2 APRESENTAÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA: O PARADIDÁTICO
2.2 Composição do paradidático “Nós” do Brasil: estudo das relações étnico-
2.2.5 Do uso de seções especiais no corpo do título analisado
Os boxes, em sua maioria, têm como função oferecer ao leitor(a) as informações que podem complementar a experiência da leitura a partir de informações mais detalhadas a respeito do texto principal, que acompanha ou ainda tem o efeito de glossário, ao supor termos e (ou) conceitos que o seu leitor desconhece. Já as imagens reproduzidas na obra têm apenas efeito ilustrativo, na medida em que não complementam ou tensionam os sentidos apresentados no corpo do texto principal.
No primeiro capítulo sobre o continente africano, emprega-se um box com uma citação de Ki-Zerbo, onde este discorre sobre o complexo significado da palavra África. O box posterior apresenta uma citação de M’Bow, onde argumenta-se sobre o estabelecimento das categorias de cor (branco e negro) e os efeitos psicológicos e físicos que acompanhavam o processo do imperialismo. Essas sequelas, segundo a citação, contribuíram para o estabelecimento e a construção de uma noção de essência racial fundamentada na cor de pele dosujeito. Destaco que esses dois primeiros boxes do capítulo têm efeito de "apêndice", dado que apenas complementam a obra e não dialogam obrigatoriamente com o texto principal.
O próximo box vem em direção contrária e em harmonia com o texto principal, discorre sobre a leitura cristã do continente africano e indica que as leituras portuguesas sobre as sociedades africanas são “isentas de preconceito” (RODRIGUES, 2012, p. 21).
O subsequente box apresenta uma citação de Souza (2003) onde apresenta-se característicasda escravidão “pré-europeia”, praticada no continente africano como o direito à posse de terra pelos cativos e o exercício do matrimônio. Deste modo, este box vem reforçar a ideia expressano corpo do texto principal e que, desta forma, enfatiza a diferença entre os
“tipos” de escravidão. Desse modo, o box é complementar. Já o próximo box apresenta uma citação de Hebe Matos (2010), onde a intelectual ressalta os efeitos da escravidão no continente africano ainda hoje e não dialoga com o texto de maneira explicita. O seguinte box apresenta uma função umpouco diferente das demais. Ao destacar o conceito de “colonização”, Rodrigues indica que durante essa unidade (tópico), o termo será entendido como o processo de exploração dos impérios europeus (destaca França, Alemanha, Itália, Bélgica e Espanha). Associa ainda que o contexto aberto pela Revolução Industrial “forçou” a expansão desses países para outros continentes.
Mais à frente, dedica-se um espaço para expor a dinastia Alauíta, que comanda o Estado do Marrocos há mais de três séculos. Ela acompanha o texto que apresenta as divisões do continente africano. Desse modo, o box acrescenta informações ao texto principal. Na mesma
sessão, outro box é utilizado em compasso com o texto principal que nos informa sobre o processo de “divisão” do Continente, que não respeitou as particularidades étnicas existentes.
Logo em sequência, outro box informativo é usado para apresentar o significado dotermo
“sahill”.
Em outra altura do texto principal, mas que ainda trata das divisões regionais do continente, temos um box que nos informa sobre os idiomas utilizados no que a autora chama de “África Austral”. Ainda sobre esta região utiliza-se do recurso do box para apresentar um resultado prático do referido processo de balcanização. O caso da etnia Hereró, que ficou repartida entre os territórios da Angola e Namíbia e que sofreu um genocídio reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Assim, a autora reitera o processo de violência simbolizado na prática imperial. O último box desse tópico apresenta uma citação de Nunes Pereira (2002) que ressalta o espaço geográfico do Oceano Índico e a sua importância como local de confluência econômica e cultural entre o continente asiático, africano e europeu.
Já o próximo tópico do capítulo, dedicado a explorar elementos do Egito, tem como primeiro box que foge do padrão estético dos anteriores. Enquanto os demais são reproduzidos dentro de uma caixa de tom verde marca-texto e vem no meio da página principal e vem em uma pequena caixa ao lado do texto central. Esse box apresenta em laranja-negrito o significado de “muçulmano” e “árabe”, termos que estão destacados no miolo do texto principal. Dessa forma, podemos concluir que esse box cumpre afusão de glossário ao seu(sua) leitor(a). O box posterior retoma a formatação usual e informa que os mais antigos fósseis que se tem notícia (na época) foram encontrados na África Oriental e, assim, pretende pautar uma interpretação do continente africano como berço do mundo.
Já para debater o possível tom de cor dos primeiros egípcios, Rodrigues (2012) utiliza uma citação de Diop (2010), que sustenta que esse povo se denominava como “kmt”, que significava “negro” e que tem raiz linguística “kamit”, que por sua vez se relaciona com “kam”.
A autora parece querer relacionar e retomar o primeiro tópico desenvolvido na obra para que não se perca de vista a continuação do preconceito em relação à cor iniciada a partir da lenda dessa maldição. O próximo box apresenta proposta semelhante ao que propõe a legenda que acompanha a imagem de Cleópatra e explorada no tópico anterior do presente trabalho. Indica, portanto, que no videoclipe de Michael Jackson da canção Remember the Time apenas atores e atrizes negras foram escalados para compor o elenco, ao contrário de outras produções audiovisuais. A função de glossário é utilizada mais uma vez para explicar o termo “Maneton”, porém, não se utiliza a formatação estética utilizada no outro caso. Mais adiante, e em outro tópico deste capítulo, ao abordar o violento processo de retirada de homens e mulheres para a
América e a obliteração destes sujeitos, um box nos informa que a mãe do Rei Ghezo (do Daomé) teria chegado em São Luiz do Maranhão. E o último capítulo explora a rica diversidade de línguas e dialetos praticados no continente africano, destacando que cada africano fala em média três línguas diferentes.
O último box da seção aponta que a família de Francisco Félix de Souza, conhecido como “Chacá”, foi uma família que enriqueceu pelo tráfico de pessoas e que se transformou em vice-rei de Benin devido a sua relação com o antigo rei. Este box acompanha o texto principal sobre as relações culturais específicas entre Portugal, o continente africano e o Brasil.
Já o capítulo “Somos todos muçulmanos?” ao debater a questão linguística dos escravizados envolvidos na Revolta dos Malês, temos um box que pretende destacar os idiomas tradicionais desses sujeitos e em outras senzalas do país. Dessa forma, cita o Iorubá, Bantu e o Fon. O box posterior apresenta o termo jihad. Com pretensão explicativa a autora apresenta a complexidade do conceito e o define em um primeiro momento como o “[...] esforço para se manter fiel às determinações de Deus” (RODRIGUES, 2012, p. 105) e alerta que este termo tem sido usado para descrever e (ou) associado a uma noção de “Guerra Santa” o que, segundo ela, não dá uma noção profunda e adequada ao termo. Todavia, Rodrigues utiliza esta segundo noção em sua obra e alerta, neste box, o seu uso a fim de propiciar uma leitura e interpretação mais cômoda ao leitor(a).
Ao adentrar, a partir do texto principal, no evento da “Revolta dos Malês", um box informativo indica que a mãe de Luiz Gama, supostamente, teria participado de maneira ativa no levante e, destaca entre parênteses que este personagem teve participação importante no movimento abolicionista (RODRIGUES, 2012, p. 107). Ou seja, reforça a ideia do box/da seção especial enquanto transportadora de curiosidades paralelas à narrativa do texto principal.
O capítulo subsequente, que pretende debater a relação entre os judeus e a formação nacional, conta como primeiro box um glossário que realça dois termos que se encontram destacados em laranja no texto principal: Itan e Ifá. O primeiro significa “mito” e o segundo,
“oráculo”. A formatação estética desse box é semelhante aos outros glossários da obra. Na mesma página, temos um box para elucidar o sentido de “mito”. Rodrigues alerta que este não significa “mentira” e sim as formas como uma cultura interpreta as suas origens. Já ao debater em alguma medida a longa trajetória de perseguição aos judeus, emprega-se um box para destacar que um documento antissemita foi encontrado em Alexandria. Este é atribuído a um ex-hebreu, ou seja, evidencia que sempre existiram sujeitos e (ou) práticas que foram díspares em relação ao cristianismo.
No tópico dois do referido capítulo, o texto principal, ao discorrer sobre a emigração e
imigração judaica, ilustra um box para indicar que os judeus que chegaram ao continente europeu foram chamados de ashkenazistas e que usavam o idioma iídiche. O box visa, portanto, apenas acrescer uma informação a respeito do texto. O box glossário é usado no mesmo tópico e destaca o termo “Marranos”, que significa “convertido a força”. Seu significado acompanha a discussão do texto principal. A apropriação de diversos elementos culturais é abordada através da culinária, onde a autora indica no último box que existem pratos tradicionalmente judaicos que são preparados na Praça Onze no Estado do Rio de Janeiro.
No último capítulo da obra, emprega-se apenas um box. Nele aborda-se uma ideia de
"símbolo nacional” e os sentidos de unidade, homogeneidade que a reprodução desses modelos pretende impor. Indica ainda que a Constituição Federativa do Brasil de 1988 (CF/88) Constituição Federal pretende justamente regular as “regionalidades”.