3 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS MULHERES E AS
4.4 O campo de pesquisa e a base para análise
Entendido como se deu o percurso da pesquisa de campo e o meu papel em meio a tudo o que vivenciei e registrei, sinto a necessidade, antes de chegar no capítulo analítico propriamente dito de discorrer acerca da base para análise. Em onze meses de pesquisa, construí uma base de dados imensa, fruto de todos os registros no diário de campo, audiovisuais e de documentos dos governos e os entregues pelos movimentos sociais. Para pensar numa forma de organizar tudo o que tinha e sistematizar as informações de modo que me mostrassem uma metodologia para responder ao problema de pesquisa, recorri às ideias colocadas pelos teóricos pós-estruturalistas centrais nesta tese.
Conforme foi colocado no primeiro capítulo, na perspectiva de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, é de fundamental importância a negação da sociedade como um todo fechado, como uma estrutura suturada (LACLAU; MOUFFE; 2015). O que se vê como algo
homogêneo, universal é, na verdade, uma tentativa fracassada de se domesticar o campo das diferenças. Eles resumem da seguinte forma:
No contexto desta discussão, chamaremos articulação qualquer prática que estabeleça uma relação entre elementos de tal modo que a sua identidade seja modificada como um resultado da prática articulatória. A totalidade estruturada resultante desta prática articulatória, chamaremos discurso. As posições diferenciais, na medida em que apareçam articuladas no interior de um discurso, chamaremos momentos. Por contraste, chamaremos elemento toda diferença não discursivamente articulada [destaque dos autores] (LACLAU; MOUFFE, 2015, p. 178).
Os autores remetem a articulações discursivas que, conforme veremos ao longo dos capítulos seguintes, são centrais na análise do campo de pesquisa. Para os referidos filósofos, formações discursivas são entendidas como posições diferenciais que, em determinados contextos, podem assumir um significado de totalidade, conforme foi abordado no primeiro capítulo. Eles ressaltam que, como nenhuma formação discursiva constitui uma totalidade fechada e a transformação de elementos em momentos nunca se dá por completo, a contingência e a articulação tornam-se possíveis (LACLAU; MOUFFE, 2015, p. 180). Diante de toda a discussão feita nesta tese, são fundamentais aqui dois aspectos trabalhados pelos autores: a diferença e a equivalência. Para explicar os termos, Laclau recorre antes à discussão sobre significantes vazios e hegemonia, conforme desenvolvemos no começo desta tese. Ao questionar “por que significantes vazios são importantes à política?”, o autor mostra que o significante vazio, por se referir a uma falta, a uma totalidade ausente, fracassada, está em disputa:
Quando falamos de “significantes vazios” [...] queremos dizer que existe um lugar, no sistema de significação, que é constitutivamente irrepresentável. Nesse sentido, ele permanece vazio, mas este é um vazio que pode ser significado, pois estamos lidando com um vazio no interior da significação [destaque do autor] (LACLAU, 2011, p. 166).
São eles que constituem o jogo político das disputas e a luta pela hegemonia, pela possibilidade de determinados grupos ou projetos assumirem a função significativa, passando uma falsa ideia de universalidade. Nessas disputas, os elementos dispersos, as diferenças, vão se compondo em momentos. Mas, essa composição não é uma simples soma de posições, pois é central aqui o caráter antagônico do social. Desta forma, no social e, mais especificamente aqui, na esfera da política, estamos diante de fronteiras antagônicas. Nesse contexto, os sujeitos políticos estão disputando os seus projetos, concepções e ideais para assumirem a
função significativa dos significantes vazios ou, dito de outra forma, estão buscando um processo de equivalência de suas diferenças. O intuito é de assumir o sentido de universalidade contingente constituído através dos pontos nodais. Laclau e Mouffe refletem que a lógica da equivalência é de simplificação do espaço político, enquanto que a lógica da diferença é de complexificação expansão do mesmo (LACLAU; MOUFFE, 2015, p. 209). Laclau reitera que, embora sejam incompatíveis entre si, a equivalência não opera no sentido de eliminar as diferenças. “Elas, no entanto, precisam uma da outra como condições necessárias para a construção do social. O social nada mais é do que o locus dessa irredutível tensão” (LACLAU, 2013, p. 133). Em sua perspectiva, toda identidade social, portanto, discursiva, constitui-se pelo encontro da diferença e da equivalência. Essas relações são analisadas através dos pontos nodais, constituídos a partir de cadeias de equivalência. Tratam- se de pontos discursivos privilegiados, frutos da tentativa dos discursos de deterem o fluxo das diferenças e de construção de um centro (LACLAU; MOUFFE, 2015, p. 187). É importante ressaltar que os conceitos em questão devem ser visto sob o prisma da contingência.
Diante disso, em cada espaço que frequentei - o Conselho da Mulher do Recife; Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e Fórum de Mulheres de Pernambuco -, organizei os registros com base em eixos temáticos e, a partir deles, desenvolvo a discussão para entender quem são os sujeitos e os discursos que são construídos. Interessa-me entender o que estava em disputa e quem ou o que se sobressaiu e o que assumiu o sentido de totalidade referente à construção das conferências de políticas para as mulheres em Pernambuco.
Entendo que analisar as diferenças e equivalências nos diferentes espaços estudados vai, então, permitir entender os antagonismos, pontos de ruptura e, sobretudo, as articulações discursivas. Ou, de acordo com a teoria do discurso posta por Laclau e Mouffe, compreender quais foram os elementos que se fixaram em momentos.
É importante ressaltar que há reuniões em que a pauta não se restringiu às conferências. Portanto, irei me ater aos momentos em que se aborda a referida temática, foco desta tese. Reitero que o material utilizado será o diário de campo, com todas as anotações que fiz ao longo do tempo, os documentos que consegui junto aos referidos conselhos – atas de reuniões e listas de presença-, bem como os materiais entregues nas conferências, como regimentos ou folhetos com propostas.
Resumidamente, neste capítulo, tracei um caminho reflexivo através da epistemologia feminista para pensar a relação do feminismo e da ciência. O acompanhamento dos espaços de construção das Conferências de Políticas para as Mulheres em Pernambuco junto a sujeitos governamentais e da sociedade civil me fez mergulhar não só no campo de pesquisa, mas, sobretudo, nas reflexões sobre a minha condição de mulher que desfruta de imensos privilégios numa sociedade extremamente desigual. Diante disso, julguei necessário discorrer acerca do que constitui fazer ciência a partir de um olhar feminista para, então, abordar o método que utilizei para construir o corpus de pesquisa: a observação participante. Ao longo de onze meses, acompanhei cinco reuniões do Conselho da Mulher do Recife; sete reuniões ordinárias do Conselho dos Direitos da Mulher de Pernambuco e dez reuniões de organização da IV Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres; duas reuniões de preparação para Conferência Livre “Pela Vida das Mulheres”; duas conferências livres; cinco pré-conferências do Recife e sete municipais e a IV Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Como se vê, trata-se de um campo de pesquisa extenso e bastante denso, com muitas questões a analisar. Como entendo que o evento em si – as conferências de políticas públicas – é a conclusão de um processo em andamento, vi que o problema de pesquisa inicial desta tese – a construção discursiva em torno das conferências de políticas públicas para as mulheres – só poderia ser respondido se eu entendesse os espaços anteriores, da construção das conferências. Neste sentido, a observação participante, além de ser o método de pesquisa adequado, foi o que me permitiu compreender as disputas e articulações no seu processo de construção. Também me fez perceber as contingências as quais envolveram esse processo.
Fazer pesquisa em meio a uma série de crises políticas, que foram desde as questões ligadas diretamente às mulheres, como os protestos contra Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, até chegar propriamente ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff não foi um processo fácil para mim. Nesse contexto, considerei necessário discorrer acerca não só da minha relação com o campo, mas de como ele me afetou nesse período.
Diante do exposto, discorri acerca de como refleti acerca da análise desta tese. Através das lógicas da diferença e da equivalência nos diferentes espaços, construo como foram se compondo as demandas, os interesses, as posições de poder, dentre outros fatores. Ou, de acordo com o pensamento de Laclau e Mouffe, a análise vai me permitir entender de que forma os elementos se compuseram para darem um aparente sentido coletivo na construção das conferências de políticas para as mulheres.