GLICERINA
Resumo- Objetivou-se avaliar o ganho médio diário, conversão alimentar, glicemia sanguínea, consumo e digestibilidade da matéria seca de cordeiros confinados, alimentados com dietas de alto concentrado contendo quantidades crescentes de glicerina. As dietas foram formuladas para conterem:0; 50; 100;150 e 200 g de glicerina/kg de MS. Foram utilizados 40 cordeiros, machos não castrados, com idade média de 100±10 diase peso inicial médio de 22,26±3,77, distribuídos em delineamento de blocos casualizados. Inclusões de até 200 g/kg de MS não influenciaram (P>0,05) o ganho médio diário, conversão alimentar, consumo e digestibilidade da matéria seca, com as respectivas médias: 186 g/dia; 5432 g MS/kg de PV; 928,6 g de MS; 882,4 g/kg de MS.Houve redução linear (P<0,05) nos níveis de glicemia sanguínea com a inclusão de glicerina. O consumo de água apresentou efeito quadrático (P<0,05), observando que os maiores valores foram ao incluir 100 g/kg de MS. Dietas de alto concentrado com até 200 g de glicerina/kg de MS não afetam o desempenho produtivo.
Palavras chave:Biodiesel. Conversão alimentar. Coprodutos. Ganho de peso. Ovinos.
PERFORMANCE OF LAMBS FED DIETS CONTAINING CONCENTRATED HIGH LEVELS OF INCREASING GLYCERIN
Abstract: This study was designed to evaluate the average daily gain, feed conversion, blood glucose, consumption and dry matter digestibility of feedlot lambs fed high concentrate diets containing increasing amounts of glycerol.Diets were formulated to contain: 0, 50, 100, 150 and 200 g glycerol/kg DM. A total of 40 intact lambs, with an average age of 100 ± 10 days and an average initial weight of 22.26±3.77, distributed in randomized blocks.The experiment lasted 45 days, the first 10 days for adaptation of animals and 35 days remaining for assessments. Inclusions up to 200 g of glycerin/kg DM did not influence (P>0.05) average daily gain, feed conversion, and dry matter digestibility, with means: 186 g/day; 5432 g DM/kg gain; 928,6 g, 882,24 g/kg DM. There was a linearly decreased (P<0,05) in blood glucose levels with the inclusion of glycerin. Water consumption showed a quadratic effect (P<0,05), noting that the highest values were to include 100 g/kg DM. High concentrate diets with up to 200 g glycerol/kg DM did not affect the productive performance.
4.1. Introdução
A busca por combustíveis renováveis está cada dia maior, pois a energia é um fato fundamental para o desenvolvimento dos países, e a dependência da importação de petróleo é preocupante. O biodiesel oriundo das oleaginosas é uma fonte renovável de energia, praticamente livre de enxofre e compostos aromáticos e acarreta menor emissão de CO e CO2.
Na cadeia do biodiesel, a glicerina é um dos produtos secundários da extração do óleo, e pode ser utilizada na nutrição de ruminantes (ABDALLA et al., 2008). A glicerina apresenta um grande potencial como fonte energética, em substituição a cereais ricos em amido, principalmente o milho. Porém para ser utilizada para alimentação animal tem que atender um padrão mínimo de qualidade, com no mínimo 80% de glicerol; máximo de 13% de umidade; máximo de 150 mg/kg de metanol; sódio e matéria mineral com valor máximo garantido pelo fabricante, o que pode variar em função do processo de produção (OLIVEIRA et al., 2011).
O glicerol é o principal componente da glicerina, apresenta propriedade gliconeogênica, produzindo glicose ou pode ser fermentado em ácidos graxos de cadeia curta, em especial o propionato, que é produto final da fermentação do amido no rúmen. Também pode ser absorvido pela parede ruminal e ser metabolizado a glicose pelo fígado (RÉMOND et al., 1993).
Com a utilização da glicerina ocorre uma queda na quantidade de carboidratos não fibrosos nas dietas, em sua grande maioria representado pelo amido, isto pode levar uma redução no desempenho dos animais, prejudicando o ganho de peso diário e consequentemente aumentando os custos do sistema ao todo. Alguns trabalhos observam queda no consumo, menor digestibilidade da fibra, interferência na microbiota ruminal e alteração na concentração de ácidos graxos de cadeia curta, no entanto, outros relatam benefícios na sua utilização (DONKIN et al., 2009; MACH et al., 2009; GUNN et al., 2010; CARVALHO et al., 2011; LEE et al., 2011; TERRÉ et al., 2011).
Segundo Lage et al. (2010), a terminação de cordeiros em confinamento é a principal estratégia para que os produtores consigam reduzir as perdas decorrentes de deficiências nutricionais e infestações parasitárias
em sistemas de pastagens. O confinamento permite retorno de capital mais rápido, produção de carne de qualidade durante todo o ano, reduz idade de abate, carcaças padronizadas, etc.
Entretanto a alimentação é sem dúvida o principal custo, a utilização de alimentos alternativos pode ser uma das alternativas para reduzir este custo. Há necessidade de estudos relacionados ao desempenho dos animais recebendo dietas com a inclusão de glicerina, verificando as respostas produtivas dos animais.
Desta forma, objetivou-se avaliar o desempenho produtivo de ovinos alimentados com níveis crescentes de glicerina oriunda do biodiesel de soja, em dietas de alto concentrado utilizando o bagaço de cana-de-açúcar como fonte volumosa e casca de soja como coproduto fibroso.
4.2. Material e métodos
O experimento foi conduzido no Setor de Ovinocultura da Fazenda Experimental, localizada no município de Santo Antônio do Leverger–MT, e as análises realizadas no Laboratório de Nutrição Animal ambos vinculados á Faculdade deAgronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Mato Grosso.
Foram utilizados 40 cordeiros, mestiços, machos não castrados, com peso corporal de 22,26±3,77, e idade média inicial de 100±10 dias, confinados em baias cobertas, com piso de concreto, cochos e bebedouros. Os animais foram distribuídos considerando um delineamento em blocos casualizados, com dois animais por baia arranjados de acordo com o peso, totalizando quatro repetições por tratamento.Antes do início do experimento, os cordeiros foram pesados, identificados, casqueados e tratados contra endoparasitos.
Foram formuladas dietas isoprotéicas (122 g de PB/kg de MS) de forma a atender as necessidades nutricionais para ganhos de 250 g/diapara a categoria utilizada (NRC, 2007). As dietas continham 0; 50; 100; 150 e 200 g de glicerina/kg MS, proveniente do biodiesel de soja (glicerol: 82,3%; Metanol (MetOH): 0,025%; Água: 9,8%; Cinzas: 5,85%, analisada em CG-MS, coluna Alltech AT-Wax, 60m, 0,32 µm de diâmetro interno e 0,30µm de porosidade).
As dietas ofertadas foram compostas por 25% de bagaço de cana-de- açúcar (Saccharumofficinarum L.) e concentrado à base de milho moído, casca de soja, farelo de soja, uréia e mistura mineral (Tabela 1). Os animais foram alimentados duas vezes ao dia, ás 8 e 16 horas, com a glicerina adicionada diariamente ao concentrado.
O experimento teve duração de 45 dias, com os 10 primeiros destinados à adaptação gradativa dos animais, realizando-se pesagens após jejum alimentar de 16 horas aplicado no início e ao final do período experimental. A fim de monitorar o desempenho dos animais foi realizada uma
O consumo foi regularmente ajustado para permitir no máximo 10% de sobras, com água sempre a disposição. A cada dois dias as sobras, além de quantificadas, foram amostradas para a obtenção do consumo de matéria seca por baia, permitindo mensurar a conversão alimentar. As sobras foram congeladas e ao final do experimento, compostas por semana, de acordo com os respectivos tratamentos. Entre o 15° e 17° dias, foi realizada a coleta de fezes, obtendo-se duas vezes ao dia, amostras representativas das baias. Os alimentos e as sobras recolhidas neste período foram amostrados, congelados a -20°C, e após o término do experimento, foram descongelados e submetidos à pré-secagem (55 °C) por 72 horas em estufa de circulação e renovação de ar. Para dar início às análises laboratoriais, as amostras foram submetidas à moinho tipo Willey com peneira com crivos de 1 mm, e posteriormente compostas de acordo com o tratamento e a baia correspondente. A partir destas observações, foi possível estimar a digestibilidade da matéria seca utilizando-se a fibra em detergente neutro indigestível como indicador interno (CASALI et al., 2008).
As concentrações de glicose sanguínea (mg/dL) foram medidas no 19° dia do período experimental antes e 4 horas apósa alimentação. A partir de uma punçãona veia auricular, o sangue foi colhido e as concentrações de glicose medidas em monitor de glicemia AccueCheckPerforma.
Tabela 1 – Composição percentual e bromatológica das dietas (g/kg de MS) contendo quantidades crescentes de glicerina
Ingrediente Dieta 0 50 100 150 200 Bagaço de cana-de- açucar 250,0 250,0 250,0 250,0 250,0 Milho moído 540,0 488,6 441,8 395,5 349,6 Casca de soja 141,8 134,0 121,2 108,4 95,9 Glicerina 0,0 50,0 100,0 150,0 200,0 Farelo de soja 40,0 48,6 57,7 66,2 73,90 Uréia 13,2 13,8 14,3 14,9 15,6 Mistura minerala 15,0 15,0 15,0 15,0 15,0 Composiçãobromatológica MO2 871,0 869,0 866,0 864,0 862,0 PB3 123,8 124,4 124,7 125,0 125,2 EE4 28,8 36,1 43,5 51,0 58,4 CT5 840,5 793,4 746,5 699,9 653,4 FDN6 389,1 382,0 372,4 362,6 352,6 FDA7 252,9 248,6 242,0 235,4 228,7 FDNcp8 361,6 352,2 340,4 328,5 316,8 CNF9 478,9 441,2 406,1 371,3 336,3 1
Mistura mineral: 446,8 g/kg de sal mineral comercial (Cálcio: 140 g/kg; Fósforo: 60 g/kg; Enxofre: 10,8 g/kg; Sódio: 175 g/kg; Magnésio: 2.530 ppm; Cobalto: 64 ppm; Cobre: 335 ppm; Manganês: 1.300 ppm; Ferro: 1.065 ppm; Iodo: 82 ppm; Selênio: 10 ppm; Zinco: 4.020 ppm; Flúor: 600 ppm); Carbonato de Cálcio: 553,2 g/kg; 2 Matéria orgânica; 3 Proteína bruta; 4 Extrato etéreo; 5 Carboidratos totais; 6 Fibra em detergente neutro; 7 Fibra em detergente ácido; 8 Fibra em detergente ácido corrigido para cinzas e proteína; 9 Carboidratos não fibrosos.
As amostras de bagaço de cana-de-açúcar, sobras e fezes foram pré- secas em estufa de circulação e ventilação de ar (55°C), processadas em moinhos de faca com peneiras de 1mm de crivos, e compostas por animal e período. As análises laboratoriais foram realizadas de acordo com a AssociationofOfficialAnalyticalChemists (AOAC, 1990) para determinação dos teores de matéria seca, cinzas, proteína bruta, extrato etéreo e fibra em detergente ácido. Os teores de fibra em detergente neutro foram determinadas utilizando-se sacos de tecido não tecido (TNT - 100 g/m2), 100% polipropileno, mantendo relação de 20 mg de MS de amostra/cm2, mergulhados em solução detergente neutro proposta por Van Soest et al., 1991, contendo alfa amilase termoestável (MERTENS, 2002), submetidos a autoclave a 105°C por uma hora (PELL;SCHOFIELD, 1993). Os resíduos da FDN foram corrigidos para cinzas e proteína segundo Licitraet al. (1996) e Mertens (2002), respectivamente.Os carboidratos totais (CT=100-(%PB + %EE + %cinzas)); carboidratos fibrosos (CF=FDNcp); e carboidratos não fibrosos (CNF= CT-
FDNcp) foram obtidos segundo Sniffen et al. (1992). Os concentrados por possuírem uréia em sua composição, tiveram os CNF (100 – (PB – 2,52 + 1) + FDNp + MM + EE) estimados segundo Hall (2000).
As váriáveis estudadas foram analisadas usando procedimento MIXED do SAS versão 9.3, considerando bloco completo com cinco dietas e quatro blocos, de acordo com o seguinte modelo:
Em que µ é a média geral, Ti é o efeito de tratamento (i = 1 a 5), Bjé o
efeito de bloco (j = 1 a 4), e Eijé o erro residual. O bloco foi incluído como um
efeito aleatório. A opção LSMEANS foi utilizada para gerar as médias individuais para cada tratamento. Contrastes ortogonais foram utilizados para partição específica dos efeitos de tratamento em linear, quadrático, cúbico e quártico. Antecipa-se que em virtude da ausência dosefeitos cúbicos e quárticos, estes foram omitidos das tabelas.
As medidas de glicemia foram analisadas como medidas repetidas no tempo usando o procedimento MIXED do SAS, versão 9.3. De acordo com o seguinte modelo:
Onde µ é a média geral; Ti é o efeito de tratamento (i = 1 a 5); Bjé o
efeito de bloco (j = 1 a 4); Aijé o erro residual associado com efeito de animal
(bloco * tratamento); Tempoké o efeito de tempo de coleta após a alimentação
(k = 0 e 4); (T * Tempo)iké o efeito de interação tratamento * tempo após a
alimentação, e Eijké o erro residual. Bloco e animal foram incluídos como efeito
aleatório. Para a análise da glicemia, estruturas de matriz de covariância dos erros foram ajustadas. Dentre todas as estruturas investigadas, VC (VarianceComponents) foi a melhor conforme o critério de informação bayesiano (BIC).A opção LSMEANS foi utilizada para gerar as médias individuais para cada nível de suplementação e para os tempos de coleta. Os efeitos de tratamento, tempo e interação tratamento*tempo foram definidos pelo teste-F da ANOVA, sendo o comando SLICE usado para separar interação tratamento*tempo que for siginificativa. Comparações de tratamentos
dentro de tempo foram realizadas pelo teste DMS de Fisher. Os mesmos contrastes supracitados foram utilizados para partição dos efeitos de tratamento.Para todos os procedimentos, adotou-se α = 0,05 como nível crítico de probabilidade para o erro tipo I.
4.3. Resultados e Discussão
A inclusão da glicerina em quantidades que variaram de 0 a 200 g/kg de MS na dieta de cordeiros confinados não influenciou (P>0,05) o peso corporal final, o ganho médio diário, o consumo, digestibilidade da MS e a conversão alimentar (Tabela 2).
O consumo médio de MS foi de 0,928 kg/dia, valor este que está de acordo com as estimativas do NRC (2007) e Cabral et al. (2008) para o intervalo de peso compreendido entre 20 a 30 kg, e ganho de 200 g/dia. Tal consumo correspondeu a 3,6% do peso, o que também está de acordo com o NRC (2007) e Cabral et al. (2008).
A digestibilidade da matéria seca não foi influenciada (P>0,05) pela inclusão da glicerina em até 200 g/kg MS e não havendo efeito (P>0,05) sobre o consumo, os ganhos em peso e a conversão alimentar, obtendo-se médias de 186 g/dia e 5432 g MS/kg ganho, respectivamente. Embora o consumo esteja no intervalo previsto pelas fontes citadas, o ganho esteve abaixo da projeção de 250 g/dia, prejudicando a conversão alimentar, o que pode ser devido à desaceleração na taxa de ganho dos animais, e incompatibilidade da formulação com os produtos da fermentação e sua metabolização no fígado.
Houve redução linear (P<0,01) nas concentrações de glicose sanguínea em relação à adição de glicerina, a cada 1% de adição houve uma redução de 2,67 mg de glicose sanguínea. Gunnet al. (2010b) e Gomes (2011) também relataram redução nas concentrações sanguíneas de glicose ao introduzirem glicerina em quantidades crescentes, enquanto Krehbiel (2008), Terré et al. (2011) e Paiva (2012) não observaram influência.
Tabela 2. Valores médios do peso corporal inicial (PCI, kg), peso corporal final (PCF, kg), ganho de peso total (GPT, kg), ganho médio diário (GMD, kg), consumo de matéria seca (CMS, kg/dia), digestibilidade da matéria seca (DMS, g/ kg de MS) conversão alimentar (CA, g/kg), consumo de água (CH2O, L) e glicemia de cordeiros alimentados com dietas contendo níveis crescentes de glicerina (g/kg de MS)
Variável Dieta Valor de P
0 50 100 150 200 EPM L Q PCI1 22,03 22,33 22,28 22,56 22,15 0,596 ns ns PCF2 28,13 28,79 29,34 29,53 28,81 0,646 ns ns GPT3 6,10 6,46 6,66 6,35 5,20 0,244 ns ns GMD4 0,174 0,185 0,198 0,191 0,184 0,013 ns ns CMS5 0,867 0,948 0,933 0,908 0,987 192,0 ns ns CH206 2,71 3,22 3,74 3,35 3,31 385,0 ns 0,03 DMS7 866,1 874,5 884,0 896,2 890,4 1,778 ns ns CA8 5,19 5,13 4,89 5,13 6,80 0,745 ns ns % do PC CMS 3,35 3,66 3,61 3,51 3,81 0,076 ns ns CH2O 10,52 12,49 14,50 12,95 14,73 0,584 ns ns 1
Peso corporal inicial; 2 Peso corporal final; 3 Ganho de peso total; 4 Ganho médio diário; 5 Consumo de MS; 6 Consumo de água; 7 Digestibilidade da MS; 8 Conversão alimentar.
O consumo de água apresentou efeito quadrático (P<0,01), com o maior consumo observado ao se incluir 100 g glicerina/kg MS. Schröeder e Südekun (1999) e Gomes (2011) observaram que a glicerina influenciou o consumo de água, ao contrário de Paiva (2012) e Fioravanti Filho (2013). A explicação pode em parte estar relacionada aos ingredientes das dietas, idade e peso dos animais, condições climáticas de umidade e temperatura, esses fatores podem influenciar diretamente o consumo de água, principalmente as condições climáticas. Schott et al. (2001) verificaram que em cavalos o glicerol estimulou o consumo de água e regulou sua perda melhorando o status hídrico, o que também foi observado em humanos e ratos por Koenigsberg et al. (1995). De forma geral, numa compilação de consumos entre todas as categorias de pequenos ruminantes, o NRC (2007) cita que o consumo de água estaria compreendido no intervalo entre 2 e 4 L/kg MS, o que foi observado neste trabalho.
A ausência de efeito quanto à utilização da glicerina sobre o consumo e ganho de peso de ovinos foi reportado por Gunnet al. (2010a) e Terré et al. (2011).Musselman et al. (2008), Gunn et al. (2010b) e Lage et al. (2010)
observaram comportamentos negativos sobre estes parâmetros, principalmente a partir de 15% de glicerina na dieta. Estas variações têm sido observadas na literatura e um dos possíveis fatores estaria relacionado à composição da glicerina, pois esta apresenta quantidades variáveis de glicerol, havendo três tipos disponíveis para uso na alimentação animal (LAGE et al., 2010; OLIVEIRA et al., 2011). O principal fator hipofágico relacionado ao uso da glicerina seria a sobrecarga de energia nos hepatócitos, provocado pela produção de ácido propionico a partir do glicerol, e indiretamente pela alteração na proporção dos carboidratos não fibrosos das dietas (RÉMOND et al., 1993; ALLEN et al., 2009; ALLEN ; BRADFORD, 2012).
O glicerol presente em quantidades variáveis na glicerina é uma molécula com característica gliconeogênica, portanto, tem capacidade energética. Ao se substituir o milho pela glicerina, altera-se o perfil de carboidratos não fibrosos da dieta, diminuindo-se a participação do amido como substrato para a fermentação microbiana. Alguns trabalhos reportam que tal substituição, com adições de até 150 g glicerina/kg de MS, refletem positivamente com o aumento de ácido propionico(RÉMOND et al., 1993; TRABUE et al., 2007;WANG et al., 2009; ABOR EL-NOR et al., 2010; ABUGHAZALEH et al. 2011, FIORAVANTI FILHO, 2013). O acido propionico produzido no rúmen tem elevada taxa de absorção, e alcança rapidamente o fígado, onde promoverá a gliconeogênese, ou será oxidado fornecendo intermediários para a oxidação do Acetil-CoA (ALLEN et al., 2009). Ocorre que devido à elevada taxa de produção, absorção e fluxo do propionato para o fígado, estímulos do fígado ao cérebro são desencadeados, interrompendo o consumo. Neste trabalho, não houve redução no consumo, e com isso, os ganhos não foram afetados com inclusões de até 200 g/kg MS. Contudo, a tendência (P=0,09) indicou que o melhor ganho seria obtido com a adição de 100 g/kg MS, o que permite supor a ocorrência.
É interessante observar que os produtos da fermentação do amido e do glicerol influenciaram de forma diferente o metabolismo. No caso do glicerol, a elevada taxa de produção, absorção e fluxo do propionato para o fígado aumentam o metabolismo hepático, o que é totalmente compreensível, uma vez que a taxa de degradação do amido é inferior à do glicerol (ALLEN et al., 2009; ALLEN;BRADFORD, 2012). Quando o glicerol é utilizado em substituição
ao amido, aparentemente, devido ao intenso fluxo de propionato, o fígado excede sua capacidade em convertê-lo à glicose, e isso estimula a oxidação (ALLEN et al., 2009). Neste caso, os dois eventos ocorrerão simultaneamente, e como a taxa de fermentação do glicerol é elevada, o metabolismo hepático é intensificado.
Tabela 3. Valores médios da glicemia sanguínea de cordeiros alimentados com dietas contendo níveis crescentes de glicerina (g/kg de MS)
Tratamento Valor de P
0 50 100 150 200 EPM L Q T Trat*Temp
62,50 63,50 56,93 62,62 49,56 3,697 0,03 0,38 <0,01 <0,01
As concentrações sanguíneas de glicose foram estudadas, e esperava- se observar aumentos nas concentrações, no entanto, nem sempre isto ocorre (GUNN et al., 2010; GOMES, 2011) (Tabela 3). Após a alimentação a glicemia sanguínea aumenta, pois há um aporte energético no metabolismo dos animais (Tabela 4). A glicose é utilizada pra determinar o status energético do animal, sendo a maior proporção circulante decorrente da gliconeogênese hepática. No rúmen, o glicerol proveniente da glicerina, quando fermentado pela microbiota, produz di-hidroxiacetona fosfato, um precursor intermediário da via glicolítica gliceraldeído-3-fosfato. Ocorrendo a formação de glicose, que servirá de substrato microbiano para a obtenção de energia, tendo o piruvato como produto intermediário. O piruvato é convertido a ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), principalmente o propiônico.
O glicerol também pode ser absorvido diretamente pelo epitélio ruminal, e no fígado convertido à glicose (RÉMOND et al., 1993; BERG et al., 2008; KREHBIEL, 2008). Diante destes eventos, esperava-se que a glicose sanguínea aumentasse com as inclusões crescentes da glicerina, mas o efeito foi totalmente contrário. Acredita-se que a intensa gliconeogênese tenha estimulado as células β do pâncreas a secretarem insulina. Por sua vez, este hormônio teria estimulado a absorção de glicose pelas células corpóreas, o que explicaria em parte a redução nas concentrações sanguíneas, conforme observado.
A complementação da explicação viria a partir do excesso de ATP produzido durante a gliconeogênese, o que promoveria o acúmulo de Acetil- CoA na mitocôndria. Como opção, o metabolismo hepático acionaria a oxidação do Acetil-CoA, que no citoplasma e por ação da insulina, estimularia a lipogênese, que estaria facilitada devido à absorção do glicerol através do epitélio ruminal (KREHBIEL, 2008), seria interessante realizar mais medidas de glicemia sanguínea ao decorrer do tempo após a alimentação, esclarecendo este metabolismo. Portanto, a atuação da insulina teria evitado a redução do consumo com as inclusões da glicerina.
Tabela 4. Valores médios de glicemia sanguínea de cordeiros alimentados com níveis crescentes de glicerina (g/kg de MS) em diferentes tempos
Tempo 0 50 100 150 200
T0 55,87Ab 64,12Aa 47,37Ab 50,87Ab 38,37Ab T4 69,12Ba 62,87Aa 66,50Ba 74,37Ba 60,75Ba *Médias seguidas de mesma letra não diferem estatisticamente entre si, maiúscula na coluna e minúscula na linha, pelo teste DMS de Fisher a 5% de probabilidade.
No que diz respeito aos ganhos, a tendência indicou melhor desempenho quando se incluiu 100 g glicerina/kg de MS, por isso é preciso outros trabalhos e o estudo de outras variáveis para que se possa compreender como o metabolismo hepático se relaciona com os ganhos, apontando limites máximos de inclusão. É preciso também avaliar a composição do ganho em peso para se compreender qual a prioridade do metabolismo quando o glicerol está presente nas dietas.
4.4. Conclusão
Dietas de alto concentrado contendo até 200 g glicerina/kg de MS podem ser incluídas em dietas para cordeiros, sem que isso prejudique o desempenho produtivo.
4.5. Considerações Final
A glicerina proveniente do biodiesel da soja inclusa para ovinos em confinamento não interfere no consumo dos componentes nutritivos até 100 g/kg de MS. Inclusões de 150 g/kg de MS aumentam a produção de propionato.
Adicionalmente, não afeta o ganho de peso diário dos animais