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3.2  Análise QUALITATIVA

3.2.1  Categorias de Análise QUALITATIVA

3.2.1.1  Campo de apropriação: Formação de Professores

3.2.1 Categorias de Análise QUALITATIVA   

A análise feita no viés qualitativo interpreta e compreende os trabalhos de pesquisa dos  últimos  5  (cinco)  anos,  divulgados  em  dissertações  de  mestrado  ou  teses  de  doutorado,  ou  publicados  em  periódicos  científicos  brasileiros,  baseados  em  perspectivas  teóricas  desenvolvidas por Reuven Feuerstein. Para melhor entendimento e compreensão da apropriação  de  sua  teoria  e  dos  conceitos  a  ela  pertinentes,  os  estudos  analisados  foram  classificados  conforme  as  categorias  de  pesquisa  educacional  acima  descritas.  Ao  longo  da  análise  qualitativa,  algumas  explicações  dos  conceitos  de  Feuerstein  utilizados  nos  estudos  são  fornecidas,  como  meio  para  melhor  entendimento  da  maneira  como  foram  recebidos  e  apropriados. 

Por  meio  dessa  análise  mais  detalhada,  foi  possível  adentrar  a  leitura  dos  diversos  estudos  observando  como  apropriam  os  conceitos  relativos  à  Experiência  da  Aprendizagem  Mediada, à teoria da Modificabilidade Cognitiva e o próprio Programa PEI em seus percursos  em  cada  realidade  adentrada.  Foi  também  revelador  perceber  a  apropriação  da  teoria  de  Feuerstein  em  diversos  ambientes  sociais.  Fez­se  necessário  muitas  vezes,  não  somente  apresentar  o  estudo  selecionado  como  explanar  os  seus  referenciais  teóricos  para  que  assim  fossem  melhor  situadas  as  contribuições  de  Feuerstein  nos  setores  de  atividade  específicos  trabalhados nesses estudos. 

A seguir são apresentadas as publicações brasileiras dos últimos 5 anos que citam obras  e  conceitos  de  Feuerstein,  por  campo  de  apropriação,  como  análise  qualitativa  no  âmbito  descritivo dessa pesquisa. 

 

 

3.2.1.1 Campo de apropriação: Formação de Professores   

A  primeira  temática,  com  significativo  número  de  publicações,  trata  da  formação  de  professores,  permeados  pela  Experiência  da  Aprendizagem  Mediada,  possibilitando  ao  professor ser o mediador do conhecimento. Os estudos sobre esses aspectos variam em demasia,  em relação ao grande número de situações para sua aplicação, sob o olhar de conhecer como os 

docentes praticam em sala de aula o perfil de mediador, de maneira a promover melhoras na  aprendizagem.  

Ambientes como ensino de Artes, Geografia, Teatro, Capacitação Profissional, Direito,  matemática,  foram  segmentos  de  apropriação  desse  saber,  como  foram  apresentados  para  atender  à  demanda  de  faixa  etária  diversa,  possibilitando  assim  uma  abrangência  maior  de  aplicação.  

O ofício do docente perpassa por ambientes variados, em vista da dinâmica do trabalho,  da variedade das turmas, métodos implantados, recursos, condições físicas e dos agentes que  influenciam diretamente o ensino na escola e sua população, fazendo da educação um exercício  em constante aprimoramento em todos os sentidos do ato de lecionar, que sempre traz algum  conhecimento. Como diz Helena Antipoff: 

 

Caras alunas, ... Não aprendemos apenas nas bibliotecas, nas aulas, nos laboratórios,  nem nas próprias escolas, mas no mais íntimo de nós, nas meditações profundas, no  aperfeiçoamento  espiritual.  ...  Aprender  coisas  novas,  aprender  técnicas  mais  aperfeiçoadas é fácil, mas serão nulos os seus efeitos se não forem realizados com o  espírito renovado. ... cada vez que o cérebro inventa uma coisa nova e, como um dom  precioso,  leva­o  para  o  mundo,  este  deve  recebê­la  com  o  mesmo  cuidado  e,  com  máximo  critério,  lançá­la  no  turbilhão  da  vida.  [...]  Muita  ciência  nova,  muitos  instrumentos novos de trabalho pouco serão para a verdadeira reforma do ensino e da  educação do povo, se não forem os educadores, eles próprios, crescendo,  à medida  que aumentam todos esses recursos profissionais. Também eles podem ser elementos  de desarmonia se não forem meditados e compreendidos no seu conjunto visceral com  a obra educativa (ANTIPOFF, apud CAMPOS, 2012, p. 390­391). 

 

A maioria dos artigos em torno da temática “Formação de Professores” utiliza o conceito de  mediação,  na  interpretação  educativa,  como  forma  a  ressaltar  a  importância  da  interação  professor­aluno.  A  diferença  entre  as  diversas  formas  de  ensinar  é  ainda  maior,  ao  se  evidenciarem  alguns  parâmetros,  também  chamados  de  critérios,  que  se  tornam  relevantes  quando se descreve a mudança gerada no aprendiz, pela qualidade da relação professor­aluno,  passando a uma qualificada interação entre mediador­mediado. Os critérios da EAM compõem  uma  dimensão  que  reflete  na  mudança  da  interação  entre  o  professor  transformador  da  mediação e o aluno transformado em mediado (FEUERSTEIN, 2014, p. 11).  

As habilidades de ser professor exigem uma formação perene, e Feuerstein acrescenta a  crença  na  possível  modificabilidade  cognitiva  do  aprendiz.  A  possibilidade  da  aplicação  de  métodos eficazes não invalida ambientes resistentes à mudança de crenças. Porém, Feuerstein  parte,  como  pré­requisito,  do  acreditar  que  a  intervenção  do  professor  como  mediador  fará  diferença,  por  meio  do  seu  ensino,  agregando  modificações  em  tais  ambientes  e,  consequentemente,  modificações  no  aprendiz.  Suas  teorias  foram  desenvolvidas  sob  a 

percepção de o ser humano ser modificável em sua inteligência, o que torna também necessário  criar condições para que a modificabilidade aconteça, o que antes era considerado inexistente. 

A  escola  hoje,  ainda  próxima  dos  moldes  tradicionais,  com  práticas  e  currículos  intocáveis,  continua  preferindo  seguir  velhas  concepções  pedagógicas.  A  intervenção  bem  orientada,  segundo  os  critérios  de  mediação  apresentados  por  Feuerstein,  congrega  situações  mais  receptíveis ao processo de mudança pela aprendizagem,  e receptivas  às mudanças temporais  dos aprendizes. 

 

Alguns teóricos têm chamado de “novo paradigma” a criação de ambientes de aprendizagem que facilitam e encorajam o desenvolvimento do aluno, agilizando as  condições de modificabilidade. O que é realmente novo é o reconhecimento de que a  mudança de paradigmas é possível, e que o ambiente escolar pode dar suporte paral  trazer essas novas condições à realidade, introduzindo­as em suas normas, currículos,  treinamentos, consultoria, suporte de recursos, que gerem modificabilidade na mente  humana.  Tais  ações  variam  em  uma  diversidade  de  populações  e  aplicações  (FEUERSTEIN, 2014, p. 213). 

 

TABELA 6 ­ Publicações que relacionam Feuerstein, por categoria de pesquisa educacional e  título de publicação (2016­2021) – Formação de professor. 

Nº  ANO  NOMES  TÍTULO 

ACADÊMICO  1 a  2016 

FRANCISCONI,  L.  A. Ensino  da  arte  na  educação  infantil  na  perspectiva  da  matriz  histórico­cultural  (Dissertação  de  mestrado). 

UNOPAR, Londrina, 2016. 

MESTRADO 

1b  2016 

CARAMORI,  Patricia  Moralis.  Formação  em  serviço  de  professores  comuns e especializados e suas implicações na prática: uma experiência  de consultoria colaborativa. Revista Ibero­Americana de Estudos em  Educação, v. 11, n. 2, p. 1034­1047, 2016. 

ARTIGO 

1c  2016 

OLIVEIRA, P. A. O ódio à educação e a democratização radical da  educação  jurídica  através  da  aprendizagem  mediada  significativa. 

2016.280f.Tese  (Doutorado  em  Direito)  ­Pontifícia  Universidade  Católica de Minas Gerais, Programa de Pós­Graduação em Direito, Belo 

Horizonte,  MG,  2016b.Disponível  em: 

http://www.biblioteca.pucminas.br/teses/Direito_OliveiraPA_1.pdf. 

Acesso 17 set. 2022. 

DOUTORADO 

1d  2016 

ROSA, Lilian Aparecida. Uma professora mediadora reflexões sobre  uma prática como docente de teatro. 2016. 76 f. Dissertação (Mestrado  em  Artes)  ­  Universidade  Federal  de  Uberlândia,  Uberlândia,  2016.Disponível em: https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/18417. 

Acesso em: 17 set 2022. 

MESTRADO 

1e  2018 

CORTELINI, V. G.  Formação docente e os cursos de graduação em  pedagogia na modalidade EAD: processos formativos e a autonomia do  sujeito.2018.178f. Dissertação (Mestrado em Educação)  ­ Universidade  de  Caxias  do  Sul,  RS,  2018.  Disponível  em: 

https://repositorio.ucs.br/xmlui/handle/11338/3609.  Acesso  em  16  set  2022. 

MESTRADO 

1f  2017 

FREITAS, J. A. Matemática significativa nas escolas: uma proposta de  experiência  da  aula  mediada  no  ensino  fundamental.  2017.  47f. 

Monografia  (Trabalho  de  Conclusão  de  Curso  Interdisciplinar  em  Educação do Campo) Universidade Federal da Fronteira Sul, Laranjeiras 

CONCLUSÃO DE  CURSO 

do  Sul,  2017.  Disponível  em:  https://rd.uffs.edu.br/handle/prefix/2957. 

Acesso em 16 set 2022. 

1g  2017 

JERONYMO,  G.  F.  D. O  aprender  a  aprender  de  professores  de  licenciaturas  de  uma  instituição  pública  do  norte  no  paraná. 

2017.178f. Dissertação (Mestrado em Educação) ­Universidade Estadual  de  Londrina,  Londrina,  2017.Disponível  em  https://www.ppedu.uel.br/es/mas/tesis­de­maestria­doctoral/tesis­de­

maestria/category/8­2017?download=96:jeronymo­gisele­fermino. 

Acesso em 16 set 2022. 

MESTRADO 

1h  2017 

RODRIGUES,  H.M.;  CARDON,  S.B.  Possíveis  efeitos  do  brincar  em  espaços  não  formais:  uma  perspectiva  do  olhar  psicopedagógico.  In: 

SEMINÁRIO  INTERNACIONAL  PESSOA  ADULTA,  SAÚDE  & 

EDUCAÇÃO,  IV.  Anais..  PUC,  RS,  2020.  Disponível  em: 

https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/anais/sipase/assets/edicoes/

2018/arquivos/28.pdf. Acesso em 17 set 2022. 

RESUMO 

1i  2018 

BUENO, Alcione José Alves; BERTONI, Danislei. A prática pedagógica  de  um  professor  de  ciências  sob  o  olhar  de  reuven  feuerstein. Revista  Ciências & Ideias, v. 9, n. 3, p. 46­60, 2019. 

ARTIGO 

1j  2018 

FLORES, J. F.; et al. Exercícios de autoridade do professor em sala de  aula. HOLOS, [S.  l.],  v.  6,  p.  216–228,  2018.  DOI: 

10.15628/holos.2018.4554.  Disponível  em: 

https://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/view/4554. 

Acesso em: 16 set. 2022       

ENSAIO 

1k  2018 

TEDESCO, S.; CORTELINI, V. G.; ROSA, G. A Formação Docente: 

Do  percurso  teórico  à  transposição  didática.  Porto  Alegre:  Editora 

PUCRS,  Porto  Alegre,  2018.Disponível  em: 

https://ebooks.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/anais/cidu/assets/edicoes/20 18/arquivos/136.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. 

ARTIGO 

 1l  2019 

OLIVEIRA, Maria Elisabete Figueiredo De. O professor do atendimento  educacional  especializado:  mediador  da  aprendizagem  de  alunos  com  deficiência intelectual no primeiro segmento do ensino fundamental. In: 

COLOQUIO  INTERNACIONAL,  EDUCAÇÃO,  CIDADANIA  E  EXCLUSÃO, V, 2018. Anais V CEDUCE... Campina Grande: Realize 

Editora,  2018.  Disponível  em: 

https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/42650.  Acesso  em: 

17/09/2022 14:26. 

ANAIS 

1m  2019 

LIMA,  M.  B.  R.  M.;  GUERREIRO,  E.  M.  B.  R.  Perfil  do  professor  mediador: proposta de identificação. Educação, [S. l.], v. 44, p. e22/ 1–

27,  2019.  DOI:  10.5902/1984644434189.  Disponível  em: 

https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/34189.  Acesso  em: 

17 set. 2022. 

ARTIGO 

1n  2019 

LIMA, M. B. R. M. Perfil do professor mediador: estudo de caso nas  licenciaturas  no  IFAM­CMC.2016.122f.  Dissertação  (Mestrado  em  Ensino  Tecnológico)  ­  Instituto  Federal  de  Educação,  Ciência  e  Tecnologia  do  Amazonas  (IFAM),  Manaus,  2016.  Disponível  em: 

http://repositorio.ifam.edu.br/jspui/handle/4321/51.  Acesso  em  17  set  2022. 

MESTRADO 

 1º  2019 

BAPTISTA, Érica Cindra de Lima. Proposta de construção e aplicação  de  um  programa  de  Formação  docente  em  Experiência  de  Aprendizagem  Mediada  para  crianças  com  Paralisia  Cerebral:  um  estudo  preliminar.  2019.  25  f.  Tese  (Doutorado  em  Psicologia)  ­  Universidade  do  Estado  do  Rio  de  Janeiro,  Rio  de  Janeiro,  2019. 

Disponível  em:  https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/15038.  Acesso  em 17 set 2022. 

DOUTORADO 

 1p  2021 

COSTA, C. O.; SILVA, G. F. O paradigma da indústria 4.0 e a formação  de  docentes  na  educação  profissional.  In:  SEFIC:  SEMANA  CIENTÍFICA  DA  UNILASALLE,  2020,  Canoas,  Rio  Grande  do  Sul. 

Anais…  Canoas,  Rio  Grande  do  Sul:  Unilasalle,  2020.  p.  1125­1126. 

Disponível  em: 

ANAIS 

https://anais.unilasalle.edu.br/index.php/sefic2020/article/view/2064/21 25. Acesso em: 14 maio 2022. 

 1q  2021 

ZANESCO, M. L.; MARIHAMA, D. K. A. O professor mediador e as  metodologias  ativas. In:  ZANESCO,  M.  L.;  MARIHAMA,  D.  K.  A. 

(Org). Metodologias  ativas: Diferentes  abordagens  e  suas  aplicações. 

São Paulo: Raiz, 2021. Cap.3, p.36­54. 

CAP. DE LIVRO 

 1r  2021 

GALDINO,  Fernanda;  GOLDMEYER,  Marguit  Carmen.  Processo  de  mudança de aulas expositivas para aulas mediadas, em curso de ensino  apostilado, no Ensino Fundamental II, através da aprendizagem baseada  em  problemas  (ABP)  na  disciplina  de  geografia. Revista  Acadêmica  Licencia&acturas, v. 9, n. 1, p. 51­62, 2021. 

ARTIGO 

 1s  2021 

CORTELINI,  V.  G. A  educação  permanente  e  continuada  com  professores  no  movimento  das  relações  de  poder: entre  o  controle  biopolítico e a autonomia. 2021.454f. Tese (Doutorado em Educação) ­  Programa  de  Pós­Graduação  em  Educação  Curso  de  Doutorado,  Universidade  de  Caxias  do  Sul,  Caxias  do  Sul,  2021.Disponível  em: 

https://repositorio.ucs.br/xmlui/handle/11338/9288.  Acesso  em  17  set  2022. 

DOUTORADO 

Fonte: Elaborada a partir do Catálogo de Estudos levantado por Google Acadêmico e CAPES. 

 

1. a) Ensino da arte na educação infantil na perspectiva da matriz histórico­cultural   

Na área de formação de professores, o estudo Ensino da arte, na educação infantil, na  perspectiva da matriz histórico­cultural, Lourides Aparecida Francisconi, em sua dissertação  de  mestrado  pela  Universidade  do  Norte  do  Paraná,  em  2016,  utilizou  como  fonte  de  investigação o memorial descritivo, o acervo da pesquisadora em seus recortes nos aspectos de: 

imagens, projetos de trabalho, planos de aula, recursos, projeto político pedagógico e plano de  formação continuada em Arte. Estabeleceu um recorte de três centros municipais de Educação  Infantil, visando compreender o movimento dos processos de aprendizagem e a produção de  semioses da criança, por meio de experiências estésicas e estéticas. A metodologia desse estudo,  amparado em uma abordagem qualitativa exploratória, buscou investigar seus desdobramentos  na formação e ação do docente em Arte e sua continuidade na historicidade da produção dos  fenômenos sociais que, segundo a autora, não são neutros, nem simples ações pacíficas. Seu  corpo teórico­metodológico constitui­se de três unidades que subsidiam as análises: o escopo  do  professor  mediador;  ambientação;  experiências  estésicas  e  estéticas,  além  de  estar  entrelaçado, para o entendimento das interações sociais e as consequências dessas ações para a  aprendizagem, às teorias da Matriz Histórico­Cultural em Lev Vygotsky e Reuven Feuerstein,  em conjunto com a Teoria da Relação Dialógica de Paulo Freire. 

Inspirando­se  em  Feuerstein,  a  autora  preconiza  a  mediação  como  essencial  na  construção  humana.  Francisconi  (2016)  enfatiza  a  cultura  e  a  afetividade  como  fatores  de  estruturação  da  modificabilidade  cognitiva  em  aprender  e  ensinar,  com  subsídios  para  transposição didática, privilegiando a autonomia no ensino da Arte na Educação Infantil. 

A autora relaciona os apontamentos de Luria quanto às relações dos processos mentais  e  a  realidade  na  capacidade  funcional  do  cérebro,  como  órgão  em  ações  inteligíveis  e  emocionais, dependentes das práticas sociais complexas. Coloca, então, a educação no presente,  pautada em instrumentos culturais de manipulação do ambiente, quanto a formar a organização  mental, em novas formas de agir, destacando duas dimensões de ação no mundo: a natural e a  cultural.  Refere­se também a Vygotsky quando aponta que nenhum ser humano existe fora do  seu contexto histórico, entendendo a constituição psíquica como pertencente à ontogênese: a  natural  e  a  cultural.  Esses  conceitos  irão  se  entrelaçar  e  serão  destacados  nos  estudos  de  Vygotsky,  enfatizando  que  o  cultural  se  sobrepõe  ao  natural,  a  partir  de  instrumentos  mediadores, favorecendo o desenvolvimento tanto em nível sociocultural, quanto nos processos  interpsicológicos. Para Vygotsky e colaboradores, cérebro é o substrato material da atividade  psíquica e configura­se em um sistema aberto de grande plasticidade, sendo também o local  onde se conecta a perspectiva da Mediação de Feuerstein, na qual a transmissão cultural está  associada à mediação que o outro provoca de maneira intencional.   

O  ser  humano  nasce  com  suas  estruturas  e  funções  que  podem  ser  modeladas  pela  interação sociocultural. Para Feuerstein, a falta desse 'nascimento cultural' provoca a síndrome  da privação cultural, causando sérios prejuízos para a aprendizagem. Ele também preconiza a  capacidade humana de aprender sempre e sob diversas condições, pois o sistema cerebral e suas  funções são dotados da capacidade de modificabilidade. Tais conceitos constituem a Teoria da  Modificabilidade Cognitiva Estrutural (FRANCISCONI, 2016). 

  Segundo a autora, Feuerstein também sinaliza que a interação, a transmissão cultural e  o papel do mediador são imprescindíveis para o processo mediacional. Ao mesmo tempo, ele  esclarece  que  nem  toda  interação  ou  transmissão  cultural  é  considerada  uma  mediação.  Sua  proposta  se  diferencia  de  outros  teóricos,  ao  propor  detalhamento  dos  passos  em  que  esta  mediação  deve  acontecer  para  que  seja,  então,  uma  intervenção  na  área  de  interesse  da  Experiência da Aprendizagem Mediada, e, para que essa aprendizagem ocorra, é fundamental  a  interação  entre  o  ser  humano  e  seu  ambiente,  sustentada  pelos  12  critérios  mediadores. 

Francisconi  (2016)  enfatiza  então  os  três  critérios  que  se  consolidam,  enquanto  função  estruturante e determinante na eficácia de uma ação mediada: mediação da intencionalidade e  reciprocidade;  mediação  do  significado;  e  a  completude  com  a  mediação  da  transcendência,  como já descrito em fases anteriores. A ressalva para esses três critérios, frente aos demais, é  que,  para  o  novo  aprendizado  ser  efetivo  e  internalizado,  torna­se  necessário  expor,  na  mediação,  a  intenção  do  que  será  ensinado,  compreender  os  interesses  dos  envolvidos,  o  significado selecionado para esse meio e transformar essa aplicação em realidade. 

 A autora extrai do seu trabalho que as modificações na aprendizagem abordam tanto no  aluno, quanto na pesquisadora, constatando, com  isso, essa dinâmica cultural que Feuerstein  preconiza em sua amplitude. 

As concepções de Vygotsky e Feuerstein são complementadas com a referência a Paulo  Freire no que tange ao ensino como fator mediador que impulsiona o desenvolvimento para a  autonomia.  Vale  dizer,  há  meios  e  formas  de  os  seres  humanos  modificarem  a  si  mesmos,  modificando o mundo. Assim, em seu estudo e na formação do docente, a autora representa a  Arte, no processo da educação dos sentidos, beneficiada pela razão e emoção. Nesse percurso,  buscou detalhar as formas de construção de saberes através da mediação, conforme proposto  por Feuerstein. 

 

1. b) Formação em serviço de professores comuns e especializados e suas implicações na  prática: uma experiência de consultoria colaborativa 

  

Patrícia  M.  Caramori  (2016),  em  artigo  publicado  na Revista  Ibero­Americana  de  Estudos  em  Educação, em 2016, intitulado “Formação  em  serviço  de  professores  comuns  e  especializados e suas implicações na prática: uma experiência de consultoria colaborativa” 

atribui maior importância à aplicação do critério da mediação do significado (Feuerstein) como  resultado de sua pesquisa qualitativa, para o estudo da formação continuada de professores do  ensino regular e da educação especial. Esse processo, junto às estratégias discutidas nas práticas  empregadas, leva a um enriquecimento na formação e no conhecimento sobre planejamento das  atividades, incorporado a processos de feedback para a formação de professores e alunos. Tal  intervenção  ocorre  no  formato  de  consultoria  colaborativa  (um  grupo  de  especialistas)  no  suporte à educação inclusiva, em parceria com profissionais da escola, no atendimento a alunos  com deficiências e também com altas habilidades/superdotação, ou com transtorno global do  desenvolvimento. Dessa maneira, o objetivo da pesquisa foi intervir na formação continuada,  sob o enfoque de consultoria colaborativa, tendo como base teórica os critérios de Experiência  de Aprendizagem Mediada, de Reuven Feuerstein. 

A inclusão implica identificar e eliminar as barreiras, pois, na grande maioria das vezes,  são elas que impedem o acesso, a permanência e o progresso do aluno. E, além de eliminar os  obstáculos físicos, a autora avança para o transpor da mudança nas estruturas do ensino. Toma,  com isso, a teoria da Aprendizagem Mediada, como aporte teórico no apoio a novos meios, para  romper com  modelos educacionais tradicionais, com  ações dentro da escola que incorporem  atendimento especializado e formação específica. Tais ações requerem do professor capacitação 

para  entendê­las  e,  assim,  absorverem,  em  sua  prática  diária,  a  inclusão  efetiva  de  todos  os  indivíduos,  em  sua  sala  de  aula,  viabilizando  a  inclusão  de  novas  práticas  educacionais  que  contemplem a diversidade dos alunos. 

O  processo  de  formação  do  professor,  seja  ele  inicial  ou  continuado,  está  intrinsecamente ligado a essas rupturas e mudanças de postura e de prática, que a inclusão exige,  pois elas  são  um  dos  pilares  do  seu  desenvolvimento  profissional,  refletindo  diretamente  no  trabalho em sala de aula e nos resultados com os alunos (CARAMORI, 2016). 

Em  um  dinamismo  próprio  da  função  do  professor,  a  autora  destaca  que  esse  desenvolvimento seja preenchido pelos desdobramentos de sua prática docente, e não só pelas  inovações extramuros da escola. De modo particular, trouxe para sua experiência o suporte no  campo  da  Psicologia,  a  Teoria  da  Modificabilidade  Cognitiva  Estrutural  (MCE)  e,  a  fim  de  impulsionar  essa  modificabilidade,  a  aplicação  da  Experiência  da  Aprendizagem  Mediada  (EAM), buscando melhores caminhos nesse desenvolver constante que a função exige. A MCE  estabelece  a  capacidade  dos  seres  humanos  de  mudarem,  aprimorarem  e  modificarem  sua  estrutura de funcionamento cognitivo, no sentido de acompanhar o ritmo de mudanças da vida,  sejam eles deficientes, ou não. Trata­se da criação de novos mecanismos cognitivos que alteram  a estrutura mental existente e que também se auto alteram. Segundo Caramori, só é possível se  chegar a uma MCE, a partir da EAM. 

Esse  estudo,  que  visa  identificar  mudanças  nas  práticas  dos  professores  sobre  os  problemas  do  cotidiano  escolar,  inseridos  no  trabalho  com  alunos  da  Educação  Especial,  aconteceu em uma escola de ensino fundamental, em área rural, envolvendo uma professora do  1º ano, outra do 4º ano e a professora de Ensino Especial, responsável pela sala de recursos  multifuncionais da escola, a fim de comprovarem a importância da aplicação da mediação pelo  significado  e  pelo feedback. Esses  critérios,  para  Feuerstein,  favorecem  o  envolvimento  do  aluno no aprendizado, e o aluno vê razão em seu aprendizado e seu progresso, ou até mesmo  encontra motivação para aprender, quando vê sentido no que está sendo ensinado. A cozinha  da escola serviu de espaço para a realização de receitas, que foram lidas, escritas e vivenciadas  pelos alunos, através da experiência de se confeccionar algum tipo de comida. Com a prática, a  aprendizagem do aluno foi bem assimilada e isso o fez deslanchar no processo. Certificar­se da  não interrupção do processo de aprendizagem, ao longo da dinâmica da atividade, assegura a  compreensão  do  significado  da  atividade  pelos  alunos,  mantendo  o  sentido  do  que  se  esteja  fazendo.  A  pesquisadora  traz  uma  das  apropriações  dos  passos  da  mediação  em  Feuerstein,  sobre  o  uso  do  significado.  Para  a  autora,  atribuir  significado  não  é  desrespeitar  a 

individualidade  dos  outros,  nem  privar  da  objetividade,  em  detrimento  da  subjetividade. 

Conforme afirmam Feuerstein e Lewin­Benham:  

 

Os mediadores são, de certo modo, meramente distribuidores do significado intrínseco  a  objetos,  enunciados  ou  situações.  Mas,  como  mediador,  eu  determino  qual  significado  quero  enfatizar.  Selecionar  um  significado  específico  valoriza  uma  atividade. Quando valorizo algo, incorporo seu significado à tarefa [...] Ao selecionar  um significado, você especifica para o que desejam que as crianças se atentem, com  o que lidar e compreender (FEUERSTEIN; LEWIN­BENHAM, 2021, p. 71). 

 

1.  c)  O  ódio  à  educação  e  a  democratização  radical  da  educação  jurídica  através  da  aprendizagem mediada significativa 

 

 Pablo Alves de Oliveira, em sua tese de doutorado, defendida na PUC­MG em 2016,  intitulada O  ódio  à  educação  e  a  democratização  radical  da  educação  jurídica  através  da  aprendizagem mediada significativa, vem propor um novo modelo para o ensino nos cursos de  Direito.  Como  professor  de  Direito,  sua  tese  evoca  a  crise  da  educação  jurídica  no  Brasil,  levando­o  a  rever  questões  sobre  uma  aprendizagem  pouco  duradoura  e  a  ausência  de  motivação, no tocante aos alunos de Direito. Diagnosticou 44 problemas que colaboravam para  essa percepção de crise na educação jurídica. Com base nesses achados, realizou nova revisão  da literatura, concluindo que os modelos de aprendizagem mediada significativa podem apontar  para uma alternativa otimista, em contraponto à visão pessimista atual. 

Oliveira (2016) suscita a questão da precária postura pela busca da informação desse  aluno que chega ao ensino superior: 

 

O estudante que possua deficiência relacionada à falta de planejamento na coleta  das informações (grifo do autor) não consegue selecionar as informações adequadas,  ou  da  forma  mais  adequada, para  seus  estudos  ou  para  a  solução  de um  problema. 

Assim,  tende  a  buscar  as  informações  mais  imediatamente  disponíveis,  como  as  anotações no caderno de um colega ou através de uma rápida consulta à internet. Ou,  ainda, não consegue planejar corretamente a coleta de informações do ponto de vista  temporal,  deixando  para  coletá­las  de  última  hora,  quando  não  haverá  mais  tempo  suficiente diante de um exame que se aproxima ou da iminência de um problema que  deve ser resolvido. Percebo que alguns professores acreditam que os estudantes que  ingressam em um curso superior já possuem essa capacidade bem desenvolvida, mas  esse não me parece ser o caso (OLIVEIRA, 2016, p.233). 

 

O autor busca então, na teoria de Feuerstein, a mediação da aprendizagem baseada no  conceito de plasticidade cerebral e modificabilidade cognitiva, que acontece pelas interações  sociais entre os atores do ato educativo, professores e educandos. Reconhece nesse método a  postura  do  mediador  que  organiza  e  apresenta  o  conhecimento  ao  educando  de  maneira