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2.2 Escola Estadual de Ensino Médio do Campo Francisco Araújo

2.2.6 Campo Experimental: instrumento de estudo, pesquisa e vivência.

Ao discutir sobre como colocar em prática uma proposta de educação em uma escola do campo, conquista da classe trabalhadora camponesa, tentamos responder algumas questões indagadas, tais como: que tipo de vínculos e aproximações da escola com práticas agrícolas de

fortalecimento da agricultura camponesa pretendemos alcançar? Qual o vínculo da escola com a agroecologia?

Chegamos ao consenso de que era preciso ter um espaço de estudo, pesquisa e experimentações, onde se fortalecesse a construção do conhecimento apropriado à realidade dos camponeses, de tal forma que transformasse a lógica do trabalho penoso do camponês, onde a tecnologia e o conhecimento possam contribuir para o jeito de fazer agricultura com melhores condições de trabalho e convivência harmônica com a natureza.

Chegamos à conclusão que esse espaço deveria chamar-se “Campo Experimental da Agricultura Camponesa e da Reforma Agrária Popular” de acordo com a concepção de educação e de escola libertadora, e vendo como colocar tudo isso em prática, avançamos na compreensão de que a escola do campo é a escola de formação do homem e da mulher camponesa, pessoas que vivem do seu trabalho nas comunidades rurais com uma relação direta com os recursos naturais, nas mais variadas formas. É a escola de um campo em construção, do território de vivência dos camponeses, território de disputa pela efetivação da reforma agrária, e espaço da agricultura camponesa em uma sociedade cada dia mais “modernizada” que adota o pacote do capital, assumida por um modelo conservador e voraz, amparado e financiado pelo estado e pelo poder político em nosso país.

Para que tudo isso de fato se efetive, é preciso construir uma relação orgânica com a cultura, o trabalho, as lutas, a vida no campo, criando uma cultura do saber cuidar, preparando as futuras gerações, socializando conhecimentos, como aqueles no centro de animação comunitária. Como parte da estratégia de por em prática essa proposta, fruto de uma construção coletiva, propomos a constituição dos campos experimentais da agricultura camponesa e da reforma agrária como lugar de encontro da educação com a produção, da teoria com a prática, a partir de uma área específica de produção, mas também dos diversos outros espaços produtivos.

O campo experimental se tornaria território do ensaio, da experimentação, da pesquisa, da construção de novas alternativas tecnológicas apropriadas, da organização coletiva, da cooperação para o trabalho, de experimentação do novo campo em construção: da agroecologia, da sustentabilidade ambiental, da soberania alimentar, da convivência com o semiárido, da resistência cultural, um espaço educativo e pedagógico “novo”.

O campo experimental é mais do que uma área específica de um espaço físico, torna-se uma estratégia de um conjunto de ações de

fortalecimento da agricultura popular camponesa e da reforma agrária, a partir da escola. Um espaço onde experimentamos, pesquisamos, inventamos tecnologias voltadas para a agricultura camponesa a partir da realidade produtiva de cada comunidade, conforme destaca o próprio documento do PPP:

O campo experimental relaciona-se com a produção na identificação dos seus desafios e na busca de alternativas, relacionando o estudo, a pesquisa e o trabalho como espaço de encontro dos(as) trabalhadores(as) camponeses(as), dos agrônomos e técnicos agrícolas, dos educadores e estudantes e de pesquisadores de instituições que produzam conhecimentos no campo da agricultura camponesa. Portanto, identificam necessidades que partem da produção; pesquisam, experimentam, desenvolvem alternativas e disseminam junto às comunidades. Por outro lado, relacionam-se com a escola como espaços para atividades a serem desenvolvidas em tempos educativos específicos para o estudo e a prática do trabalho camponês, numa perspectiva interdisciplinar onde o trabalho constitui-se em unidade complexa de conhecimento que identificam saberes das diversas áreas específicas do conhecimento.

O campo experimental é um bem precioso de todos e todas, vinculados aos recursos naturais (terra, água, rios, açudes e riachos.) da região. É parte da estratégia de fortalecimento da agricultura camponesa e familiar e da reforma agrária, visando à melhoria da vida e da renda das famílias. (PPP, ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO MÉDIO DO CAMPO FRANCISCO ARAÚJO BARROS, 2012, p.56).

A ideia do campo experimental é transformar o mesmo em um espaço educativo, procurando despertar e vivenciar com os educandos e educandas o amor à terra, o ser curioso que motiva a pesquisa e a descoberta, a apreensão dos conhecimentos existentes das técnicas agrícolas, agroecológicas, valorizando as experiências produtivas existentes, visando a socialização prática dos conhecimentos apreendidos com as famílias dos estudantes das comunidades da região conforme enfatiza o PPP da escola.

Esse vínculo entre as práticas e o espaço de vivências da realidade tem como princípio organizativo a cooperação que será estimulada através das diversas formas implantadas na escola (equipes, núcleos, turmas), desde o colegiado de gestão da escola e da avaliação constante de cada ação realizada.

As atividades de condução do campo experimental se efetivam a partir do tempo trabalho e do componente curricular Organização do Trabalho e Técnicas Produtivas articulando-se com a comunidade escolar, para o acompanhamento e manutenção do mesmo. As aulas são distribuídas levando em consideração duas horas semanais de teoria e duas de prática, envolvendo todas as turmas da escola e seus educadores/as. Poderão, ainda, ser desenvolvidas atividades relacionadas ao campo, nos espaços mapeados no inventário da realidade existente nas comunidades e assentamentos do entorno da escola, que servirão de espaço de estudo e apoio à pesquisa, sendo que a escola articulará ações de estudos e pesquisa, sob a orientação dos respectivos educadores.

As atividades do campo experimental deverão ser planejadas por equipes multidisciplinares, envolvendo o técnico agrícola ou agrônomo responsável pelas atividades do campo experimental e demandam dois níveis de planejamento: um mais estratégico, envolvendo o setor de educação e produção e outro operacional, envolvendo educadores, educandos e técnico responsável. (PPP, ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO MÉDIO DO CAMPO FRANCISCO ARAÚJO BARROS, 2012, p.57).

A produção fruto deste trabalho será destinada à complementação da alimentação escolar, podendo ser ainda socializada com as famílias dos estudantes e utilizada em ações planejadas pela escola.

Nesta trajetória de luta pela a terra por direitos sociais historicamente negados a classe trabalhadora, e historicizando a experiência presente, compreendendo o que somos hoje e o que poderemos vir a ser, faz-se necessário reafirmar a importância da Reforma Agrária Popular, pois a mesma se insere na luta de classe contra o modelo do capital para a agricultura brasileira. É mister reafirmar a escola vinculada ao projeto histórico que assumimos enquanto trabalhadores e trabalhadoras da classe camponesa. Como explícita DINIZ (2010) ao afirmar o camponês enquanto classe.

Portanto, ao optar trabalhar com o conceito de camponês, entendemos que o campesinato é uma classe social que se reproduz no interior do capitalismo. Conforme analisamos anteriormente, a luta pela a terra é a luta contra a sua extinção e, portanto, é a luta por sua recriação [...]. (DINIZ, 2010, p. 38)

Frente à questão agrária brasileira e o poder político estabelecido em nosso país, contraditoriamente os camponeses se afirmam na luta pela terra e na defesa de seus territórios em suas organizações sociais, como o MST entre outros.

A estratégia do campo experimental é o ponto de partida desde a escola para materializar estas lutas, enfrentamentos e construções pela reprodução de um modelo de agricultura camponesa, alargando para além dos dez hectares de terra, o que fortalece nosso entendimento na teoria e na prática.

3. CAPÍTULO II - EDUCAÇÃO E AGRICULTURA CAMPONESA: CONTEXTOS E ENFRENTAMENTOS

Enquanto dormiam as consciências Nós nos levantamos E dissemos com os passos Que era possível vencer. (Ademar Bogo)

A formação do campesinato brasileiro historicamente é marcada pela expropriação do latifúndio/agronegócio e pela recriação em suas lutas pelo direito à terra e a permanência no campo. A partir deste cenário, vamos buscar entender as contribuições da educação e a luta dos sujeitos do campo que defendem o projeto de agricultura camponesa. Especificamente, pretendemos discutir a relação entre educação e campesinato face aos estudos da experiência na Escola Estadual de Ensino Médio do Campo Francisco Araújo Barros, vinculada à rede pública de ensino do estado do Ceará e ao MST. Desta forma faz-se necessária a compreensão do contexto histórico envolvendo as categorias historicidade, totalidade e contradição que acompanharam todo o processo de levantamento e análise dos dados, situando os dois projetos de campo e de educação na atualidade.

3.1 As bases para compreensão dos dois projetos de campo e de