O SISTEMA AGRO-CAPITALISTA: AGRONEGÓCIO E CAMPESINATO E SUAS CONTRADIÇÕES
1.3. CAMPONESES NO SÉCULO XXI E A CONTROVÉRSIA CENTRAL
Demarcada a intencionalidade deste trabalho que é analisar um projeto de formação de trabalhadores camponeses, e neste, identificar se há alguma especificidade da chamada Educação do Campo, é importante retomar a grande e atual discussão acerca do lugar dos camponeses no capitalismo. Os camponeses, sempre presentes ao longo da história, tem sido objeto das mais diferentes interpretações e de várias predições sobre o seu destino.
Nos itens anteriores, discutimos um pouco dessas interpretações relacionadas ao destino da organização da agricultura, dos trabalhadores camponeses – da questão agrária – sob o paradigma do sistema capitalista. Jerzy Tepicht em sua obra Marxismo e agricultura: o camponês polonês (1973) faz uma
provocação e estimula a necessidade de reflexão acerca da atualidade do campesinato e de seu papel social.
TEPICHT (1973, p. 17-18), apud CARVALHO, (2005, p. 15 (Org.)) destaca:
[...] Nós falaremos aqui da economia camponesa como de um modo de produção, este termo sendo tomado num sentido próximo do ‘marxiano’, ou seja, o conjunto coerente e distinto de forças produtivas e relações de produção entre os homens. Se nossa acepção não é senão ‘próxima’
daquela de Marx, é que de fato Marx e seus numerosos discípulos aplicam este termo só ocasionalmente à economia, e por isso (:) é utilizado junto àquele de formação econômica, conjunto que deve conter toda a estrutura de classe, com uma classe dominante na escala da sociedade global, e toda uma superestrutura, sobretudo política. Ora, o modo de produção camponês, tal como nós compreendemos aqui, não é gerador de uma formação particular, ele se incrusta numa série de formações, ele se adapta, interioriza a seu modo as leis econômicas de cada uma delas e deixa, ao mesmo tempo, com maior ou menor intensidade, em cada uma delas a sua marca. É aí que reside, na nossa opinião, o segredo da surpreendente longevidade que inspiraram as predições sobre a sua perenidade. A maior parte dos marxistas prediz, ao contrário, o sabemos, uma decomposição rápida [...].
O autor chama a atenção para a gama de controvérsias a respeito do modo de ser e de se organizar dentro do processo de produção capitalista, da economia camponesa. A forma organizacional desperta nos vários períodos do desenrolar da história moderna até nossos dias, em particular a partir do aparecimento do sistema capitalista de produção, um olhar a partir do resgate e a transformação ocorrida, sem o seu desaparecimento, além de retomar os pontos teóricos mais polêmicos que dizem respeito à sua reprodução social.
A forte alusão dos marxistas sobre a possível decomposição do campesinato, demonstra em certa medida, que Marx era pessimista em relação ao futuro do campesinato no sistema capitalista. Suas observações levam à conclusão de que a relação campesinato/capitalismo aconteceria sob condições particulares, tanto no plano da distribuição, quanto no campo da troca, enquanto instâncias mediadoras distintas da produção e do consumo.
O lugar do campesinato dentro de uma lógica sistêmica do capital, no que concerne a distribuição da produção feita pelo trabalho desses trabalhadores caracterizar-se-ia por entregar de graça parte do trabalho excedente por eles produzido para a sociedade.
O campesinato se encontra entre uma correlação de forças entre os próprios capitalistas empresários, uma vez que, hoje o sistema agroindustrial ocupou
o campo, somado ainda com o capital financeiro, e, esta organização passa a organizar a produção no campo. Assim, ao concorrerem entre si – os capitalistas – fazem com que a produção da terra de modo geral seja corroída pelos preços do mercado sistematicamente abaixo do mercado, equiparando, na maioria das vezes, ao salário médio para os produtores da agricultura familiar. Nesse sentido, e nessa forma de compreender esse movimento, tal forma de produzir não pode absorver os progressos tecnológicos necessários ao enfrentamento das empresas capitalistas, compulsivamente inovadoras na busca concorrencial do lucro, pois para este o poder econômico não é gerado em sua unidade de produção.
Grandes dificuldades se apresentam aos camponeses no processo de produção e no plano de distribuição. De igual forma, no plano de troca, essa grande dificuldade se apresenta. “(...) No plano da troca, Marx enfatiza a mediação do capital mercantil e usurário como bloqueadora do desenvolvimento técnico dos camponeses (...). A citação a seguir, que destacarei entre colchetes é uma leitura em prosa, realizada por Horácio Martins de CARVALHO (2005, p. 16), de uma dedução matemática sobre a matéria realizada por Costa (1994, p. 10):
“[As dificuldades das unidades camponesas quanto ao investimento e, portanto, quanto à sua capacidade de permanência, estão relacionadas com o aumento ou diminuição da taxa de lucro do capital mercantil assim como com a maior ou menor deterioração das relações de troca, esta expressa pela relação entre o valor médio de mercado do produto camponês e uma ponderação dos valores médios dos produtos industriais consumidos pelos camponeses].”
CARVALHO (2005, p. 16) comenta:
[...] A teoria de Marx, nesta matéria [problemas do campesinato no capitalismo], poderia ser resumida como segue: acossadas por suas contradições mediante o mercado (concorrência além do limite que permitiria a incorporação na unidade de produção camponesa do sobretrabalho por ela gerado) e exauridas pelas formas ‘antidiluvianas’ de capital as estruturas camponesas sucumbiram inexoravelmente, uma vez que sua produtividade, pela ausência de formação de capital, tenderia a cair continuadamente, ou, na melhor das hipóteses, se estável, tenderia a se confrontar com uma produtividade média crescente para o conjunto da produção (derivada tão somente de cada vez mais presente produção capitalista), aumentando inexoravelmente (relação que mede a desproporção entre produtividade local e nacional) e a exploração (taxa de exploração tendencial maior que zero para um produtor individual) das estruturas camponesas. Sob o capitalismo, a produção camponesa constituiria, destarte, um sistema sem sustentabilidade, economicamente inviável.
Marx destaca que no fundo do sistema capitalista está a separação entre o produtor e meios de produção e que a base de toda essa evolução seria a expropriação dos camponeses. A propriedade, fundada no trabalho individual, pessoal, vai ser dominada e/ou suplantada pela propriedade privada capitalista, fundada na exploração do trabalho dos outros e no sistema assalariado.
Mas onde está a controvérsia acerca do campesinato? Uma das questões que se vê ainda, no debate atual, são as razões que fundamentam a permanência do campesinato no sistema capitalista. De onde vem essa força de permanência? O debate é polarizado em dois aspectos fundamentais, há mais de um século: de um lado as posições que defendem uma incapacidade estrutural das unidades camponesas, concordando com o anunciado de Marx. De outro, vê-se na unidade de produção familiar uma microeconomia, responsável por grande parte da produção, portanto, como uma possibilidade de investimentos e grande capacidade estrutural de absorver e internalizar as inovações.
No primeiro posicionamento, representado por Marx, a questão econômica – parte-se da base econômica para a análise da relação campesinato/capitalismo – é a base da organização e das transformações na agricultura e consequentemente, no modo de produção do campesinato. No segundo aspecto, podemos dizer que pode ser representado por Chayanov (1923), este parte considerando que a família é o fundamento da produção camponesa. O trabalho é o ponto central e o fruto do trabalho, enquanto produção, ainda não lhe é estranho.
Como o fundamento do trabalho é reproduzir a existência, talvez seja essa uma das razões da longevidade do campesinato. Em COSTA (1994, apud CARVALHO, 2005, p. 18):
Para Chayanov a família é o fundamento da empresa camponesa – na sua condição de economia sem assalariamento, uma vez que é tanto o ponto de partida quanto o objetivo da sua atividade econômica. Como única fonte de força de trabalho a família é o suposto da produção, cujo objetivo nada mais é [que] o de garantir a própria existência. A unidade camponesa é, pois, a um só tempo unidade de produção e unidade de consumo e encerra, concomitantemente, as funções das esferas de produção e reprodução de tal modo de que “... a família e as relações que dela resultam têm que ser o único elemento organizador da economia sem assalariados” (CHAYANOV, 1923, p. 9apud Costa, 1994).
O trabalho do camponês e a sua unidade de produção camponesa se reservam o direito de não ter a obrigação de ter uma dimensão econômica que
tenha que ser alcançada, como o grande lucro para cobrir os gastos e ainda pagar o salário de outrem. A atividade econômica do campesinato, portanto, deve produzir o equivalente, que suas atividades produtivas possam cobrir o preço de mercado de sua força de trabalho.
Essas discussões trazidas neste item e que permeiam a leitura sobre o campesinato inserido nessa dinâmica do capital tem uma chamada de atenção nas contradições de fundo teórico por Theodor Shanin (1982; 1983). As análises trazem em si problemas, mas, se estiveram sentido, demonstram, explicitam problemas para as presenças camponesas nas sociedades capitalistas em geral, nas diferentes regiões do planeta. Segundo o autor, as abordagens produziram visões reduzidas por pautarem-se em dinâmicas necessariamente extremas e polares, mas que a lógica material teria o mesmo desfecho, ou seja, a dissolução ou desaparecimento do campesinato. Dissolução por diferenças sociais, produtivas e econômicas ou por oposição da entrada desse processo de desenvolvimento do capital. A primeira seria a efetivação de um determinismo econômico defendido por Marx, Engels, Lênin, Kautsky ajudados pelos seus intérpretes e discípulos e a segunda, por um determinismo biológico – pautado nas análises da dinâmica agrária e do trabalho na unidade de produção, feito pela mão de obra familiar, com uma forma de uso do solo que passa a exigir sempre mais esforço de cada trabalhador para a obtenção do mesmo resultado anterior em termos reais – liderada por Chayanov.
Mas, como essa controvérsia central nas discussões de cunho geral sobre o campesinato acontece no Brasil? As leituras acerca do aspecto histórico da natureza do campesinato no Brasil foram marcadas pelo determinismo econômico, seja no âmbito da pesquisa acadêmica, quanto, aos discursos da ideologia dominante dentro da concepção de mundo pela pujança autoritária das idéias neoliberais a partir dos meados da década de 80 do Século XX.
1.4. A IDENTIDADE DO MUNDO DO TRABALHO E A ENGRENAGEM DO