• Nenhum resultado encontrado

O campo da saúde do trabalhador

No documento AS REDES DE APOIO AO TRABALHADOR ADOECIDO (páginas 51-55)

3. As redes de apoio no campo da saúde do trabalhador

3.1 O campo da saúde do trabalhador

Segundo Lacaz (1996), a década de 80 apresenta-se como um marco importante para a saúde do trabalhador, passando este trabalhador a ser reconhecido como um sujeito detentor de saber, e não apenas alguém que consome serviços de saúde. O autor reitera que, o campo da saúde do trabalhador parte da participação dos(as) trabalhadores(as) no processo de avaliação e controle dos acidentes de trabalho, não se restringindo apenas aos fatores/agentes externos (físicos, biológicos, químicos, ergonômicos e mecânicos), reconhecendo assim, determinantes contribuintes ao sofrimento mental.

A ST surge como uma grande alternativa, rompendo com as práticas assistencialistas, que por sua vez eram alinhadas aos interesses da elite. Sua origem parte do Movimento Operário Italiano (MOI) na década de 60, quando os trabalhadores de chão de fábrica passaram a introduzir os seus saberes como importantes elementos interventivos e metodológicos em benefício de todos (Keppler & Yamamoto, 2016).

De fato, a ST nos coloca em uma posição de compreensão entre o trabalho e o processo saúde-doença, na busca de romper paradigmas que estabelecem como causas estritamente ambientais, ignorando o nexo psicofísico da relação do biológico e psíquico (CREPOP, 2019).

Contudo, ainda existe a preconização de uma concepção de saúde que conceitua como ausência de doença, constituído pelo próprio processo de trabalho que contribui para uma noção de saúde criada socialmente pelo senso comum, a qual surge como forma de contribuição para que o trabalhador não procure os serviços de saúde (Paim, 2009).

O campo da saúde do trabalhador tem sido discutido há muito tempo, e sistematicamente desde a revolução industrial, entretanto, seus aspectos sempre foram voltados para fins de

legislação e atendimento, desconsiderando a discussão da relação entre os processos de organização de trabalho e o adoecimento (Fernandes & Vasques-Menezes, 2012).

Salienta-se que, o cuidado à saúde do trabalhador, logo em sua constituição, na década de 80, era de responsabilidade única e exclusiva das empresas privadas e Previdência Social, sendo o trabalhador resguardado por estas instâncias em particular. Sobre a regulamentação e controle das condições e ambientes de trabalho, em que os trabalhadores estavam sujeitos, já eram exclusivamente atribuições do Ministério do Trabalho (Lacaz, 1996). Este cenário muda após o decreto da constituição de 1988, quando a saúde começa a se valer como um direito social com a instauração do SUS tendo a saúde do trabalhador como ações pertencentes ao sistema.

É necessário resgatar este cenário da saúde do trabalhador, assinalando a importância de um campo do conhecimento que atravessa as relações de saúde-doença e trabalho, situado dentro da Medicina Social Latinoamericana, fazendo interface com a saúde coletiva, em contraponto com a saúde ocupacional, que desconsidera os determinantes históricos e sociais da saúde-doença e trabalho (Lacaz, 1997; Laurell, 1991).

Ao contrário do que a saúde ocupacional propõe, o campo da ST se insere dentro da saúde coletiva a partir da corroboração da abordagem assumida, os determinantes sociais da saúde. Ambas compreendem como um olhar ampliado para as relações existentes entre Trabalho e Saúde, assumindo a importância do protagonismo do trabalhador como um sujeito coletivo e ativo (Lacaz, 1996).

Observamos notadamente com Minayo-Gomez (2011), ao apontar que:

Contrariamente aos marcos da saúde ocupacional, em que os trabalhadores são vistos como pacientes ou como objetos da intervenção profissional, na visão da saúde do trabalhador eles constituem-se em sujeitos políticos coletivos, depositários de um saber emanado da experiência e agentes essenciais de ações transformadoras. A

incorporação desse saber é decisiva, tanto no âmbito da produção de conhecimento como no desenvolvimento das práticas de atenção à saúde” (Minayo-Gomez, 2011, p.

27).

No que concerne à relação Trabalho e Saúde, é preciso destacar um grande problema crônico que circunda o campo da ST. O SUS, diante sua função como sistema de saúde, mostra-se ainda muito ineficiente em conmostra-seguir anexar o trabalho como uma categoria esmostra-sencial no que tange os determinantes de saúde no processo de saúde-doença, embora sua origem, esteja na saúde coletiva como importante abordagem (Ribeiro, Leão & Coutinho, 2013; Vasconcelos, 2007).

Desta forma, abre-se espaço para colocar os limites epistemológicos da saúde ocupacional em cheque, com uma abordagem reducionista e de caráter estritamente clínico, tendo como caráter principal a história da doença, desconsiderando qualquer aspecto histórico, social e as formas de adoecimento atreladas ao processo de trabalho e a interface à valorização do capital (Mendes, 1980; Lacaz & Santos, 2010).

Mediante os entraves de uma política muito incipiente voltada para a saúde do trabalhador, obteve-se a criação da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), criada em 2002, por meio da portaria nº 1.679/GM, com o intuito de integrar as redes de serviço do SUS.

A partir desta estratégia, criou-se o CEREST habilitado pela Portaria n.º 656/GM, de 20/09/2002, serviço instituído pelo Sistema Único de Saúde (SUS) organizado para atuação de prestação de serviços de saúde aos trabalhadores, promovendo ações dentro da prevenção, promoção e vigilância.

Destarte, como um serviço de referência especializado em saúde do trabalhador, o CEREST surge, como aludido por Keppler & Yamamoto (2016) sendo um serviço de caráter

de "polo irradiador", cuja sua função é a promoção de ações relacionadas à vigilância, assistência, educação em saúde e produção de informação em saúde do trabalhador. Desta forma, o campo abre espaços poderosos de atuações nas mais diversas nuances de comprometimento com a saúde do trabalhador, oportunizando práticas e autonomia no desenvolvimento de atividades interventivas junto aos trabalhadores.

Vizzaccaro-Amaral, Mota e Alves (2011) apontam que é necessário que se exista uma política que se proponha a cuidar da saúde das pessoas, fora e dentro do trabalho, sendo esta, uma obrigação em sociedade democrática: o indivíduo trabalhador tem de ser cidadão pleno, fora e dentro do espaço de trabalho. Os autores ainda reiteram que, tendo em vista o valor e significado que o trabalho carrega, é preponderante que os cuidados de saúde devam ser reforçados no espaço do trabalho, podendo assim, dentro destas condições, resultar vantagens para a produtividade numa perspectiva estratégica, bem como significativos ganhos para a sociedade.

Em função destas questões arraigadas, é necessário que a Política de Saúde do Trabalhador seja pensada e executada tendo como referência a proteção social para o conjunto da classe trabalhadora (Mendes et al., 2015).

Segundo Coutinho et al., (2018), é preciso compreender o mundo do trabalho como algo extremamente complexo, não existindo um contexto exclusivo para as práticas interventivas, e sim espaços que se mostrem férteis no desenvolvimento de mecanismos práticos dentro de uma perspectiva crítica sobre o trabalho. Dessa forma, as intervenções precisam ter caráter contínuo e de estratégias de ações, sempre considerando o saber dos trabalhadores e as especificidades dos contextos apresentados, premissa esta adotada pelas práticas nesse espaço.

Este cenário dentro das políticas públicas, voltados a ST, corrobora para um campo que ainda apresenta grandes fragilidades afetivas, produzidas pela condição de adoecimento vinculada ao trabalho. Rocha (2005) aponta que as redes de apoio se apresentam como um

grande alicerce na constituição e fortalecimento das relações, delineadas como teias que rodeiam o indivíduo, por conseguinte, permitindo o estabelecimento de união, comutação, troca e transformação.

Nesse sentido, é necessário pensar e fortalecer as redes de apoio como uma das estratégias dentro da política de Saúde do Trabalhador, bem como respaldado pelo CREPOP (2019) no qual prevê a importância dos próprios trabalhadores como atores essenciais na constituição das redes de apoio, solidariedade e ajuda mútua.

Estas redes propiciam um cuidado que devem ir para além dos espaços institucionais, que se caracterizam como ações de lutas, transformações e novos modelos de saúde, deslocando a visão rígida e conservadora instituída e ampliando assim, a perspectiva de novas formas de potencialidades e mobilizações frente a participação social como um importante promotor de saúde (Lacerda, 2010b).

No documento AS REDES DE APOIO AO TRABALHADOR ADOECIDO (páginas 51-55)