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Capela da Misericórdia de Arouca, Aveiro, 2001

2. A Intervenção no Património Edificado

2.2. Intervenções de Referência

2.2.2. Capela da Misericórdia de Arouca, Aveiro, 2001

A Capela da Misericórdia, localizada no concelho e vila de Arouca, pert- encente ao distrito de Aveiro, encontra-se posicionada na atual Praça Brandão de Vasconcelos, a qual está situada no centro histórico da vila, e a sua con- strução remota a 1612. Embora tenha sofrido algumas alterações ao longo do tempo, a sua estrutura original do século XVII mantém-se a mesma (Santa Casa da Misericórdia de Arouca 2017) (fig. 31).

A capela, de desenho maneirista, é de pequenas dimensões e segue o es- quema tradicional de planta retangular de corpo único, ao qual se encontra ados- sado o volume da sacristia e uma torre sineira, construída no século XIX (Santa Casa da Misericórdia de Arouca 2017). Apesar de se tratar de uma construção de corpo único, a divisão entre o que representaria o espaço da nave e a cape- la-mor é percetível através da existência de duas cotas distintas no pavimento. Para além disso, estes dois espaços são diferenciados através da materialidade usada no pavimento, em que a capela-mor tem lajes de granito e a restante área tem soalho de madeira. Em relação ao seu exterior, a sua fachada tem uma lin- guagem simples, rematada com um frontão triangular, à qual se adiciona o vol- ume da torre. No entanto, o valor desta capela vem, principalmente, da riqueza do seu interior, que se encontra fortemente decorado.

As paredes encontram-se completamente revestidas por azulejos, excet- uando a do topo onde se encontra a capela-mor (figs. 32 e 33). Estes apresentam um padrão de motivos vegetalistas e geométricos e estão organizados numa composição em tapete, onde a sua paleta cromática é composta por amarelo, azuis e branco, rematado por um friso, também de motivos vegetalistas (fig. 34). No entanto, existe uma exceção nesta composição, onde surge um conjunto de doze painéis com a representação dos apóstolos (Gonçalves 2013: 28).

32. Paredes interiores da capela, com revestimento a az-

ulejo. 33. Parede da capela-mor com retábulo.

33. Parede da capela-mor com retábulo.

elementos decorativos da capela, apresenta uma configuração em trapézio, feito de uma peça única (fig. 35). É composto por quarenta e cinco caixotões de form- ato quadrangular, com a exceção dos que se encontram junto à parede da cape- la-mor que são triangulares, com molduras a representarem marmoreados de tons azuis, beges e vermelhos e onde é usada a talha dourada. As pinturas, que se encontram no centro das molduras, apresentam temáticas de caráter cristológica e mariana, com a intenção de servirem de elementos pedagógicos (Ruão 1996). Ainda com uma forte presença decorativa, existe uma capela localizada na parede do lado esquerda, resultante das obras realizadas no século XVIII, com um arco de volta perfeita e que “ (…) possui um retábulo de talha doura- da, marmoreada e policromada, dedicado ao Senhor dos Passos, que segue os cânones do formulário tardobarroco.” (Santa Casa da Misericórdia de Arouca 2017) (fig. 36), muito à semelhança da linguagem usada no teto em caixotões.

Em 1959, a Capela da Misericórdia de Arouca foi considerada uma obra importante, o que levou à sua entrada na categoria de Imóvel de Interesse Pú- blico (IIP). Por estar a começar a entrar num estado de degradação, em 1995 a Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) inicia o pro- cesso que permitiria a futura intervenção tendo, entretanto, a responsabilidade passado para o Inventário do Património Arquitetónico (IPA) (Gonçalves 2013: 29).

Em 2001, com o início da intervenção, é verificada a existência de anomalias presentes, principalmente, na fachada principal e na parede que sep- ara o corpo da nave da sacristia, onde se verificava empenos, fendas e destaca- mento dos azulejos (Gonçalves 2013: 29). Para além destes dois locais, também o teto possuía fissuras, chegando ao pondo de estarem a faltar alguns dos seus elementos, e as suas pinturas encontravam-se em mau estado, apresentando uma grande acumulação de sujidade, lacunas e manchas. O mesmo se passava com a talha que, para além de se encontrar suja, também tinha destacamentos em diversos momentos nas camadas de revestimento douradas e policromadas. Rel-

35. Representação de cenas cristãs no teto em caixotões. 36. Capela dedicada ao Senhor dos Passos.

ativamente aos azulejos, encontravam-se, igualmente, com uma concentração de resíduos e, em determinados momentos, estavam fraturados e com lacunas. Além do mais, em certos sítios, os azulejos tinham sido adulterados, mostrando um padrão diferente do original ou tendo sido recolocados de forma aleatória, sem que tivesse existido a preocupação em posicioná-los de maneira a respeitar uma leitura de conjunto (Gonçalves 2013: 29).

No entanto, o principal ponto a considerar é a alteração do programa da Capela da Misericórdia de Arouca após a realização das obras de intervenção. Por a capela se encontrar localizada diretamente em frente ao Mosteiro de Santa Maria de Arouca, que já servia de local para realizar serviços litúrgicos e que possuí uma maior escala que o presente caso, o que permite que muitas mais pessoas possam assistir ao serviço simultaneamente, não fazia sentido que o programa original da capela fosse retomado. Em vez disso, foi tido em atenção quais eram as necessidades presentes da comunidade e o novo programa foi escolhido de forma a respeitar esse fator. Assim sendo, o edifício acabou por se tornar num núcleo museológico, onde, na sua sacristia, “(…) se encontra exposto todo o acervo patrimonial da Irmandade, integrando obras de pintura, escultura, alfaias litúrgicas e paramentaria que abarcam os períodos artísticos, desde o século XVII ao XIX, como testemunho revelador da história, memória e identidade da Santa Casa da Misericórdia de Arouca.” (Gonçalves 2013: 29).

Trata-se, por isso, de uma intervenção que respeitou, na totalidade, to- das as componentes da capela, desde a sua estrutura até ao seu ornamento, mas tendo a preocupação de se adequar à situação contemporânea que se passa na vila de Arouca e que, na compreensão da necessidade que havia de alterar o programa, o ajustou de forma a, mesmo assim, ainda respeitar e contar a história da Capela da Misericórdia de Arouca (fig. 37).

38. Exterior da Igreja do Santo Cristo da Saúde.