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CAPÍTULO XLIL

No documento Universidade da Amazônia (páginas 132-136)

De como Carlos se fez barão. — Fim da história de Joaninha. — Georgina abadessa. Juízo de Frei Dinis sobre a questão das frades e dos barões. — Que não pode tornar a ser o que foi, mas muito menos pode ser o que é. O que há de ser, Deus o sabe e proverá. — Vai o A. dormir ao Cartaxo. - Sonho que tem aí. — Volta a Lisboa. — Caminhos de ferro e de papel. — Conclusão da viagem e deste livro.

Acabei de ler a carta de Carlos, entreguei-a a Frei Dinis em silêncio. Ele tornou-me:

— Leu? — Li.

— Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: não o conheço, mas...

— Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente... — Em quê! Nas eleições, na agiotagem, nos bens nacionais?

— Não, senhor. Fui camarada de Carlos, não o vejo há muitos anos e... — Nem o conhecia se o visse agora: engordou, enriqueceu, e é barão... — Barão!

— Que transformação! como se fez isso santo Deus! E Joaninha? e Georgina?

— Joaninha enlouqueceu e morreu. Georgina é abadessa de um convento em Inglaterra.

— Abadessa?

— Sim. Converteu-se a comunhão católica; era rica, fundou um convento em -

shire, e lá está servindo a Deus.

— E esta pobre senhora, a avó de Joaninha?

— Aí está como a vê, morta de alma para tudo. Não vê, não ouve, não fala, e não conhece ninguém. Joaninha veio morrer aqui nesta fatal casa do vale, eu estava ausente, expirou nos braços dela e de Georgina. Desde esse instante a avô caiu naquele estado. Esta morta, e não espero aqui senão a dissolução do corpo para o enterrar, se eu não for primeiro; e Deus queira que não! Quem há de tomar conta dela, ter caridade com a pobre demente? Mas depois... oh! depois,,. espero no Senhor que se compadeça enfim de tanto sofrer e me leve para si.

— Mas Carlos?!

— Carlos é barão: no lho disse já? — Mas por ser barão?...

— Não sabe o que é ser barão? — Oh se sei! Tão poucos temos nós? — Pois barão é o sucedâneo dos... — Dos frades... Ruim substituição!

— Vi um dos tais papéis liberais em que isso vinha: e é a única coisa que leio dessas há muitos anos, Mas fizeram-mo ler.

— E que lhe pareceu?

— Bem escrito e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os liberais não tiveram menos.

— Erramos ambos.

— Erramos e sem remédio. A sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era: — mas mito menos ainda pode ser o que é. O que há de ser, não sei. Deus proverá.

Dito isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviário e pôs-se a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais atenção nem pareceu cônscio da minha estada ali.

Sentia-me como na presença da morte e aterrei-me.

Fiz um esforço sobre mim mesmo, fui deliberadamente ao meu cavalo, montei, piquei desesperadamente de esporas, e não parei senão no Cartaxo.

Encontrei ali os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fora da vila á hospedeira casa do Sr. L. S.

Rimos e folgamos até alta noite: o resto dormimos a sono solto.

Mas eu sonhei com o frade, com a velha — e com uma enorme constelação de barões que luziam num céu de papel, donde choviam, como farrapos de neve, numa noite polar, notas azuis, verdes, brancas, amarelas, de todas as cores e matizes possíveis. Eram milhões e milhões de milhões...

Nunca vi tanto milhão, nem ouvi falar de tanta riqueza senão nas Mil e uma

noites.

Acordei no outro dia e não vi nada... só uns pobres que pediam esmola à porta.

Parti para Lisboa cheio de agoiros, de enguiços e de tristes pressentimentos. O vapor vinha quase vazio, mas nem por isso andou mais depressa.

Eram boas cinco horas da tarde quando desembarcamos no Terreiro do Paço.

Assim terminou a minha viagem a Santarém; e assim termina este livro.

Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.

Se assim pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura, porém.

Se as estradas fossem de papel, fá-la-iam, não digo que não. Mas de metal!

Que tenha o governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.

* * *

Nas Viagens aparecem alguns nomes de personalidades da época, mas apenas por iniciais ou em simples menção não identificada. São elas:

O amigo a cujas instâncias se deveu a viagem a Santarém: Passos Manuel. C. da T. — Conde da Taipa, Gastão da Câmara Coutinho Pereira de Sande. L. S. — Luís Teixeira de Sampaio, 1º visconde do Cartaxo.

Marquês do F. — 1.º marquês do Faial, Domingos Antônio de Sousa Coutinho.

C. J. X.— Cândido José Xavier, conhecido pelo "Pernas de égua". estadista liberal desafeto a Garrett.

O mestre J. P. (ou mestre P.) — Joaquim Pedro, ferreiro do Cartaxo. Sr. D. (ou o velho D.) — Dâmaso Xavier Santos. lavrador do Cartaxo.

C. do S. — Conde do Sobral, Hermano José Braancamp de AImeida Castelo Branco.

O Sr. M. P. Manue l Passos (Passos Manuel).

Barão do P. — Barão do Pombalinho, Antônio de Araújo Vasques da Cunha Portocarrero.

Barão de A. — Barão de Almeirim, Manuel Nunes Freire da Rocha. Baronesa de A. — Baronesa de Almeirim, Luisa Joana Braancamp.

NOTAS DO AUTOR

1 ) É visível alusão ao popular e inimitável opúsculo e Xavier de Maistre, Voyage

autor de ma chambre, que decerto foi principiado a escrever em Turim, e que muitos

supõem que fosse concluído em São Petersburgo.

2) É puramente histórico isto; e também é verdade que em grande parte daqui se originou a perseguição brutal que sofreu o A. dali a poucos meses.

3) Regata chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza, às carreiras de barcos apostados ao desafio A palavra e a coisa introduziu-se em Inglaterra, onde é moda e popularíssima.

4) Estes versos são uma espécie de paródia dos famosos fragmentos de Alceu, de que só existe memória nos escólios que nos conservou Eustáquio. Nas Flores sem

frutos, pág.56, vem a tradução daquele belo fragmento.

5) Os protocolos das comissões de inquérito de há oito para dez a esta parte, sobre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em Inglaterra, é a prova real dos grandes cálculos da economia política, ciência que eu espero em Deus que se há de desacreditar muito cedo.

6) A tradução chegada destes memoráveis versos de Shakespeare é: Há mais coisas no céu, há mais na terra

Do que sonha tua vã filosofia

7) Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tão popular de Eug. Sue,

Os Mistérios de Paris.

8) Addison, o poeta, foi ministro da rainha Ana de Inglaterra, e membro do célebre gabinete chamado de All-isits

9) Um dos dois cemitérios de Lisboa — seja dito para a inteligência do leitor provinciano — chama-se dos Prazeres, por uma ermida de N. S.ª que ali existia com esta invocação desde antes do terreno ter o presente destino. É notável a coincidência dos nomes.

10) É fácil ver que o interlocutor deste diálogo conhecia esse curioso personagem da história do Condestável, não pelas crônicas, mas pelo drama que tem o seu nome. 11) O convento que tem este nome em Paris, é casa de educação de meninas nobres e recolhimento de senhoras também.

12) Antônio Ferreira, que viveu no fim do século passado, princípio deste, modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que pintava o Morgado de Setúbal; as suas pequenas figurinhas são tão estimadas pelos entendedores como os melhores biscuits de Sévres e de Saxônia antiga.

13) A fábula daquela ave imortal teve origem nas idades obscuras da Europa quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da fênix, palmeira em grego, tomaram nossos bárbaros avós por dito de uma passarola com que os outros nunca sonharam.

14) Coleção de antigas rapsódias germânicas contendo o maravilhoso e poético de suas origens históricas e que é para os povos teutônicos o que era a Ilíada para os helenos. Só se não sabe o nome do Homero alemão que as redigiu e uniformizou como hoje se acham.

15) Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Santos, que tem este nome, é onde vão apodrecer as carcaças dos navios velhos e já inúteis.

16) Fender se chama em inglês a pequena e baixa teia de metal que defende o fogão nas salas, para que não caiam brasas nos sobrados. Descansam nele os pés naturalmente quando a gente se está confortavelmente aquecendo em liberdade 17) Tem-se disputado muito sobre qual seja a bebida espirituosa celebrada por Shakespeare tantas vezes com este nome. A opinião mais aceita é que fosse boa e velha aguardente de França.

18) O grito de guerra comum a todas as nações cristãs espanholas era Santiago! Quando na acessão da casa de Avie nos aliamos intimamente com a Inglaterra contra Castela, começamos a invocar S. Jorge.

19) Singela e original expressão do santo arcebispo numa carta de convite a seu amigo. Fez-se como devia ser, proverbial esta frase.

20) Transcrevemos aqui o original alemão para se avaliar o que fica dito no texto.

Ihr naht euch wíeder, schwankende Gestalden, Die frúh sich einst dem trüben Blick qezeigt.

Versuch ich tochi euch desmol fest zo halten? Fúbi' ich mcm Herz nocb jenem Wahn geneígt?

Ihr drdngt euch ai! nun gur, so rnàgt ihr wolten, Wie ihr ans Dunst unci Nebe? um mích steigt,

Mem Bussenjúhjt sichtju9endfích erschúttcrt Vom Zauberhauch, der eureu Zug umwítwrt. fhr bnngt mit euch de Bílder /roher Tape, Und manche hebe Schatten sreigen auf;

Gfeich erner halbverk!ungen Soge

Komrnt erste Lieb' und Freunci/chafi mít herauf;

Der Schmerz wind fleu, es wjederholt de klage Des Jebens Jabvnntísch Írren Louf Und nennt de Guten, und de schóne Stunden

Vom GJúck getãuscht, vor mir himuesseschwunden. 21) Na sua obra intitulada Les Arts en Portugal, Paris, 1846

22) Centro e barsão são qualificações e nomes de empregos teatrais.

No documento Universidade da Amazônia (páginas 132-136)

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