Capítulo VII O fio condutor: estratégia e procedimentos
65 Por paradigma entende se um conjunto “aberto de asserções, conceitos ou proposições logicamente
7.4.2. Capitães não respondentes e não encontrados
i. Foram cento e setenta e dois os Capitães do Fim que não participaram neste trabalho. Deste número foi possível estabelecer contacto, por telefone, correio electrónico ou via postal, com sessenta e sete (38,95%) e a todos eles foi enviado o [QC] juntamente com uma carta explicando os objectivos do trabalho e incentivando à colaboração. Desta porção, vinte e sete não responderam, apesar de instados, e não apresentaram justificação para o facto; onze justificaram a não-resposta por motivo de doença; dezanove por não estarem interessados em reviver factos da sua vida militar; os restantes, por motivos diversos, já explanados anteriormente. Teve-se, no entanto,
91 Veja-se apêndice (Ap I. 9). 92
Porque não responderam: já esqueceram a guerra e não a querem revisitar; temem que haja exposição demasiada e divulgação de dados pessoais; doenças; dificuldade em escrever; falta de disponibilidade para procurar os documentos que lhe permitissem obter os dados para responder ao inquérito; perda de documentos que dêem corpo às suas respostas; pouca disponibilidade temporal, dadas as ocupações de responsabilidade que ainda desempenham; falecimento do próprio ou de algum ente querido.
acesso às profissões que desempenham ou tinham exercido e a outros dados importantes.
Os restantes cento e cinco vieram a tornar-se incontactáveis, apesar das múltiplas estratégias legais encetadas para o conseguir, com meios diversificados: pesquisas aturadas na internet, ordens profissionais, organizações e sites de ex- combatentes, ex-militares pertencentes às Companhias desses Capitães, Ministério da Defesa, e Arquivo Geral do Exército. Contactou-se o Ministério das Finanças e o Ministério da Segurança Social, tentando obter, de forma lícita, as moradas desses Capitães, caso existissem, mas não foi possível. Não se recorreu a estratégias que pudessem manchar, pela ilicitude, a honestidade deste trabalho93. Concomitantemente, fizeram-se quinhentos e dois telefonemas não atendidos, quatrocentos e-mails não respondidos ou reenviados, endereçaram-se cento e setenta e duas cartas para moradas sugeridas, das quais vieram devolvidas cento e nove. A última carta devolvida foi em 13 de Julho de 2013, dois anos após o seu envio, facto que prova a dificuldade desta tarefa. Em conclusão: sessenta e sete consideram-se não respondentes e cento e cinco não encontrados.
Figura nº 9 – Percentagem de Capitães não respondentes e não encontrados ii. Foi possível, no entanto, através do cruzamento de informações recolhidas pelos contactos mencionados anteriormente, colher alguma informação destes Capitães e das suas actividades profissionais a explanar mais à frente.
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Figura nº 10 – Ficha individual de um Capitão não encontrado Tudo era apontado em fichas individuais como a que acima se representa. 7.4.3. A construção do QC: pré-inquéritos e pré-testes
i. A determinação da população-alvo do estudo implicou uma reflexão sobre a forma mais eficaz de contacto com os Capitães do Fim. Dado o seu número e a sua disseminação, no território nacional e no estrangeiro, começou a adquirir consistência plena a possibilidade de realização de um inquérito por questionário a enviar, via postal ou Internet, já que o contacto pessoal com cada um dos Capitães, por exemplo para a realização de entrevistas individuais, se revelaria quase impossível no tempo e nas possibilidades financeiras de quem investiga.
A investigação levada a termo, a nível da literatura disponível, autorizou também concluir tornar-se inevitável construir de raiz tal instrumento de recolha de dados, pois, tanto quanto foi possível indagar, não existia nenhum questionário em Portugal que concedesse ao investigador alicerces e apoios relevantes. Estava-se perante um estudo-piloto, porventura, um caso-piloto.
Para substanciar a geração deste instrumento foram desencadeados alguns procedimentos prévios, muito divulgados pela literatura e amoldados ao caso – piloto. Assim, o primeiro passo fundou-se na arquitectura de um guião, propositadamente muito pouco estruturado, destinado a ser apresentado e discutido numa reunião entre três Capitães do Fim e três oficiais do Quadro Permanente, todos eles vivendo na cidade
de Coimbra. Desse guião, discutido durante várias horas, nasceu um instrumento bastante mais longo, e também muito pouco estruturado, que continha questionamentos abertos relacionados com a história de vida militar dos Capitães do Fim.
Desta forma foi possível construir a primeira versão provisória do questionário, a partir das reflexões sugeridas na reunião, e dos aperfeiçoamentos posteriormente feitos, que aprimoraram o desenho de um instrumento de recolha de dados consistente com os objectivos do estudo.
Em Setembro de 2010 foram endereçados a trinta e quatro Capitães do Fim (os que se tinham detectado até ao momento) a versão provisória do inquérito constituído integralmente por perguntas abertas que, embora por um lado viessem a suscitar dificuldades de análise e classificação, por outro acarretavam riqueza e profundidade de conteúdo, permitindo o seu desdobramento posterior. Escolheu-se, deliberadamente, este último propósito.
Constituíram-se esses documentos como pré-inquéritos, ambicionando explorar elementos significativos: desde questões objectivas, como dados pessoais, até questões subjectivas, como comportamentos, atitudes, motivações94.
Pretendia-se que todos estes trinta e quatro inquiridos discorressem sobre a sua vida militar e, da sua narrativa e das suas sugestões, ambicionou-se colher os ensinamentos e os suportes para construir um inquérito dirigido a todos (a população- mãe): equilibrado mas simples sem ser simplista, e de resposta fácil ainda que não redutor.
Efectuada a análise de conteúdo das respostas obtidas (vinte e nove respondentes) e das sugestões recebidas, foi então possível (re) elaborar perguntas com menor ambiguidade, ou eliminar as mais sensíveis – todas aquelas que pediam informação demasiado pessoal, recebidas como não-respostas. O inquérito foi-se tornando muito mais equilibrado, um misto de questionamentos abertos e fechados.
Em seguida, seria da maior importância realizar um pré-teste com, pelo menos, um duplo objectivo: perceber se, realmente, as questões tinham todas cabimento e se, de facto, são plenamente entendidas. Foi por isso apresentado ao designado painel final, constituído pelos onze Capitães do Fim que mais sugestões deram para o seu aperfeiçoamento, e por onze personalidades militares de reconhecido mérito (Barão da
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Cunha, David Martelo, Hugo Borges, José Aparício, Manuel Bernardo, Marques Júnior, Matos Gomes, Pezarat Correia, Tomé Pinto, Rebocho Vaz, Vasco Lourenço). Vieram a ser propostas pelos Capitães do Fim trinta e três alterações, e pelos militares setenta e seis. Muitas delas eram coincidentes, dizendo a maior parte respeito ao formato do questionário, a erros de doutrina militar, à forma como tecnicamente estavam elaborados os questionamentos, e à necessidade de se eliminaram os itens desnecessários.
Existiram também opiniões como estas: “Excelente pela sua visão cronológica e amplitude”, pela “forma como toca todos os pontos da nossa missão”, “completo e entendível”, “muito criterioso, exaustivo e apropriado”, “altamente metódico, assertivo e de fácil leitura e compreensão”, “bastante completo, entendível e equilibrado”, “revela profundos conhecimentos da matéria”.
A versão definitiva do questionário foi obtida através da análise das contribuições recebidas, sendo imprescindível proceder a alguns ajustamentos95.
ii. Enviados os questionários, terminou a sua recepção em Novembro de 2011, demorando, por isso, mais de um ano a seu recebimento.