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Tais ações não podem ser caracterizadas como ações isoladas ou como se fosse algo exclusivo ao veículo de comunicação caruaruense da época. Adelmo Genro Filho (2012) em sua obra O Segredo da Pirâmide67, nos oferece a uma

discussão teórica sobre a produção jornalística e que nos proporciona importantes reflexões a respeito do modo de atuação da imprensa brasileira, sobretudo para que possamos compreender de modo geral porque a imprensa “tem lado”. Genro Filho nos faz perceber que mesmo diante de certos subterfúgios discursivos utilizados pela imprensa brasileira que tenta disfarçar ou até se esconder por traz da retórica da imparcialidade, suas ações, por diversas vezes, são determinadas pelas escolhas dos donos dos jornais, e que em muitos casos também são influenciados por seus financiadores ou patrocinadores. Sendo assim o jornalista acaba passando por um outro estágio de censura, que são os limites dados pela própria chefia de redação.

67 GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: Para uma teoria marxista do jornalismo. Porto

Apenas esse aspecto em si, já levanta um conflituoso, porém importante debate sobre a informação: a quem ela pertence? Se interesses pessoais, sobretudo financeiros acabam influenciando a quem e como deve chegar a informação, essa seria ou é uma espécie de propriedade privada. Se o acesso a informação é um direito de todo ser humano, então ela não pode sofrer interferências pessoais subliminares, sendo assim ela deveria ser imparcial ou evidentemente parcial e necessariamente não influenciável. Porém sabemos que isso não é possível, e a máscara da imparcialidade esconde as ideologias presentes em que as usam.

Ao destacar essas duas imagens, o leitor tem a possibilidade de dimensionar o comportamento de tal periódico e como este conduziu sua cobertura jornalística em relação a tal disputa ao governo do Estado Pernambuco. Sendo assim, os títulos de tais matérias são um reflexo de como periodicamente este jornal trata das eleições de 1958. Mas também podemos observar que esse mesmo periódico tem ciência de seu papel como uma influente plataforma escrita atuando em detrimento de um ou de outro candidato. Com base em Genro Filho68, podemos dizer que esse posicionamento político por parte dos jornais anteriores a década de 1960 eram mais corriqueiros do que o nosso atual contexto onde impera a retórica da imparcialidade.

Uma influência que pode funcionar significativamente com o principal cidadão caruaruense à época do período eleitoral, seu público alvo, trata-se justamente do eleitor (o cidadão letrado, a classe média, estudantes e outros sujeitos que possuíam o mínimo domínio de leitura). Ao contrário dos analfabetos, os letrados eram os únicos que poderiam votar, e o propósito ou tendência da escrita em prol do candidato Jarbas Maranhão não se trata apenas de “anunciar de que lado o jornal está” mas influenciar os eleitores sobre em quem esses deveriam votar.

Pinsky (2008) ao propor uma discussão a respeito do uso dos periódicos como fontes, nos traz uma importante referência citando um texto pioneiro de Ana Maria de Almeida Camargo (1971, p. 226, apud PINSKY, 2008, p. 117):

Corremos o grande risco de ir buscar num periódico aquilo que queremos confirmar, o que em geral acontece quando desvinculamos uma palavra, uma linha, ou um texto inteiro de uma realidade (...). Alguns, talvez, limitem seu uso por escrúpulo, já que encontram, tão em evidência e abundância, as "confirmações" de suas hipóteses - e com a mesma facilidade, também, argumentos contrários. A maioria, porém, pelo desconhecimento, pela ausência de repertórios exaustivos, pela dispersão das coleções. Quando o fazem, tendem a

endossar totalmente o que encontram, aproximando-se de seu objeto de conhecimento sem antes filtrá-lo através de crítica mais rigorosa.69

Entendemos tais afirmações como um desafio que enfrentamos em nossas produções historiográficas ao utilizarmos de tais periódicos como fontes. No entanto, as relevantes reflexões de Carmago (1971) além de combater o tolhimento em relação ao uso de tais materiais também nos instiga a utilizá-los. Sobretudo para que possamos olhar para os jornais com mais rigor e com isso tomarmos caminhos mais sólidos em nossas pesquisas, nos distanciando dos reducionismos que por ventura possam colocar em risco certas análises em decorrência de um uso superficial das fontes consultadas.

O comportamento do Jornal Vanguarda também nos proporciona uma compreensão sobre o significado da vitória eleitoral de Cid Sampaio, a dimensão dessa vitória para figura de Lyra Filho e como essa relação de proximidade entre Lyra Filho e Cid Sampaio estabelecida em 1958 contribuiu para a construção de um cenário político favorável a UDN em Caruaru nas eleições municipais de 1959.

No início do ano seguinte a vitória de Cid, antes da confirmação do nome do candidato para o cargo de prefeito, João Lyra Filho declarava não ter pretensões de ser o postulante. Na verdade, trata-se de um entrave ocorrido nos bastidores udenistas, pois o partido possuía outros possíveis postulantes e algumas restrições ao nome de João Lyra por parte de alguns correligionários. Há também um outro fato interessante que vale ser mencionado, que era justamente a falta de manejo na hora de proferir discursos políticos por parte de Lyra Filho. Algo que além de ser abordado pelo Jornal Vanguarda, foi também assumido pelo próprio Lyra anos depois, que condiciona esse fato a questões de formação escolar:

Com o apoio de Drayton Nejain, e demais forças políticas, fui candidato a prefeito de Caruaru [em 1959]. Antes de ter meu nome homologado, fiz sentir aos companheiros que não tinha condições, em termos culturais, para disputar o cargo, pois era um homem de limitada escolaridade, (...) não me faltou o apoio do governador Cid Sampaio.70

No entanto, o suposto desinteresse pela candidatura por parte de Lyra Filho na verdade é uma estratégia de discrição e cautela enquanto consolidava seu espaço a partir dos bastidores. Se por um lado, ele possuía uma oratória frágil, por outro Lyra

69 PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo: 2ª ed. Contexto, 2008, p. 117. 70 RODRIGUES, Celso. Op. Cit., p. 138.

era considerado um ótimo estrategista e com uma boa capacidade para atrair apoios e formar alianças.

Sendo assim, o empresário João Lyra possui capital econômico71 importante à

sua candidatura, buscará então o apoio de quem deveras tem o capital político72,

neste sentido, ele contou com a ajuda de um importante deputado estadual udenista, Drayton Nejaim. Estabelecida tal aliança, o silêncio foi quebrado no dia 1º de março de 1959, e graças aos apoios conquistados – inclusive de vereadores udenistas da cidade – mesmo diante de algumas restrições João Lyra foi lançado como candidato a prefeito em março daquele ano. Conforme nos mostra a matéria publicada pelo Jornal Vanguarda: