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PERSONIFICAÇÕES DO CAPITAL

4 CANSEI E INSTITUTO MILLENIUM

Nas mãos de um bom senhor, o escravo pode ter uma vida feliz, como a de um animal bem tratado e predileto; nas mãos de um mau senhor, ou de uma senhora má (a crueldade das mulheres é muita vezes mais requintada e persistente que a dos homens) não há como descrever a vida de um desses infelizes. Se houvesse um inquérito no qual todos os escravos pudessem depor livremente, à parte os indiferentes à desgraça alheia, os cínicos e os traficantes, todos os brasileiros haviam de horrorizar-se ao ver o fundo da barbárie que existe no nosso país debaixo da camada superficial da civilização, onde quer que essa camada esteja sobreposta à propriedade do homem pelo homem.

Joaquim Nabuco215 “Logo que a criança deixa o berço”, escreve Koster, que soube observar com tanta argúcia a vida de famílias nas casas-grandes coloniais, “dão-lhe um escravo de seu sexo e de sua idade, pouco mais ou menos, por camarada, ou antes, para seus brinquedos. Crescem juntos e o escravo torna-se um objeto sobre o qual o menino exerce seus caprichos; empregam-no em tudo e além disso incorre sempre em censura e punição [...]. Enfim, a ridícula ternura dos pais anima o insuportável despotismo dos filhos”.

Gilberto Freyre216

O Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros – mais conhecido como “Cansei” – foi criado em julho de 2007, logo após o acidente com o vôo 3054 da empresa aérea TAM que vitimou uma centena de pessoas. Segundo os slogans da época, o Cansei declarava-se “apartidário”, visando “à reflexão sobre os motivos da suposta desordem da administração pública no governo Lula”. Originado de outro movimento, este ainda em ação, o Quero Mais Brasil217, ambos reuniam personalidades do meio empresarial e artístico para, supostamente

desvinculado de fins políticos (mesmo tendo como coordenadores notórios financiadores de partidos políticos conservadores), convidar “toda a sociedade brasileira a se dar as mãos e fazer com que o eterno país do futuro se torne o Brasil do presente. É um movimento sem nenhuma ligação partidária” 218.

215

NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Coleção intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 42.

216

FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Coleção Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 439-440.

217

Disponível em http://www.queromaisbrasil.com.br/, acesso em 04/07/09.

218

A exagerada ênfase no apartidarismo de movimentos elitistas claramente políticos e o inclusivo “toda sociedade” propagado por milionários popstars, contribuiu para a folclorização destes movimentos. Contudo, o preconceito de classe é motor claro destas manifestações “populares” e, a despeito face anedótica, as intenções e pessoas envolvidas deixam claro que a tentativa elitista presente na retórica vai continuar procurando seu caminho para demarcar, publicamente, os limites de transito para outsiders. Os movimentos fazem parte de um rol conhecido de manifestações midiáticas, como os cariocas Viva Rio e Sou da Paz, que explodem nas televisões a cada morte de alguém da classe média por violência praticada pelas classes perigosas ou pela ação da polícia quando esta foge da rotina de matar “favelados”.

Mesmo poupadas de qualquer constrangimento pelo governo “esquerdista” do Partido dos Trabalhadores, as elites repelem a ascensão de novos atores, como repelem qualquer movimento social concreto, não identificados com o crachá comumente encontrado nos ternos dos habitués dos holofotes da vida política nacional.

A passeata que reuniu no sábado mais de 2.000 pessoas só em São Paulo para gritar "Fora, Lula" também parece ser um fato pouco trivial. Era gente que se autoconvocou pela internet, sem ajuda de partidos políticos, sem entidades que os patrocinassem, sem lideranças famosas como atrativo. Um ato público de direita explícita que extravasou do espaço virtual para as ruas de maneira espontânea. Ordinary people, como eles gostam de se chamar. Um protesto cujas palavras de ordem eram "ca-cha-cei-ro!", "va-ga-bun-do!" e "Lula, ladrão, seu lugar é na prisão!". E cujos cartazes diziam: "Marta, fora, biscate!" ou "Lula, maldito, relaxa e vaza!". Há quanto tempo não se via algo assim? O "Cansei", enfim, mostrou os dentes. 219

Entre os apoiadores do Movimento Cansei:

OAB – SP, Associação Brasileira de Empresas de Rádio e TV (Abert), Associação Brasileira de Pilotos de Helicóptero (Abraphe), Associação Comercial de São Paulo, Crea, Conselho Regional de Medicina, Febraban, Conaje, Fiesp, Fiesp – Jovens Líderes, Grupo de Jovens da Associação Comercial, Instituto de Estudos Empresariais, e outros.220

Há, por trás destas movimentações ditas “classe-média”, mas que, pelas aparições públicas, se apóiam em figuras tradicionais do rico meio empresarial, nada menos do que a

legitimação da desigualdade, ressaltando o risco das classes perigosas (colaborando sempre

com medidas de repressão violenta, pena de morte, redução da idade pena, etc.) num alerta ao poder público de atender somente a agenda de interesses dos proprietários e um lembrete: as classes dominantes podem usufruir de privilégios (mérito supostamente adquirido) dos impostos,

219

Fonte: Portal Terra: http://noticias.terra.com.br/brasil/acidentecongonhas/interna/0,,OI1790..., acesso em 24/03/2008

220

da exploração do trabalho, da especulação com terras as demais formas de opressão a serem aperfeiçoadas pelo capital. É um direito adquirido. Lembrando Florestan Fernandes:

Duas conexões histórico-sociais são particularmente responsáveis por isso. Primeiro, a própria formação e estrutura da economia capitalista dependente, constituída para manter-se polarizada e para proporcionar excedente econômico a outras economias capitalistas mais avançadas. No clima de uma economia colonial ou de expansão econômica sob o impacto de desenvolvimentos imperialistas ou monopolistas dos centros hegemônicos do mercado mundial, o que prevalece não é o “interesse lucrativo” puro e simples. Mas, conforme a fase focalizada, o que Sombart chamou, com referência ao passado, de pirataria econômica; e o que poderíamos designar, com relação ao presente, como “mentalidade espoliativa” e “espírito especulativo”. Segundo, as possibilidades limitadas que contam (ou contaram) os antigos “povos coloniais” para encetarem e incentivarem, internamente, um processo de acumulação capitalista suficientemente consistente e dinâmico, têm conduzido, com freqüência, a um privilegiamento crônico de formas de concentração social de renda, do prestígio e do poder típicas do capitalismo dependente. Acresce que o padrão de articulação entre estruturas arcaicas e modernas intensifica esse processo e agrava seu caráter crônico.221

A intensidade da desigualdade brasileira não está no “atraso” de parte do país, supostamente pré-moderno. Na diferença de “ritmo” de crescimento. Ao contrário, origina-se justamente nas partes “modernas” e “avançadas”. A tradição que oprime é a tradição dos sobrenomes “quatrocentões”, mas também das gerações que se acomodam ao lado dos novos donos do poder, ligados ou não aos quatrocentões. Os “ousados” empreendedores, tão “bem preparados”, têm no nome e patrimônio da família a segurança que outros brasileiros estão longe de dispor.

Sandy

Estou dentro do Movimento porque quero que as crianças possam estudar e brincar. Quero que os jovens tenham vagas na universidade e oportunidades no mercado de trabalho. Quero que os adultos tenham um salário digno para sustentar suas famílias. Quero que todo cidadão seja respeitado. Quero que os impostos pagos pelo contribuinte sejam revertidos em benefícios verdadeiros e visíveis. Quero melhorias, quero crescimento, quero atitude: Quero mais Brasil. 222

É missão da ideologia aprofundar a confusão proposital entre marketing e mundo real. Examinando alguns dos depoimentos que ilustram tais movimentos, é nítida a composição forçada das palavras. Quem fala ali não é o depoente, o “indignado” que quer um país melhor. As palavras ao lado da foto disponível no site são construções, talvez feita pelo próprio personagem, talvez obra de outros, especialistas em marketing pessoal (profissão em alta), mas que anunciam um arsenal de lugares comuns cuidadosamente ordenados para construir uma

221

FERNANDES, Florestan. Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento. São Paulo: Global, 2008, p.81.

222

A popular jovem cantora Sandy, filha de um milionário cantor de música sertaneja, “ativista” do Quero mais Brasil: http://www.queromaisbrasil.com.br/quem_apoia.shtml, acesso 03/07/09.

imagem pública que satisfaça os consultores de imagem e o que se espera de uma opinião pública consumidora de produtos culturais cada vez mais rasos. Nos manifestos destes movimentos, depois das dezenas de celebridades que tomam a “face” atraente das manifestações “classe-média”, começam a aparecer a “gente comum”, na retórica os atores principais destas organizações “apolíticas”.

Guilherme Oliveira

Apóio o Quero Mais Brasil porque o meu maior desejo como cidadão é que nas próximas gerações as pessoas possam estar livres das grandes diferenças sociais e desfrutar de todos os direitos humanos. Embora seja o primeiro passo de um longo processo, certamente fará a diferença no futuro se todos colaborarem. 223

As palavras do cidadão e da jovem cantora pop são muito semelhantes. Há uma indústria de jargões “cidadãos” a disposição para uso intenso deste marketing. Por trás dos gritos de ordem em poses ensaiadas, a clara intenção de manter a ordem, evitar qualquer “radicalismo inconseqüente”. Mesmo diante da mais remota possibilidade de questionamento do cenário capitalista, os instrumentos de proteção da ordem burguesa se colocam em movimento na forma tradicional da repressão aos pobres pela polícia e garantia da ordem pela Justiça.

Ao contrário de outras burguesias, que forjaram instituições próprias de poder especificamente social e só usaram os Estado para arranjos mais complicados (típico caso norte-americano) e específicos, a nossa burguesia converge para o Estado e faz sua unificação no plano político, antes de converter a dominação socioeconômica no que Weber entendia como “poder político indireto”. As próprias “associações de classe”, acima dos interesses imediatos das categorias econômicas envolvidas, visavam a exercer pressão e influência sobre o Estado e, de modo mais concreto, orientar e controlar a aplicação do poder político estatal, de acordo com seus fins particulares.224

Diferentemente do Movimento Cansei, nascido já folclórico pelo ridículo das personalidades “cansadas” que deram face pública ao projeto225, o Instituto Millenium é

sofisticado. Tem como “gestor do fundo patrimonial” o ex-presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique Cardoso, Arminio Fraga. Diz sua página institucional na internet:

O Instituto Millenium é uma organização sem fins lucrativos, sem vinculação político-partidária, que promove valores fundamentais para a prosperidade e o desenvolvimento humano da sociedade brasileira.

As atividades do Instituto Millenium visam atingir a base da pirâmide, despertando a consciência da maioria da população sobre a importância de se respeitar determinados valores para se ter um ambiente institucional adequado

223 Ibidem. 224 FERNANDES, 2006, p.240. 225

Ver no Anexo 1 o folder distribuído na Avenida Paulista, com as expressões “indignadas” das celebridades milionárias Ivete Sangalo, Regina Duarte, Hebe Camargo e Ana Maria Braga.

para que cada individuo possa desenvolver suas potencialidades, alocando os recursos de forma eficiente e sem desperdícios.

O Instituto Millenium se propõe a fazer a diferença, colaborando para formar a opinião publica com base em valores claros e nas melhores políticas públicas adotadas pelo mundo. É importante que o maior número de pessoas tenha o conhecimento e a compreensão necessários para assegurar que o governo se concentre e se torne maximamente eficiente em suas funções básicas, reconhecendo seus limites e não atendendo a interesses de grupos de interesse, gerando privilégios indevidos e injustos.226

Para combater os “privilégios indevidos e injustos” os participantes do Instituto prometem promover: 227

LIBERDADES INDIVIDUAIS: a defesa perene da liberdade de escolha, em todos os seus desdobramentos: liberdade de expressão; liberdade religiosa; liberdade econômica; liberdade de imprensa; liberdade de reunião e assembléia; liberdade de empreender; liberdade de ir e vir; liberdade de contratar; liberdade de pensamento; liberdade política; livre circulação de bens, pessoas e capital.

RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL: responsabilidade sobre os atos e escolhas; recompensa pelos méritos; punição pelas infrações; desestímulo aos abusos; redução da impunidade; responsabilização dos indivíduos pelo próprio futuro; redução da dependência do governo; clareza sobre a relação entre direitos e deveres;

MERITOCRACIA: premiação ao esforço individual; recompensa a dedicação; estimulo ao trabalho; estimulo ao estudo; garantia do gozo dos frutos do trabalho; estimulo a cada pessoa a desenvolver suas melhores competências; criação de um ambiente propício para o desenvolvimento econômico e social; redução da acomodação; redução do nepotismo e apadrinhamento; aumento da produtividade geral da sociedade; aprimoramento dos serviços públicos; estimulo à competição;

PROPRIEDADE PRIVADA: respeito ao fruto do trabalho; garantia das diferenças; garantia da privacidade; garantia da liberdade de expressão, principalmente, da liberdade de imprensa; garantia dos direitos das minorias; peça-chave para a existência e manutenção do estado democrático de direito; estímulo à preservação e ao cuidado; estímulo ao uso racional e adequado da propriedade pelo proprietário, tornando-o responsável por eventuais abusos; inserção do individuo com propriedade legalizada na economia; possibilidade de utilização do bem como um ativo para obtenção de empréstimos e, conseqüentemente, como estimulo ao crescimento econômico; estimulo ao investimento em benfeitorias; estimulo ao investimento externo no Brasil; estimulo ao cumprimento de contratos e a redução dos custos de transação.

Seu Conselho de Governança, mantenedores e colaboradores tem nomes como228:

Gustavo H. B. Franco: Bacharel e mestre em Economia pela PUC-Rio, e possui os títulos de mestre e doutor pela Universidade de Harvard. No serviço público foi secretário de política econômica (adjunto) do Ministério da Fazenda,diretor de assuntos internacionais e presidente do Banco Central do Brasil.

226 http://www.imil.org.br/institucional/quem-somos/, acesso em 12/05/09. 227 http://www.imil.org.br/institucional/missao-visao-valores/, acesso em 12/05/09. 228 http://www.imil.org.br/institucional/quem-somos/, acesso em 12/05/09.

Gustavo Marini: Sócio-fundador da Turim Family Office. Foi diretor- presidente do Santander Brasil Asset Management e do Santander Brasil Private Equity, enquanto diretor executivo do Banco Santander do Brasil. Foi executivo do Banco de Investimentos Garantia e diretor executivo do banco Bozano, Simonsen. Tem MBA pela COPPEAD / UFRJ e M.Sc. em Business pelo MIT Massachussets Institute of Technology.

João Roberto Marinho: Vice-presidente das Organizações Globo.

Jorge Gerdau Johannpeter: Presidente do Conselho de Administração do Grupo Gerdau.

Luiz Eduardo Vasconcelos: Foi diretor executivo das Organizações Globo e é atualmente membro do Conselho de Administração da Infoglobo e do Conselho Editorial das Organizações Globo. É engenheiro pela Universidade Gama Filho.

Roberto Civita: Presidente do Grupo Abril.

Armínio Fraga: Ex-Presidente do Banco Central do Brasil (março de 1999 a dezembro de 2002). Anteriormente, ocupou durante 6 anos o cargo de Diretor Gerente da Soros Fund Management LLC em Nova York. Durante 1991-92, ocupou o cargo de Membro da Junta de Diretores e Diretor do Departamento de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil. Trabalhou em Salomon Brother em Nova York e no Banco de Investimentos Garantia, no Brasil. 229

Os nomes acima são responsáveis pela condução da política econômica brasileira neoliberal, incluindo aí seu apoio ostensivo e irrestrito, ainda hoje, pelos donos da mídia. O uso de temas universais, como a defesa dos “valores fundamentais para a prosperidade e o desenvolvimento humano da sociedade brasileira” não encontram nenhuma visibilidade no mundo real. Ao contrário, os participantes são membros notórios da elite financeira, política, acadêmica e midiática, que se notabiliza justamente por sempre combater duramente os “valores fundamentais para a prosperidade e o desenvolvimento humano da sociedade brasileira”. Ao menos tomando o termo “sociedade brasileira” como está posto. Mas é claro que não se trata de sociedade brasileira no sentido estrito, mas de sociedade brasileira no uso midiático, da sociedade retratada nas colunas sociais. Grandes personalidades. Grandes festas. Poder.

Porém o uso do temo liberdade é o mais revelador, a “defesa perene da liberdade de escolha”, tem como os seus “desdobramentos” após uma listagem geral, as liberdades que contam: “liberdade de contratar; liberdade de pensamento; liberdade política; livre circulação de bens, pessoas e capital”. Uso clássico do termo nos princípios liberais é aqui declamado justamente por quem não tem nenhum interesse em empregar liberdade além do significado das suas posições de classe. As políticas econômicas de Arminio Fraga e Gustavo Fraco, a cobertura das Organizações Globo e Grupo Abril, a volúpia dos grandes bancos e a legitimação

229

acadêmica do capitalismo foram em conjunto, decisivas para retirar a liberdade de milhões de pessoas.

Friedrich Hayek faz uma citação emblemática do historiador Lord Acton: “em todos os tempos foram raros os amigos sinceros da liberdade, e os triunfos desta se deveram a minorias que venceram associando-se a companheiros cujos objetivos eram freqüentemente outros; essas alianças, sempre perigosas, têm sido às vezes desastrosas”230. A liberdade é produto de

uma elite para esta elite. A campanha do discípulo de Hayek, Milton Friedman de “consultoria” econômica para um regime abertamente excludente, adepto do assassinato em massa e tortura da oposição, como a ditadura de Pinochet231 no Chile – com apoio de Hayek –, desnuda a

liberdade defendida tão ardentemente 232.

Sem liberdade para comer, para assistir um filme no cinema, freqüentar uma escola. Sem liberdade para ir e vir num mundo que transporte é sempre cobrado e caro. Sem liberdade de adoecer porque não tem plano de saúde. Sem liberdade para voltar para casa em dia de blitz policial. Sem liberdade de sair da cela da cadeia233. Como diz Eagleton: “assim como o neurótico

pode negar com veemência um desejo que, no entanto, manifesta-se sob forma simbólica no corpo, também uma classe dominante pode proclamar sua crença na liberdade ao mesmo tempo que a obstaculiza na prática”.234

Liberdade assume aqui o caráter de um esperto eufemismo para um termo supostamente banido, eugenia: o bem nascer. Pode parecer excessivo o termo de comparação. Mas as experiências de vida dos “participantes” destes círculos elitistas somadas aos trabalhos acadêmicos mostram uma familiaridade com a situação de pobreza. Diferentemente dos grupos neonazistas que buscam em panfletos arcaicos a resposta pra um racismo infantilizado, a elite destes think tanks conservadores tem a argumentação afinada no mérito e nas liberdades individuais. Ao contrário dos grupos skinheads, os millenistas compreendem muito bem a

230

HAYEK, Friedrich. O caminho da servidão. Porto Alegre – RS: Editora Globo, 1977.

231

Sobre isso, ver KLEIN, Naomi. A doutrina do choque. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

232

George W. Bush outorgou em 2002 a Medalha Presidencial da Liberdade a Irving Kristol, emblemático “neocon” (conhecido como o primeiro neocon), defensor ardoroso da política externa de intervenção militar para manter a supremacia norte-americana. Aliás, a acusação de uso “privilegiado” da liberdade é a mesma feita pelo próprio Hayek a Karl Mannheim pelo uso do termo “liberdade coletiva”, ver HAYEK, op cit., p. 149.

233

Em Assis, cidade do interior do estado de São Paulo, foi posto em prática uma “lei esquecida” do código penal brasileiro. A lei determina a “prisão por vadiagem”. A enésima cidade a proclamar uma política de “tolerância zero” de segurança pública, Assis comemorava o resultado das prisões. Nas imagens exibidas pelo canal Globo News (04/08/09) fica claro quem foram os presos por vadiagem: negros moradores de rua e mendigos. Nas entrevistas o orgulho das autoridades locais por usar uma lei esquecida.

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diferença de liberdade que é sentida e vivenciada por alguém que “nasce bem” e a liberdade de quem não “nasce bem”. Sabem perfeitamente que, seguindo à risca seus dogmas, estão condenando – e é disso se trata – uma parte da população brasileira à morte pela permanência da miséria e enfrentamento da violência.235

Da mesma forma que a retórica das “idéias fora de lugar” do nascente liberalismo brasileiro, o uso ideológico da palavra liberdade quer dizer única e somente a proteção para os ricos e aspirantes a ricos poder utilizar os meios necessários para ficarem mais ricos ou, pelo menos, continuar no topo da pirâmide236. Liberdade para manter firmes as estruturas de divisão

de classes – que não por acaso têm tudo a ver com prisão e encarceramento dos miseráveis “inúteis”. Esse uso tão distorcido do termo e conceito apropriado pela própria burguesia liberal e revolucionária não seria possível sem o desenvolvimento dos mass media, nascidos do sistema