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Cap XXX – Capital Monetário e Capital Real

No documento Curso O Capital Curso de Formação Abril (páginas 79-81)

Livro III, Seção III Lei da tendência decrescente da taxa de lucro Texto 8: Capitulo XIII – A lei como tal

Texto 11: Cap XXX – Capital Monetário e Capital Real

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Em um sistema de produção em que toda a trama do processo de reprodução descansa sobre o crédito, quando este cessa repentinamente e só se admitem os pagamentos em dinheiro, deve produzir-se imediatamente uma crise, uma demanda violenta e tumultuosa dos meios de pagamento. Por isso, à primeira vista, a crise aparece como uma simples crise de crédito e de dinheiro. E na realidade, trata-se apenas da convertibilidade das letras de câmbio em dinheiro. Mas estas letras representam em sua maioria compras e vendas reais, as quais, ao sentir a necessidade de aumentarem de forma ampla, acabam servindo de base para toda a crise. Mas, ao lado disto, há uma massa imensa destas letras, que só representam negócios de especulação, que agora se põem a nu e explodem como bolhas de sabão; além disso, especulações montadas sobre capitais alheios, mas fracassadas; finalmente, capitais-mercadorias depreciadas ou inclusive impossíveis de vender ou um refluxo de capital já irrealizável. E todo esse sistema artificial de aumento violento do processo de reprodução não pode ser remediado, naturalmente, pelo fato de que um banco, o Banco da Inglaterra, por exemplo, entregue aos especuladores, com suas promissórias, o capital que lhes falta e compre todas as mercadorias depreciadas por seus antigos valores nominais. De resto, tudo aqui aparece invertido, pois neste mundo feito de papel não se revelam nunca o preço real e seus fatores, mas apenas barras, dinheiro metálico, promissórias de banco, letras de câmbio, títulos e valores. E esta inversão põe-se em manifesto sobretudo nos centros onde se condensa todo o negócio de dinheiro do país, como ocorre em Londres; todo o processo aparece como algo inexplicável, menos nos próprios centros de produção.

Além disso, no que se refere à superabundância do capital industrial que se revela na crise, há de se observar o seguinte: o capital-mercadoria é por si só, ao mesmo tempo, capital-monetário, isto é, uma determinada soma de valor expressada no preço das mercadorias. Como valor de uso, é uma determinada quantidade de determinados objetos úteis, dos quais existe uma abundância no momento da crise. Mas, como capital -monetário por si só, como capital-monetário potencial, encontra-se submetido a um processo constante de expansão e contração. Às vésperas da crise e já dentro dela, produz-se uma contração do capital- mercadoria em sua qualidade de capital-monetário potencial. Este representa para seu possuidor e os credores deste (assim como também enquanto garantia das letras de câmbio e empréstimos) menos capital-monetário que no momento em que se comprou e em que se celebraram as operações de desconto e as penhoras baseadas nele. Se isso é o que se quer dizer quando se afirma que o capital-monetário de um país diminui nos

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tempos de crise, vale tanto como dizer que se baixou os preços das mercadorias. Além disso, essa bancarrota dos preços não faz mais do que compensar sua inflação anterior.

Os ingressos das classes improdutivas e das que vivem de rendas fixas permanecem em sua maior parte estacionários durante a inflação dos preços, que acompanha sempre a superprodução e a superespeculação. Sua capacidade de consumo diminui, portanto, em termos relativos e, com ela, sua capacidade de repor a parte da reprodução total que normalmente deveria ser absorvida para seu consumo. Mesmo que sua demanda permanecesse nominalmente estacionária, na realidade diminuiria.

No que se refere às importações e exportações, deve-se observar que todos os países vêem-se arrastados uns após os outros à crise e que, logo que é evidenciado que todos eles, com pouquíssimas exceções, importaram e exportaram mais que o devido, com o que a balança de pagamentos é desfavorável para todos e o problema na realidade não reside, portanto, na própria balança de pagamentos. Por exemplo, a Inglaterra padece de refluxo de ouro. Tem importado demais. Mas, ao mesmo tempo, todos os demais países estão sobrecarregados de mercadorias inglesas. Portanto, também neles se importou em excesso (Claro que existe uma diferença entre o país que exporta a crédito e aqueles que exportam pouco a crédito ou não exportam nada por esse procedimento. Mas também estes importam a crédito; unicamente não ocorre assim nos casos em que as mercadorias são enviadas para eles em consignação). Pode ocorrer que a crise estoure primeiramente na Inglaterra, no país que concede o maior crédito e reclama o crédito menor, porque a balança de pagamentos, a balança dos pagamentos vencidos e que é preciso liquidar imediatamente, vá contra a dela, apesar de que a balança comercial geral seja favorável a ela. Este último se explica em parte pelo crédito que este país concede e em parte pela massa de capitais emprestados ao estrangeiro, em virtude da qual refluem a ele uma massa de mercadorias, além dos verdadeiros reembolsos comerciais (Mas às vezes a crise se manifesta primeiramente nos Estados Unidos, no país que obtém da Inglaterra a maior parte do crédito comercial e de capitais). O crack produzido na Inglaterra, iniciado e acompanhado pelo refluxo de ouro, salda a balança de pagamentos da Inglaterra, em parte pela bancarrota de seus importadores (acerca disso trataremos depois), em parte pelo envio ao estrangeiro, a preços baratos, de uma parte de seu capital-mercadoria, em parte pela venda de títulos e valores estrangeiros e a compra de títulos e valores ingleses etc. Logo, chega a vez de outro país. A balança de pagamentos era, momentaneamente, favorável a ele; mas agora desaparece ou é reduzido por causa da crise o prazo que existia em tempos normais entre a balança de pagamentos e a balança de comércio, e todos os pagamentos devem ser efetivados imediatamente. E volta a repetir-se aqui a mesma história de antes. Na Inglaterra se produz agora um afluxo de ouro e em outro país uma baixa deste. O que em um país aparece como excesso de importações aparece em outro como excesso de exportações e vice-versa. Mas a realidade é que em todos os países se produz um excesso de importações e exportações (e tenha-se em conta que aqui estamos nos referindo à crise geral e não a más colheitas etc.); isto é, superprodução, estimulada pelo crédito e pela inflação geral de preços que o acompanha.

Em 1857 estourou a crise nos Estados Unidos. O refluxo de ouro estendeu-se da Inglaterra para a América do Norte. Mas ao mesmo tempo em que explodiu a inflação nos Estados Unidos produziu-se a crise na Inglaterra e o refluxo de ouro passou daqui para a América do Norte. E o mesmo ocorreu entre a Inglaterra e o continente. A balança de pagamentos, em tempos de crise, é contrária a todo país, pelo menos a todo país comercialmente desenvolvido, mas sempre a um após o outro, como nos incêndios de feixes, logo que for chegando a vez do seu pagamento; e a crise, uma vez tendo estourado, por exemplo, na Inglaterra, condensa em um período muito curto toda a série destes prazos. Então revela-se que todos os países excederam-se ao mesmo tempo nas exportações (isto é, na produção) e nas importações (isto é, no comércio), que em todos eles exageraram-se os preços e forçou-se o crédito. E em todos sobrevém a mesma bancarrota. O fenômeno do refluxo do ouro apresenta-se em todos, um atrás do outro, e demonstra precisamente, por seu caráter geral, 1º que o refluxo do ouro é simplesmente uma manifestação da crise, e não sua causa; 2º que a ordem em que ele se apresenta nos diversos países só indica quando chega a cada um deles o momento de ajustar suas contas com o céu, quando vence nele o prazo das crise e se põem em ação os elementos latentes desta.

É característico dos escritores econômicos ingleses – e a literatura econômica inglesa mais notável desde 1830 reduz-se fundamentalmente a obras sobre currency, crédito e crise – considerar a exportação de metais preciosos em tempos de crise, apesar do giro dos câmbios, do ponto de vista da Inglaterra, como um fenômeno puramente nacional, fechando resolutamente os olhos ante o fato de que se seu Banco aumenta o tipo de juro em tempos de crise, todos os demais bancos europeus fazem o mesmo, e não vendo que se hoje eles gritam

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aos céus por causa do refluxo de ouro, amanhã se ouvirá esse mesmo grito nos Estados Unidos, e depois de amanhã na Alemanha e França.

Em 1847 “havia de se fazer frente, na Inglaterra, às obrigações em curso” (devidas em grande parte ao trigo). “Desgraçadamente, fez-lhes frente, em grande parte, mediante bancarrotas” (A rica Inglaterra dá-se um respiro frente ao continente e aos Estados Unidos mediante a bancarrota). “Na medida em que não foram liquidadas mediante a bancarrota, fez-se frente a elas recorrendo-se à exportação de metais preciosos” (Report

of Committee of Bank Acts, 1857). Portanto, naquilo que as crises ingleses se vêem agudizadas pela legislação

bancária, esta legislação constitui um meio para fraudar, em tempos de fome e penúria, os países exportadores de cereais, primeiro no trigo e depois do dinheiro debitado por ele. Proibir as exportações de trigo nestas épocas, tratando-se de países que adoecem mais ou menos de carestia, constitui, assim, um meio muito racional contra esse plano do Banco da Inglaterra de “fazer frente a suas obrigações”. Vale muito mais que os produtores de trigo e os especuladores percam uma parte de seus lucros em beneficio de seu país do que não percam seu capital em proveito da Inglaterra.

Do que foi dito se depreende que nas crises e, em geral, nas paralisações dos negócios o capital mercadoria perde em grande parte sua qualidade de capital-monetário potencial. E o mesmo ocorre com o capital fictício, com os títulos e valores rentáveis, na medida em que circulam na Bolsa como capital-monetário. Seu preço baixa a medida que sobe o tipo de juro. Baixa também pela escassez geral de crédito, que obriga seus possuidores a lançá-los em massa ao mercado para conseguir dinheiro. E, finalmente, tratando-se de ações, baixa algumas vezes ao diminuir os rendimentos que dão direito a receber e outras vezes como conseqüência do caráter especulativo das empresas que com farta freqüência representam. Esse capital-monetário fictício diminui enormemente em épocas de crise, e com ele o poder de seus possuidores de obter dinheiro no mercado por conta dele. Sem dúvida, a diminuição da cotização em dinheiro destes títulos e valores nos boletins de cotização não tem nada a ver com o capital real que representam e sim muito a ver com a solvência de seus possuidores.

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