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3 MATERIALIDADE DOS LIVROS

3.1 Livros impressos

3.1.1 Capa

A capa costuma ser definida como a vitrine do livro, por ser a primeira impressão que temos desse objeto (ARAÚJO, 2008, p. 435). Ela surgiu, no entanto, com a única função de proteger o miolo do livro e, somente com o tempo, foi ganhando outros papéis além deste (POWERS, 2008, p. 40). Atualmente, a capa é utilizada com múltiplos propósitos (POWERS, 2008, p. 6). Além da já mencionada função de proteção física do miolo, ela pode possuir também a função de indicar o conteúdo do interior do livro, anunciando qual é o seu tema, quem é o seu autor, qual é a sua aparência visual, quais são os estilos das ilustrações do miolo, etc.

A capa pode possuir também a função de aguçar a curiosidade do leitor e de atraí-lo para o livro, fazendo com que queira abrir a obra e começar a sua leitura (FAWCETT-TANG, 2007, p. 12). Dessa forma, ela pode ter um papel de incentivo à leitura, por propiciar um primeiro contato do possível leitor com o objeto livro. Consequentemente, ela pode ter também uma função de marketing para a venda do livro (FAWCETT-TANG, 2007, p. 12), por objetivar que o leitor interessado pela capa, nas livrarias, também se interesse em levar o livro para a casa, para começar a sua leitura ou dar de presente para alguém.

A produção de uma boa capa, assim como a do projeto gráfico, não segue regras fixas, podendo, inclusive, ser bastante subjetiva, de acordo com os profissionais envolvidos em sua produção. Porém, é importante que ela seja condizente com o conteúdo do livro (tematicamente e esteticamente) e atraente ao seu público-alvo.

Quando surgiram, as capas eram somente uma repetição da folha de rosto dos livros, em um papel um pouco mais encorpado (POWERS, 2008, p. 10). Eram primordialmente textuais, quase sem elementos ilustrativos ou decorativos. As capas coloridas e ilustradas, muito comuns atualmente, surgiram, primeiramente, nos livros de literatura infantil. Por esse motivo, durante um bom tempo, elas foram vistas como infantis demais, sendo consideradas como um elemento que iria distrair os leitores de uma atividade séria de leitura e sendo

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“menosprezadas como um artifício que atraia leitores incultos a comprar livros por meio de imagens superdramatizadas” (POWERS, 2008, p. 41).

No entanto, com o passar dos anos, as capas ilustradas foram sendo também incorporadas aos livros voltados para o público adulto – que, anteriormente, possuíam somente capas tipográficas –, e foram diminuindo a sua conotação distrativa perante a sociedade. “A capa de livro ilustrada surgiu associada a crianças – e permaneceu uma constante na edição de obras de literatura infantil, sendo depois imitada pela indústria de livros” (POWERS, 2008, p. 10).

Nos livros ilustrados, a capa tende a seguir o mesmo estilo das ilustrações do interior do livro e, muitas vezes (mas nem sempre), pode ser feita pelo mesmo ilustrador ou diagramador do miolo. Em livros somente textuais, ela pode vir a ser a única parte ilustrada do livro (se este não possuir uma capa somente tipográfica), e pode ser feita por um capista que não necessariamente será a mesma pessoa que vai fazer a diagramação do miolo.

A capa é composta, geralmente, de vários elementos, que atualmente são pensados de forma conjunta, por serem feitos no mesmo arquivo do InDesign (software de computador utilizado para diagramação). São eles: primeira capa (frente), quarta-capa (verso), lombada e orelhas. Além desses elementos, em alguns livros, pode haver também uma sobrecapa e duas guardas, como pode ser observado na imagem a seguir (Figura 1).

Figura 1 – Estrutura do livro

Fonte: <http://chocoladesign.com/o-livro-e-suas-capas>. Acesso em 17 ago 2015.

A primeira capa é o elemento principal da capa, onde costuma constar o título do livro, o nome do autor, o logo da editora e as imagens, se for o caso (HASLAM, 2007, p. 161). A quarta-capa (ou contracapa) fica no verso do livro, e pode possuir uma sinopse sobre a

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narrativa, além de informações adicionais como frases de periódicos (jornais e revistas) ressaltando a importância do livro, lista de livros da coleção, imagens, etc. (HASLAM, 2007, p. 161). A primeira e a quarta-capa podem ser graficamente independentes ou estarem relacionadas entre si, com ilustrações que começam na quarta-capa e terminam na primeira capa, por exemplo (LINDEN, 2011, p. 57).

Existem também a segunda (verso da primeira capa) e a terceira capas (verso da quarta-capa), porém, elas quase não são lembradas, pois, normalmente, não contêm nenhuma informação impressa (ARAÚJO, 2008, p. 435).

A lombada é a parte do livro que vemos quando ele está guardado em uma estante, e que ajuda o leitor a encontrá-lo no meio dos outros livros (ARAÚJO, 2008, p. 436-437). E as orelhas são as abas da capa que ficam dobradas para dentro, com informações sobre a obra e, dependendo do livro, uma pequena biografia sobre o autor (ARAÚJO, 2008, p. 436). Esses dois elementos são opcionais e não constam em todos os livros.

A sobrecapa é uma folha solta, colocada por cima da capa, para protegê-la ou acrescentar conteúdo a ela (POWERS, 2008, p. 40). Um exemplo interessante de sobrecapa, que adiciona informações à capa, é a do livro Ensaio sobre a cegueira (1995, Figura 2), de José Saramago, lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras. Sua capa possui o mesmo layout das outras capas dos livros do Saramago lançados pela Companhia, mas a sobrecapa possui uma cena do filme Ensaio sobre a cegueira. Ou seja, a editora lançou uma segunda capa para o livro, como várias outras editoras fazem quando é lançado o filme baseado no livro. No entanto, da forma como foi feita, a capa original não foi simplesmente substituída pela capa do filme; o livro acabou ganhando duas versões de capa, dando ao leitor a opção de manter essas duas capas ou de tirar a sobrecapa e ficar com a capa original sem descaracterizar sua coleção.

Figura 2 – Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

Legenda: À esquerda, a sobrecapa. À direita, o livro com sua capa original. Fonte: A autora, 2015.

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A guarda é uma folha de papel com uma gramatura maior que a do miolo, que serve para juntar a capa dura com o miolo do livro (HASLAM, 2007, p. 162). Geralmente, ela não possui nenhum elemento impresso, mas pode conter informações, como grafismos, padronagens ou até pedaços da história do livro, direta ou indiretamente. As guardas da coleção de Clássicos da editora Zahar, por exemplo, costumam conter padronagens relacionadas ao conteúdo da narrativa, como a estrada de tijolos amarelos no livro O Mágico

de Oz (BAUM, 2013, Figura 3) ou os sinos da catedral no O corcunda de Notre Dame

(HUGO, 2013, Figura 4). O livro Onda (2008, Figura 5), de Suzy Lee, lançado no Brasil pela editora Cosac Naify, é outro exemplo interessante com guardas relacionadas à narrativa do livro: a primeira guarda (no início do livro) é só uma imagem de areia, enquanto a segunda (no final) possui areia, água e conchas, indicando que, em um determinado momento da história, a onda invadiu a área “segura” da praia. Outro livro interessante que usa a guarda a seu favor é Diário de Pilar no Egito (2012, Figura 6), de Flávia Lins e Silva, que contém alguns elementos egípcios nas guardas, além de possuir uma mini narrativa que se desenrola antes mesmo de chegar à folha de rosto.

Figura 3 – O Mágico de Oz, Frank Baum

Fonte: A autora, 2015.

Figura 4 – O corcunda de Notre Dame, Victor Hugo

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Figura 5 – Onda, Suzy Lee

Fonte: A autora, 2015.

Figura 6 – Diário de Pilar no Egito, Flávia Lins e Silva

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Fonte: A autora, 2015.