A situação econômica da Argentina se agravou intensamente no ano de 2001 que se iniciou com uma série de movimentação de trabalhadores contra o não-pagamento de salários e fechamento de fábricas.
Os trabalhadores municipais de San Salvador de Jujuy marcharam pelas ruas centrais da cidade em reivindicação pelos salários atrasados, enquanto que em várias outras localidades do interior da província se faziam bloqueios de ruas.280 A ATE (Asociación de
Trabajadores del Estado) convocou uma paralisação pelos mesmos motivos. Este
sindicato passou a ser ainda mais combativo durante o governo de Fernando De La Rúa. No mês de janeiro, esta entidade, em conjunto com os aposentados ligados à CTA, se concentrou na frente da prefeitura de Buenos Aires para protestar contra a possibilidade de diminuição de salários. A ATE também foi fundamental na greve dos trabalhadores do Ministério da Justiça quando anunciou-se um plano semelhante. Na mesma cidade os empregados da companhia General José de San Martin, responsável por parte das linhas de ônibus coletivos, que não recebiam há meses, fizeram uma greve de 48 horas e ocuparam a sede da empresa. Ficaram lá por cerca de um mês até serem violentamente expulsos por mais de 600 policiais.281 Já os trabalhadores da empresa têxtil Calzar protestaram na frente da sede da companhia pedindo igualmente os seus salários atrasados e tiveram enfrentamentos com a polícia. 282 Em San Juan, os trabalhadores do setor telefônico protestaram em frente a Telefónica de Argentina pedindo aumento e o pagamento de horas extras atrasadas. Mais de 300 trabalhadores integrantes da Unión de Obreros de la
Construcción de La Plata marcharam no centro da cidade pedindo por trabalho.
Em março, na mesma data em que os metalúrgicos da General Motors de Rosario entraram em greve contra o plano de demissões da empresa, o ministro da Economia José Luis Machinea, não agüentando as pressões foi substituído por Ricardo López Murphy.283 Este, ao assumir o Ministério, anunciou um pacote de medidas para tentar controlar a crise
280 Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 56. 281 Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, pp. 56-57. 282
Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 56.
fiscal que o governo enfrentava, todas estas ainda mais restritivas para a economia: corte de praticamente um bilhão de pesos nos gastos do Governo Federal e mais quase outro bilhão de pesos em repasses às províncias.
Esses cortes atingiram seriamente o orçamento destinado às universidades e a educação como um todo. A CTERA (Confederación de Trabajadores de la Educación de
la Republica Argentina) e a CONADU (Confederación Nacional de Docentes Universitarios) paralisaram suas atividades e realizaram manifestações e aulas públicas
sobre a situação do país. 284 Essas manifestações levaram a renúncia do Ministro da Educação, Hugo Júri, e do Ministro do Interior, Frederico Storani. Foram também ocupadas, por estudantes e alguns professores, treze faculdades da UBA, e as universidades de La Plata, Luján, Mar del Plata, Quilmes, Córdoba e Catamarca.
O ministro Ricardo López Murphy também não agüentou as pressões e renunciou. A saída encontrada pelo governo foi convocar novamente para o cargo de ministro da Economia, Domingo Cavallo, que concentrou poderes na sua volta e foi apresentado como “salvador”. 285 Em seus primeiros dias anunciou um plano não-liberal tímido que se limitava a aumentar alguns impostos sobre transações financeiras e algumas tarifas de importação. O plano também previa uma ainda maior concentração de poderes no Executivo pois o delegava alguns poderes especiais até 2002. 286 A CGT dissidente, a CTA e a CCC (Corriente Classista y Combativa) realizaram uma paralisação nacional de 24 horas contras as medidas de Cavallo que, segundo as próprias entidades, teve um acatamento de 90% dos trabalhadores. O novo Ministro da Economia desistiu do plano anterior de cortar ainda mais os gastos da educação, e com isso, a CONADU e a CTERA terminaram suas paralisações.
Nesse meio tempo, em Rosário, havia sido criada a Coordinadora de Lucha na Universidade Nacional que contou com uma grande participação e mobilização estudantil. A Coordinadora, que era marcadamente anti-burocrática, conseguiu neutralizar a influência de partidos de esquerda dentro do movimento estudantil e realizou várias atividades contestadoras. O Boletim do movimento afirma:
284 Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 60.
285 CARRERA, N. E COTARELO, M. – “La protesta en Argentina (enero-abril de 2001), in: Observatorio
Social de América Latina, Publicação de OSAL, junho de 2001, p. 45.
Ni un partido político, ni una institución estatal podrían haber llevado a cabo esta experiencia. Quienes hicieron esto son aquellos que no llevan adentro la rutinaria militancia de la mesita y el panfleto; los que se dan el lujo de pensar la realidad de mil formas distintas y eso no les impide hacer (…) Sin duda todo esto fija un antes y un después en el movimiento estudiantil. 287
Em Tucumán, o governador Julio Miranda decidiu suprimir o chamado “terceiro ciclo da educação básica”, diminuindo assim a quantidade de tempo que os alunos teriam de aula. Não demorou muito e teve de enfrentar um protesto de mais de cinco mil pessoas na frente da sede do governo provincial formado principalmente por professores e estudantes. 288
Na década anterior tinham ocorrido mudanças profundas no meio rural argentino. Houve um aumento da produção, porém mediante a concentração fundiária e a conseqüente diminuição do número de médias e pequenas propriedades. No campo também ocorreu uma onda de protestos: os trabalhadores de setor bananeiro cortaram uma rua em Formosa pedindo subsídios para o setor e apenas alguns dias depois 100 pessoas autodenominadas de “sem-terra” também bloquearam uma rua em Esteban Echeverría.289 Em Misiones, mais de dois mil trabalhadores rurais ligadas à produção de tabaco e mate cortaram uma rua em Santa Ana para pedir que o governo não retirasse os subsídios do Fondo Especial del
Tabaco. 290 Em Roque Sáenz Pena, na província de Chaco, cerca de cinco mil produtores algodoeiros bloquearam as ruas da cidade pedindo ao governo um subsídio de 100 pesos por cada hectare de algodão plantado e pelo refinanciamento de créditos bancários. 291 Em maio os produtores de frutas de Cipolletti, Cinco Saltos e outras cidades da província de Rio Negro também se utilizaram de táticas piqueteras para cobrar do governo controle de preços e subsídios para sua produção. No mês de junho, na província de Missiones, os produtores de mate cortaram a ligação entre as cidades de Posadas e Iguazú para protestar
287
RODRÍGUEZ, G. – “Un ‘Rosario’ de conflictos. La conflictividad social en la clave local”, in: Observatorio Social de América Latina, Setembro de 2001, p. 32.
288 Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 58. 289 Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 57. 290
Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 59.
contra a queda nos preços do produto e posteriormente foram à frente do governo provincial com mais de 200 tratores.
O movimento organizado de aposentados também registrou crescimento de atividades de militância política em 2001. Mais de 600 integrantes do MIJP em conjunto com a CCC lutaram pela atualização do trâmite burocrático que impedia muitos recém- aposentados de conseguir seus benefícios, numa lentidão proposital por parte do governo para não aumentar seus gastos já muito comprometidos. 292
No mês de abril a Argentina foi o palco do encontro de chefes de Estado americanos (exceto Cuba) nas negociações da ALCA. De forma alheia à realidade ao redor, grande parte dos integrantes defendiam doses mais fortes de liberalismo econômico. Foi formado um Comitê por partidos de esquerda, organismo de direitos humanos e a CTA em conjunto com outros movimentos da América Latina. Realizou-se um protesto na frente do Hotel Sheraton onde estavam hospedados a maior parte dos integrantes do encontro. A Polícia reprimiu violentamente os manifestantes com gases lacrimogêneos, que estavam desfalcados de 900 brasileiros que tiveram seus ônibus barrados na fronteira. 293
A CGT dissidente realizou no fim de maio uma grande manifestação na Plaza de
Mayo que contou com mais de 100 mil pessoas.294 Em julho, perante a toda crise econômica e social que se agravava, Domingo Cavallo resolveu apresentar um novo pacote de medidas que tinha a intenção de levar a zero o déficit nas contas públicas. As ações da chamada “Política de déficit zero” incluíam a redução de salários do funcionalismo público, de aposentadorias e pensões e uma maior precarização da qualidade dos serviços como de saúde e educação. A CGT dissidente, a CTA e a CCC não demoraram em condenar o pacote. O FMI, que já estava por ouvir rumores de interrupção dos pagamentos de dívidas por parte do governo argentino respaldou tais medidas. Em La Plata, a ATE realizou uma marcha em oposição ao governo com mais de 4 mil funcionários públicos. O presidente dos EUA George W. Bush, as associações empresariais argentinas e os governadores da
Alianza declararam apoio à Cavallo. Os governadores justicialistas se reuniram com o
presidente e firmaram o “Pacto por la Independencia” no qual se comprometiam a adotar os princípios da política de “déficit zero” com relação às contas provinciais.
292 Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 56. 293
Observatorio Social de América Latina, Junho de 2001, p. 62.
A CONADU entrou novamente em greve e as centrais sindicais realizaram mais uma paralisação nacional de 24 horas, desta vez contando inclusive com uma parcela da CGT que apoiou as medidas governamentais dos últimos anos. Os governos provinciais também sofreram grandes pressões de seus funcionários ao tentar se adequar à nova política. Em La Plata, 40 mil pessoas de classe média, entre eles médicos e altos funcionários do Poder Judiciário (estimados pelos grandes meios de comunicação) se mobilizaram contra os “ajustes” do governo. Na mesma cidade, cinco mil estudantes marcharam pelas ruas centrais em protesto.