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Fernando Pessoa praticou o jogo de parecer ser ele e o outro em sua escritura e mostrou que a sua superfície corporal exibe uma das reinvenções mais ousadas da poesia moderna: a heteronímia. Essa forma de corporificação, travestimento da escrita e de encenação de si, seguida à risco pelo poeta, foi responsável pela construção de um discurso que, em sua constituição, instaura a presença de sujeitos – com biografias – na escritura-vida do poeta, que “abriu suas linhas de escrita para linhas de vida” (DELEUZE E GUATTARI, 1997, p. 71). No ensaio do poeta sobre A lei de Malthus da Sensibilidade, diz:

(b) Em arte: abolição do dogma da individualidade artística. O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais gêneros com mais contradições e dissemelhanças. Nenhum artista deverá ter só uma personalidade. Deverá ter várias, organizando cada um por reunião concretizada de estados de alma semelhantes, dissipando assim a ficção grosseira do que é uno e indivisível. (PESSOA, 2009b, p. 69)

Fernando abarca diversos gêneros (aí ele se refere aos gêneros literários), as

“contradições” e “dissemelhanças”, se insurge contra o “dogma da personalidade uma” e

instaura para si a multiplicidade do CsO, o paradoxo, e a indefinição identitária. Os outros pessoanos são a constatação de uma existência complexa, cuja realidade reside na produção de rostidade e de dobras no poeta, que ressignificam o seu modo de viver, a sua vida e a relação da arte com o artista – fazendo-nos pensar a autoria como um processo de criação vital, de escrituras de vida, no qual o agente da escrita, ao realizar o Corpo-sem-Órgãos, surge em sua corporeidade como um precursor sombrio39, porque

a arte nunca é um fim, é apenas um instrumento para traçar as linhas de vida, isto é, todos esses devires reais, que não se produzem simplesmente na arte, todas essas fugas ativas, que não consistem em fugir na arte, em se refugiar na arte, essas desterritorializações positivas, que não irão se reterritorializar na arte, mas que irão, sobretudo, arrastá-la consigo para as regiões do a- significante, do a-subjetivo e do sem-rosto. (DELEUZE E GUATTARI, 1997, p. 52)

39

Sobre o precursor sombrio, o filósofo nos diz: “Desse modo, a identidade lógica, que a reflexão lhe atribui abstratamente, e a semelhança física, que a reflexão atribui às séries que ele reúne, exprimem apenas o efeito estatístico de seu funcionamento sobre o conjunto do sistema, isto é, a maneira pela qual ele se dissimula necessariamente sob seus próprios efeitos, porque ele se desloca perpetuamente em si mesmo e se disfarça perpetuamente nas séries. Assim, não podemos considerar que a identidade de um terceiro e a semelhança das partes sejam uma condição para o ser e para o pensamento da diferença, mas somente uma condição para sua representação, que exprime uma desnaturação deste ser e deste pensamento, como um efeito óptico que turvaria o verdadeiro estatuto da condição tal como ela é em si” (DELEUZE, 1988 p. 120).

Nesse desfazimento do rosto nas “regiões do a-significante, do a-subjetivo e do sem- rosto”, Fernando Pessoa tece, em Álvaro de Campos, no poema Ode Mortal (dedicado a

Alberto Caeiro) as suas linhas de fuga, os buracos da sua face: “Vou partir para FORA” (PESSOA, 1999a, p. 268). Para compor essa noção de “fora”, o poeta situou-se na pele-verbal de cada outro, arrastando-os para sua escritura multifacetada, injetando-lhes sangue, carne, canção, sentidos, sensações e desejos; conferindo a cada um os caminhos para uma literatura do fora, situando-os em um corpo vivo e sem órgãos.

E aqueles que vivem e têm corpo, obviamente, têm sexualidade. Se cada um deles têm uma forma de escrever diferente, um estilo ou estigma, se Pessoa vai de encontro à tradição, ao que é cimentado e atrofiado, imergindo na modernidade, a sexualidade de cada um deles não poderia ficar à deriva nessa desconstrução pessoana e seguir ou reproduzir o padrão de sua época, como confere a crítica:

É uma boa questão a de determinar se é que Pessoa foi levado à elaboração de uma expressão homoerótica de feição pluri-subjectiva por estar atento a próprias proclividades homossexuais desconfortáveis, ou se, por outro lado, foi a insistência em que seu projecto heteronímico operasse fora das leis sociais e sexuais contemporâneas aquilo que suscitou uma análise da sexualidade. (SABINE, 2010, p. 225)

Imaginar que Fernando se sentia desconfortável com as “proclividades homossexuais” parece um exagero, uma vez que ele mostra, em diversas momentos, as trocas equitativas de um relacionamento homoafetivo e, por outro lado, os problemas de um relacionamento heterossexual, com a presença da dominância masculina, estriado, explorador, reproducionista, como uma instituição derruída na modernidade.

O poeta está situado fora “das leis sociais e sexuais contemporâneas”, deixando

fissuras na poesia moderna, redimensionando paradigmas e rediscutindo tabus. Ele fez uma incrível análise da sua sexualidade e da dos heterônimos, e foi além, quebrou os limites da binariedade, dos gêneros e dos seus construtos subjetivos. Antes de qualquer coisa, deve-se

ter um “olhar homoerótico” para desvendar as fissuras do corpo de Fernando Pessoa. O olho

da crítica falocêntrica e heteronormativa esconde, sob o véu da censura, a sexualidade e o corpo polivalentes de Fernando, que são bem trabalhados artisticamente, discutidos e vividos pelo poeta.

Campos, Caeiro e Reis, os três heterônimos mais conhecidos de Fernando, fazem parte de uma elaboração de vida – de produção de corpo e sensações corporificadas e da composição do Corpo-sem-Órgãos do poeta. Pessoa atentou para os detalhes mínimos de cada

um deles, traçando características peculiares, um físico, ideais de vida, concepções filosóficas e estéticas, às vezes convergentes e, quase sempre, divergentes, dissonantes.

Álvaro de Campos foi aquele sujeito polêmico e aberto na escritura de Fernando, de onde os buracos negros de subjetividade emergiram ao muro branco pessoano, buscando, através da significância do sem-rosto, desvendar e desnudar o corpo sexualizado de cada um deles – incluindo o do próprio Pessoa, o que acabou acontecendo na maioria das vezes, e que é observado pelas estudiosas do poeta português:

A descrição de Campos da emergência e definição dos corpos e mentes dos heterónimos como um processo de renascimento sexualizado e atravessado pela diferença de género, está bastante de acordo com o seu papel audacioso e premeditado de agente provocador entre o círculo de poetas amigos de Pessoa” (SABINE e KLOBUCKA, 2010, p. 23)

As investidas pessoanas mais ousadas residem nesse sujeito desregulador, porque é ele quem confere a Fernando esse “renascimento sexualizado”, fora do padrão hegemônico e heteronormativo, fazendo com que o poeta percebesse a presença e a importância da sexualidade na sociedade em que vivia, como símbolo de transgressão e produção de corpos na escritura, fato que trouxe à tona a “emergência e definição dos corpos mentes dos

heterónimos”.

Considerando a importância de Campos, o polemizador, para a produção de uma máquina de rostidade, desconstruindo uma linguagem-rosto em Fernando, a respeito do autor de Ode Triunfal, Pessoa declara: “Se eu fosse mulher – na mulher os fenômenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais

histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança” (PESSOA, 1974, p. 95).

O homoerótico e o queer urgem na verve pessoana, constantemente, a produção de corpos através das sensações permeadas pelos sentidos, a decomposição dos órgãos, as dobras dos eus despedaçados em paradoxos, a fibra da heteronímia, desconstruindo a identidade fixa, criando uma máquina de elaboração de gêneros e dimensões sexualizadas; e Álvaro de Campos é quem desfaz as linhas do rosto de Fernando e dos heterônimos, numa relação de transex, trans-gênero e CsO intensivos.

Álvaro de Campos em sua escrita-porcaria, dos detritos e de um masoquismo verbal, traça uma linha de fuga plástica e lisa em sua Ode Marítima. Nesse poema ocorre, de forma intensiva, o desfazimento do corpo-eu e do sujeito pessoano; a concatenação explosiva do CsO com a escrita-física do poeta, que o desfaz em inimagináveis prazeres carnais e (homo)eróticos, onde a heterotopia dos barcos e dos navios subverte as leis estabelecidas em

terra, no qual as relações heterossexuais são substituídas (pois há uma lugar de afirmação e de produção de identidades gays) por relações homoafetivas na fluidez marítima.

Inúmeras passagens do poema ilustram um desejo de o poeta se desfigurar, se dilacerar em carne viva. O ambiente homossocial que a embarcação marítima proporciona é propício para relacionamentos (homo)eróticos, e lá o poeta faz amigos, amantes, cuja atração reside no ímpeto carnal de “sentir tudo de todas as maneiras” de Fernando (1999a, p. 92). Álvaro de Campos se dirige ao amigo que fizera em alto-mar, um marinheiro inglês:

Tu, marinheiro inglês, Jim Barns meu amigo, foste tu Que me ensinaste esse grito antiquíssimo, inglês, Que tão venenosamente resume

Para as almas complexas como a minha O chamamento confuso das águas,

A voz inédita e implícita de todas as coisas do mar,

Dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. Esse teu grito inglês, tornado universal no meu sangue,

Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz, Esse grito tremendo que parece soar

De dentro duma caverna cuja abóbada é o céu E parece narrar todas as sinistras coisas

Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite... (PESSOA, 1999a, p. 40)

Jim Barns, um amigo de Campos, poderia ser tomado por nós, nesta leitura, como a personagem com que o heterônimo poeta tivera alguma relação homoafetiva – o que ensinou

o “grito antiquíssimo” desse “chamamento confuso das águas”. Esse encontro com Barns fora revelador de “travessias perigosas”, mostrou a Campos uma outra forma de ser com o corpo, percebendo o desfeitio do grito, “sem forma nem voz”, arrebentando o teto de sua caverna

corporal, “cuja abóbada é o céu”, para realizar o seu homoerotismo “no Longe, no Mar, pela

Noite”.

Álvaro de Campos, na decomposição do corpo potencialmente (homo)erótico, expõe e dilacera os seus órgãos indeterminados, institui o Corpo-sem-Órgãos numa composição polivalente das partes do corpo e dos órgãos, desmembrando-se na Ode Marítima para desestabilizar o organismo canceroso do homem, destruir aquele os órgãos fixos e institucionalizados, automatizados e naturalizados pelas definições de sexo, gênero e corpo; assim, o poeta se rasga na estrofe:

Façam enxárcias das minhas veias! Amarras dos meus músculos!

E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir! Façam do meu coração uma flâmula de almirante

Na hora de guerra dos velhos navios!

Calquem aos pés nos conveses meus olhos arrancados! Quebrem-me os ossos de encontro às amuradas! Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me! A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes Derramem meu sangue sobre as águas arremessadas Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado, Nas vascas bravas das tormentas!

(PESSOA, 1999a, p. 45)

O corpo-barco heterotópico de Fernando é dissecado nos versos, a carne viva pulsa no poema, banha-se de sangue, o animal-estar pessoano transfigura a presença do “homem acoplado a seu animal numa tortura latente” (DELEUZE, 2007, p. 29). Álvaro de Campos erotiza cada milímetro do corpo, desfaz o rosto do corpo, e produz rostidades intensas na indiscernibilidade da carne, do corpo e dos órgãos, “essa zona objetiva de indiscernibilidade já era todo o corpo, mas o corpo como carne ou vianda (viande)” (DELEUZE, 2007, p. 29).

O sujeito (homo)erótico e gay de Fernando aflora com intensidade na exposição da carne dentro da lógica da sensação de Álvaro de Campos, sendo atraído pelos perigos violentos dos mistérios marítimos – desejando e transformando o desejo em corpos, sangue, carne, animais, nesse estranho devir de descontinuidades do ser:

Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do crime! Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação! Amantes casuais da obliquidade das minhas sensações! Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos,

A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos! Porque ela teria convosco, mas só em espírito, raivado Sobre os cadáveres nus das vítimas que fazeis no mar!

Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia oceânica Seu espírito de bruxa dançaria invisível em volta dos gestos

Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas mãos estranguladoras! E ela em terra, esperando-vos, quando viésseis, se acaso viésseis,

Iria beber nos rugidos do vosso amor todo o vasto, Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vitórias,

E através dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo! A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo!

Agora, no auge conciso de sonhar o que vós fazíeis, Perco-me todo de mim, já não vos pertenço, sou vós,

A minha femininidade que vos acompanha é ser as vossas almas! (PESSOA, 1999a, 48-49)

As imagens de desfazimento da carne e do desejo aos “peludos e rudes heróis”, imiscuem-se nessa “orgia oceânica”, as relações masoquistas atravessadas pelos sentidos do corpo, “a carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo!”. O Corpo-sem-Órgãos de Fernando abre espaços de afirmação (homo)eróticas no poeta, a “femininidade” o atravessa

e perpassa os outros numa relação de subversão de gêneros, porque “a vianda é esse estado do

corpo em que a carne e os ossos se confrontam localmente, em vez de se comporem estruturalmente” (DELEUZE, 2007, p. 30).

O autor de Ode Marítima é o poeta das grandes tensões do corpo, do sexo e do gênero

– é aquele cuja as forças da sensação fundam seres na superfície dos rostos e dos órgãos,

numa descontinuidade intermitente que busca desconstruir, atravessando os nomes, o código gramatical, fazer uma escritura-física do transformismo, das sensações da performance inscrita no Corpo-sem-Órgãos, “no lugar da lei da coerência heterossexual, vemos o sexo e o gênero desnaturalizados por meio de uma performance que confessa sua distinção e dramatiza

o mecanismo cultural da sua unidade fabricada” (BUTLER, 2012, p. 196-197).

A presença da vianda e do devir-animal no homoerotismo de Fernando é latente, uma vez que Álvaro de Campos reclama, em um restaurante, de um prato que fora servido “frio”. O interessante é “que, para comentadores de sua obra, esse ‘amor como dobrada fria’ do

poema seria o homossexual” (CAVALCANTI FILHO, 2011, p. 428). Não consideramos a palavra “homossexual” utilizada pelo crítico, uma vez que tratamos do (homo)erotismo. Eis o

poema, já conhecido, de Fernando Pessoa:

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria.

Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente,

Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo.

Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, Particular ou público, ou do vizinho.

Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. E que a tristeza é de hoje).

Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria?

Não é prato que se possa comer frio, Mas trouxeram-mo frio.

Não me queixei, mas estava frio, Nunca se pode comer frio, mas veio frio. (PESSOA, 1999a, p. 335)

O ambiente onírico do poema, “num restaurante, fora do espaço e do tempo”, recupera

a heterotopia de Álvaro de Campos, a busca pela afirmação de sua vianda intensa, descosida e à mostra nos buracos de sua rostidade. O “prato” é reclamado pelo poeta, mas o “missionário

da cozinha”, a figura cristã, heteronormativa, não o entrega “quente”.

A relação boca-ânus, na polivalência de um único órgão, a expulsão anal da escritura de Campos, é visível por meio do seu corpo-vianda, do CsO, que é reprimido e hostilizado por esse missionário que lhe serviu a “dobrada fria”.

A impaciência, a intolerância é vivida pelo poeta, que chega a dizer “Nunca se pode ter razão, nem em um restaurante”. É lá que as carnes são trituradas, rasgadas, desfiadas, e o

corpo-vianda se consome em sangue, sabor e desejo, e Álvaro de Campos, na sua escrita- fisica das sensações, reinvindica essa maceração da carne do seu instável estado de animal- estar desejante. Traça linhas de fuga no caminho da rua e não debita seu prato “frio”.

Ele não comeu, não houve a transa, a transação, essa “dobrada à moda do Porto fria” era orgânica e estriada. Campos se questiona, diz saber o que (não) aconteceu: “e foi comigo”. A infância traz a Álvaro de Campos o período em que o fato de brincar era ser dono daquilo que se brinca, sem interdições, se estriamentos, mesmo que o jardim não fosse dele, os espaços lisos era tecidos nessa região fora do tempo e do espaço, “e que a tristeza é de

hoje”.

Esse restaurante, “fora do tempo e do espaço”, era outro lugar, talvez, o corpo? A

última esfrofe do poema é um lamento constante de Álvaro de Campos pela frieza com que lhe ofereceram a carne, o prato que “nunca se pode comer frio, mas veio frio”. O homoerotismo de Fernando buscava a carne quente, vibrante, o amor como um devir-animal, no qual os corpos se transfiguram para além de um desejo institucionalizado e permissível, legitimado por uma tradição fria, que tratou os gêneros como categorias carcerárias, condenatórias e essencialistas do sujeito.

Campos se pergunta em Tabacaria:

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.)

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