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Ao chegarmos às questões que norteiam nossa pesquisa em relação a visão adotada sobre trabalho, comunicação e atividade profissional, recorremos a diversos autores que abordam essas temáticas atualmente. Apresentamos neste capítulo visões dos campos da comunicação, filosofia, psicologia e sociologia, em busca de encontrarmos a produção de sentido dessas ideias essenciais para se compreender a atividade profissional, particularmente na esfera do jornalismo, e o que ela implica nas relações de trabalho desses profissionais com reflexos na sociedade.

2.1 - O CONCEITO DE PROFISSÃO

Encontramos refúgio teórico na obra de Santos (2011), que através de uma análise com viés sociológico, tem como perguntas centrais: “o que é uma profissão?” e “como a nossa identidade é influenciada pela nossa atividade profissional?”. Embora as profissões tenham origem no século XVII, e em alguns casos antes disso, a primeira tentativa de sistematizar um estudo acerca do tema já remete ao século XX (SANTOS, 2011, p. 12), sendo dois períodos mais representativos nesta conceituação. O primeiro, antes da década de 70 do século XX, dominado pelas abordagens funcionalistas e interacionistas, e o segundo, a partir dessa década, com uma pluralidade de outras teorias.

Embora sejam apenas duas as abordagens que dominavam o período anterior à década de 70, as duas possuíam pressupostos bem diversos. Para o funcionalismo, uma profissão é uma

comunidade relativamente homogênea onde os membros partilham identidades, valores, definição de papéis e de interesses (SANTOS, 2011, p. 15), privilegiando os aspectos formais e organizacionais da institucionalização da profissão. Contrariamente ao funcionalismo, o interacionismo aborda o conhecimento identitário da profissão. Não existe uma preocupação de categorização dela, mas sim de análise e compreensão dos motivos condicionantes que levam à emergência e institucionalização da profissão (SANTOS, 2011, p. 23).

Se a teoria funcionalista ressalva a formação e a competência científica e prática do conceito de profissão, a abordagem interacionista chama a atenção para as condições sociais que permitem que determinada profissão reivindique e mantenha tanto a sua posição, como a sua competência particular. (SANTOS, 2011, p. 24).

Buscamos também reflexões sobre a noção de profissão no trabalho do jornalista em Neveu (2006), que estuda a Sociologia do Jornalismo em suas origens na França e, mais tarde, no Brasil. Em sua obra, também se encontra a visão da sociologia funcionalista e, assim como Santos (2011), o autor apresenta quatro critérios regulamentadores dessa perspectiva sobre a profissão:

Quadro 1 – Noção da profissão segundo a sociologia Funcionalista

Noção de profissão para a Sociologia Funcionalista

1 – Uma profissão supõe condições formais e acesso à atividade (diploma, certificado); 2 – Ela detém um monopólio sobre a atividade que rege, como por exemplo, a organização dos advogados ou a dos médicos;

3 – Dispõe de uma cultura e de uma ética, que pode fazer valer pelos meios contratuais que o Estado lhe outorga (ordens profissionais);

4 – Ela forma, enfim, uma comunidade real: seus membros atribuem a ela o essencial de sua energia social, são conscientes de ter interesses comuns.

Fonte: Neveu (2006, p. 36).

A teoria funcionalista foi alvo de críticas em muitas correntes de pensamento. Santos (2011), por exemplo, considera que dentro desses atributos da profissão somente o direito ou a medicina conseguiriam reunir os critérios essenciais para serem formalizados (SANTOS, 2011, p. 13). Neveu (2006) também critica a teoria, apontando que basta aplicá-la ao jornalismo para ver as ambiguidades dessa “profissionalização” (NEVEU, 2006, p. 36) e discute até que ponto a obrigatoriedade do diploma, por exemplo, beneficia ou não a categoria do jornalista. Apesar da oferta de informação na internet devolver sentido à necessidade de uma forma de garantia

(diploma) para o profissional, ele “pode vir sob a forma de um bilhete de entrada e de dispositivos de autocontrole das práticas” (NEVEU, 2006, p. 40).

Já dentro da abordagem interacionista, as atividades profissionais não podem ser apreendidas fora do seu contexto de interação e desenquadradas dos processos de distribuição social. Todo conflito no mundo do trabalho é uma questão interpessoal que se assemelha a um processo social, para além das massas trabalhadoras. E o que legitimaria uma profissão não seriam critérios regulamentadores ligados a formação profissional, por exemplo, mas seria uma identidade coletiva formada por um grupo profissional, que exista na sociedade não como um simples observador, mas como um ator ativo Dubar (apud SANTOS, 2011, p. 24).

Sobre a abordagem interacionista,

[...] Os percursos biográficos e as trajetórias profissionais dos indivíduos estão em permanente relação dialética com a sua identidade e ciclo-vital profissional. Ao contrário dos funcionalistas, os interacionistas dão especial relevo à vertente subjetiva da revelação eu-pessoa/eu-profissional e os aspectos informais da interação entre os vários grupos profissionais ou, ainda, entre os vários atores do mesmo grupo profissional. (SANTOS, 2011, p. 26).

A autora apresenta três conceitos-chave dessa perspectiva sobre a profissão:

Quadro 2 – Conceitos chaves das teorias interacionistas

Conceitos-chave das teorias interacionistas

a) Licença e mandato Hunghes (apud SANTOS, 2011). Divisão moral do trabalho. Todo emprego engloba uma reinvindicação por parte de alguém a ser autorizado (licença) a exercer certas atividades que outros, por diversas razões, não poderão exercer. Por outro lado, essa autonomia adquirida pressupõe que alguém procura reivindicar uma missão (mandato), uma maneira de fazer algo de acordo com seus domínios e as suas competências.

b) Carreira Hunghes (apud SANTOS, 2011): Percurso de uma pessoa ao longo do seu ciclo de vida profissional. Todos têm, o que nem todos têm são as oportunidades de uma carreira organizada que implica um crescimento gradual da autonomia, dos rendimentos e do poder.

c) Mundos sociais Becker e Strauss (apud SANTOS, 2011) - Esquemas convencionais de partilha de crenças e redes de cooperação necessários para o exercício da ação profissional. E implicam na existência de quatro contextos: as rotinas e hábitos inerentes ao desenvolvimento formal e informal de uma profissão; o contexto organizacional; o contexto cultural e um contexto criativo.

Fonte: Dubar e Tripier (apud SANTOS, 2011, p. 25).

Já as abordagens contemporâneas da literatura profissional, que surgiram após os anos 70, formam o que chamamos de sociologia das profissões de caráter misto e passam a agregar

questões até então ignoradas pelas abordagens anteriores, como as condições socioeconômicas e os processos culturais nos quais se desenvolve o processo de profissionalização. Um dos elementos constituintes dessa nova fase passa a ser analisar o sujeito desse processo de profissionalização, ganhando um caráter mais humano e pessoal.

Como fatores externos, essas novas teorias são influenciadas pelo contexto histórico-econômico da época, com as grandes inovações tecnológicas. E como internos, pela sociologia das profissões das teorias Neo-Weberianas, que ressaltam a questão do poder e das estratégias profissionais; e Neo-marxistas, que ressaltam o papel dos mecanismos econômicos Dubar e Triper (apud SANTOS, 2011, p. 27). Para os primeiros, a profissionalização surge como um critério excludente, capaz de limitar e controlar a entrada em uma ocupação, com base em credenciais educacionais e de controle das condições de mercado (ANGELIN, 2010, p. 9). E para os segundos, a profissão consiste na substituição da autonomia profissional pelo exercício profissional assalariado nas organizações e empresas, um processo de proletarização da profissão, com jornadas de trabalho, padronização das tarefas e um controle hierárquico (ANGELIN, 2010, p. 8-9).

Uma dessas novas teorias destacadas por Santos (2011) é a de Lerson (1977), que alia o individual ao coletivo e os interesses e finalidades econômicas da profissão aos interesses e finalidades da integração social (SANTOS, 2011, p. 30). Dessa forma, a resposta para uma questão aparentemente simples, "o que é uma profissão?”, mostra-se multifacetada e com uma ampla produção de sentidos.

Quadro 3 – Premissas básicas sobre o fenômeno da profissionalização

Premissas básicas sobre o fenômeno da profissionalização

1 - As profissões são grupos sociais em competição uns com os outros no contexto social onde se encontram;

2- Cada grupo pode prosseguir [SIC] interesses econômicos, mas pode, igualmente, ter outros motivos para sua ação coletiva;

3 - Cada profissão tem um lugar no sistema de classes, uma vez que as oportunidades derivam do seu conhecimento e qualificação;

4 - A posição de classe é determinada pelos traços estruturais da sociedade industrial mas a ação dos seus membros é sempre significativa e pode ser utilizada como estratégia social.

Fonte: Lerson (apud SANTOS, 2011, p. 29).

No Brasil, o processo de profissionalização só veio ocorrer no início do século XX, com os médicos sanitaristas cariocas, como portadores do saber científico, e com os engenheiros Barbosa (apud ANGELIN, 2010, p. 11). Embora anterior a essas profissões, já existissem os advogados no país, o autor considera que a atividade tinha como ponto de partida questões de

classe, de patrimônio familiar e relações políticas, o que não os incluiria nesse quadro por não legitimarem sua atuação através do saber (ANGELIN, 2010, p. 12). No final dos anos 60, teriam ainda surgido os economistas, que através do seu conhecimento passaram a deter o controle sobre o planejamento estatal e definir padrões organizacionais para empresas privadas (ANGELIN, 2010).

Em consonância com Barbosa (1998), Diniz (2001) também afirma que um dos aspectos mais transparentes, que revela a expansão e diversificação profissional no Brasil é o grande crescimento do número de ocupações que exigem o diploma universitário: se em 1950 eram apenas menos de uma dúzia de ocupações que exigiam o nível superior, em 1980, passaram a ser 114 ocupações, das quais 76 estavam regulamentadas. Se não bastasse o crescimento do número de profissões com exigência do ensino superior, verifica-se, também, que houve um enorme e importante crescimento do número de profissionais no mercado de trabalho com ensino superior. (ANGELIN, 2010, p. 12).

Além do aumento no número de diplomas em diversas carreiras, outras evidências da profissionalização ocorrida no Brasil são apontadas por ANGELIN (2010) a partir de Barbosa (1998), como o crescimento da dependência da população do saber técnico-científico, a busca pelo reconhecimento oficial da profissão e pelos controles dos profissionais sobre sua atividade, a própria reorganização do Estado no Brasil e a organização de carreiras, a exigência das empresas por maiores níveis de qualificação e, por último, o crescimento do número de mulheres no mercado de trabalho, promovendo a feminização de algumas profissões BARBOSA (apud ANGELIN, 2010, p. 14).

2.2 - O JORNALISMO BRASILEIRO

Dentro da profissionalização do jornalismo no Brasil, Neveu (2006) relata que há uma forte pressão da categoria pela não existência de uma autarquia para o controle do exercício profissional, o que remonta ao mito do jornalismo ser uma “profissão sem fronteira” e não se enquadrar na sociologia das profissões organizadas. Essa autarquia chegou a ser solicitada pela

Federação Nacional dos Jornalistas em 2004 durante o Governo Lula40, sendo “vetada” pelos

próprios meios de comunicação (NEVEU, 2006).

40 “Essa resistência ficou patente em 2004 quando o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso Nacional, atendendo a pedido da Federação Nacional dos Jornalistas, projeto de lei criando o Conselho Federal de Jornalismo. A esta autarquia caberia o controle do exercício profissional, nos moldes do que existe para outras categorias profissionais, como as de médicos, advogados e engenheiros. A iniciativa foi unanimemente bombardeada pelos veículos, com editoriais virulentos e matérias comparando a iniciativa à tentativa de cercear a liberdade de expressão. O governo Lula recuou e o projeto de lei foi retirado” (NEVEU, 2006, p. 187). Recentemente, no governo do presidente Jair de Bolsonaro, uma nova Medida Provisória (MP) revogou as leis que

Para Pena (2008), talvez o grande temor em discutir o tema esteja na memória recente da ditadura militar, que leva à confusão conceitual entre poder e censura, gesto arbitrário de proibição de qualquer manifestação humana e regulamentação, que depende de regras igualitárias definidas por órgãos representativos da sociedade. Para o autor, uma das aplicações mais comuns para o conceito de regulamentação é o de serviços públicos, e o jornalismo, independente do veículo, é um dos serviços públicos “mais importantes da atualidade”, pois comporta o acesso à informação (PENA, 2008).

Em uma perspectiva histórica do surgimento do jornalismo no país, Neveu (2006) ressalta ainda que a demora da evolução profissional do jornalismo no Brasil foi muito influenciada pelo império português, que terminou somente no fim do século XIX, e ainda pelos regimes ditatoriais e pelas crises institucionais vividas ao longo do século XX. O autor relata que o primeiro instrumento legal regulamentador (Decreto-Lei 910, de 1938)41 já definia o jornalista como “o trabalhador intelectual cuja função se estende desde a busca de informações até a redação de notícias”42. Ato assinado por Getúlio Vargas43, já dirigindo o país sob o Estado Novo e uma Constituição44 que lhe dava poderes ditatoriais.

Em sua cartografia das mudanças e permanências no jornalismo em Natal, Mendes (2006, p. 21) ressalta que as transformações sempre fizeram parte da história do jornalismo, a exemplo da década de 50, quando os jornais se tornaram empresas comerciais detentoras de poder econômico. Essas alterações englobam aspectos que vão desde a forma de produzir e promover a circulação do conteúdo, atravessando o perfil dos profissionais, até a forma de gerir seus negócios (MENDES, 2006, p. 31). Para facilitar a percepção de algumas dessas principais mudanças, a autora utilizou um quadro com alguns autores que tratam dessas transformações:

regulamentam o exercício do jornalismo e de outras profissões. A extinção faz parte da Medida Provisória 905/19, que instituiu o chamado Contrato de Trabalho Verde e Amarelo, no último dia 12 de novembro. Mais informações em: https://fenaj.org.br/entidades-repudiam-extincao-do-registro-de-jornalistas-e-outros-profissionais/. Acesso em: 15 jan. 2021.

41 Disponível em: http://legis.senado.leg.br/norma/524444/publicacao/15739587. Acesso em: 15 jan. 2021.

42 “Mesmo antes da exigência legal do diploma de nível superior, em 1969, a profissão de jornalista no Brasil sempre esteve relacionada a uma atividade intelectual” (NEVEU, 2006, p. 186).

43 Líder da Revolução de 30, que pôs fim a República Velha, presidente do Brasil de 1951 a 1954. “O mesmo Getúlio, que inaugurou a política trabalhista brasileira, editaria também os dois atos seguintes dispondo sobre o regulamento profissional dos jornalistas: o Decreto-Lei 7.037, de 1944, que fixou a remuneração mínima e definiu as funções dos jornalistas (pouco alteradas na lei até hoje) e o Decreto-Lei 5.480, que instituiu o primeiro curso de jornalismo no país” (NEVEU, 2006, p. 186).

44 O chamado Estado Novo ocorreu entre 1937 e 1945, período em que Getúlio Vargas governou o país. Entre as medidas tomadas, no início de seu governo, conta-se a nomeação de elementos da sua confiança para governar os Estados, profissionalização das Forças Armadas e do serviço público, desarmamento das forças estaduais e a implantação da censura. O Código Penal e o Código de Processo Penal elaborados nesta época, ainda se encontram em vigor. Disponível em: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$estado-novo-no-brasil. Acesso em: 15 jan. 2021.

Quadro 4 – Mudanças no jornalismo segundo a perspectiva de outros pesquisadores Conjunto de mudanças do jornalismo no Brasil Mudança na postura dos antigos consumidores de mídia (SODRÉ, 1999);

Extinção de funções e acúmulo de tarefas nas empresas jornalísticas (LIMA, 2011);

Aceleração dos fluxos de produção e disponibilização da notícia; proliferação de plataformas para a disponibilização de conteúdo multimídia e alterações nos processos de coleta de informação (‘news gathering’) (PEREIRA; ARGHIRNI, 2011).

Enfraquecimento dos sindicatos Steensen (apud PEREIRA; ARGHIRNI, 2011);

Maior poder por parte do antigo consumidor de mídia em pautar e transmitir acontecimentos (PORTO; FLORES, 2012);

Maior acesso às ferramentas de publicação (RAMONET, 2013);

Complexificação do conjunto de dispositivos jornalísticos (BELOCHIO, 2013);

Consolidação do jornalismo móvel (FIRMINO, 2015) e multiplataforma (SALAVERRÍA, 2012);

Criação de produtos autóctones45 (BARBOSA et al., 2013);

Fechamento de empresas e demissões de jornalistas;

Antecipação de horários e extensão da jornada em virtude do privilégio à informação online (MORETZSOHN, 2014);

Embaralhamento das fronteiras entre jornalismo e publicidade com a emergência do conteúdo patrocinado ou publicidade nativa (FRAGA; SILVA, 2015).

Fonte: Mendes (2011, p. 30-31).

Um dos elementos determinantes dessas mudanças, que está presente em muitos dos aspectos desse quadro, é o ambiente virtual. Ele modificou vários aspectos do jornalismo e da própria vida humana, influenciando todos os tipos de veículos, nas mais diversas fases de produção e recepção da notícia (PENA, 2008). Portais, websites, blogs, coletivos e arranjos alternativos descentralizam a informação e criam formas de comunicação mais descentralizadas entre si e entre o público. Porém, cria-se também um grande volume de notícias, que dificultam ou inviabilizam a verificação de suas informações, tornando-os pouco confiáveis ao leitor.

45 Produtos autóctones são elaborados especificamente para tablets ou smartphones lançados como parte das estratégias das organizações jornalísticas em conformidade com os processos de convergência jornalística, com lógica multiplataforma horizontalizada integrando web, tablets, smartphones e versões em PDF e page flip da edição impressa em um continuum multimídia dinâmico Barbosa et al. (apud MENDES, 2011, p. 31).

O grande desafio do jornalismo dentro do continente digital, portanto, é encontrar sua linguagem e democratizar suas interfaces (PENA, 2008). E quais seriam os grandes desafios do jornalista nesse ambiente de trabalho?

2.3 - O SOFRIMENTO E O PRAZER NO TRABALHO

Na busca por compreendermos melhor o trabalho através de uma visão mais ampla na contemporaneidade, encontramos a filosofia de Han (2017), que fala sobre o mundo acelerado e as tecnologias misturando profundidade filosófica a questões da cotidianidade46. O pesquisador cita as consequências do sofrimento do trabalho ao indivíduo de tal forma que distingue as épocas através de suas patologias. Para ele, o século XX foi a era imunológica (pela ideia de ataque e defesa difundida pela guerra fria), onde tudo o que causava estranheza era eliminado, não necessariamente por ser hostil, mas por sua alteridade. Um mundo cercado por barreiras que impediam os processos de troca e hibridização, tendo como traço fundamental a dialética da negatividade (HAN, 2017, p. 7-8).

Já no século presente, o século XXI, inauguramos para o autor a era neuronal, estágio patológico devido ao exagero, dessa vez, da positividade, que resulta da superprodução, super desempenho ou super comunicação (HAN, 2017, p. 10). Como reflexo dessa nova era há um aumento de doenças neurológicas tais como: depressão, transtorno por déficit de atenção, hiperatividade e perturbações de personalidade, como o transtorno de personalidade borderline e a síndrome de burnout (HAN, 2017, p. 7). Todas, para ele, consequências da auto-exploração.

Sobre essa perspectiva da auto-exploração, afirma o autor,

Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência. Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal (HAN, 2017, p. 17).

Para Han (2017), características inerentes ao mundo do trabalho atual, como a multitarefa - substantivo empregado nos dispositivos tecnológicos para executarem mais de uma tarefa, e ao mesmo tempo tão exigido no ser humano dentro e fora do ambiente de trabalho

46 Filósofo alemão nascido na Coréia do Sul, teórico cultural. Desde 2012 Han é professor de Filosofia e de Estudos Culturais na Faculdade de Artes da Universidade de Berlim, onde dirige um programa de Estudos Gerais. Inspirado em obras de Hegel e Martin Heidegger, possui pelo menos três títulos em português: A sociedade do cansaço; A sociedade da transparência, A agonia de Eros, e o mais recente: No enxame: perspectivas do digital.

- seriam um retrocesso. Na vida selvagem o animal também era obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades e, por isso, não era capaz de um aprofundamento contemplativo (HAN, 2017, p. 18). E é a própria capacidade de contemplação, segundo o autor, é o fator diferenciador entre o ser humano e um animal.

Outras características presentes no mundo do trabalho atual são criticadas pelo filósofo, como o ritmo acelerado ligado especialmente ao desempenho profissional. Desprovido de tempo em uma forjada liberdade de quem muitas vezes não tem uma carga-horária determinada nem local físico para cumprir um expediente, o trabalhador para Han (2017) se aproxima cada

vez mais do formato 24/7 (24h, sete dias por semana), tão sonhado pelo Capitalismo47. Dessa

forma, o sujeito do desempenho é mais rápido e eficiente do que o sujeito da obediência do último século, e torna-se “empresário de si mesmo”, e “senhor e escravo de si mesmo” (HAN, 2017, p. 15 e 25).

Antes de tratarmos sobre o sofrimento e o prazer na atividade jornalística, é necessário notar qual a visão dos próprios jornalistas sobre sua atividade profissional. Abreu (2013), a partir de entrevistas realizadas com jornalistas que atuam no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, nos jornais e revistas de maior circulação do país, investigou como os jornalistas percebiam sua posição e função social, e identificou nessas entrevistas três formas centrais de posicionamento diante da profissão, de forma a agrupar os entrevistados em três categorias:

A primeira seria formada pelos que se identificam como mediadores entre a sociedade global e o indivíduo, ou entre a população e o poder público, o que corresponde a 27,5% dos entrevistados. A segunda, formada por aqueles que se veem como produtores e difusores da informação, com a maioria de 50% dos entrevistados. E a terceira, constituída por aqueles que se atribuem o papel e a função social de fiscal da sociedade, de crítico do governo, incumbido "de vigiar o poder", de "fazer um jornalismo de denúncia social", com 22,5% dos entrevistados

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