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2. HISTÓRIA, IMPRENSA E POLÍTICA NO SEGUNDO GOVERNO VARGAS: A

2.2 CAMPO DE PRODUÇÃO IDEOLÓGICA (CPI): UMA POSSIBLIDADE

2.2.2 Campo de Produção Ideológica e o debate sobre as favelas

Diante desta discussão acerca da dinâmica dos jornais nos anos 50, como Bourdieu entenderia a relação entre os diferentes campos de produção simbólica no debate público em uma sociedade?

Na sua obra A Distinção, o autor desenvolveu um conceito específico para abarcar a dinâmica de conflito entre os diferentes campos de produção simbólica e sua capacidade de interferir no debate público: Campo de Produção Ideológica.

Bourdieu considera o Campo de Produção Ideológica (CPI) um espaço de conflito onde ocorre a disputa pelo estabelecimento e produção da visão mais legítima sobre os assuntos politicamente relevantes no debate público. Um espaço onde entram em disputa diversos agentes, provenientes de diversos campos, como o jornalístico (jornais), religioso, político (partidos políticos) etc. Nas palavras do sociólogo, o CPI é um

universo relativamente autônomo, em que se elaboram, na concorrência e no conflito, os instrumentos de pensamento do mundo social objetivamente disponíveis em determinado momento e em que, ao mesmo tempo, se define o campo do pensável politicamente ou, se quisermos, a problemática legítima (BOURDIEU, 2015b, p.372).

Nesta passagem, observa-se que o CPI não é apenas um espaço de elaborações políticas, mas da criação da visão mais legítima sobre o mundo social. Lembrando que a imprensa, como os demais produtores de bens simbólicos e culturais, detém um poder específico, ou seja, o poder simbólico “de fazer com que se veja e se acredite, de trazer à luz, ao estado explícito, objetivado, experiências mais ou menos confusas, fluidas, não formuladas, e até não formuláveis, do mundo natural e do mundo social, e, por essa via, de fazê-las existir” (BOURDIEU, 1990, p.176).

Como todo o campo, o CPI também se estabelece a partir do monopólio sobre a produção legítima de determinado tipo de bem, no caso, as opiniões autorizadas sobre o mundo social. Para que isto seja possível, porém, é necessário que os seus agentes controlem os recursos suficientes e necessários para produzir visões autorizadas sobre a sociedade e sobre as formas de agir coletivamente em seu nome – em outras palavras, os projetos e os programas a se tornarem, se possível, em políticas públicas. Em outras palavras, o CPI também se constitui mediante a separação entre os iniciados – aqueles que dominam as regras de produção legítimas – e os profanos – incapazes de produzir representações autorizadas sobre mundo social e, assim, apenas destinados a consumi-las.

Entretanto, como o CPI envolve a disputa pública sobre uma fala que envolve o agir coletivo, ele sempre é, teoricamente, uma “fala por delegação”, ou seja, uma fala que fala por “outro”, no caso, os representados. Neste sentido, o CPI não se estabelece mediante um processo de representação dos grupos sociais, ou melhor, essas “representações” são sempre imposições de visões de mundo dos detentores das técnicas do discurso “político” legitimamente aceito e os “profanos” que são muito mais falados do que falam na discussão pública.

De outro lado, para Bourdieu, mesmo que os agentes do CPI possam satisfazer os interesses dos grupos dominantes do campo de poder, isto não ocorre diretamente. Pois, suas tomadas de posição, em primeiro lugar, seriam orientadas pelas lutas internas ao seu campo de produção, atendendo os interesses externos em um segundo plano, muitas vezes como forma de inverter nas disputas contra os pares. Devido a estas duas formas de “pressão” sobre os produtores culturais – cujo peso relativo varia histórica e socialmente – o autor diz que todo o bem simbólico, notadamente quando exerce um efeito ideológico78, é duplamente

determinado79. Dessa forma, a partir do conceito de Campo de Produção Ideológica, tem-se

uma alternativa teórica à visão que compreende a imprensa apenas como porta-voz da classe política e economicamente dominante80.

Com base nestas considerações, vale aqui recuperar a possibilidade de análise aberta por Marialva Barbosa, que interpreta a modernização do jornalismo carioca nos anos de 1950 como a busca por uma forma distinta e legítima de a imprensa entrar no debate público a partir de um local institucional próprio. Neste sentido, a imprensa passa a oferecer como bens e serviços legítimos não apenas a notícia81, mas também a sua autoconstrução como uma

instância voltada a uma função intermediária na relação sociedade - Estado. Ao agir assim, ela cria, como afirma Nelson Traquina, uma função pública, ou seja, “um meio de exprimir as queixas e injustiças individuais e como uma forma de assegurar a proteção contra a tirania insensível” (TRAQUINA, 2005, p.47), em suma, representando-se como um poder que equilibraria os outros poderes na sociedade – Quarto Poder (TRAQUINA, 2005, p.48)82. Desta

78 Bourdieu chama de efeito ideológico a capacidade que determinada “forma simbólica” tem em legitimar

posições sociais, mesmo que tenham sido produzidas sem a mínima intenção de o fazer (BOURDIEU, 1989, p. 11).

79 “Ter presente que as ideologias são sempre duplamente determinadas, – que elas devem suas características

mais específicas não só aos interesses de classe ou das frações de classe que elas exprimem (função de sociodicéia), mas também aos interesses específicos daqueles que a produzem e à lógica específica do campo de produção (...) – é possuir o meio de evitar a redução brutal dos produtos ideológicos aos interesses das classes que eles servem (efeito de curto-circuito frequente na crítica marxista) sem cair na ilusão idealista a qual consiste em tratar as produções ideológicas como totalidades autossuficientes e autogeradas, passíveis de uma análise pura e puramente interna (semiologia)” (BOURDIEU, 1989 p. 13).

80 Também permite contrapor ou relativizar as pesquisas que, mesmo implicitamente, trabalham apenas com a

perspectiva da manipulação (como forma de modificar conscientemente as informações em prol de algum objetivo) para interpretar o conteúdo de um jornal. Na ótica de Bourdieu, as opiniões e tomadas de posição dos agentes são, em boa parte, resultados de seu conjunto de crenças, muitas vezes inconscientes, e que se originam na posição que este ocupa no mundo social e no seu campo de produção (BOURDIEU, 2015b, p.105).

81 Compreende-se a notícia como uma construção social e do social pois, é a partir de uma seleção, que não é

arbitrária e sim baseada em um conjunto de pressupostos próprios do fazer jornalístico, que os jornalistas selecionam o que será e como será publicado, enfim, é o profissional que escolhe o que é ou não notícia.

82 Muitos trabalhos, inclusive o da professora Marialva Barbosa já descontruíram a possibilidade de a imprensa

brasileira ser o Quarto Poder. Entretanto, nosso interesse não é demonstrar a empiria ou não, tanto das noções de objetividade e neutralidade, quanto da possibilidade de os jornais cariocas serem o Quarto Poder. O que nos interessa é analisar a forma como esses periódicos institucionalmente construíram-se no debate público.

maneira, este novo papel institucional que a imprensa tenta construir deve ser entendido como uma estratégia utilizada pelos periódicos brasileiros para gerar seu próprio espaço na esfera do debate público.

É claro, para Bourdieu, ainda que semelhante às disputadas no interior de um campo de produção simbólica, as tomadas de posição no CPI se dão essencialmente por conflito e oposição tanto entre os agentes de um campo específico, quanto frente às distintas áreas do saber. Isto dá origem ao que o autor chama de luta simbólica, isto é, a luta para a imposição da visão mais legítima sobre o mundo, que, também, é um conflito pela construção e pela capacidade de intervenção neste mundo. Bourdieu fala aqui em construção não em um sentido “nominalista”, mas considerando a capacidade das representações sobre o mundo social produzidas no CPI de “criar o representado”, ou seja, de “contribuir para produzir o que aparentemente elas descrevem ou designam, ou seja, a realidade objetiva” (BOURDIEU, 2008, p.107).

A luta simbólica é fundamental, pois, segundo o autor, a mudança ou conservação da ordem social depende da mudança ou conservação dos esquemas de percepção desta ordem. Daí a importância do CPI e das lutas em seu interior, onde os agentes aí inseridos – a imprensa dentre eles - investem todos os seus recursos, ou melhor, todas as formas de capital83 que dispõem para vencer esta luta e, assim, impor sua visão de mundo como a mais apropriada.

Nesse sentido, é de extrema relevância a utilização do conceito de representações sociais de Roger Chartier (2002a), historiador influenciado por Bourdieu e com grande diálogo com o sociólogo francês. Para Chartier, as representações sociais são formas de construção discursivas do social e que também funcionam como formas de valoração e, com isso, de hierarquização do mundo, com isso, contribuem para a sua existência real. Em decorrência dessa função de organização social, a elaboração das representações ocorre em uma situação de conflito, ou seja, mediante uma verdadeira disputa entre os grupos e entre os profissionais especializados na produção de bens simbólicos. Assim, segundo Chartier,

A articulação entre as propriedades sociais objetivas e sua interiorização nos indivíduos, sob forma de habitus84 social que comanda pensamentos e ações, leva a considerar os conflitos ou as negociações, cujo desafio continua sendo sua capacidade para fazer com que se reconheça sua identidade” (CHARTIER, 2002a, p.09, 10).

É isto que o autor denominou de “lutas de representação”85, disputas pela imposição da

representação mais legítima sobre o social. Nessa disputa, a representação que sai hegemônica

83 Bourdieu destaca que na luta simbólica o capital com maior peso é justamente o capital simbólico. 84 Chartier retira de Bourdieu o conceito de habitus.

possui um grande potencial de moldar a realidade, pois, muitas vezes, mesmo sem uma experiência empírica sobre determinadas situações ou lugares, temos uma percepção sobre o mesmo, de como ele “deveria” ser. Além disto, as representações sociais podem ser “estruturas simbólicas” cristalizadas ao longo do tempo, na longa duração de Braudel, e que por isso praticamente não são questionadas. Mas apresentam também caráter dinâmico na medida em que são construídas e reapropriadas nas lutas sociais nas mais distintas instâncias. (BOURDIEU, 1990).

Isto é fundamental para compreendermos o papel da imprensa nas construções de representações sobre o espaço, especialmente em se tratando de realidades novas como o incremento das favelas no Rio de Janeiro dos anos 50. Quando pensamos nestes termos não queremos dizer que a imprensa representa estas áreas de forma aleatória ou arbitrária. O jornalista não é capaz de dizer “de qualquer jeito” a realidade à qual se reporta, mas ele “fala a cidade” sempre a partir de determinados – no sentido bourdiano da palavra – pontos de vista (sociais, ideológicos, profissionais, políticos). Nesse sentido, o jornalista, mesmo trabalhando em um jornal voltado para as camadas populares, ainda é membro da elite instruída, o qual, considerando o nosso objeto de pesquisa, possuía pouca vivência nas áreas chamadas favelas. Mesmo assim, ele constitui um “espectador privilegiado do social”, pois traduz em discurso o urbano, um urbano talvez mais idealizado que real, mas que assume um “efeito de real” sobre o seu público.

Interessante frisar para este trabalho que as “lutas de representação” são intensificadas em períodos de grandes e rápidas transformações socioeconômicas, ocorrendo a efervescência de novas “formas simbólicas” com o objetivo de oferecer a melhor compreensão sobre os processos e a nova realidade que está se formando. O que fica claro quando encontramos situações onde as “representações tradicionais” não conseguem explicar a nova realidade, fazendo necessária a emergência de formas alternativas de “ver o mundo”.

Por tudo isto, fica mais clara a importância de trabalharmos a representação da imprensa brasileira sobre o processo de ampliação das favelas no período estudado. Nessa perspectiva, a favela é um elemento ímpar para analisarmos as representações sociais que surgiram no Brasil nos anos 50, na medida em que a sua expansão está associada às rápidas transformações ocorridas no país e, através delas, à emergência de um ator social revigorado, “a população excluída urbana”. Neste sentido, podemos nos valer dos termos de Valladares (2005) que afirmam haver no Brasil uma verdadeira “invenção” da favela, a partir das lutas pela definição mais adequada a uma realidade que vinha se formando desde o início do século, como

decorrência de uma série de mudanças socioeconômicas, mas que se reforçaram na década de 1950.

Por fim, vale lembrar que este tema foi objeto de diversos debates no Brasil depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Como nos demonstra Valladares (2005), esta questão foi discutida não somente na imprensa, mas em diversos outros locais, como instituições religiosas (Fundação Leão XIII), instituições técnicas (censos do IBGE), científicas e políticas. Se pensarmos em termos de Bourdieu: agentes de diferentes campos do saber dirigiram o seu olhar para o “problema” em busca de compreendê-lo e, acima de tudo, elaborar políticas públicas para lidar com ele. Desta forma, a fala do jornalista sobre a favela não vai se dar em um “vazio discursivo”, devendo lidar, contrapor-se, incorporar ou aliar-se a uma série de outras produções conceituais/textuais. É a isto que iremos nos reportara agora.