriza uma atividade. Quando valorizo algo, incorporo seu significado à tarefa [...] Ao selecionar um significado, você especifica para o que desejam que as crianças se atentem, com o que lidar e compreender (FEUERSTEIN; LEWINBENHAM, 2021, p. 71).
1. c) O ódio à educação e a democratização radical da educação jurídica através da aprendizagem mediada significativa
Pablo Alves de Oliveira, em sua tese de doutorado, defendida na PUCMG em 2016, intitulada O ódio à educação e a democratização radical da educação jurídica através da aprendizagem mediada significativa, vem propor um novo modelo para o ensino nos cursos de Direito. Como professor de Direito, sua tese evoca a crise da educação jurídica no Brasil, levandoo a rever questões sobre uma aprendizagem pouco duradoura e a ausência de motivação, no tocante aos alunos de Direito. Diagnosticou 44 problemas que colaboravam para essa percepção de crise na educação jurídica. Com base nesses achados, realizou nova revisão da literatura, concluindo que os modelos de aprendizagem mediada significativa podem apontar para uma alternativa otimista, em contraponto à visão pessimista atual.
Oliveira (2016) suscita a questão da precária postura pela busca da informação desse aluno que chega ao ensino superior:
O estudante que possua deficiência relacionada à falta de planejamento na coleta das informações (grifo do autor) não consegue selecionar as informações adequadas, ou da forma mais adequada, para seus estudos ou para a solução de um problema.
Assim, tende a buscar as informações mais imediatamente disponíveis, como as anotações no caderno de um colega ou através de uma rápida consulta à internet. Ou, ainda, não consegue planejar corretamente a coleta de informações do ponto de vista temporal, deixando para coletálas de última hora, quando não haverá mais tempo suficiente diante de um exame que se aproxima ou da iminência de um problema que deve ser resolvido. Percebo que alguns professores acreditam que os estudantes que ingressam em um curso superior já possuem essa capacidade bem desenvolvida, mas esse não me parece ser o caso (OLIVEIRA, 2016, p.233).
O autor busca então, na teoria de Feuerstein, a mediação da aprendizagem baseada no conceito de plasticidade cerebral e modificabilidade cognitiva, que acontece pelas interações sociais entre os atores do ato educativo, professores e educandos. Reconhece nesse método a postura do mediador que organiza e apresenta o conhecimento ao educando de maneira