Problema
Conforme apontamos à introdução, o entrave a este debate sobre a colônia está amarrado às perguntas que os contemporâneos fazem ao passado: lidar com os impasses entre uma e outra perspectiva, foi a nossa hipótese, é fazer a pergunta do tempo presente, nós, que vivemos imersos no mercado: como é que se deu, como se caracteriza o processo de formação do mercado entre nós e como foi sua relação com a sociedade no decorrer deste processo? Com o capítulo anterior, pretendemos criar uma situação de diálogo, um terreno comum no qual discutir, ao revisar considerações teóricas que deixam vieses para que o raciocínio conceptual acompanhe o contexto vivido pelos personagens deste passado. Agora, explorando textos consagrados pela historiografia, que, com diferentes objetivos e ênfases, percorrem ou tangenciam a questão do mercado em capitanias distintas, vamos explorar as tensões e o contexto na esteira dos negócios. Assim aproximamo-nos do objetivo destas leituras: abrir o caminho para discutir o conceito de sistema colonial através da categoria do mercado, ao enunciar a sua possibilidade.
Elementos
Também nos preâmbulos deste texto, sugerimos que um nó delicado a esta querela, a questão da autonomia — que apareceu inicialmente nos argumentos de João Fragoso (e depois em conjunto com Manolo Florentino) na forma da autonomia da economia colonial —, da colônia enquanto ligada ao movimentos de preços de sua vida econômica, parece ser uma dor de cabeça desnecessária: tinha sentido enquanto uma disputa teórica por afirmação de uma perspectiva contra outra, e, portanto, tirava implicações em um terreno (que já não era novo, nunca é demais lembrar) na mesma medida em que fechava suas considerações para um objeto do conhecimento distinto108. Assim, cremos ser desnecessário maiores justificações para penetrar na
108 Daí a importância da menção a Stuart Schwartz, notando que a meados dos anos 1980 o autor já havia sugerido o fim primazia do setor exportador por volta de 1690, reconhecendo igualmente o destaque aos negociantes e o peso das instituições portuguesas na dinâmica da sociedade colonial — sem, contudo, postular uma nova explicação para o esclarecimento dos incautos: para ele, a grande propriedade e oescravismo permaneceriam o ponto básico para as relações da sociedade colonial como um todo, bem como o açúcar permanecera durante todo o
período colonial como o principal produto de exportação. Ver SCHWARTZ, Segredos Internos — engenhos e escravos no nordeste colonial. 1550-1835, São Paulo, Cia das Letras, 1988. Posição retificada em "Mentalidades e
passagem ao século XVIII a partir das informações trazidas pelos preços de algumas regiões. Nesta quadra, apesar de a escassez dos documentos não poder demonstrá-lo rigorosamente, os preços locais de diversas regiões aumentam, o que sugere uma demanda e uma agricultura comercial em movimento, apesar da queda do preço do açúcar. Stuart Schwartz109 (depois seguido por Evaldo Cabral de Mello110) havia apontado esta condição, assinalando o contexto (tecido por Rae Flory) para uma Bahia que assistia à expansão da produção de tabaco, da produção de alimentos e a uma duplicação das casas construídas no Recôncavo no período de 1680-1720 — um período de expansão do mercado na região, como define a autora111. Ainda, mesmo na conjuntura de crise do preço do açúcar após 1660 (que porém recebe estímulos pontuais entre 1689 e 1710, com guerras que mobilizam os Estados europeus)112, o tabaco e também a cachaça diminuem o peso da compra de escravos no bolso dos senhores de engenho, como apontou Luis Felipe de Alencastro, através do que reviu os dados apresentados por Schwartz para preço relativo do escravos113. Um passo adiante no quadro, Antonio Jucá de Sampaio, também dialogando com Stuart Schwartz, insiste que reconhecer o movimento de preços dos alimentos e da agricultura comercial como um todo é percebê-los fora do contexto do açúcar e da flutuação de seu preço, abrindo finalmente outro olhar para o vulto dos mercados à colônia114 — sempre, as análises regionais sugerindo generalizações para as condições dos espaços coloniais como um todo. Por sua vez, como vimos, ao reconstituir São Paulo colonial nesta no intervalo de 1681-1721, Ilana Blaj viu um processo de mercantilização em franco curso, que, possibilitado por uma mercantilização prévia — calcada na retenção da maior parte dos índios apresados (70%, outros 30% exportados ao Nordeste) para mão-de-obra nas lavouras—, compreendia uma expansão e diversificação de agricultura de abastecimento, orientando-a para o mercado, o que levou ao aperfeiçoamento dos caminhos para a distribuição do produto115.
109 Segredos Internos..., p. 205-6.
110 Rubro Veio — O imaginário da restauração pernambucana, São Paulo, Alameda Editorial, 2008, p.154.
111 Rae Jean Dell FLORY, Bahian society in the mid-colonial period: the sugar planters, tobacco growers,
merchants, and artisans of Salvador and the Recôncavo, 1680-1725. Austin: University of Texas, 1978,
Introdução.
112 Segredos..., Cap 7, item "Do crescimento ao declínio e ressurgimento", p. 146-7
113 Trato dos viventes — Formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI e XVII, São Paulo, Cia das Letras,
p. 310.
114 Antonio Carlos Jucá de SAMPAIO, Na encruzilhada do império: hierarquias sociais e conjunturas
econômicas no Rio de Janeiro (c.1650-1750), Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2003, cap 2 "Na curva do
tempo: o agro fluminense e suas transformações", p. 101-137.
Simultaneamente à expansão do mercado, o poder das elites locais entrou em conflito com os comerciantes e a realização de seu negócio. Esta tensão levou, de um lado, a recomposições entre os dois grupos em graus variados, através de casamentos, a depender do contexto de cada região, o que levou à sobrevivência de elites e à mitigação de conflitos; mas, a despeito destas soluções, o andamento do mesmo processo foi limitando as estratégias das elites agrícolas em interferir nas condições mais imediatas a que chegava o seu alcance, como o arbítrio ao preço do açúcar e o privilégio de levar suas dívidas à moratória — diziam os senhores de engenho que "a necessidade não conhece lei"! Este processo vai se concluindo aos meados do século XVIII, cessando a possibilidade de interferência no mercado local, o que pode ser percebido no intervalo que vai da fixação de preços e designação de um mediador para a definição do preço do açúcar (em disputa entre senhores de engenho e negociantes), que tem como consequência trazer a negociação do preço para as margens do mercado internacional, à Lei do Açúcar, de 1752, que retira de vez a possibilidade de intervenção neste preço pela Câmara do Rio de Janeiro.116 Este é um dado importante, já que a intervenção nos preços do açúcar, sua grande fonte de rendimentos, era ao mesmo tempo uma situação de exercício de poder frente aos negociantes (no mais das vezes imigrantes e de condição social mediana) e uma forma de proteger sua condição de endividamento crônico: em suma, eram os limites ao mercado que o privilégio permitia. Esta perda de privilégios da açucarocracia, de fato, se deu pari passu com a ascensão dos comerciantes, em diferentes escalas e cada qual com seu contexto, entre a Bahia, Rio e Pernambuco, que receberam estudos que se tornaram referências. À Bahia, por exemplo, devido à particularmente forte posição dos senhores na relação do poder local, garantiu-se a proteção contra a quitação por dívida do capital fixo de engenhos em inúmeros processos117. Ao Rio de Janeiro, de outro lado, esta situação levou ao declínio de famílias de potentados locais, preparando o terreno para que aos Setecentos sobrevivessem apenas as famílias que casaram com comerciantes118. O que é notável neste processo é que no seu transcorrer dá-se a organização de
FAPESP, 2002.
116 João FRAGOSO, "Fidalgos e parentes de pretos: notas sobre a nobreza principal da terra do Rio de Janeiro (1600 - 1750), in João FRAGOSO; Carla Maria Carvalho de ALMEIDA; Antonio Carlos Jucá de SAMPAIO (orgs.), Conquistadores e negociantes. Histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. América lusa, séculos
XVI a XVIII, 2007, p. 99.
117 SCHWARTZ, Segredos..., Cap 7, item "Estratégias dos senhores de engenho", p. 169-176.
118 Antonio Carlos Jucá de SAMPAIO, "Famílias e negócios: a formação da comunidade mercantil carioca na primeira metade dos setecentos", in João Luis Ribeiro FRAGOSO; Carla Maria de Carvalho de ALMEIDA; Antonio Carlos Jucá de SAMPAIO (orgs.) Conquistadores e Negociantes — História de elites no Antigo Regime
comunidades mercantis com identidade, interesse e discurso próprios119; já no início do XVIII o Conselho Ultramarino reconhece os homens de negócio quanto à utilidade de seu pecúlio para a manutenção da conquista, estendendo-os igualmente o acesso à condição de nobreza120 — já se vê, são tensões que vão amadurecendo para que à época de Pombal se implemente a incorporação definitiva do grande comércio como atividade nobre. Por último, não deixa de ser igualmente um processo de transformação e racionalização da produção e distribuição que, colocado à Bahia como alternativa para a economia açucareira em crise, na condição da instalação de refinarias e aprimoramento dos transportes, apenas entrou em debate pelos contemporâneos121, para realizar- se em São Paulo.
Se os mercados (locais e regionais) expandem no período, se este é um processo em que o negócio provoca tensões para realizar-se em uma devida situação de mercado, este também é um movimento em que os mercados se aproximam uns dos outros. Aqui cabe
recuperar a análise dos estudos de Luis Felipe de Alencastro dedicada no capítulo anterior. Como vimos, apesar de brilhante, a definição de Alencastro para uma adequação espacial e social da colônia, no influxo do ouro das gerais, não se verifica nos termos em que o autor propõe. O efeito do mercado, que primeiro atiçou Domingos Jorge Velho, líder da bandeira que finalmente venceu Palmares, a se posicionar próximo às praças marítimas, pedindo à Coroa terras em Pernambuco (pela interessante falta delas em São Paulo, gostosamente captadas nas comunicações) e chamando familiares e chegados a lá habitar — este efeito não vem apenas do espaço atlântico senão no mercado interno, onde, antes mesmo da década inicial dos setecentos terminar, se verifica uma intermitente metamorfose do bandeirante, que vai se dedicando a atividades em torno do comércio e abastecimento, entre São Paulo, Minas e Rio. Como ressaltamos no capítulo anterior, Alencastro lê o processo enquanto a desarticulação das redes internas de aprisionamento indígena a serem integradas ao circuito estabelecido, português, que recolhe tributos diretamente em África, para, desta forma, concluir belamente um raciocínio que se liga à tradição que vem desde Celso Furtado, renovando-a, assentando os marcos de mudança ligados ao ouro. Sugerimos, enfim, que por trás desta leitura está a definição (imagem) de Karl Polanyi para a
nos trópicos. América Lusa, séculos XVI a XVIII, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2007, p. 260.
119 SAMPAIO,"Famílias...", item "Conclusão: a construção de uma identidade", p. 260-263.
120 CABRAL DE MELLO, A fronda dos mazombos — Nobres contra mascates, Pernambuco, 1666-1715, São Paulo, Editora 34, 2003, p. 208-9.
formação do mercado interno, que, através da ação do Estado, alterou a configuração econômica, social e política, ao ligar mercados distintos, o local e o de longa distância (que operavam não apenas em lógicas distintas mas também eram dominados por classes diferentes, institucionalmente separados pela estrutura de poder da cidade medieval), sendo este o passo decisivo para a institucionalização do mercado formador de preços, isto é, liberando a operação dos mecanismos de mercado dos limites do modo em que a vida estava organizada122. No entanto, como vimos em Ilana Blaj, podemos dizer que as redes de apresamento terminaram por alimentar um processo de mercantilização, orientando a produção (de alimentos) para o mercado, processo que, mesmo quando chega ao fim um período de ouro que atravessou o século, tem a partir das duas últimas décadas da centúria a intensificação e desdobramento da articulação mercantil então traçada: ao invés da emulação do mercado interno de Polanyi, que, através do ouro (nosso Estado!), faria a transformação dos lugares geográficos em lugares econômicos, para gerar então um contexto de produção de mercadorias, pensamos ver aí mercados que se aproximam, que se chamam uns aos outros, em contextos locais/regionais que exportam mercadorias entre si — assim, ficamos mais próximos das sugestões de Alain Caillé123, que lê os estímulos do mercado na “forma de um sistema, uma articulação determinada de muitos mercados particulares”. Ou, como diria Caio César Boschi, nem tudo que reluz vem do ouro!124
Com isto ficam definidos os elementos que, para melhor compreensão, vamos encontrar nas tensões vividas pelos contemporâneos.
122 Para a definição de mercado interno de Polanyi:
"Como sabemos, num estágio posterior os mercados se tornaram predominantes na organização do comércio exterior. Entretanto, do , ponto de vista econômico, os mercados externos são algo inteiramente diferente, tanto dos mercados locais quanto dos mercados internos. Eles não diferem apenas em tamanho; são instituições de função e origem diferentes. O mercado externo é uma transação; a questão é a ausência de alguns tipos de mercadorias naquela região. A troca de lãs inglesas por vinhos portugueses constitui um exemplo. O comércio local é limitado às mercadorias da região, as quais não compensa transportar porque são demasiado pesadas, volumosas ou perecíveis. Assim, tanto o comércio exterior quanto o local são relativos à distância geográfica, sendo um confinado às mercadorias que não podem superá-Ia e o outro às que podem fazê-lo. Um comércio desse tipo é descrito corretamente como complementar. A troca local ente cidade e campo e o comércio exterior entre diferentes zonas climáticas baseiam-se neste princípio. Um tal comércio não implica competição necessariamente, e se a competição levasse à desorganização do comércio não haveria contradição em eliminá-Ia. Em contraste com o comércio externo e o local, o comércio interno, por seu lado, é essencialmente competitivoAlém das trocas complementares, ele inclui um número muito maior de trocas nas quais mercadorias similares, de fontes diferentes, são oferecidas em competição umas com as outras. Assim, somente com a emergência do comércio interno ou nacional é que a competição tende a ser aceita como princípio geral de comércio". Karl POLANY, A grande transformação, Rio de Janeiro, Campus, 2000, p. 80.
123 "A dominância do mercado", in Ler Braudel. Campinas: Papirus, 1989, p. 112.
124 Caio César BOSCHI, "Nem tudo que reluz é ouro", in Tamás Szmrecsányi (org). História econômica do
Tensões
Neste passo, seguimos mais de perto algumas revoltas ocorridas ao início do Setecentos, as convulsões que colocaram uma ameaça para a autoridade metropolitana. Laura de Mello e Souza e Maria Fernanda Bicalho nos dão o contexto em que as alterações se deram:
Essas convulsões, ou motins, não foram os primeiros atos de insubordinação que aqui ocorreram. No século anterior, os colonos haviam entrado em atrito com os jesuítas no Maranhão, no Rio de Janeiro e em São Paulo, de onde chegaram a expulsar os padres. Uma dessas revoltas, a da Cachaça, ocorrida no Rio entre 1660 e 1661, apresentara ainda motivos antifiscais, ou seja, de insatisfação dos habitantes com os impostos cobrados em nome da Coroa. A novidade do século que começava, com guerra nas fronteiras, minas de ouro por explorar e um novo rei no trono, foi apresentar revoltas nas quais o conflito com os missionários da Companhia de Jesus por causa da escravização dos índios ia arrefecendo, enquanto cresciam as hostilidades contra os impostos e as autoridades do governo. Não se pode, contudo, dizer que esses foram motins polarizados, tendo de um lado os explorados e de outro os exploradores. Naquela época, a sociedade da América Portuguesa já era suficientemente complexa para abrigar tensões e conflitos variados, nem sempre redutíveis a meras oposições. Assim, colonos engalfinharam-se com colonos, e autoridades da metrópole se opuseram a companheiros de administração. O século começava tenso, e seus primeiros vinte anos seriam marcados por uma sucessão de revoltas e motins, constituindo um conjunto em que, pela primeira vez, a dominação portuguesa na América do Sul corria sério risco125.
Através delas126, observamos mais de perto as tensões entre grupos que se ancoram na tradição — no mais das vezes respaldada por uma antiguidade de serviços prestados à Coroa, não raro remetendo-se à geração de conquistadores — para desqualificar os adventícios, majoritariamente de origem social mediana ou mesmo pobre, que, saindo sobretudo do norte de Portugal, vem tentar uma chance de escalada social a partir de negócio pequeno. Assim, em Minas, espreitando o contexto em torno da Guerra dos Emboabas, podemos ver como os paulistas se arvoraram em sua tradição de desbravadores e sertanistas, ao disputarem com forasteiros o controle de terras e do aparelho administrativo, que, apesar de não prover muitos cargos, dadas as
125 Laura de MELLO E SOUZA, Maria Fernanda BICALHO, 1680-1720: O império deste mundo, São Paulo, Cia das Letras, 2000, p. 64-5.
126 Focaremos aqui a Guerra dos Emboabas e a Guerra dos Mascates; os demais conflitos, com marcas espressamente antifiscais, não serão analisados. No mais, seguimos a narrativa das autoras.
poucas oportunidades, chegava a significar muito.
Em linhas gerais, o atrito descambou quando um potentado local, Manuel Borba Gato, tratou de impor sua força ante uma figura proeminente do lado dos forasteiros e a viu não se realizar. Ao fim da primeira década do século algumas fortunas já se haviam feito, especialmente em torno dos caminhos que levavam à região mineradora. Os paulistas, com o conhecimento e familiaridade das matas que adquiriram junto aos indígenas, eram os responsáveis pelas construções, e rapidamente uns poucos à testa desta empreitada açambarcaram o direito de cobrança pela passagem às estradas e o fornecimento de alimentos ao seu redor. Por aí surgiram figuras que marcaram a primeira história das minas, como Manuel Borba Gato, um ícone do tipo valentão que esta história nos deu a conhecer, e que está ao centro do conflito. É preciso ter em mente, ainda, que a região, bem como a capitania de São Paulo, apenas mais tarde se separou da administração da capitania do Rio de Janeiro, não por acaso ao fim de duas décadas de alterações que grassaram a colônia — o que significa dizer que, apesar do parco aparelho administrativo (necessário para definir regras e controlar a extração de ouro), as terras recém habitadas não eram ocupadas por uma autoridade metropolitana a exercer a ordem.
Dito isto, ao atrito descambado pela recusa de Nunes Viana — associado a figuras de comércio mais grosso que fizeram a riqueza à colônia (ele mesmo vivendo de mascates e da venda de gados) — a aceitar uma ordem de Borba Gato para sua expulsão, o conflito entre paulistas e emboabas estreitou-se para as fontes de poder na região. Em situação de escassez alimentar, em 1707 (aliás muito comum conforme o contingente populacional crescia), a solução proposta para a situação, a abertura de um contrato de fornecimento de carne, deixou nas mãos de uma dupla de cariocas o monopólio para o provimento de gado, para a ira dos sertanistas; no ínterim, uma zanga na região agudizou ainda mais a tensão, ao colocar em questão o direito ao uso de armas, limitado por leis do reino, porém para o qual os paulistas, de posse de sua antiga habitação, colocavam-se como os únicos legítimos a portá-las, firmando então seu monopólio. Em dado momento, ao impedir que um português carregasse armas, detonou-se o conflito envolvendo os dois grupos, que atravessou pouco mais de dois anos, para terminar em 1709. No decorrer das escaramuças os emboabas conseguiram expulsar os paulistas e aclamar Nunes Viana governador das Minas, que de fato chegou a organizar um governo de verdade, controlando a administração do território — o que terminou por abrir perigoso pretexto perigoso para a
administração portuguesa. Nomeado novo governador da capitania do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho finalmente rendeu Viana a Agosto de 1709. O conflito não terminaria por aí, pois os paulistas não toleraram ficar com os brios feridos. (Iam ainda mais enfurecidos, pelo torpe episódio que se veio a chamar de "Capão da Traição", quando os forasteiros ordenados por Nunes Viana assassinaram paulistas aglomerados no rio das Mortes, depois de renderem-nos sob a promessa de deixá-los em paz). Desta forma, após a volta do novo governador ao rio, fizeram a sua vingança, em enfrentamento que deixou oitenta mortos do outro lado.
Se podemos ver aí uma tensão que passa obviamente pelo atrito entre grupos de recém-