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Capítulo VI “Christiana sum”

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3.1 Comentário

3.1.6 Capítulo VI “Christiana sum”

i. No dia seguinte nós estávamos almoçando, quando subitamente fomos levados para nossa audiência. Nós chegamos na praça pública, e imediatamente rumores percorreram a vizinhança e uma multidão se formou. ii. Nós subimos na plataforma. Todos os outros foram interrogados e confessaram sua fé. Então chegou minha vez. Só então meu pai apareceu com o meu filho. Ele me puxou dos degraus e disse, "Tenha misericórdia do bebê!" iii. O agente imperial Hilarianus tinha acabado de receber autoridade para julgar crimes capitais como sucessor do procônsul anterior Minicius Opimianus. Ele disse: "Poupe o miserável do seu pai, poupe a criança. Faça o sacrifício para o imperador." iv. Respondi: "Não farei". Hilarianus perguntou: "Você é cristã?" respondi: "Sim, eu sou cristã". v. Meu pai ficou ali parado, ainda tentando me desviar. Hilarianus ordenou que ele fosse jogado, e eles o espancaram com uma vara. Me senti horrível pelo o que estava acontecendo com meu pai, como se eu estivesse apanhando. Me senti péssima. Que senhor miserável. vi. Depois disto, ele nos declarou culpados e nos sentenciou a lutar com animais na arena. Voltamos jubilosos para a cela. vii. Em seguida, como o bebê estava acostumado a ser amamentado e viver comigo na prisão, assim que possível eu enviei o diácono Pomponius para

303 MOSS, 2013. p.119

304 HEFFERNAN, 2012, p.186. 305 PERKINS, 1995, p.107.

falar com meu pai, pedindo-lhe o bebê. Mas meu pai se recusou. viii. Mas foi da vontade de Deus: além de o bebê não querer mais meus seios, eles também não ficaram inflamados. E assim eu não fiquei sujeita à ansiedade pelo bebê e nem com os seios doloridos.

Este capítulo narra a audiência pública de Perpétua e seus companheiros catecúmenos. O julgamento acontece em plena praça pública, o que pressupõe uma área residencial em volta do fórum, tendo em vista a rápida aproximação e reunião da multidão para assistir ao julgamento.306

Perpétua e seus companheiros são elevados numa plataforma (catasta) para serem vistos e julgados. Segundo Heffernan, esse tipo de plataforma era muito usado para expor escravos à venda e indivíduos acusados de crimes.307 Eles são - ou alguns deles – tanto escravos, quanto criminosos. Perpétua é a última a ser julgada; antes dela todos confessaram sua fé e foram condenados. Além disso, a narrativa novamente é tomada pela dramática luta dela com seu pai. Desta vez, seu pai traz consigo seu filho recém- nascido, crendo que agora ela cederá aos seus apelos.

O procurador Hilarianus se junta ao apelo do pai de Perpétua, pedindo-a que faça o sacrifício ao imperador, o que prontamente é rejeitado por ela. O motivo pelo qual ela não sacrificará ao imperador é revelado logo em seguida. Quando Hilarianus pergunta se ela é uma cristã, ela prontamente diz: “Sim, eu sou uma cristã”. Seria esse o motivo da prisão de Perpétua e seus companheiros? De acordo com G. E. M. De Ste. Croix, Desde 112 d.C. a acusação normal contra os cristãos era simplesmente porque diziam ser cristãos, eles eram punidos por sua identidade. A sua hipótese se baseia na correspondência de Plinio, governador da Bitinia, ao imperador Trajano, - cujo diálogo se refere àqueles que foram acusados ante ele de serem cristãos - e alguns textos dos apologistas cristãos do II século.308 Moss nos fornece o exemplo de outro relato de martírio também de Cartago, Acts of the Scillitan Martyrs, cujas personagens principais, Secunda e Vestia, ao serem interrogadas pelo procurador também afirmam serem cristãs.309 306 HEFFERNAN, 2012, p.194. 307 HEFFERNAN, 2012, p.195. 308 CROIX, 2006. p.110. 309 MOSS, 2012, p.139.

Entretanto, em ambos os relatos, de Plinio a Trajano, a PPF parece unir a negação do sacrifício ao imperador com a afirmação de ser cristão. São sinônimos. No caso de Perpétua:

Sua rejeição de sacrificar ao imperador é vista como sedição e traz a ela a sentença de morte, uma vez que ao rejeitar sacrificar ela reconhece que ela rejeita a pietas tradicional. O ritual do sacrifício tanto para os imperadores mortos quanto para os vivos era, em prática, o reconhecimento de um contrato social entre os governantes e os governados.310

Mediante tal resposta, Hilarianus não hesitou em condená-la às feras (et damnat

ad bestias), mas antes da sentença ele tenta mais uma vez convencê-la a negar a sua fé. Ele ordena que seu pai seja espancado diante de todos. Além de ressaltar a violência e injustiça por trás das condutas do império, a narrativa mais uma vez destaca a subordinação do pai à filha, e Perpétua segue corajosamente desafiando tanto a autoridade patriarcal representada pelo seu pai, quanto à autoridade estatal representada pelo procurador romano.311

Após a sentença os mártires expressam uma profunda alegria pela condenação recebida. Essa ideia se tornou um topos na literatura de martírio cristão, como atesta Heffernan312, presente também no primeiro capítulo desta pesquisa. É possível encontrar essa postura diante do sofrimento nas palavras da escrava Felicidade, companheira de prisão de Perpétua (15,2), e já na arena, os mártires Revocatus e Saturninus faziam ameaças à multidão de espectadores que os assistiam. Com isso, as pessoas irritadas mandaram que eles fossem espancados pelos caçadores com varas e chicotes. Porém, para os mártires isso não era visto com maus olhos, confirmado pelo narrador: “e os mártires estão gratos por experimentar algo do sofrimento do Senhor” (18,9).

De volta à prisão, Perpétua envia o diácono Pomponius para buscar seu filho que estava sob os cuidados de seu pai, que se recusa a enviá-lo. No mínimo, era de se esperar tristeza por parte dela pela ausência de seu filho; mas sua tranquilidade baseia- se na total provisão de Deus, tanto na falta de desejo do bebê por seus seios, quanto na sua saúde física e psicológica. Neste momento, a única coisa que poderia fazê-la desistir do martírio era a maternidade; no entanto, Deus já havia pensado em tudo.

310 HEFFERNAN, 2012, p.195. 311 PERKINS, 1995, p.107. 312 HEFFERNAN, 2012, p.204.

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