2.2 Os modelos alternativos de controle das drogas ilícitas
2.2.3 Canadá: legalizar, regularizar e restringir
No ano de 2015 o governo canadense declarou que se comprometeria a legalizar, regular e restringir o acesso à cannabis recreativa em seu território nacional. Desde então, tem sido desenvolvido um denso trabalho no sentido de atender às demandas correspondentes à implementação de uma política pública complexa de regulação, em um país com dimensões vastas e diversidades culturais como as que configuram o Canadá.
O país tem uma tradição de comprometimento com as políticas de redução de danos em matéria de drogas, de modo que a maioria de suas províncias adequaram suas políticas públicas a este princípio de harm reduction em relação a usuários de drogas injetáveis (CAMPOS, 2015). Assim, o Canadá é visto como uma referência internacional quando se trata de investimento em políticas de redução de danos, também pelo fato de que no ano de 2001 o país se tornou o primeiro do mundo a autorizar legalmente o uso medicinal da cannabis10.
Acerca da cannabis no país, desde a década de 90 uma série de decisões judiciais no sentido de autorizar seu uso para fins medicinais foram proferidas. Desde então, nas últimas duas décadas houve um aprimoramento destes mecanismos de aquisição da substância, de modo que ocorreu uma evolução de um sistema de permissões para porte e consumo com finalidade medicinal, que sucediam como exceções isoladas, até o sistema federal atual, modificado em 2014 e que defere licenças para que os pacientes, auxiliados por seus médicos, adquiram cannabis por meio de um produtor licenciado11, pelo autocultivo12 ou por meio de um terceiro, que pode cultivar a planta para o paciente (CANADA, 2016).
No Canadá, ainda que o uso da maconha seja culturalmente aceito na sociedade, as condutas de porte e consumo de drogas – incluindo nesse rol a cannabis com fins recreativos – ainda são consideradas crime, e sua prática prevê a aplicação de penas demasiadamente altas. Neste sentido, os delitos relacionados apenas à posse da maconha somam cerca de metade do total das acusações por drogas reportadas pela polícia. De modo que em 2015 foram registrados 96.423 delitos envolvendo drogas ilícitas no país e deste montante 49.577 correspondiam à posse de maconha (CANADA, 2016).
10 De acordo com Campos (2015), o processo de legalização foi administrado por meio da Health Canada, a agência de saúde do país.
11 Até o final do ano de 2016, havia 36 produtores licenciados e devidamente cadastrados, os quais operam estabelecimentos que são regulados pelo governo federal canadense. Para mais informações acerca da regulação da maconha medicinal no Canadá, consultar a legislação (CANADA, 2016).
12 De acordo com Campos (2015), no ano de 2014, cerca de 37 mil cidadãos canadenses já estavam devidamente licenciados na modalidade de autocultivo.
É nesse sentido que Campos (2015, p. 219), ao evidenciar o modelo canadense em seu estudo acerca das diferentes formas de administração estatal das drogas, afirma que “o caso do Canadá demarca bem as intersecções na política estatal sobre drogas entre o saber médico e o criminal”. Isso de modo que, não obstante o país tenha uma consagrada trajetória na aplicação de políticas de redução de danos e na permissão da cannabis para fins medicinais – saber médico –, a política de drogas canadense é regida por uma legislação criminal altamente repressiva e de acordo com parâmetros proibicionistas – saber criminal.
A necessidade de mudar a política de drogas no território nacional em relação à cannabis recreativa já estava sendo debatida no parlamento do Canadá há muitos anos. No entanto, foi a partir do diagnóstico acerca das altas taxas de consumo da droga no país13 e das implicações que a criminalização da substância gera em seu sistema penal, assim como do reconhecimento de que está ocorrendo uma mudança de perspectiva global em relação à maconha, que o governo canadense resolveu que era hora de dar um passo à frente nessa questão.
Além do mais, somada a estes fatores a experiência que o país já possuía no campo da regulação da cannabis medicinal14, o governo canadense decidiu em 2015 pela regulação da maconha para consumo recreativo. Para cumprir com essa proposta, o governo designou um grupo de especialistas – que recebeu o nome de Task Force (CANADA, 2016), ou Força Tarefa – das mais diversas áreas, para que desenvolvessem um relatório que serviria como o esboço para a criação de uma política pública que permitisse legalizar, regular e restringir o acesso à maconha no país. O relatório final foi publicado no fim de 2016 e seus resultados e análises permitiram que em abril de 2017 o governo apresentasse o projeto de lei federal sobr e cannabis (CANADA, 2017).
A proposta de lei de regulação da cannabis apresentada pelo governo canadense tem em seus principais objetivos restringir o acesso à população jovem, por meio do controle da publicidade e propaganda referente à droga, dissuadir e diminuir as atividades criminais, através da imposição de altas penas para quem descumprir a lei proposta – principalmente se
13 O Canadá é um país com altas taxas de consumo de cannabis, e os jovens canadenses têm uma maior propensão ao uso em comparação a outros países. De acordo com dados de 2015, do Canadian Tobacco, Alcohol and Drugs Survey (CTADS), 52,1% dos homens canadenses e 37,2% das mulheres afirmaram ter consumido a droga pelo menos uma vez na vida. Quando é acrescentada nesta análise a variável idade, 28,9% dos canadenses entre 15 e 19 anos consumiram a droga pelo menos uma vez e 53,7% entre os de 20 a 24 relataram a mesma conduta. Entre os canadenses de 25 a 44 anos, esse número chega aos 55,9% (CANADA, 2018).
14 A regulação da cannabis medicinal no Canadá serviu de inspiração para a formulação do modelo uruguaio de regulação, como foi possível apurar na análise dos dados provenientes das entrevistas realizadas para este trabalho. Do mesmo modo, a partir consulta do material utilizado para desenvolver este ponto sobre o Canadá (documentos oficiais e pesquisa bibliográfica), foi perceptível que o país também, de alguma forma, se espelhou no Uruguai para desenvolver seu sistema de legalização, regulação e restrição à cannabis.
o ilícito for relacionado à distribuição da droga a jovens – e proteger a saúde pública, por meio de um forte controle de qualidade da substância vendida e através da conscientização da população acerca dos riscos à saúde advindos do consumo da cannabis (CANADA, 2018).
Além do mais, a proposta também pretende diminuir o peso que a incriminação das condutas relacionadas à droga acarreta no sistema de justiça criminal do país, tendo em vista que propõe a redução das atividades ilegais por meio da legalização da produção e da permissão para que adultos portem e tenham acesso legal a uma droga regulada e de qualidade (CANADA, 2018). Se o projeto de lei for aprovado, e ao que tudo indica será, a previsão é de que o início das operações ocorra a partir do segundo semestre de 2018.
É importante pontuar que ainda que a proposta canadense presuma a legalização da cannabis recreativa para uso adulto, por meio de uma regulação com finalidade de restringir o consumo e controlar o acesso, o texto legal apresentado prevê altas penas para quem descumprir com as determinações legais nele expostas. Estas penas que podem ser de até 14 anos de prisão – para quem vender para um menor de idade, por exemplo – demonstram que ainda que tenham sido propostas medidas de alteração significativas na lei de drogas vigente no país, o caráter repressivo criminal, característico de políticas proibicionistas, seguirá fazendo parte da lógica de atuação das instituições canadenses de administração da justiça penal.
Não obstante estas questões, evidencia-se que a regulação do acesso legal à cannabis para uso recreativo no Canadá será importante também a nível internacional. Isso porque o fato de que o governo de um país como o Canadá, com suas vastas dimensões territoriais, ter optado por alterar sua política de drogas em relação à cannabis a nível nacional, demonstra que a regulação da maconha em grandes escalas funciona e pode ser pensada como aplicação viável para países com grandes áreas de extensão e com fortes diversidades culturais15.