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3.1 SERENATA, SERESTA, CANTATA E FOLIA DE REIS

3.1.3 Cantata

Segundo Amora (2009, p.120), cantata é uma “composição poética para ser cantada”. De acordo com Perpetuo (2014, p. 38) é “gênero religioso ou profano da música vocal; destaca Bach, Alessandro Scarlatti e Haendel entre seus maiores compositores. A cantata é composta por árias, recitativos e corais, podendo ter uma abertura instrumental”. O dicionário Grove de Música (SADIE, 1994, p. 163) define cantata como

“gênero mais importante de música de câmara vocal do período barroco”, com tradição em países europeus, como Itália, Alemanha, França e Inglaterra, desde o século XVII:

Na Itália, a palavra “cantata” foi usada pela primeira vez para variações estróficas na Cantade et arie de Alessandro, o Grande (I), e logo passou a ser aplicada a peças que alternavam seções de recitativo, arioso e em estilo de ária. A partir de c. 1650 esse era o padrão habitual, mas os principais autores de cantatas do início do séc. XVII, Luigi Rossi e Marazzoli, preferiram a arietta corte, uma única ária com alterações métricas. Os dois compositores trabalharam em Roma, principal centro da cantata no séc. XVII, onde Carissimi, um dos primeiros grandes mestres da forma, também estava em atividade.

Nas primeiras cantatas de seu aluno Alessandro Scarlatti e nas de Stradella e Steffani, a distinção entre recitativo e ária é bastante clara, e o número de seções normalmente menor.

No final do século XVII, ainda na Itália, a expressão cantata passou a ser identificada como a musicalização de um texto sacro em linguagem vernácula, denominando-se cantata spirituale, abordando sentimentos amorosos em cenário pastoril.

Assim como Vivaldi e outros, Haendel cultivou a estrutura padronizada por Scarlatti “na

64 ÁLVARES DE MAGALHÃES, Climene; ÁLVARES DE MAGALHÃES, Irene Aparecida. Entrevista concedida a Kátia Santos. São José do Barreiro- SP. jan. 2014.

forma de duas ou três árias da capo, separadas por recitativo”, mas com diferença tonal e força dramática, no curto período de tempo de sua permanência na Itália (1705/6-10).

Enquanto na Alemanha:

Na Alemanha, (...) foi a mistura de textos, especialmente textos bíblicos e poéticos naquilo que se chamou de cantata “concerto-ária”, que estabeleceu de maneira decisiva a forma alemã.

Algumas das cantatas de Bach são retrospectivas em sua utilização de um texto coral uniforme (...) atípicas em sua qualidade e diversidade. Nas mãos de compositores menores, o gênero foi se tornando cada vez mais padronizado e, no final do séc. XVIII, a estagnação estrutural e textos alegóricos fizeram-na parecer fora de moda e fossilizada.

Cantatas seculares em alemão e em italiano foram compostas por Keiser, Telemann, Bach e outros, mas esse tipo de cantata só foi amplamente cultivado na Itália.

Na França e na Inglaterra a cantata secular foi essencialmente um gênero do séc. XVIII, emulando o tipo italiano. (...) a preferência recaía em textos quando se remete apenas à ideia dos cânticos natalinos executados em vozes coral para as festas de final de ano até o dia dos Santos Reis, ainda que estas figuras não sejam festejadas e a lembrança da data de seis de janeiro esteja mais associada com o costume popular de ser o dia em que se desmonta o presépio e a árvore de natal.

Entretanto, a palavra cantata é geralmente usada pelos participantes da Seresta de Reis como sendo não somente um conjunto de cânticos natalinos e repertório tradicionalmente executado em conjunto de vozes acompanhadas por diferentes instrumentistas no evento da noite em que se festejam os Reis, mas acima de tudo, como sendo o próprio evento sacro-profano popular e não somente sua execução musical.

Segundo informações no site do Calendário de Turismo no Paraná, a Comissão Organizadora da Seresta de Reis de Campo Largo em 2014, sob a coordenação de Kátia Santos, denominou esta manifestação cultural como Cantata de Reis devido à tradição oral dos participantes e para que a comunicação da divulgação se fizesse mais clara principalmente entre os participantes da manifestação musical, mas referindo-se ao evento denominado Seresta de Reis de Campo Largo, expressão mais comumente usada desde as duas últimas décadas.

65 SADIE, 1994, p. 163-164.

Figura 33- Calendário de Turismo no Paraná divulga a Seresta de Reis de Campo Largo, durante o ano de 2014.

O texto observado na descrição do evento Seresta de Reis de Campo Largo foi editado no site oficial pelo Departamento de Turismo do Governo do Paraná, e diz:

Evento de cunho religioso-popular celebrada no município desde 1906 que se inicia na Igreja Matriz continuando na Casa Paroquial e na das Irmãs da Sagrada Família em comemoração a Epifania. Na parte popular, ocorre visita ao coreto da matriz e nas residências da região central da cidade, sempre em forma de serenata, também denominada Cantata de Reis66.

Figura 34- Foto: Coreto da Praça Atílio de Almeida Barbosa, em Campo Largo, conhecido como Coreto da Matriz.

66 Disponível em: http://www.turismo.pr.gov.br/modules/caleventos/listar.php?eventoid=75. Acesso em: 04 mai. 2014.

Outro documento encontrado na internet que indica a expressão Cantata referindo-se a centenária Seresta de Reis de Campo Largo foi o “Projeto Político Pedagógico 2011”

do Colégio Estadual Djalma Marinho- Ensino Fundamental e Médio, localizado em Campo Largo, como mostra o trecho a seguir:

No Município temos festas de artesanato, festas religiosas, Feira da Louça, Semana Italiana. A Festa de Artesanato incentiva os artesãos a comercializar seus produtos, a Feira da Louça divulga o polo cerâmico do Município. A Cantata dos Reis é uma festa religiosa com mais de cem anos de tradição, onde um grupo sai à meia noite no dia 06 de janeiro e leva seu canto até as portas da Igreja Matriz.

No dia 02 de fevereiro, a procissão da padroeira da cidade67.

O item 2.4 deste projeto direcionador das atividades pedagógicas da instituição é intitulado “Aspectos do município - Caracterização do município”. Ali a denominação Cantata de Reis foi citada como Cantata dos Reis, referindo-se à manifestação musical sacro-profana popular de Reis em Campo Largo. Segundo o Projeto Pedagógico deste Colégio, existe um trabalho educacional sobre esta face da cultura imaterial da cidade que está sendo desenvolvido no Colégio Estadual Djalma Marinho, em Campo Largo.

Durante esta pesquisa houve comentários dos entrevistados acerca da possibilidade de que a Seresta de Reis de Campo Largo já se denominasse Cantata nos idos de 1989. A entrevistada Verginia Küster Puppi usou a expressão Cantata em uma Carta-Convite, datada de 02 de janeiro de 1989, como divulgação para o evento. Este registro foi encontrado em acervo particular da família Küster e também foi utilizado como fonte primária para esta pesquisa.

Um último documento tratando da Cantata de Reis de Campo Largo foi encontrado após a realização de entrevista com Carlito. Ele recordou que seu filho Gean mandara editar um DVD68 comemorativo ao centenário da Seresta de Reis, com uma seleção de vídeos de diversos anos, o qual iniciava falando sobre Folia de Reis, e depois tratava o evento como cantata. Ao encerrar, constava de agradecimentos à participação de algumas famílias que tiveram destaque no centenário, como se pode observar na imagem recortada do vídeo citado:

67 COLÉGIO ESTADUAL DJALMA MARINHO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO. Projeto Político Pedagógico. Campo Largo-PR. 2011.

68 Trechos selecionados do DVD comemorativo ao centenário da Seresta de Reis de Campo Largo- 2006.

Organização de Gean Carlos Netzel, filho de Carlito. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=lk7laBaalR0. Acesso em: 31/01/2015.

Figura 35- Foto: Última imagem no DVD comemorativo ao centenário da Seresta de Reis.

Editoração de Gean Carlos Netzel- 2006.

Enedí, esposa de Carlito, mencionou lembrar-se ainda de outro documento importante que, há mais de dez anos, Carlito tivera recebido. Tratava-se da cópia parcial de um trabalho escolar de alunos do segundo grau, do Colégio Estadual Sagrada Família- Ensino de 1º e 2º Graus, sob a orientação da então professora de História, Lindamir Ivanovski. Enedí Netzel guardara o tal trabalho, contudo não teria tempo para procurá-lo devido a uma viagem. Então sugeriu uma busca junto aos arquivos da professora que propôs o referido trabalho no ano de 1994 e atualmente é vereadora na cidade.

Ela foi contactada no final de dezembro de 2014 e comprometeu-se em procurar pelo trabalho citado em seus materiais do tempo de professora. Tendo-o encontrado, levou-o na ocasião mais próxima à solicitação do mesmo, ou seja, entregou-o a esta pesquisadora durante a 109ª edição da Seresta de Reis de Campo Largo, que ocorreu no dia 03 de janeiro de 2015.

A Vereadora Lindamir Ivanovski é participante deste evento há vários anos, sempre acompanhada por seu irmão. Tanto ela quanto esta pesquisadora se surpreenderam ao verificar que a aluna proponente do mencionado estudo, há mais de dez anos, tivera sido a própria pesquisadora, que não se lembrava deste trabalho escolar, realizado na época em que frequentava o magistério. Na agitação com a procura pelo autor, chegou a acreditar que algum outro campo-larguense tivera manifestado a iniciativa em escrever sobre esta cultura imaterial da cidade, não obstante vivenciá-la.

Completando a diversão de todos os presentes no encontro para ensaio, horas antes deste evento de 2015, sua ex-professora, hoje Vereadora, comentou: “Fiz um xerox

caprichado, mas mesmo estando a impressão meio fraca, acho que você vai entender, porque a letra é sua!” E, de fato, o nome no cabeçalho afirmava o relato: a letra era minha69:

Figura 36- Foto: Cabeçalho de trabalho escolar à disciplina de História- 1994.

Figura 37- Foto: Início do trabalho de História- 1994.

Prática musical é denominada Cantata de Reis, Reisada e Seresta de Reis.