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Cap II – O contexto do pragmatismo de Peirce

No documento Danilo Luiz Silva Maia (páginas 77-80)

A noção geral de signo mental em Ockham ocupa um lugar central na semântica de Ockham, sendo através de tal noção que ele consegue um apoio firme para explicar a natureza funcional de um conceito em meio a um direcionamento nominalista. Ele elabora sua semântica de modo que a atividade de pensamento seja algo antecedido por uma atividade de significação de signos mentais, regidos por uma gramática interior, o que nos permite dizer que pensar é uma atividade que pressupõe certa expressividade, a expressividade própria à linguagem mental.

No âmbito filosófico de Peirce, diferentemente de Ockham, os signos mentais não ocupam o lugar central em meio às teses semânticas dele. Isso, contudo, não exclui o fato de que a presença do signo mental é indispensável para seus propósitos lógico- semânticos, visto que o signo mental é um elemento que mantém participação na descrição ordinária sobre os conceitos1. Para um entendimento razoável sobre o cerne das concepções semânticas de Peirce e, consequentemente, do papel do signo mental, precisamos esclarecer o contexto de seu pragmatismo e evidenciar algumas características presentes nesse.

Tomamos o pragmatismo como contexto teórico central para a análise do signo mental em Peirce, visto que essa doutrina é proposta por ele como sendo, a princípio, uma teoria lógico-semântica com a finalidade metodológica de auxiliar no esclarecimento do significado de conceitos obscuros, sejam dos conceitos das ciências naturais ou de qualquer outro tipo de expressão2.

Algo que permanece ao longo das várias formulações e mudanças ocorridas no pragmatismo de Peirce – cuja uma das mudanças é a própria designação da doutrina3–,

1 “In the theory of the logical interpretant or meaning of the “intellectual sign”, a special sort of logical

interpretant is distinguished, the ultimate, final or veritable logical interpretant. In this connection it is held that the “mental sign” (concept, idea, thought, proposition, and the like), although a proper significate effect of the intellectual sign, does not qualify as an ultimate of final logical interpretant.” (Gentry, Habit and the logical interpretant, Pg. 89). O signo mental em Peirce é a descrição básica para “conceito, ideia, pensamento, proposição, e coisas do gênero”, sendo um efeito apropriado para explicar o que seja interpretante lógico, contudo, não sendo o efeito mais apropriado para ser considerado um interpretante lógico final. Falaremos sobre isso mais adiante.

2 Esse é um esboço da formulação inicial de Peirce, que cai numa ambiguidade – devido às diferentes

passagens textuais pertinentes que mostram elementos destoantes –, justamente no tocante a que tipo de conceitos o pragmatismo se propõe a esclarecer (Cf. Gallie, Peirce’s pragmaticism, Pg. 61 a 63).

3 Peirce elabora as principais ideias em dois artigos de 1878. A designação de “pragmatismo” é de autoria

de William James, que vinte anos depois da publicação dos artigos de Peirce, atribui a ele o mérito da criação das bases conceituais do pragmatismo. Peirce, tempos depois, cunha a designação “pragmaticismo” para tentar delinear as diferenças conceituais de seu pensamento sobre o pragmatismo

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é o fato de o pragmatismo manter uma ligação com os significados de conceitos, seja para determiná-los ou simplesmente para esclarecê-los. As muitas variações que o pragmatismo de Peirce sofre no decorrer de sua vida se baseiam através dos diversos momentos intelectuais e das diferenciadas temáticas filosóficas que ele desenvolve4. Peirce envolve as explicações do pragmatismo, durante sua vida, com a lógica da abdução (ou criação de hipóteses), com a significação dos conceitos nas ciências naturais e nas ciências normativas, e com certas doutrinas metafísicas propostas por ele. O que se mantém constante é o fato de o pragmatismo envolver o significado de um signo, geralmente um conceito em geral, com consequências práticas pressupostas nas convicções e nos hábitos de conduta relacionados ao signo em questão. Enfim, o pragmatismo de Peirce diz respeito, dentre outras coisas, a um modo particular de conceber como seja a significação de um signo e de como podemos descrevê-lo através de consequências práticas e de prescrições sobre prováveis interações perceptíveis com os objetos tematizados pelo signo.

Mostrando o papel do signo mental nesse contexto pragmatista, poderemos evidenciar como a expressividade do pensamento em Peirce se contrasta com a necessidade de expressão do pensamento em Ockham. Para isso, tematizaremos a concepção de realidade de Peirce, remarcando sua orientação evolucionária e esclarecendo mais a fundo as três categorias ontológico-semânticas básicas dele, que descrevem de maneira fundamental a totalidade dos tipos de fenômenos. Em seguida, abordaremos o conceito de signo, onde veremos algumas das subdivisões e classificações de Peirce, que são todas elaboradas explicitamente com base nas três categorias fundamentais dele. Depois, iremos nos ater a um dos elementos de análise do signo em específico, chamado por ele de interpretante. Em meio à noção de interpretante lógico, mostraremos como o tipo de interpretante lógico central pressuposto no pragmatismo, a saber, o hábito de ação, faz coexistir o signo mental

frente às concepções próprias de James e outros. (Cf. Dewey, The pragmatism of Peirce, Pg. 301 e 302). & (Cf. Peirce, Collected Papers (ou CP), Volume 5, Parágrafo 414, (ou 5.414)). Chamaremos de “pragmatismo” as ideias centrais desse contexto em Peirce, sem fazer maiores distinções, para nossos propósitos neste trabalho.

4 O percurso intelectual de Peirce pode ser dividido em geral, segundo sugestões de Apel, em quatro

fases. A primeira (1855-1871) é relativa à interpretação semiótica da filosofia transcendental de Kant, a segunda (1871-1884) é relativa à primeira formulação do pragmatismo, a terceira (1884-1902) é relativa a reflexões metafísicas e cosmológicas, e a última (1903-1914) é uma reformulação do pragmatismo em pragmaticismo, onde é operada várias sintetizações e aprofundamentos de ideias recorrentes em Peirce. (Cf. Gradim, O sistema semiótico de Peirce, Pg. 9).

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como possibilidade de interpretante lógico, e faz coexistir o consequente fenômeno da semiose ilimitada, gerada com a adoção de signos mentais como interpretantes lógicos. Com isso teremos um contexto propício para compreender a noção de signo mental em Peirce, e para entender a argumentação dele a favor de um caráter indispensável da expressividade para o pensamento.

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No documento Danilo Luiz Silva Maia (páginas 77-80)