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3 Procedimentos metodológicos

4.3 Recursos estratégicos e o processo de criação de valor das empresas exportadoras do Vale do São Francisco

4.3.6 Capacidades tecnológicas das empresas exportadoras do VSF

As capacidades tecnológicas representam as inovações introduzidas pelas empresas exportadoras do Vale do São Francisco, do ponto de vista tecnológico. As empresas de agricultura pesquisadas buscam na tecnologia caminhos para alcançar maior fertilidade, maior resistência às pragas e chuvas (COANA_EdisMatsumoto - 22:67), menor dependência de mão de obra e maior resistência pós-colheita (Labrunier_FlavioDiniz - 13:12). A Figua 13 (4) revela a constituição e algumas das relações estabelecidas pelas Capacidades Tecnológicas, destacando como parte integrante: os processos de pesquisa e desenvolvimento, a capacidade de aprendizado técnico, capacidades de irrigação e rastreabilidade, inovações na colheita e processos pós-colheita, capacidade de formação de novos negócios e novas culturas. Além disso, as Capacidades Tecnológicas possuem relações bem estabelecidas com as atividades dos consultores e ações de pesquisa e desenvolvimento decorrentes da ação dos agentes externos e das instituições locais.

Figura 43 (4) - Capacidades tecnológicas das empresas exportadoras do VSF

Fonte: Elaborada pelo autor, com auxílio do Atlas.ti (2015)

Há um conjunto de tecnologias empregadas para que seja possível o cultivo de frutas na região do Vale do São Francisco, a começar das adaptações estabelecidas para tornar possível o plantio de uvas na região do semiárido com clima tropical, envolvendo esforços tanto do setor privado quanto do setor público, sendo destaque o papel de instituições envolvidas com pesquisas e desenvolvimento, a exemplo da Embrapa e das universidades da região. Essas instituições, conforme Molina-Morales e Martinez-Fernandez (2004), asseguram suporte coletivo que fortalecem a competitividade daquelas empresas face a competidores de outras regiões, o que é especialmente importante no contexto dos países em desenvolvimento (PENG; WANG; JIANG, 2008).

Além das tecnologias desenvolvidas por meio das interações entre os setores público e privado, há também os vínculos externos com agentes de outras localidades, o que a literatura entende por global pipelines (BATHELT et al., 2004), e que possibilitaram significativos avanços para a agricultura, tais como a importação das técnicas de irrigação e de novas variedades adquiridas pelos gestores. Após recepcionados, esses conhecimentos são facilmente disseminados entre as empresas da região, seja por meio dos relacionamentos estabelecidos entre os produtores, pela ação das instituições públicas ou mesmo pela estrutura de apoio, que envolve uma rede de fornecedores especializada e, principalmente, a presença e atuação dos consultores técnicos.

Tivemos que adaptar totalmente a tecnologia pra conseguir produzir uva aqui nessa região. Então, não existia literatura, não existia conhecimento, tudo foi desenvolvido aqui na região mesmo e adequado às nossas condições. Até hoje a gente descobre, os consultores principalmente, vem descobrindo coisas novas todo ano, isso que impulsionou nossa capacidade de produzir. (Coana_EdisMatsumoto - 22:32)

Acabamos trazendo uvas sem semente de várias variedades, de várias regiões do mundo, cultivamos ela aqui, depois identificamos as variedades que tinham mais potencial para ser produzido nas suas condições climáticas e de solo nosso, depois as variedades identificadas nós fomos modificando as práticas agrícolas com aquela variedade, até chegarmos ao sucesso e produtividade que nós temos hoje dessas variedades. (QueirozGalvão_SérgioLima - 15:39)

Algumas empresas se destacam mais que outras quando se trata de aspectos tecnológicos. O pioneirismo geralmente é assumido pelos grandes produtores ou por aqueles que têm relação estreita com caminhos de inovação. Entre as empresas pesquisadas, no que se refere a investimentos em pesquisa e desenvolvimento, sobressaem-se as iniciativas do Grupo JD, Fazendas Labrunier: “nós temos 920 hectares de uva plantada e produzida. Desses, nós já

trocamos de variedade em 56%. Essa substituição para novas variedades nos dá a capacidade de ser competitivo” (Labrunier_FlavioDiniz - 13:26). O executivo reforça as

diferenciações da empresa:

Então, há um diferençal muito grande por essa preocupação nossa de sempre estar a frente. Oferecendo um produto diferenciado, como novas variedades, como por exemplo, uva com cheiro parecido com algodão doce, sabor de abacaxi, de mamão, uvas que parecem uma pimenta.... Diversificamos em cumbucas. A cumbuca que se usa naturalmente são 500 gramas, a gente já tá pensando em uma cumbuca menor onde a criança possa levar para um lanche, para o colégio. Então, a gente ta sempre em busca de inovação. Então, as Fazendas Labrunier tem essa particularidade em relação aos outros, a gente procura chegar à frente. (Labrunier_FlavioDiniz - 13:15) A Labrunier possui parcerias com Embrapa e Codevasf para testes de novas variedades nacionais e também busca conhecimentos com geneticistas e outros atores de diferentes partes do mundo, geralmente presentes em outros clusters de uva (Espanha, Estados Unidos, Africa do Sul, entre outros). Passados os testes laboratoriais, cerca de 90 novas variedades de uvas estão sendo experimentadas nas fazendas do grupo, e pelo menos 5 variedades já seguiram para produção em escala comercial. Antes dessa etapa, as uvas precisam cumprir requisitos básicos de boa resistência a pragas e rusticidade (relacionada à adversidades climáticas), além de fatores aliados à fertilidade de gemas e produtividade. Além dos vínculos estabelecidos com outros agentes do cluster ou mesmo vínculos com agentes externos ao cluster no sentido de buscar conhecimentos que possam garantir benefícios às organizações, fica claro a necessidade de incorporar uma dinâmica de adaptações e ajustes nas

bases de recursos estratégicos, ajustando rotinas e processos para acompanhar o mercado, o que traz como suporte básico as contribuições das capacidades dinâmicas (TEECE; PISANO; SHUEN, 1997; EISENHARDT; MARTIN, 2000; WANG; AHMED, 2007).

Geralmente, os experimentos realizados com fomento de instituições nacionais condicionam a empresa a disseminar os resultados das experiências com a comunidade, e as capacidades tecnológicas passam a ser traduzidas por meio das melhores práticas junto aos demais produtores da região, estando em consonância com os fundamentos de capacidade dinâmica de Eisenhardt e Martin (2000). Já as variedades que seguem com exclusividade pagam-se royalties por isso. A pesquisa geralmente é aberta e os produtores que tiverem interesse em plantar deverão pagar royalties ao geneticista responsável (Labrunier_FlavioDiniz. - 13:24). Durante a fase de teste, é comum o desenvolvimento de Dias de Campo, conforme descrito a seguir:

Trouxemos todo o pessoal geneticista que nós tínhamos, que são nossos parceiros, convidamos também nossos compradores externos e internos, e fizemos um dia de campo, onde a gente colocou essas linhas de teste, não todas, em torno de umas 10, 12, para produzir. E a gente degustou essa uva e o comprador pode dizer assim: invista nessa que tem mercado. As variedades aprovadas seguem para produção em escala comercial, são uvas com sabores e formatos exóticos, que demonstram uma maior produtividade e resistência às pragas e chuvas (Labrunier_FlavioDiniz - 13:13).

No caso da Labrunier, a tecnologia empregada também permite um estreitamento nos relacionamentos entre produtor e clientes. A empresa implantou a definição de talhões dos pomares por cliente, assim, “eles poderão acompanhar todo o ciclo de produção, desde a

floração, a frutificação e o desenvolvimento da fruta, de qualquer lugar do mundo. O acompanhamento da uva que ele comprou pode ser feito remotamente”

(LabrunierGrupoJD_dados secundários - 14:11). Esse sistema de rastreabilidade assegura um controle de informações em todas as fases de produção no campo.

As tecnologias empregadas podem ser observadas ainda ao longo do processo produtivo, buscando reforçar o padrão de conformidade e a qualidade final do produto. Nesse ponto, embora as empresas procurem estabelecer caminhos particulares, o ambiente acaba se encarregando de compartilhar as informações. “Nós usamos algumas técnicas diferentes, eu

sou agrônomo e muito curioso e tem técnicas que a gente usa que outras empresas não usam, mas que terminam copiando” (Agrobrás_SilvioMedeiros - 19:22).

No pós-colheita da manga a ser exportada para o mercado americano, atenção aos requisitos-chave são necessários. As empresas precisam de estrutura física e tecnologia que possibilitem o tratamento sanitário exigido. Pequenas propriedades geralmente não

conseguem ter estrutura própria e acabam estabelecendo parcerias com os grandes exportadores. “O grande tem a estrutura, pega a manga dele, faz o procedimento nela e

comercializam juntos” (SebraePE_RodrigoFerreira - 6:19). Os processos necessários para

acesso ao mercado americano são destacados abaixo pelo diretor da UPA, Caio Coelho: o processo de limpeza e de esterilização da fruta ou o processo de embalagem, ele não difere muito entre os mercados da Europa e Canadá, a diferença que existe é quando se fala dos Estados Unidos, que exigem o tratamento hidrotérmico, e aí há uma diferença. Mas quando se trata de um

packing house para o Canadá e para a Europa é o mesmo. Quando você fala

para os Estados Unidos, é um packing house aonde o investimento é maior, porque além de você fazer tudo o que foi exigido pra Europa e Canadá, você precisa fazer o mergulho na fruta numa água quente, numa temperatura disforme durante um determinado período de tempo para poder matar eventual larva da fruta, da mosca da fruta que pousa e pode ter se inserido no interior da fruta, então esse tratamento hidrotérmico, todo exportador dos Estados Unidos tem de fazer, e encarece demais a fruta porque além de mais gente dentro do Pack, que é o dobro de pessoas, você tem uma perda maior ao fazer esse tratamento, o aproveitamento da exportação (UpaAgrícola_CaioCoelho - 18:25)

Essas capacidades físicas associadas à tecnologia envolvida acaba gerando, conforme analisam Wang e Ahmed (2007), barreiras de acesso à vantagem competitiva alcançada por alguns poucos produtores. As exportações de uva para o mercado americano também precisam de maiores cuidados por parte dos exportadores e a tecnologia tem auxiliado o alcance das condições de qualidade necessárias ao produto:

no caso da uva tem o Cold treatment, que geralmente é realizado quando a uva entra nos Estados Unidos, em que a uva tem que ficar durante 15 dias a 0 graus sem oscilação de temperatura. Então isso dificulta um pouco porque vc precisa ter uma uva melhor acabada na produção para que não sofra variação de qualidade, porque além do período de transporte, a uva tem que permanecer com a mesma qualidade durante esses testes para não ter perda de valor. Quem faz isso é o FDA deles, lá (GVS_ClaudioLordelo - 31:7). Por fim, capacidades tecnológicas estão presentes nos fluxos de informações internas das empresas, especialmente naquelas de grande porte ou com estruturas mais complexas, como o caso de multinacionais. A Univeg Expofrut procura integrar informações acerca das questões logísticas, financeiras e operacionais entre suas unidades presentes em diferentes países, o que implica em maiores controles, sem retirar a autonomia de cada unidade (P25: UNIVEG_Executivofinanceiro - 25:10). O tópico seguinte faz uma síntese dos recursos estratégicos identificados na análise dos dados desta pesquisa.

4.3.7 Síntese dos recursos estratégicos das empresas exportadoras

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