A CAPELA E A IGREJA, AS IGREJAS
3. Camponeses e colonos, escravos e operários
A religião primitiva do caipira dos Macucos reagiu ao poder secular e da Igreja em dois sentidos pelo menos. Primeiro: ela passou aos poucos de religião de uma sociedade camponesa onde o padre era um emissário transitório e quase à margem do sistema devocional, para uma posição de religião dominada, com a chegada do padre vigário e o estabelecimento de uma ordem católica paroquial. A paróquia de Nossa Senhora da Penha garantiu um espaço religioso central, ainda que demograficamente minoritário, na sociedade capitalista do café. Como parte de um sistema religioso, as crenças e práticas populares penetraram apenas clandestinamente na cidade, muito embora tenham conservado nela, até hoje, uma presença ativa sob os cuidados de sitiantes, agregados e antigos escravos, migrados dos sítios e das fazendas para Itapira. Nas suas formas mais organizadas o sistema religioso camponês foi sendo empurrado para áreas de refúgio nas fazendas, nos sítios e nos bairros. Este progressivo deslocamento geográfico e social do centro de uma sociedade para a periferia de uma outra,
acompanha o processo de uma inevitável destituição de legitimidade e de expropriação do capital religioso-católico popular.
Não é difícil avaliar a dimensão de perda de autonomia e poder que o agente caipira sofre, na passagem de uma posição de representante local e legítimo da religião da sua sociedade, para a de um especialista canonicamente declarado como ilegítimo, e expropriado de uma liberdade anterior de docência e prática religiosa, na mesma medida em que os camponeses caipiras eram aos poucos despojados de sua autonomia e das regras locais de reciprocidade, sob o avanço das relações capitalistas de produção de bens, de trocas sociais e de representações simbólicas.
Segundo: a religião popular tornou-se progressivamente diferenciada e enriquecida de novos elementos, com a introdução de outros tipos de sujeitos sociais subalternos, trazidos com os fazendeiros-coronéis. Com eles vieram os negros escravos e, mais tarde, os colonos europeus. A transferência de capital do café, do algodão e da cana para as pequenas fábricas locais e as indústrias médias da região, criou novos tipos de operários. Finalmente, as formas mais atuais de produção nas fazendas expulsaram delas o parceiro agregado — social e culturalmente também um tipo de camponês, é bom não esquecer — que veio morar nos ―bairros de baixo‖ de Itapira e que se metamorfoseou em trabalhador volante...
Os negros escravos, mais do que os outros tipos de sujeitos trazidos pelos fazendeiros, introduziram em Itapira novos elementos de saber religioso e das práticas devocionais e de medicina popular. Influenciando muito pouco o sistema confessional camponês, o repertório mágico e religioso dos negros marcou, de um modo ou de outro, as formas culturais populares da periferia urbana de Itapira. Até hoje, alguma coisa na religião e na medicina popular sempre é reconhecida como sendo ―coisa dos pretos‖, a começar pela grande ―festa de santo‖ em Itapira, a ―Festa do 13‖, ou ―Festa de São Benedito‖20. Primeiro como escravos, depois como trabalhadores braçais ―na roça‖ ou na cidade, os negros foram sempre identificados pelos homens brancos da burguesia, como tipos sociais e religiosos que oscilavam entre o socialmente condenável, quando praticantes autônomos de
20 Creio que o próprio catolicismo dos camponeses foi sempre um sistema religioso marcado pela solidariedade entre os fiéis e pela concorrência entre agentes. A chegada de especialistas negros, trazidos com os fazendeiros, veio a introduzir novos elementos de conflito. Ê com os escravos Que surgem os primeiros ―mandingueiros‖, ―macumbeiros‖, ―gente do Saravá‖ (como se fala até hoje pelo Risca-Faca e pelo Paranazinho). Eles são considerados como os verdadeiros ―feiticeiros‖ •do lugar, por oposição aos benzedores católicos. Sempre houve acusações de que os negros escravos e os seus descendentes pactuavam com as ―forças do mal‖, em geral identificadas com as •de uso na ―macumba‖. Até hoje, qualquer pessoa mais velha •dos bairros de baixo é capaz de fazer a relação de alguns negros, temíveis feiticeiros.
rituais e difusores de crenças tidas como estranhas ou misteriosas (o samba, o saravá, a macumba); e o culturalmente pitoresco, quando reprodutores populares de formas de saber e trabalho simbólico ―de branco‖, ou subordinado ―ao branco‖21. Os colonos italianos foram absorvidos com mais facilidade pelo controle da paróquia do que os camponeses nativos, mesmo depois que estes últimos vieram em grande número para a cidade. Não obtive documentos e informações suficientes para comprovar uma hipótese em que, entretanto, acredito. Os colonos europeus devem ter colaborado de modo decisivo na romanização do catolicismo oficial em Itapira. Com crenças e formas de culto semelhantes às dos camponeses do lugar, porém ―mais puros‖ aos olhos do clero, eles trouxeram novos santos padroeiros, novas formas de devoção dissociadas das tradições ibéricas e colonialistas e, mais do que tudo, uma moderada atitude de equilíbrio entre a autonomia da prática religiosa e a aceitação das regras de crença e culto da paróquia de Nossa Senhora da Penha22.
Entre 1880 e 1900 a Igreja Católica está solidamente implantada em Itapira, sob o comando do bispo diocesano de S. Paulo e sob as ordens imediatas do vigário da Penha. Nos bairros urbanos da periferia e nos bairros rurais, sítios e fazendas, a religião popular dos camponeses e as formas equivalentes de fé dos negros e dos migrantes saídos ―da roça‖, constituem áreas de oposição difusa e relativa autonomia frente à Igreja. Já existia, então, em Itapira, uma Igreja Presbiteriana. Poucos anos mais tarde seriam fundados centros espíritas. Por outro lado, na seqüência de uma acelerada concentração de operários das fábricas, das usinas e da lavoura, começam a emergir as condições sociais para o surgimento de religiões e de igrejas populares não-católicas.
Antes de chamar à cena novos grupos e novos tipos de agentes e fiéis, descrevo ainda dois momentos de conflito no interior do catolicismo. Não, foram fatos episódicos e, de modo exemplar, explicam como ocorriam as dissidências confessionais e como a Igreja conduzia a retomada de controle sobre uma área católica ameaçada por surtos de autonomia religiosa.
21 Estas observações locais eram evidentes nas diferenças entre os comentários eruditos sobre o samba e o congado. ―Os sambas... sempre fomos de opinião que esses malditos divertimentos deviam ‗ser prohibidos‖ (CI, 27.02.1908, n. 61, p. 1).
―Percorrerá pelas principais ruas desta cidade a corporação de Congado‖. (CI, 13.05.1909, n. 185, p. 2) ―...O peior foi a participação do pessoal das cozinhas na folia intensa do deboche. O samba espinafrado, alli, frontteiro a capella de São Benedicto, atravessou de ponta a ponta a noite, noite hybernal, noite Siberiana. Consequencia, no dia seguinte muitas famílias ficaram sem almoço. Valha-me Deus que essa anormalidade só se dê uma vez por anno.‖ (CI, data ilegível, n. 290, p. 2)
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Ainda está para ser feito um estudo sobre o papel dos migrantes europeus não ibéricos no processo de romanização do catolicismo em São Paulo. Os migrantes trazem novos santos, em boa medida aqueles que os padres aproveitam para novas devoções, mais urbanizadas. Mas eles não deixam de lado a prática das festas tradicionais. Em Itapira é um italiano quem doou, em março de 1807, as terras para a construção da capela de São Benedito.