Capítulo 02: Pressupostos teóricos
2.3 Ferramentas do ISD: modelo didático e SD
2.3.2 Capacidades de linguagem (e o folhado textual)
Para analisar os textos, o ISD propôs um esquema denominado “arquitetura textual”
que compreende a infraestrutura textual, os mecanismos de textualização e os mecanismos
enunciativos. O texto é visto em três planos e nomeado por Bronckart (2009) como folhado
textual, termo que nos remete a camadas superpostas formando um todo. O autor expõe tal
distinção para desvendar as partes que formam o texto e a relação hierárquica entre elas.
As capacidades de linguagem compreendem um quadro teórico elaborado pelos
pes-quisadores do ISD visando caracterizar as operações envolvidas no processo de produção do
texto, as quais não são inatas; são aprendidas ao longo da vida dos agentes. No entanto, não
podem ser conhecidas apenas como um aspecto cognitivo como discute Muniz-Oliveira
(2013):
[Essas operações] não podem ser consideradas puramente cognitivas, mas já pré-existem historicamente no ambiente sócio-semiótico e quando o agente se apropria delas, consistem sempre nessa interação dialética entre dimensões histórico-sociais dos gêneros, dimensões semânticas das línguas naturais e dimensões das representa-ções sobre as situarepresenta-ções de ação. Essas operarepresenta-ções, no decorrer da história foram se constituindo, e o ser humano, no seu desenvolvimento, apropria-se dela. (MUNIZ-OLIVEIRA, 2013, p. 81).
A ação de linguagem (BRONCKART, 2009) é o agrupamento das operações de
lin-guagem, cuja realização é feita por um indivíduo particular (agente), resultando na produção
de um determinado gênero (MUNIZ-OLIVEIRA, 2013).
As capacidades de linguagem compreendem as habilidades psicolinguísticas que os
agentes desenvolvem na produção dos gêneros que lhes são solicitados. Em termos didáticos,
a reunião das referidas capacidades é resultado de pesquisas e estudos acerca das dimensões
que constituem o gênero pretendido e que acarretará um modelo didático (ferramenta usada
pelo professor para orientar o estudo do gênero e, posteriormente, a produção de SD) que, por
sua vez, origina a elaboração da SD (conjunto de atividades para ensino do gênero).
As capacidades de linguagem são conceituadas por Dolz, Pasquier e Bronckart (1993)
apud Muniz-Oliveira (2013) como sendo de três tipos: de ação, discursivas e
linguístico-discursivas:
As capacidades de ação permitem ao agente produzir textos de acordo com os
parâ-metros que envolvem a ação de linguagem, os quais servirão de orientação para que o agente
Além disso, esses parâmetros envolvem a escolha do gênero adequado à esfera social
(MU-NIZ-OLIVEIRA, 2013).
Segundo Bronckart (2009), as capacidades de ação mobilizam o entendimento do
contexto físico e sociossubjetivo.
No contexto físico temos:
O lugar de produção: o lugar físico em que se realiza o texto;
O momento de produção: o tempo em que o texto é produzido;
O emissor: quem produz fisicamente o texto;
O receptor: quem recebe concretamente o texto.
O contexto sociossubjetivo (interação comunicativa) é formado por:
O lugar social: formação social ou instituição onde o texto é produzido;
A posição social do emissor: papel que o emissor desempenha na interação
comuni-cativa, o que confere a ele o estatuto de enunciador;
A posição social do receptor: papel social atribuído ao receptor, o que lhe dá o
estatu-to de destinatário;
O objetivo (finalidade da interação): do ponto de vista do enunciador, diz respeito
aos efeitos que o texto pode produzir no destinatário.
Além dos parâmetros elencados acima, a produção textual implica também a
mobili-zação do conteúdo temático (referente) como sendo o resultado das representações que o
agente possui, as quais são desencadeadas durante a ação de linguagem.
Já as capacidades discursivas dizem respeito à constituição do plano global do texto,
os tipos de discurso e as sequências tipológicas que podem aparecer no gênero. Estão
relaci-onadas às operações necessárias para a constituição da estrutura do texto. Por isso podemos
dizer que a infraestrutura textual é conhecida como o nível mais profundo e é constituída
“pe-lo plano mais geral do texto, pe“pe-los tipos de discurso que comporta, pelas modalidades de
arti-culação entre esses tipos de discurso e pelas sequências que nele eventualmente aparecem”
(BRONCKART, 2009, p. 120).
Os tipos de discurso são “formas linguísticas que são identificáveis nos textos e que
traduzem a criação dos mundos discursivos específicos” (Bronckart, 2009, p.149, ênfase do
autor). Na infraestrutura textual, há relação entre os tipos discursivos e as sequências
tipológi-cas. Os tipos discursivos, por sua vez, são divididos em discurso interativo, discurso teórico e
discurso teórico verifica-se a presença mais marcante de sequências descritivas, explicativas e
narrativas, enquanto que, no relato interativo, as sequências narrativas são predominantes e,
por fim, na narração há maior ocorrência de sequências narrativas e descritivas.
As sequências, segundo Adam (1992) apud Bronckart (2009), nos textos empíricos
tomam forma de tipos linguísticos e as define como cinco: narrativa, descritiva,
argumenta-tiva, explicativa e dialogal.
A sequência narrativa pode ser definida por uma sequência de acontecimentos que
tem um ponto de equilíbrio no início e vai complicando as ações, tornando-as conflituosas,
chegando a um ponto extremo de tensão que desencadeará outro ponto de equilíbrio. A
estru-tura pode variar um pouco quanto ao número de fases. Os contos, por exemplo, podem
desen-volver-se da seguinte maneira: situação inicial (momento de equilíbrio)- complicação (o
mo-mento de maior tensão) – ações (acontecimentos desencadeados pelos conflitos) – resolução
(introdução de acontecimentos visando amenizar a tensão) – situação final (+ avaliação)
(apresentação de um novo estado de equilíbrio) – moral (mensagem de valor)
(BRON-CKART, 2009).
A sequência descritiva, em sua forma convencional, organiza-se em três fases:
anco-ragem (fase em que o tema é mais evidenciado), aspectualização (decomposição do tema em
partes atribuindo propriedades a elas)e relacionamento (os elementos descritos são
relaciona-dos a outros por meio de comparações). É importante destacar que a organização das fases
possui uma hierarquia, mas não de forma linear, como pode ser observado na sequência
narra-tiva (BRONCKART, 2009).
Já a sequência argumentativa é constituída de uma sequência lógica de ideias, as
quais são encadeadas dando sentido ao processo retórico. Inicialmente, tem-se uma tese
acer-ca do que será discutido, posteriormente, são apresentados argumentos “que orientam para
uma conclusão provável”, os contra-argumentos que podem ser refutados ou aceitos e, por
fim, tem-se a conclusão acerca do argumento ou contra-argumentos (BRONCKART, 2009).
Na sequência explicativa, o desenvolvimento do tema é realizado por uma autoridade
no assunto, visando informar uma situação que não abre precedentes para discussão. A
se-quência é composta de quatro fases: constatação inicial (introdução de um fenômeno
incon-testável), problematização (insere-se indagações a fim de expor as respostas, em seguida),
resolução (respostas aos questionamentos) e conclusão-avaliação (reformula e completa as
informações da primeira fase) (BRONCKART, 2009).
Por último, a sequência dialogal realiza-se nos discursos interativos dialogados
conversa: abertura (contato inicial entre interlocutores, estabelecendo laços sociais por meio
de convenções do meio onde estão inseridos), transacional (o conteúdo é coproduzido pelos
interlocutores ao interagirem durante a alternância dos turnos de fala) e encerramento (fim da
interação de maneira fática) (BRONCKART, 2009).
Por sua vez, as capacidades linguístico-discursivas referem-se ao reconhecimento das
unidades linguístico-discursivas implicadas e inerentes ao gênero, as quais são responsáveis
pela construção do sentido do texto. O uso de tais elementos aciona as operações de
textuali-zação (conexão e coesão nominal e verbal); operações de caráter enunciativo (vozes e
modali-zações) e operações responsáveis pela construção de períodos e seleção de itens lexicais.
Os mecanismos de textualização vêm a ser segunda camada do folhado e dizem
res-peito à conexão e à coesão (nominal e verbal), responsáveis pelo estabelecimento da
coerên-cia do texto. Os mecanismos de conexão (conjunções, advérbios, locuções adverbiais, etc.)
marcam as articulações da progressão temática. Já os mecanismos de coesão nominal,
repre-sentada por pronomes pessoais, relativos, possessivos, etc., têm a função de dar continuidade
ao texto e garantir a retomada ou substituição de termos, formando cadeias anafóricas que
resultam no todo coerente do texto. Por fim, a coesão verbal é efetivada pelo uso de verbos
que asseguram organização do estado, dos acontecimentos ou outras relações expressadas
pelo tempo do verbo.
Os mecanismos enunciativos (vozes e modalizações) são evidenciados na camada mais
superficial do folhado textual e têm a função de estabelecer a coerência do texto. As vozes
indicam os posicionamentos do agente-produtor acerca do conteúdo temático, dito de outra
forma, apontam as autoridades enunciativas de quem produz o texto. “As vozes podem ser
definidas como as entidades que assumem (ou às quais são atribuídas) a responsabilidade do
que é enunciado” (BRONCKART, 2009, p.326, ênfase do autor). O autor chama a atenção
para a revelação das vozes neutras no texto:
Qualquer que seja o subconjunto a que pertençam, essas vozes podem estar implíci-tas; não sendo traduzidas por marcas linguísticas específicas, elas não podem senão ser inferidas na leitura do texto. Em alguns casos, entretanto, elas são explicitadas por formas pronominais, por sintagmas nominais, ou ainda por frases ou segmentos de frases (BRONCKART, 2009, p. 131).