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Prezada Violet,

Desculpe escrever do nada. Nós nos conhecemos no enterro do meu pai, Terry Farnham, no ano passado, e desde então tenho pensado em algumas das coisas que você me disse naquela ocasião, principalmente sobre a minha mãe, Emily. Quando você mencionou “o julgamento”, quei confusa e não sabia do que você estava falando, mas depois z uma pesquisa e encontrei uma reportagem de 1978 do Evening Post que fazia referência a uma acusação de abandono de incapaz. Obviamente, isso foi um choque...

As crianças estavam na escola, Becca tinha ido encontrar Hayley e Rachel digitava com uma única mão no notebook. Sua missão de falar com Violet pessoalmente podia ter falhado, mas as perguntas sobre a mãe não lhe saíam da cabeça. Precisava de algumas respostas, cavar mais fundo para desenterrar a verdade, nem que fosse para se distrair dos hematomas.

Depois que elas tiveram aquela conversa estranha no enterro, Rachel decidiu tirar aquilo da cabeça. Ela não queria saber, disse para si mesma; às vezes é melhor continuar na ignorância. Além disso, já tivera que lidar com muita coisa naqueles meses: o luto, o m do casamento, o desemprego, toda aquela diversão. Mas as palavras da outra mulher voltavam de vez em quando como sussurros em um sonho, atormentando-a com suas

entrelinhas. Eu estava com o seu pai, sabe, quando aconteceu. Ele alguma vez falou de mim?

A tentação de descobrir a verdade acabou vencendo e, quase um ano depois de falar com Violet, Rachel cedeu. Certa noite, após várias taças de vinho, recorreu ao Google e digitou o nome da mãe. Um segundo depois, veio a reportagem acusatória no arquivo do jornal, como se estivesse esperando por ela em silêncio todo aquele tempo. “Mãe troca bebê por 24 horas de farra”, dizia a manchete. Naquele momento, a caixa de Pandora se abriu. Não dava para voltar atrás.

O artigo se referia à bela e amorosa Emily como bêbada, agressiva e irresponsável; detalhava que, na noite de uma sexta-feira de dezembro, ela havia deixado a lha Rachel, de 2 anos, sozinha no pequeno apartamento em que elas moravam para ir dançar. Uma vizinha chamou a polícia quando ouviu a bebê chorar na manhã seguinte. “Foi de dar pena”, dissera a Sra.

Ruth Farraday, “era como se ela soubesse que havia sido abandonada”. E a polícia acabou arrombando a porta para resgatar a garotinha. Que era ela.

Ler aquelas palavras, aquela história, no papel preto e branco do jornal, a devastou. Era como se alguém pegasse tudo o que ela achava que sabia sobre seu passado e virado de cabeça para baixo. No início, disse a si mesma que só podia ser engano – uma coincidência, talvez, outra Emily Farnham. Não podia ser verdade. A mãe a amava! Meu pequeno dente-de-leão, era assim que a chamava; ela mesma havia escrito as palavras no verso da fotogra a, com aquela caligra a inclinada tão característica.

Mas Violet mencionou um julgamento, não foi? E no fundo de seu coração, Rachel sabia que a história era verdadeira. Ela se debruçou sobre aquela pequena notícia repetidas vezes até decorá-la de trás para a frente.

Em seguida, vasculhou posteriores edições on-line do jornal, atrás de notícias sobre o processo judicial. Emily foi acusada de abandono de incapaz, mas Rachel não encontrou nenhuma outra informação sobre o caso. Será que ela havia perdido a guarda da lha? Tinha sido presa? O que aconteceu depois?

As perguntas giravam na cabeça dela: todas as lacunas da reportagem e os detalhes ausentes que ela queria saber. O que mais o pai não havia

contado? E onde ele estava, a nal, enquanto a família mergulhava no caos e sua lha chorava abandonada em um apartamento nojento no terceiro andar? Fora de cena, pegando Violet Pewsey, pelo jeito. Ele devia ter encoberto aquela verdade intragável, o real motivo pelo qual os dois foram embora de Manchester, maquiando a história com suas mentiras.

Em meio à incerteza, havia uma pergunta que gritava mais alto que todas as outras, e de maneira mais insistente. E se Emily não tivesse morrido de câncer ósseo, como Terry sempre contara? E se ela ainda estivesse viva?

Não foi difícil rastrear Violet um ano depois. Wendy havia criado uma página no Facebook para homenagear Terry, e Rachel esquadrinhou as postagens arquivadas atrás de pistas. Como o pai adorava mídias sociais, a página recebeu várias mensagens de condolências: antigos colegas, amigos do time de críquete e do pub, vizinhos e um monte de fãs do Manchester United com quem ele havia conversado em vários fóruns. O coração dela batia forte cada vez que via um comentário de alguma Emily, mas uma investigação mais aprofundada logo os descartava. Então encontrou a mensagem de Violet.

Violet Pewsey: Que notícia triste. Terry, vc era um bom homem. Nunca vou me esquecer das risadas que demos naquele m de semana em Blackpool.

Uma estrela se apagou no céu. Saudades. Bjs

Fim de semana em Blackpool, é? Foi a isso que Violet se referiu ao mencionar que eles estavam juntos “quando aconteceu”? Será que o pai tinha traído Emily e ela se vingou enchendo a cara, deixando a cautela de lado e largando Rachel sozinha? Talvez ela só quisesse sair para tomar um drinque. Talvez estivesse segurando a barra sozinha, chateada com Terry – só uma tacinha rápida, pensou, fechando silenciosamente a porta do apartamento para não acordar a bebê antes de se esgueirar até o pub mais próximo. Mas de alguma forma tudo deu errado...

Rachel sabia como era duro ser mãe solteira – era o trabalho mais difícil do mundo. Odiava pensar na mãe no auge do inverno, com frio e o coração partido, cansada e infeliz, tendo só uma bebê como companhia. Todo mundo comete erros, certo? E se Emily tivesse deixado Rachel sozinha naquela noite por cerca de uma hora para tomar um drinque rápido com

uma amiga e levantar o moral? Aquilo não seria a pior coisa do mundo, seria? Podia ter cado presa em alguma conversa. Quem sabe sido até sequestrada! Atacada em um beco a caminho de casa – essas coisas podiam ter acontecido!

Talvez, porém – e esse era o pensamento mais sombrio de todos, o que se recusava a ir embora –, tivesse sido culpa de Rachel. Talvez ela tivesse aprontado naquele dia, reclamado e choramingado, irritando Emily até que a mãe perdesse a paciência. Talvez Emily não gostasse dela, desejasse nunca ter tido uma lha para atrapalhar sua vida. Será que Rachel era a verdadeira culpada pelas ações da mãe?

Ela se recostou na cadeira dura da cozinha, sentindo-se péssima. Depois de encontrar Violet no Facebook quinze dias antes, bastaram alguns cliques rápidos para saber mais sobre a mulher. Violet não parecia ter habilitado as con gurações de privacidade na conta, e Rachel descobriu que ela morava em Manchester, trabalhava como bibliotecária e era solteira, embora, como ela mesma escreveu, ainda estivesse “esperando pelo homem certo!!!”. Era vegetariana, amante da vida selvagem e ativa no grupo voluntário local. Em poucos minutos, Rachel telefonou para as bibliotecas de Manchester e a localizou na de Didsbury. Bingo.

O plano da quarta-feira anterior era viajar até Didsbury, aparecer na biblioteca e convencer Violet a tomar um café ou almoçar com ela para responder a algumas perguntas, cara a cara; espantar de vez aqueles fantasmas – ou não. É claro que uma pancada na cabeça e um encontro com o chão de concreto da estação puseram m àquela ideia. Não estava exatamente em condições de repetir a viagem tão cedo também. Em vez disso, poderia enviar uma mensagem, palavra por palavra, pergunta por pergunta.

Voltou a redigir, decidida a encontrar a verdade de uma vez por todas.