A política agrária que atraiu imigrantes japoneses 2.1 Curitibanos, IRASC, JAMIC
2.4 Camponeses japoneses do Núcleo Celso Ramos.
Na entrevista com Fumio Honda, em trabalho de campo no núcleo Celso Ramos, o agricultor japonês afirmou que primeiramente oito famílias japonesas formaram a comunidade, “porém a cada ano este número cresceu, estabilizando em 1975 com aproximadamente sessenta famílias”142. Mas, antes da própria criação ou do projeto do núcleo Celso Ramos, já habitava na região de Curitibanos uma família japonesa. Segundo Takahashi Chonan, o agricultor Tetsuo Hirata plantava inicialmente “em dois lados”, no inverno no município de São Francisco do Sul e no Verão na região de Urubici (litoral e planalto sul catarinense respectivamente, municípios distantes 300 km aproximadamente). Provavelmente, terá sido o senhor Hirata e seus familiares, em meados da década de 1950 -(ano de 1956?)-, os primeiros japoneses a instalarem-se na região de Curitibanos. Takashi Chonan lembra com humor o espírito aventureiro desse japonês, que em 1973 ou 1974, emigrou de Santa Catarina para o Estado do Maranhão para praticar agricultura em maior escala.
Hirata era considerado pelos japoneses, um “líder entre eles na região”, pois possuía muitos contatos políticos, enfatiza Chonan, e “era muito procurado por nós, dava muita informação”. Havia nessa época (final de década de 1950), no município de Lages alguns japoneses residindo, entre eles Takahashi Chonan, que recorda ter aportado em Santos em 1958, vindo do Japão. Estabeleceu-se primeiramente em São Bernardo do Campo, onde começou trabalhar em uma granja. Nessa época, pensava Chonan, “eu vim lá do Japão tratar galinhas? Galinha no Japão também tinha”. Então, o imigrante relata ter trabalhado bastante nessa granja durante dois anos, para conquistar seu sonho em ser fazendeiro e ter milhares de cabeças de gado: “eu sonhava com um tipo brasileiro, dono de grande fazenda, cheia de gado, e que no Japão tinha pouco possibilidade de se chegar a isso”. Essa idealização do grande proprietário e fazendeiro, comstatus, poder e prestígio, foi identificado pela antropóloga Neusa Maria S. Blomer, nos colonos pequenos proprietários do Planalto catarinense, região de Lages. Em situação semelhante a relatada por Chonan, afirma Blomer:
Há na verdade, uma idealização por parte dos colonos ‘fracos’, no sentido de tornarem-se ‘fortes’, passando a criar gado bovino de forma extensiva, de modo a permitir a sua comercialização. Ao que parece, o status social e o conseqüente prestígio político dos fazendeiros, muito forte em outros
142
Fumio Honda, em entrevista informal a André Souza Martinello, quando realizado trabalho de campo em Frei Rogério, 30/04/2006 (Núcleo Celso Ramos).
tempos, permanecem ainda como modelo ideal de realização pessoal para certos pequenos produtores da região143.
Chonan desloca-se para a região Norte do Paraná, entre Londrina e Maringá, em busca da realização do seu sonho, ser criador de gado ou possuir grandes cafezais. Mas, dessa vez o problema era o excesso de japoneses por ali, “naquele tempo já estava cheio de imigrantes japoneses que haviam chego antes de mim”. E recorda o agricultor: “Como lá tinha muito japonês como eu, que veio para trabalhar na fazenda, não havia muito o que fazer”. Após um período de dúvidas, sem saber se voltava para São Paulo, ou tentava a vida em Curitiba, Chonan encontrou outro japonês que estava vindo de Vacaria (RS) em direção a nova Capital do País, Brasília. Chonan seguiu a recomendação desse colega nipônico, para ir conhecer o extremo Sul do Brasil e chegou na rodoviária de Lages em setembro de 1960.
Em Lages, Chonan descobriu umas duas ou três famílias japonesas e também um agrônomo japonês que trabalhava na ACARESC, chamado Yukio Otaki. Mas foi Takeo Sato que tornou-se sogro de Chonan, que despertava cada vez mais interesse pela agricultura de clima subtropical (culturas temperadas), principalmente a maçã. Chonan foi levado um dia, pelo engenheiro agrônomo Yukio Otaki ao mercado municipal de Lages e lá encontrou maçãs, na verdade espantou-se com a existência de bancas que vendiam maçãs: “eram maçãs cultivadas por caboclos, produzidas no quintal. Mas aquilo me chamou a atenção. Já mais alguns dias, me convidou para ir a São José do Cerrito, eu fui, e Otaki me disse: lá planta-se alho, e isso também me chamou atenção”144. Em relação ao entusiasmo de Chonan para as “maças de caboclos”, a historiadora Zuleika Alvim lembra que nas convivências intergrupais ou interétnicas, em se tratando de imigrantes, os caboclos foram aqueles que davam os repertórios dos recursos técnicos iniciais. Ou seja, os imigrantes que chegavam precisavam e serviam- se dos conhecimentos dos negros e dos caboclos, “sobretudo nos primeiros tempos, para se adaptar ao novo país, mas contraditoriamente, não hesitavam em menosprezá-los”145. Até mesmo em relação à produção agrícola ou alimentar (agro-alimentar) estavam os brasileiros menos aquinhoados, a auxiliar os imigrantes.
143
BLOMER, Neusa Maria Sens. “Brava gente brasileira: migrantes italianos e caboclos nos campos de Lages”. Florianópolis: Cidade Futura, 2000.pp.112-113.
144
Takashi Chonan entrevista gravada a André Souza Martinello em 29/04/2006 em Curitibanos. 145
ALVIM, Zuleika. “Imigrantes: a vida privada dos pobres do campo”. In: NOVAIS, Fernando A. (coordenador-geral da coleção) e SEVCENKO, Nicolau (organizador do volume). “História da vida privada no Brasil: da belle époque á era do rádio”. Volume 03. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.272.
Chonan resolveu ficar em Lages, comprou as primeiras mudas de maçãs em Mogi das Cruzes (SP) e retornou a Santa Catarina: “no terreno do meu sogro, começamos a plantar, e em 1963 deu alguma maçã. Era uma variedade do Japão muito bonita, mas amarga”. Paralelamente aos testes e trabalhos de Chonan, instalavam-se no interior de Lages, mais alguns japoneses. Em 1962, Takahashi Chonan e Tetsuo Hirata (que na época morava em Curitibanos) visitavam a Fazenda Pedras Brancas em Lages, em que trabalhavam os jovens: Jinbo, Tamotsu, Hirigawara, Shimizu e Kadowaki. Segundo o relato de um desses jovens, Yuzuru Kadowaki a historiadora Rosangela Borges:
Nasci na Província de Miyagi, no norte do Japão, numa família de agricultores. Somos ao todo em nove irmãos. Formei-me em Indústria de Alimentos, na Universidade de Meiji, onde conheci o senhor Jinbo. O Jinbo imigrou dois anos antes de mim e me mandou carta contando como era o Brasil. Decidi então largar o trabalho de professor e emigrar também ao Brasil.
[...]
E fui morar junto com Jinbo na Fazenda Pedras Brancas de propriedade do Sr. Milton Gambodi. Moravam juntos ainda os senhores Inagaki, Shimizu, Hagiwara e na fazenda vizinha moravam os familiares da família de minha esposa, também como meeiros. Plantávamos tomate e batata. Vendíamos e entregávamos o dinheiro ao patrão que descontava a comida e dividia o restante com a gente146.
São muito desses jovens imigrantes agricultores, que irão se estabelecer no Núcleo Celso Ramos em Curitibanos. Fumio Honda, por exemplo, lembra que chegou a Lages entre 1961 e 1962 para pesquisar fruticultura temperada e trabalhar como orientador técnico, a serviço da JAMIC, e depois se instalou em Curitibanos. Para alguns camponeses nipônicos, a idealização e organização inicial da vila agrícola japonesa em Curitibanos, tomava força com Tetsuo Hirata, quando ele começou a contatar a JAMIC e o consulado japonês, ambos em Porto Alegre (RS). Chonan lembra que ficou a cargo da JAMIC a classificação dos japoneses que iriam se fixar em Curitibanos, mas o critério adotado pela empresa, atendia a poucos, já que a preferência para instalar-se era para casais com filho de mais de 15 anos, ou seja, no mínimo com três pessoas dispostas a trabalhar. “Aí nesse nivelamento, a grande parte que era solteira, não poderia entrar. Por isso fomos a Porto Alegre e reclamamos... depois parte do pessoal foi deslocado para São Joaquim. Fizemos briga com o consulado, que intenção era essa?”147.
146
“Anexos: Relato de Yuzuru Kadowaki ”. In: BORGES, Rosangela de Fátima. “A imigração japonesa em Curitibanos”. Caçador (SC): Angelus, [2004?]. p.74.
147
Através da política agrária do IRASC e da “reivindicação dos japoneses”, formava-se o núcleo em Curitibanos, com capacidade de reunir e atrair nipônicos que estavam no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e mesmo no Japão. A produção agrícola mostrou-se extremamente diversificada, sempre lembrada com orgulho pelos imigrantes. Houve desenvolvimento da cultura do alho, maçã, pêra, cogumelos, tomate, cenoura, batata, flores... entre muitas outras. Para finalizar, é válido registrar parte da memória da camponesa Kikue Kobashikawa, sobre a história do trabalho dela e de seu marido no núcleo Celso Ramos:
Aquele tempo era bom, plantava alho e feijão e era compensador. Colhia bem e vendia tudo, mandava para São Paulo.
No tempo da colheita do feijão vinha comprador na roça, depois aparecia outro e mais outro oferecendo preços cada vez melhores. Ficávamos na dúvida para quem vender148.
148
“Relato de Kikue Kobashikawa”. In: BORGES, Rosangela de Fátima. “A imigração japonesa em Curitibanos”. Caçador (SC): Angelus, [2004?]. pp. 78-79.