1.5 Conclusões
2.4.8 Capacidade de troca de cátions e soma de bases
Na Tabela 8 são apresentados os resultados da avaliação da capacidade efetiva de troca de cátions (CTC), da soma de bases (S) e da saturação da CTC a pH 7,0 por bases (V), em seis camadas no perfil do solo.
A CTC efetiva do solo mostrou grande variação entre os tratamentos avaliados, bem como entre as profundidades amostradas. Nas duas camadas mais superficiais, de 0,0 – 0,025 e 0,025 – 0,05 m, o solo descoberto (SDES) apresentou a menor CTC em relação aos demais tratamentos. Nas demais camadas avaliadas este tratamento apresentou baixos valores desta propriedade, porém diferindo apenas dos tratamentos MFP e CNA na camada 0,05 – 0,075 m. Os valores mais elevados também foram encontrados nas duas camadas superficiais, com os tratamentos AZEV, MUC e CNA apresentando-se superiores aos demais na primeira, e acrescidos pelo tratamento MFP na segunda que, por sua vez, não diferiu do tratamento POU e NFO.
A baixa CTC no solo descoberto deve ser atribuída ao efeito pronunciado da erosão hídrica do solo na camada superficial, onde o efeito seletivo desta carregou colóides orgânicos, ao mesmo tempo em que removeu cátions básicos constituintes desta propriedade. Nas Tabelas 5 e 7 observa-se que neste tratamento e nas profundidades superficiais são encontrados os menores valores de matéria orgânica, cálcio + magnésio e potássio, determinando fundamentalmente estes baixos resultados de CTC.
Na Figura 12 é apresentada a relação entre o conteúdo de matéria orgânica do solo (MOS) e a capacidade de troca de cátions efetiva (CTC) nos diferentes sistemas de culturas avaliados. Constata-se que o conteúdo de MOS é estreitamente relacionado à CTC, assim como já fora constatado por Ciotta et al. (2003) em um solo com baixo teor de argila submetido ao SPD por 21 anos. Os autores concluíram ainda que pequenos incrementos no conteúdo de MOS são
suficientes para elevar significativamente os valores de CTC do solo, tanto a efetiva quanto à pH 7,0.
Tabela 8. Capacidade de troca de cátions efetiva (CTC), soma de bases (S) e saturação da CTC a pH 7,0 por bases (V), em um Argissolo Vermelho submetido a diferentes sistemas de culturas, em seis profundidades no perfil do solo
MFP: Milho + feijão de porco/soja; SDES: Solo descoberto; POU: Milho/pousio/soja/pousio; AZEV: Milho/azevém + ervilhaca/soja/azevém + ervilhaca; MUC: Milho + mucuna/soja; CNA: Campo nativo; NFO: Milho/nabo forrageiro/soja/nabo forrageiro. Médias seguidas pela mesma letra, para a mesma variável e profundidade, não diferem entre si pelo teste de Tukey (P<0,05). nsDiferenças não
significativas.
Os valores mais elevados de CTC foram encontrados nos tratamentos com alguma leguminosa em seu sistema de culturas (MFP, MUC, AZEV) e no campo nativo (CNA), os quais apresentaram também, conforme as Tabelas 5 e 7, os maiores conteúdos de MOS. Estes tratamentos proporcionaram adição de matéria
Profundidade, m 0-0,025 0,025-0,05 0,05-0,075 0,075-0,10 0,10-0,15 0,15-0,20 Sistemas de culturas CTC, cmolcdm -3
MFP 7,70 b 5,78ab 5,19ab 5,45ab 4,85ab 4,96ab
SDES 3,72 d 3,78 c 5,02 bc 5,18abc 5,07ab 4,45ab
POU 7,50 bc 5,04 b 4,87 bc 4,38abc 4,09 b 4,03 b
AZEV 9,39a 5,56ab 4,41 bc 4,05 c 4,03 b 3,73 b
MUC 8,85a 6,60a 4,65 bc 4,79abc 4,58ab 3,58ab
CNA 8,70a 6,40a 6,08a 5,64a 5,65a 5,73a
NFO 6,74 c 4,98 b 4,13 c 4,20 bc 3,95 b 3,96 b
S, cmolcdm-3
MFP 7,64 bc 5,56ab 4,67ab 4,97a 4,38ab 4,41ab
SDES 3,39 d 3,20 c 4,45abc 4,33abc 4,00ab 3,19ab
POU 7,47 bc 4,58 bc 4,04abc 3,13 bc 3,02ab 2,85 b
AZEV 9,38a 4,99ab 3,25 c 2,73 c 2,65 b 2,56 b
MUC 8,83ab 6,25a 3,87 bc 3,69abc 3,67ab 3,45ab
CNA 8,50ab 5,90ab 5,37a 4,91ab 4,99a 4,85a
NFO 6,54 c 4,56 bc 3,36 bc 3,27 bc 2,98ab 2,85 b
V, %
MFP 71,71ns 62,08 ns 59,35a 59,83a 62,82 ns 59,79 ns
SDES 61,54 57,62 61,97a 59,01a 55,55 48,71
POU 71,86 58,94 50,62ab 45,29ab 45,47 42,85
AZEV 74,07 58,21 42,67 b 37,94 b 41,41 39,71
MUC 71,06 65,33 49,72ab 47,10ab 48,88 47,73
CNA 74,46 56,07 59,64a 57,64a 58,67 54,58
seca com baixa relação C/N, e o carbono acumulado no solo, com o incremento no período de tempo de adoção dos sistemas, refletiram-se no aumento gradativo do conteúdo de MOS. Jantalia et al. (2003) constataram que a inclusão de leguminosas em sistemas de culturas, em rotação com espécies gramíneas, é fundamental para que ocorra o aumento do conteúdo de carbono orgânico do solo e consequentemente no conteúdo de MOS.
A soma de bases (S) apresentada na Tabela 8 mostra grande variabilidade entre os tratamentos e profundidades avaliadas, acompanhando a tendência apresentada pela CTC efetiva. Observa-se novamente a degradação da fertilidade do solo que foi mantido exposto continuamente a ação erosiva da chuva (SDES), com efeito mais pronunciado na camadas superficiais, até 0,05 m. Com relação às maiores médias, novamente os tratamentos que incluíram leguminosas em seu sistema de culturas (MUC, MFP e AZEV) e o campo nativo (CNA) apresentaram os maiores valores, reforçando a importância da diversificação de culturas, do aporte constante de resíduos ao solo e da cobertura da superfície do solo durante o maior tempo possível durante o ano, como foi verificado no solo sob vegetação natural (CNA).
A relação apresentada na Figura 13, entre a soma de bases (V) e o conteúdo de matéria orgânica do solo (MOS) é semelhante à encontrada na Figura 12, ou seja, elevado coeficiente de correlação, o que reforça a importância da MOS na fertilidade e disponibilidade de nutrientes as plantas.
Nascimento et al. (2003) avaliaram o efeito de 12 espécies de leguminosas utilizadas como cobertura do solo e adubação verde, entre elas a mucuna e o feijão de porco, nos atributos de fertilidade do solo, incluindo a MOS, CTC, a soma (S) e a saturação por bases (V), em um Luvissolo. Em comparação, os autores utilizaram um tratamento testemunha, sem cultivo e com vegetação espontânea rala, semelhante a um sistema de pousio. As leguminosas contribuíram para a elevação dos teores de potássio e magnésio até a profundidade de 0,10 m, contribuindo consequentemente para o incremento nos valores de CTC, S e V do solo. Conclusões semelhantes foram também obtidas por Peixoto & Eltz (1986) e por Eltz et al. (1989).
CTC = 3,63 + 1,072MOS R2 = 0,831
Matéria orgânica do solo, g dm -3
0 1 2 3 4 5 C ap ac id ad e de tr oc a de c át io ns , c m ol c d m -3 0 4 6 8 10 MFP SDES POU AZEV MUC CNA NFO
Figura 12. Relação entre matéria orgânica do solo e capacidade de troca de cátions, em seis camadas de um Argissolo Vermelho, submetido a diferentes sistemas de culturas sob plantio direto, em campo nativo e num solo descoberto. (MFP: Milho + feijão de porco/soja; SDES: Solo descoberto; POU: Milho/pousio/soja/pousio; AZEV: Milho/azevém + ervilhaca/soja/azevém + ervilhaca; MUC: Milho + mucuna/soja; CNA: Campo nativo; NFO: Milho/nabo forrageiro/soja/nabo forrageiro).
Com relação aos teores de MOS, os autores constataram que o período de avaliação (três anos) não foi suficiente para que as leguminosas determinassem alterações significativas, em comparação com o tratamento testemunha.
Nos resultados da avaliação de saturação da CTC do solo por bases (V) apresentados na Tabela 8, foram detectadas diferenças significativas entre os tratamentos apenas nas profundidades de 0,05 – 0,075 e 0,075 – 0,10 m, com o resultado do teste estatístico sendo idêntico nestas.
S = 3,63 + 1,072MOS R2 = 0,846
Matéria orgânica do solo, g dm
-30 1 2 3 4 5
S
om
a
de
b
as
es
, c
m
ol
cd
m
-3 0 3 4 5 6 7 8 9 10 MFP SDES POU AZEV MUC CNA NFOFigura 13. Relação entre matéria orgânica do solo e soma de bases, em seis camadas de um Argissolo Vermelho, submetido a diferentes sistemas de culturas sob plantio direto, em campo nativo e num solo descoberto. (MFP: Milho + feijão de porco/soja; SDES: Solo descoberto; POU: Milho/pousio/soja/pousio; AZEV: Milho/azevém + ervilhaca/soja/azevém + ervilhaca; MUC: Milho + mucuna/soja; CNA: Campo nativo; NFO: Milho/nabo forrageiro/soja/nabo forrageiro).
Destaca-se, nesta avaliação, o tratamento SDES, que apresentou elevadas médias em todas as profundidades. Apesar desta avaliação servir como um indicativo do estado de fertilidade do solo e proporcionar informações sobre a quantidade da CTC do solo ocupada por cátions básicos como o cálcio, magnésio e potássio, importantes para o desenvolvimento de plantas (Tomé Júnior, 1997), cuidados devem ser tomados quanto a sua apreciação isoladamente como um indicador de tomada de decisão, no que diz respeito a aplicação de corretivos ou fertilizantes ao solo, visto que, mesmo apresentando elevado valor de V, os componentes deste índice foram inferiores aos encontrados nos demais tratamentos avaliados (Tabela 4 e Tabela 5).
Pela análise das Figuras 12 e 13, observa-se que o aumento no conteúdo de MOS é extremamente importante para a manutenção de um elevado estado de fertilidade do solo (valores de CTC e S), e pequenos incrementos no seu conteúdo são responsáveis por alterações significativas nos valores destes índices.
2.5 CONCLUSÕES
1. Sistemas de culturas que incluíram leguminosas de inverno e de verão determinaram, após 16 anos de utilização, acréscimos significativos no conteúdo de matéria orgânica do solo, em comparação a um solo mantido descoberto.
2. Solo mantido descoberto acarretou sérios prejuízos quanto aos atributos de fertilidade do solo avaliados, principalmente o conteúdo de matéria orgânica e potássio trocável do solo.
3. A análise apenas do pH do solo não foi suficiente para caracterizar o estado de acidez em que o solo se encontrava, sendo necessário conhecer a concentração dos demais componentes, como o alumínio trocável e os teores de cálcio + magnésio.
4. O efeito residual da aplicação de calcário, antes da implantação do sistema plantio direto, no valor do pH, teor de alumínio e fósforo trocável, ultrapassou 16 anos.
5. Verificou-se uma relação direta entre o valor do pH do solo e o seu teor de matéria orgânica, e uma relação inversa entre o valor do pH e o teor de alumínio trocável, com o incremento na profundidade no solo, para todos os tratamentos avaliados em sistema plantio direto, após 16 anos de adoção.